2 Samuel 23
Argumento
O historiador se aproxima agora da conclusão do reinado de Davi e, por isso, nos apresenta aqui: I. Algumas de suas últimas palavras, que pronunciou por inspiração e parecem referir-se à sua descendência, que permaneceria para sempre, mencionada no fim do capítulo anterior, vv. 1-7.
II. Os grandes homens, sobretudo os militares, que serviram sob seu comando: os três primeiros (vv. 8-17), dois dos três seguintes (vv. 18-23) e, depois, os trinta, vv. 24-39.
Versículos 1 a 7
As Últimas Palavras de Davi. (a.C. 1015.)
Temos aqui a última vontade e o testamento do rei Davi, ou um aditamento a esse testamento, depois que firmou a coroa sobre Salomão e destinou seus tesouros ao templo que seria construído.
As últimas palavras de homens grandes e bons merecem ser especialmente observadas e lembradas. Davi quis que as suas fossem notadas e acrescentadas aos Salmos, como acontece aqui ao salmo do capítulo anterior, ou às crônicas de seu reinado.
Em especial, podemos supor que ele repetia muitas vezes as palavras do v. 5, embora já tivessem sido registradas, para seu próprio consolo, até o último suspiro; por isso são chamadas de suas últimas palavras. Quando percebemos que a morte se aproxima, devemos procurar honrar a Deus e edificar os que estão ao nosso redor com nossas últimas palavras.
Que aqueles que tiveram longa experiência da bondade de Deus e da beleza da sabedoria, ao terminarem sua carreira, deixem um registro dessa experiência e deem testemunho da verdade da promessa. Temos registradas as últimas palavras de Jacó e de Moisés, e aqui as de Davi, destinadas, como aquelas, a ser um legado para os que ficaram. Aqui nos é dito:
I. De quem é este testamento. O próprio testador o relata, como é costume, ou, mais provavelmente, o historiador, v. 1. Ele é descrito:
Pela humildade de sua origem: era filho de Jessé. É bom que aqueles que foram elevados a ser pedras angulares e pedras de remate se lembrem, e muitas vezes lembrem a si mesmos, da rocha da qual foram cortados.
Pela grandeza a que foi elevado: foi posto no alto, favorecido por Deus e destinado a algo grandioso; elevado como príncipe, para sentar-se acima de seus vizinhos, e como profeta, para enxergar mais longe. Pois:
(1.) Era “o ungido do Deus de Jacó” e, assim, servia ao povo de Deus em seus interesses civis, protegendo o país e administrando a justiça entre eles.
(2.) Era “o doce salmista de Israel” e, assim, servia ao povo em seus exercícios religiosos. Compôs os salmos, estabeleceu as melodias e designou os cantores e os instrumentos musicais, pelos quais a devoção dos bons era muito estimulada e fortalecida.
Repare: cantar salmos é uma ordenança agradável, muito apreciada por aqueles que gostam de louvar a Deus. Entre as honras às quais Davi foi elevado, conta-se a de ser salmista; nisso foi tão grande quanto ao ser ungido do Deus de Jacó.
Repare: é verdadeira promoção servir à igreja em atos de devoção e contribuir para promover a bendita obra da oração e do louvor. Observe: Davi era príncipe? Era para Jacó. Era salmista? Era para Israel.
Repare: a distribuição do Espírito é dada a cada pessoa para o bem de todos; portanto, assim como cada um recebeu um dom, que o use para servir aos outros.
II. Qual é o conteúdo dessas palavras. Trata-se de um relato de sua comunhão com Deus. Observe:
- O que Deus lhe disse para orientá-lo e encorajá-lo como rei, e que também serviria a seus sucessores. As pessoas piedosas têm prazer em recordar o que ouviram de Deus, relembrando sua palavra e meditando nela. Assim, aquilo que Deus falou uma vez, Davi ouviu duas vezes, e muitas mais. Veja:
(1.) Quem falou: o Espírito do Senhor, o Deus de Israel e a Rocha de Israel. Alguns entendem nisso uma indicação das pessoas da Trindade: o Pai, o Deus de Israel; o Filho, a Rocha de Israel; e o Espírito, que procede do Pai e do Filho, falou pelos profetas e, em particular, por Davi. A palavra não ficou somente em seu coração, mas também em sua língua, para benefício dos outros.
Davi afirma aqui sua inspiração divina: em seus salmos e nesta composição, o Espírito de Deus falou por meio dele. Ele e outros homens santos falaram e escreveram movidos pelo Espírito Santo. Isso honra o livro dos Salmos e recomenda que o usemos em nossa devoção: são palavras ensinadas pelo Espírito Santo.
(2.) O que foi dito. Parece haver uma distinção entre aquilo que o Espírito de Deus falou por meio de Davi, incluindo todos os seus salmos, e aquilo que a Rocha de Israel falou a Davi, a respeito dele e de sua família.
Que os ministros observem: aqueles por meio de quem Deus fala aos outros precisam ouvir e dar atenção ao que ele diz a eles mesmos. Os que têm o dever de ensinar aos outros seus deveres precisam aprender e cumprir os próprios.
O que está dito aqui, nos v. 3, 4, pode ser considerado:
[1.] Aplicado a Davi e à sua família real. Aqui está, primeiro, o dever dos magistrados. Quando Deus falava a um rei, não o adulava pela grandeza de sua dignidade nem pela extensão de seu poder; dizia-lhe qual era seu dever.
Costumamos dizer: “A obrigação cabe ao rei”. Aqui há uma obrigação para o rei: ele deve ser justo, governando no temor de Deus. O mesmo vale para todos os magistrados inferiores, em suas funções.
Que os governantes se lembrem de que governam pessoas, não animais que possam escravizar e maltratar à vontade, mas criaturas racionais da mesma condição que eles. Governam pessoas com insensatezes e fraquezas, que, portanto, devem ser tratadas com paciência. Governam pessoas, mas sob Deus e para ele. Por isso:
Devem ser justos, tanto com aqueles sob seu governo, reconhecendo seus direitos e propriedades, quanto entre eles, usando o poder para defender os prejudicados contra quem os prejudica; veja Deuteronômio 1:16, 17. Não basta que não pratiquem injustiça; não devem permitir que ela seja praticada.
Devem governar no temor de Deus, isto é, precisam ter o coração tomado pelo temor de Deus, que os refreará eficazmente de todo ato de injustiça e opressão. Neemias agia assim (Neemias 5:15: “Assim não fiz eu, por causa do temor de Deus”), assim como José (Gênesis 42:18).
Também devem procurar promover o temor de Deus, isto é, a prática da religião, entre aqueles sobre quem governam. O magistrado deve guardar ambas as tábuas e proteger tanto a piedade quanto a honestidade.
Segundo, a prosperidade é prometida aos governantes se cumprirem esse dever. Quem governa no temor de Deus será como a luz da manhã, v. 4. A luz é doce e agradável; quem cumpre seu dever terá esse consolo, e sua alegria será o testemunho da consciência.
A luz é brilhante, e um bom príncipe é ilustre; sua justiça e piedade serão sua honra. A luz é uma bênção, e não há bênçãos públicas maiores e mais amplas do que príncipes que governam no temor de Deus.
Como a luz da manhã, tão bem-vinda depois da escuridão da noite, assim foi o governo de Davi depois do de Saul (Salmos 75:3). Ela aumenta e brilha cada vez mais até o dia perfeito; assim cresce o esplendor de um bom governo. A comparação também é com a relva tenra, que a terra produz para o serviço do ser humano: o governo traz consigo uma colheita de bênçãos.
Veja Salmos 72:6, 16, que também estão entre as últimas palavras de Davi e parecem referir-se às palavras registradas aqui.
[2.] Aplicado a Cristo, o Filho de Davi; então tudo deve ser entendido como profecia, e o original permite essa leitura: haverá um governante entre os homens, ou sobre eles, que será justo e governará no temor de Deus, ordenando os assuntos da religião e do culto divino conforme a vontade de seu Pai.
Ele será como a luz da manhã, pois é a luz do mundo, e como a relva tenra, pois é o Renovo do Senhor e o fruto da terra (Isaías 11:1-5; 32:1, 2; Salmos 72:2). Deus, pelo Espírito, deu a Davi a previsão disso, para consolá-lo em meio às muitas calamidades de sua família e à triste perspectiva de que sua descendência se corromperia.
- Que uso consolador Davi fez daquilo que Deus lhe disse e quais foram suas devotas meditações em resposta, v. 5. Isso se parece com a meditação que fez ao receber uma mensagem semelhante, em 2 Samuel 7:18, etc.
Antes, a Rocha de Israel lhe falou; aqui, o Espírito de Deus fala por meio dele. É uma confissão excelente de sua fé e esperança na aliança eterna. Aqui temos:
(1.) A aflição presumida: embora a minha casa não esteja assim com Deus e embora ele não a faça crescer. A família de Davi não estava com Deus como se descreve nos v. 3, 4, nem como ele desejaria: não era tão boa nem tão feliz.
Não tinha sido assim durante sua vida; ele previa que não seria assim depois de sua morte, que sua casa não seria tão piedosa nem tão próspera quanto se poderia esperar dos filhos de um pai como ele.
[1.] Não está assim com Deus. Repare: nós e os nossos somos, de fato, aquilo que somos diante de Deus. O que preocupava o coração de Davi a respeito de seus filhos era que estivessem bem com Deus, fossem fiéis a ele e zelosos por ele.
Mas os filhos de pais piedosos muitas vezes não são tão santos nem tão felizes quanto se poderia esperar. Precisamos saber que é a corrupção, não a graça, que corre no sangue; a corrida não é dos velozes, e Deus concede seu Espírito como agente livre.
[2.] Ele não a fez crescer em número ou poder. É Deus quem faz as famílias crescerem ou não (Salmos 107:41). Homens bons muitas vezes têm a triste perspectiva de uma família em declínio.
A casa de Davi era um tipo da igreja de Cristo, que é sua casa (Hebreus 3:3). Suponha que ela não esteja com Deus como desejaríamos; suponha que seja diminuída, aflita, desonrada e enfraquecida por erros e corrupções, sim, quase extinta.
Ainda assim, Deus fez uma aliança com o cabeça da igreja, o Filho de Davi, de que preservará uma descendência para ele e as portas do inferno jamais prevalecerão contra sua casa.
Nosso Salvador se consolou com isso em seu sofrimento: a aliança com ele permanecia firme (Isaías 53:10-12).
(2.) O consolo assegurado: “Contudo, ele fez comigo uma aliança eterna.” Qualquer aflição que uma pessoa de Deus possa prever, ainda tem algum consolo que a equilibra (2 Coríntios 4:8, 9), e não há consolo como este do salmista. Podemos entendê-lo:
[1.] Como a aliança do reino, no tipo, que Deus fez com Davi e sua descendência a respeito do reino (Salmos 132:11, 12).
[2.] Mas ela aponta ainda mais longe, para a aliança da graça feita com todos os que creem: em Cristo, Deus será o Deus deles. Isso era representado pela aliança do reino; por isso as promessas da aliança são chamadas de “misericórdias firmes de Davi” (Isaías 55:3).
Somente essa é a aliança eterna. Não se pode imaginar que Davi, que em tantos salmos fala tão claramente de Cristo e da graça do evangelho, se esquecesse deles em suas últimas palavras.
Deus fez conosco uma aliança de graça em Jesus Cristo. Aqui nos é dito, primeiro, que ela é eterna, concebida e planejada desde a eternidade, e eterna em sua duração e consequências.
Segundo, que é ordenada, bem ordenada em todas as coisas, de modo admirável, para promover a glória de Deus e a honra do Mediador, bem como a santidade e o consolo dos que creem.
Ela é bem ordenada porque tudo o que a aliança exige também é prometido; nem toda transgressão cometida sob a aliança nos expulsa dela; e a nossa salvação não fica em nossas próprias mãos, mas nas mãos de um Mediador.
Terceiro, é firme e, por isso, firme porque é bem ordenada. A oferta geral dela é segura, e as misericórdias prometidas são seguras mediante o cumprimento das condições. Sua aplicação particular aos verdadeiros fiéis é segura; ela é segura para toda a descendência.
Quarto, ela é toda a nossa salvação. Nada além dela pode nos salvar, e ela é suficiente; somente dela depende a nossa salvação.
Quinto, por isso, ela deve ser todo o nosso desejo. Que eu tenha parte nessa aliança e em suas promessas, e terei o bastante; nada mais desejo.
- Aqui se anuncia a condenação dos filhos de Belial, v. 6, 7.
(1.) Serão afastados como espinhos, rejeitados e abandonados. São como espinhos, impossíveis de tocar com as mãos; tão exaltados e furiosos que não podem ser controlados nem tratados com repreensão sábia e fiel, e precisam ser contidos pela lei e pela espada da justiça (Salmos 32:9).
(2.) Por fim, serão inteiramente queimados pelo fogo, no mesmo lugar (Hebreus 6:8). Isso é apresentado:
[1.] Como orientação aos magistrados para usarem seu poder no castigo e na repressão da maldade. Que afastem os filhos de Belial; veja Salmos 101:8.
[2.] Como advertência aos magistrados, em particular aos filhos e sucessores de Davi, para que não se tornem eles mesmos filhos de Belial, como tantos se tornaram. Nesse caso, nem a dignidade de sua posição nem o parentesco com Davi os protegeriam de serem afastados pelos justos juízos de Deus. Embora as pessoas não pudessem lidar com eles, Deus o faria.
[3.] Como predição da ruína de todos os inimigos implacáveis do reino de Cristo. Há inimigos de fora, que se opõem abertamente e lutam contra ele, e inimigos de dentro, que o traem às escondidas e lhe são infiéis. Ambos são filhos de Belial, filhos do maligno, descendência da serpente; ambos são como espinhos, dolorosos e aflitivos.
Mas ambos serão afastados de tal modo que Cristo estabelecerá seu reino apesar da inimizade deles, avançará através deles (Isaías 27:4) e, no tempo devido, abençoará sua igreja com tanta paz que não haverá espinheiro que pique nem espinho que cause dor.
Os que não se arrependerem para dar glória a Deus serão queimados com fogo inextinguível no dia do juízo, ao qual o parafrasta caldeu se refere. Veja Lucas 19:27.
Versículos 8 a 39
Os Valentes de Davi. (a.C. 1054.)
I. O catálogo que o historiador deixou registrado dos grandes soldados do tempo de Davi tem estes propósitos:
Honrar Davi, que os treinou nas artes e nos exercícios da guerra e lhes deu exemplo de conduta e coragem. É tanto reputação quanto vantagem para um príncipe ser acompanhado e servido por homens tão corajosos como os aqui descritos.
Honrar os próprios valentes, que ajudaram a levar Davi ao trono, a firmá-lo e protegê-lo nele, e a ampliar suas conquistas. Repare: aqueles que, em posições públicas, arriscam a própria vida e se empenham para servir aos interesses do país merecem honra dobrada: devem ser respeitados por seus contemporâneos e lembrados pela posteridade.
Despertar nos que vêm depois uma nobre emulação.
Mostrar quanto a religião contribui para inspirar os homens com verdadeira coragem. Davi promoveu muito a piedade entre os grandes do reino, tanto por seus salmos quanto por suas ofertas para o serviço do templo (1 Crônicas 29:6); quando se tornaram famosos pela piedade, também se tornaram famosos pela bravura.
II. Esses valentes são divididos aqui em três grupos:
- Os três primeiros, que realizaram os maiores feitos e, assim, conquistaram a maior reputação: Adino (v. 8), Eleazar (v. 9, 10) e Samá (v. 11, 12). Não me lembro de termos lido sobre qualquer um deles, ou sobre seus feitos, em toda a história de Davi, a não ser aqui e no trecho paralelo de 1 Crônicas 11.
Muitos acontecimentos grandes e notáveis são omitidos nos anais, que relatam mais as falhas do que as glórias do reinado de Davi, sobretudo depois de seu pecado no caso de Urias. Podemos concluir, portanto, que seu reinado foi, na realidade, mais ilustre do que pareceu enquanto líamos seus registros. Os feitos desse bravo trio estão registrados aqui.
Eles se distinguiram nas guerras de Israel contra seus inimigos, especialmente os filisteus.
(1.) Adino matou oitocentos de uma só vez com sua lança.
(2.) Eleazar desafiou os filisteus, assim como eles, por meio de Golias, haviam desafiado Israel, mas com melhor resultado e maior coragem. Quando os homens de Israel se retiraram, ele não só manteve sua posição, como avançou e feriu os filisteus. Deus incutiu nos filisteus um terror tão grande quanto a coragem que animava aquele herói.
Sua mão se cansou, mas permaneceu agarrada à espada; enquanto ainda tinha alguma força, segurou a arma e continuou golpeando. No serviço de Deus, devemos manter a disposição e a resolução do espírito, apesar da fraqueza e do cansaço da carne: “desfalecendo, mas ainda perseguindo” (Juízes 8:4); a mão cansada, mas sem largar a espada.
Depois que Eleazar derrotou o inimigo, os homens de Israel que haviam abandonado a batalha (v. 9) voltaram para recolher os despojos (v. 10). É comum que aqueles que deixam o campo quando há algo a fazer se apressem a voltar quando há algo a ganhar.
(3.) Samá enfrentou um grupo do inimigo que procurava provisões e o dispersou, v. 11, 12. Mas repare: tanto desse feito quanto do anterior se diz: “O Senhor realizou uma grande vitória”.
Repare: por maior que seja a coragem dos instrumentos humanos, o louvor pelo feito deve ser dado a Deus. Eles travaram as batalhas, mas Deus concedeu a vitória. Que o homem forte, portanto, não se glorie em sua força nem em suas operações militares; quem se gloria, glorie-se no Senhor.
- Os três seguintes se distinguiram dos trinta e receberam honra acima deles, mas não alcançaram os três primeiros, v. 23. Nem todos os grandes homens têm o mesmo porte. Há muitas estrelas brilhantes e benignas que não são de primeira grandeza, e muitos bons navios que não são de primeira classe.
Desse segundo trio, somente dois são nomeados: Abisai e Benaia, que encontramos muitas vezes na história de Davi. Ao que parece, não eram inferiores aos primeiros em utilidade, embora fossem em posição. Aqui temos:
(1.) Um ato de bravura desses três em conjunto. Eles acompanharam Davi em suas aflições, quando ele se refugiou na caverna de Adulão (v. 13); sofreram com ele e, por isso, mais tarde foram promovidos por ele.
Quando Davi e os valentes que o acompanhavam, que haviam agido com tanto vigor contra os filisteus, foram obrigados pela iniquidade daqueles tempos, durante o reinado de Saul, a se esconder em cavernas e fortalezas para fugir da fúria dele, não é de admirar que os filisteus acampassem no vale dos Refains e colocassem uma guarnição até na própria Belém, v. 13, 14.
Se os guias da igreja se deixam desviar a ponto de perseguir alguns de seus melhores amigos e defensores, o inimigo comum certamente tirará proveito disso. Se Davi tivesse tido liberdade, Belém não estaria agora nas mãos dos filisteus.
Mas, estando a cidade nessa situação, somos informados:
[1.] Do grande desejo de Davi pela água do poço de Belém. Alguns entendem que era um desejo em favor de todos e que ele quis dizer: “Quem dera pudéssemos expulsar de Belém a guarnição dos filisteus e tornar nossa de novo aquela cidade tão querida!” O poço representaria a cidade, como o rio muitas vezes representa o país por onde passa.
Mas, se foi isso que ele quis dizer, os que estavam com ele não o entenderam; por isso, parece mais provável que seja um exemplo de fraqueza. Era tempo de colheita, fazia calor e ele estava com sede. Talvez a água boa fosse escassa, e ele tenha desejado com fervor: “Quem dera eu pudesse beber um só gole da água do poço de Belém!”
Quando jovem, ele muitas vezes se refrescara com a água daquele poço, e agora não se contentava com nenhuma outra, embora fosse quase impossível chegar até lá. De modo estranho, cedeu a um capricho para o qual não tinha razão alguma. Outra água poderia saciar sua sede tão bem quanto aquela, mas ele cismou com ela.
É tolice cultivar tais caprichos, e maior tolice insistir em satisfazê-los. Devemos conter nossos apetites quando se voltam desordenadamente para coisas que são, de fato, mais agradáveis e prazerosas do que outras (não deseje iguarias), e muito mais quando se fixam em coisas que só agradam a um capricho.
[2.] Com que bravura os três valentes de Davi, Abisai, Benaia e outro cujo nome não é citado, atravessaram o acampamento dos filisteus, enfrentando o perigo de perto, e trouxeram água do poço de Belém, sem que Davi soubesse, v. 16.
Quando desejou aquela água, ele estava longe de querer que algum de seus homens arriscasse a vida por ela. Mas os três o fizeram, para mostrar, primeiro, quanto estimavam seu príncipe e com que disposição enfrentariam as maiores dificuldades a serviço dele.
Embora Davi tivesse sido ungido rei, ainda era um exilado, um príncipe pobre, sem vantagens externas que conquistassem o afeto e a estima de seus acompanhantes e sem condições de promovê-los ou recompensá-los. Ainda assim, aqueles três se empenharam em satisfazê-lo, acreditando firmemente que chegaria o tempo da recompensa.
Estejamos dispostos a nos arriscar pela causa de Cristo, mesmo quando ela é uma causa de sofrimento, certos de que triunfará e de que, no fim, não teremos perdido.
Eles estavam tão prontos a se expor ao menor sinal do desejo de seu príncipe e tão ansiosos para agradá-lo? Nós também não devemos desejar agradar ao Senhor Jesus, obedecendo prontamente a cada indicação de sua vontade que nos é dada por sua palavra, seu Espírito e sua providência?
Segundo, mostraram quanto temiam pouco os filisteus. Ficaram contentes por ter ocasião de desafiá-los. Não sabemos se atravessaram o acampamento às escondidas, com tanta habilidade que os filisteus não os perceberam, ou abertamente, com expressão tão aterradora que os filisteus não ousaram enfrentá-los. Ao que parece, abriram caminho à espada.
Mas veja, [3.] com que renúncia a si mesmo Davi, ao receber a água trazida de tão longe e comprada por preço tão alto, derramou-a perante o Senhor, v. 16.
Primeiro, assim demonstrou seu terno cuidado pela vida dos soldados e como estava longe de desperdiçar o sangue deles (Salmos 72:14). A morte de seus santos é preciosa aos olhos de Deus.
Segundo, assim mostrou tristeza por ter dito aquela palavra tola, que levou aqueles homens a arriscarem a vida. Os grandes devem ter cuidado com o que dizem, para que os que estão ao seu redor não façam mau uso de suas palavras.
Terceiro, assim impediria que seus homens repetissem a mesma imprudência no futuro.
Quarto, assim contrariou seu próprio capricho tolo e se castigou por alimentá-lo e ceder a ele; mostrou que tinha juízo para corrigir sua impulsividade e que sabia negar a si mesmo até aquilo que mais desejava.
Mortificações generosas como essa convêm aos sábios, aos grandes e aos bons.
Quinto, assim honrou a Deus e lhe deu glória. Considerou que a água, obtida a tal preço, era preciosa demais para beber e adequada somente para ser derramada diante de Deus como libação. Se era o sangue daqueles homens, pertencia a Deus, pois o sangue sempre foi dele.
Sexto, o bispo Patrick menciona alguns que pensam que Davi, com isso, mostrou que não desejava água material, mas o Messias, que tinha a água da vida e que, como sabia, nasceria em Belém, que os filisteus não poderiam destruir.
Sétimo, Davi considerou muito preciosa aquela água, obtida sob o risco do sangue daqueles homens; não deveríamos valorizar ainda mais os benefícios comprados pelo sangue de nosso bendito Salvador? Não menosprezemos o sangue da aliança, como fazem os que menosprezam as bênçãos da aliança.
(2.) Os feitos corajosos de dois deles em outras ocasiões. Abisai matou trezentos homens de uma só vez, v. 18, 19. Benaia realizou muitos grandes feitos.
[1.] Matou dois moabitas que eram como leões: tão ousados e fortes, tão ferozes e furiosos.
[2.] Matou um egípcio, embora não se diga em que ocasião. O homem estava bem armado, mas Benaia o atacou apenas com um bastão de caminhada; com destreza, arrancou-lhe a lança da mão e o matou com ela, v. 21. Por esses e outros feitos semelhantes, Davi o nomeou chefe da guarda pessoal ou das tropas permanentes, v. 23.
- Abaixo do segundo trio, mas ainda de grande renome, estavam os trinta e um aqui mencionados por nome, v. 24 e seguintes. Asael é o primeiro; Abner o matou no começo do reinado de Davi, mas isso não o excluiu do catálogo. Elanã é o seguinte, irmão de Eleazar, um dos três primeiros, v. 9.
Os sobrenomes que lhes são dados aqui parecem vir dos lugares onde nasceram ou moravam, como ocorreu originalmente com muitos sobrenomes entre nós. Os mais sábios e valentes foram escolhidos em todas as partes da nação para servir ao rei.
Encontramos vários dos que são nomeados como capitães dos doze turnos que Davi designou, um para cada mês do ano (1 Crônicas 27). Os que agiram dignamente foram promovidos conforme seus méritos.
Um deles era filho de Aitofel (v. 34); o filho era famoso no acampamento, assim como o pai era no conselho. Mas encontrar Urias, o heteu, no fim da lista desses valentes reaviva a lembrança do pecado de Davi e o agrava: um homem que merecia tanto de seu rei e de seu país foi tão maltratado.
Joabe não é mencionado junto com todos eles, talvez por uma destas razões:
(1.) O principal dos três primeiros já ocupava o posto mais alto entre os capitães, mas Joabe era o comandante acima deles.
(2.) Ou porque era tão mau que não merecia ser mencionado. Embora fosse reconhecidamente um grande soldado e tivesse religião suficiente para dedicar ao templo de Deus parte dos despojos (1 Crônicas 26:28), perdeu tanta honra ao matar dois amigos de Davi quanto ganhou ao matar seus inimigos.
Cristo, o Filho de Davi, também tem seus valentes. Como os de Davi, são inspirados pelo exemplo dele, lutam suas batalhas contra os inimigos espirituais de seu reino e, pela força dele, são mais que vencedores.
Os apóstolos de Cristo o acompanhavam de perto, fizeram e sofreram grandes coisas por ele e, por fim, vieram a reinar com ele. São mencionados com honra no Novo Testamento, como estes no Antigo, especialmente em Apocalipse 21:14.
E mais: os nomes de todos os bons soldados de Jesus Cristo estão guardados melhor do que os destes valentes, pois estão escritos no céu. Essa honra pertence a todos os seus santos.