2 Samuel 21
Argumento
A data dos acontecimentos deste capítulo é incerta. Inclino-me a pensar que ocorreram na ordem em que estão apresentados, depois das rebeliões de Absalão e Seba e perto do fim do reinado de Davi.
Que as batalhas contra os filisteus aqui mencionadas aconteceram muito depois de eles terem sido subjugados se vê pela comparação entre 1 Crônicas 18:1 e 1 Crônicas 20:4.
O recenseamento do povo ocorreu pouco antes de se determinar o lugar do templo, como se vê em 1 Crônicas 22:1; isso aconteceu perto do fim da vida de Davi.
Ao que parece, o recenseamento foi feito logo depois dos três anos de fome por causa dos gibeonitas, pois o que é anunciado como três anos de fome (1 Crônicas 21:12) é chamado de sete anos (2 Samuel 24:12, 13), somando-se mais três anos, com o ano em curso, àqueles três. Neste capítulo temos:
I. Os gibeonitas vingados:
Pela fome na terra, v. 1.
Pela execução de sete descendentes de Saul, vv. 2-9, tendo-se, contudo, cuidado com os corpos deles e com os ossos de Saul, vv. 10-14.
II. Os gigantes filisteus mortos em diversas batalhas, vv. 15-22.
Versículos 1 a 9
A Fome em Israel; os Gibeonitas Vingados. (a.C. 1021.)
I. Aqui nos é contado o mal que Saul fizera aos gibeonitas muito tempo antes, embora não haja relato disso na história do seu reinado. Só ficamos sabendo aqui porque chegou a hora de prestar contas. Os gibeonitas eram remanescentes dos amorreus, v. 2.
Por meio de um estratagema, haviam feito paz com Israel, e Josué empenhara publicamente a palavra de que estariam seguros. O relato está em Josué 9, onde ficou combinado, v. 23, que suas vidas seriam poupadas, mas perderiam suas terras e liberdades, e eles e seus descendentes seriam servos em regime de vilanagem, sujeitos a Israel.
Não há sinal de que tenham violado sua parte da aliança, recusando-se a servir ou tentando recuperar suas terras e liberdades. Saul tampouco alegou isso. Mas, sob o pretexto de zelo pela honra de Israel, para que não se dissesse que havia nativos entre o povo, tentou exterminá-los e, para isso, matou muitos deles.
Queria parecer mais sábio que os juízes que vieram antes dele e mais zeloso pelo interesse público. Talvez pretendesse demonstrar sua prerrogativa real e o poder que, como rei, reivindicava para revogar atos anteriores do governo e anular os pactos mais solenes.
É possível que, com essa severidade contra os gibeonitas, quisesse compensar sua clemência para com os amalequitas.
Alguns supõem que procurou exterminar os gibeonitas ao mesmo tempo que expulsou as feiticeiras (1 Samuel 28:3). Talvez muitos deles fossem notavelmente piedosos, e Saul tenha tentado destruí-los quando matou os sacerdotes, seus senhores.
O que tornou esse pecado extremamente grave foi que ele não só derramou sangue inocente, mas também violou o juramento solene que obrigava a nação a protegê-los. Veja o que trouxe ruína à casa de Saul: era uma casa sanguinária.
II. Muito tempo depois, a nação de Israel foi castigada com uma fome severa por causa desse pecado de Saul. Observe: 1. Até na terra de Israel, terra fértil, e no reinado de Davi, reinado glorioso, houve fome. Não foi extrema, pois, nesse caso, logo teriam notado e investigado a causa.
Houve, porém, uma seca forte e, como consequência, escassez de alimentos durante três anos seguidos. Se a colheita falha um ano, em geral o ano seguinte compensa a falta; mas, se isso acontece por três anos consecutivos, é um juízo severo. O sábio deve ouvir nisso a voz de Deus, que clama ao país para se arrepender do abuso da abundância. 2.
Davi consultou a Deus a respeito. Embora ele mesmo fosse profeta, precisava consultar o oráculo e conhecer a vontade de Deus pelo meio que o próprio Deus estabelecera.
Repare: quando estamos sob os juízos de Deus, devemos investigar a causa da controvérsia: “Senhor, mostra-me por que estás contendendo comigo.” É estranho que Davi só tenha consultado o oráculo no terceiro ano, mas talvez até então não tivesse entendido a fome como juízo extraordinário por algum pecado específico.
Até mesmo os bons frequentemente tardam e se mostram negligentes no cumprimento do dever. Permanecemos na ignorância e no erro porque demoramos a perguntar.
- Deus respondeu prontamente, embora Davi demorasse a perguntar: “É por causa de Saul.” Repare: muitas vezes os juízos de Deus olham para muito tempo atrás, o que nos obriga a fazer o mesmo quando ele nos repreende.
Não nos cabe contestar que o povo sofra pelo pecado de seu rei — talvez tenha ajudado e colaborado — nem que esta geração sofra pelo pecado da geração anterior. Deus muitas vezes visita nos filhos os pecados dos pais; seus juízos são um grande abismo. Ele não presta contas de seus atos.
O tempo não apaga a culpa do pecado, e não podemos esperar escapar do castigo só porque ele demorou. Não há prazo de prescrição contra as exigências de Deus. Nullum tempus occurrit Deo — Deus pode castigar quando quiser.
III. Para afastar a ira de Deus da terra, que então sofria pelo pecado de Saul, a casa dele foi castigada.
- Davi, provavelmente sob orientação divina, deixou que os próprios gibeonitas determinassem que compensação deveria ser dada pelo mal que lhes haviam feito, v. 3. Durante muitos anos, eles se mantiveram calados, sem recorrer a Davi nem perturbar o reino com queixas ou exigências.
Por fim, Deus fala em favor deles, como diz o salmista: eles não ouviram, mas Deus os ouvirá (Salmos 38:14, 15). Como recompensa pela paciência, receberam a honra de julgar o próprio caso e tiveram liberdade para declarar suas exigências: “O que vocês disserem, eu farei”, v. 4, para que se fizesse expiação e eles abençoassem a herança do Senhor, v. 3.
É triste para qualquer família ou nação ter contra si as orações de inocentes oprimidos. Por isso, é bem empregado o custo de uma restituição justa, para recuperar a bênção dos que estavam prestes a perecer (Jó 29:13).
“Meu servo Jó, a quem vocês fizeram mal, orará por vocês”, diz Deus, “e então me reconciliarei com vocês, e não antes.” Não entendem o próprio bem os que não valorizam as orações dos pobres e desprezados.
- Eles pediram que sete descendentes de Saul fossem executados, e Davi atendeu ao pedido. (1.) Não exigiram prata nem ouro, v. 4. Repare: o dinheiro não compensa o sangue; veja Números 35:31-33. A lei antiga diz que sangue exige sangue (Gênesis 9:6). Valorizam demais o dinheiro e de menos a vida os que vendem o sangue dos parentes por coisas corruptíveis, como prata e ouro.
Os gibeonitas poderiam ter aproveitado aquela oportunidade para conseguir a libertação de sua servidão como compensação pelo mal que lhes fizeram, segundo a equidade da lei (Êxodo 21:26): se alguém arrancasse o olho do seu servo, deveria deixá-lo ir livre por causa do olho. Mas não insistiram nisso.
Embora a outra parte tivesse quebrado a aliança, eles não a quebrariam. Eram netineus, dados a Deus e a seu povo Israel, e não queriam parecer cansados do serviço.
(2.) Não exigiram vidas além das da família de Saul. Ele lhes fizera o mal, por isso seus filhos teriam de pagar por ele. Processamos os herdeiros pelas dívidas dos pais. Não se deve levar esse princípio ao ponto de tirar vidas (Deuteronômio 24:16).
Num processo comum, os filhos nunca serão executados pelos pecados dos pais. Mas o caso dos gibeonitas era inteiramente extraordinário. Deus se tornara parte direta na causa e, sem dúvida, levou os gibeonitas a fazer esse pedido, pois reconheceu o que foi feito, v. 14. Seus juízos não estão sujeitos às regras a que devem se submeter os julgamentos humanos.
Que os pais tenham cuidado com o pecado, sobretudo com a crueldade e a opressão, por causa dos filhos pobres, que talvez sofram pela mão justa de Deus quando os pais já estiverem mortos. Culpa e maldição são uma herança terrível para uma família. Ao que parece, os descendentes de Saul seguiram seus passos, pois a casa é chamada de sanguinária.
Esse era o espírito da família; por isso, são justamente responsabilizados tanto pelo pecado dele quanto pelos próprios pecados.
(3.) Não quiseram impor a Davi que executasse a sentença: disseram que ele não deveria matar ninguém por eles, v. 4. Eles mesmos o fariam: “Nós os penduraremos ao Senhor”, v. 6, para assumir a culpa, caso houvesse algum rigor nisso, em vez de Davi ou de sua casa.
Pela antiga lei inglesa, se um assassino fosse condenado numa ação movida pelos parentes, cabia aos parentes que a haviam movido executá-lo.
(4.) Não exigiram isso por maldade contra Saul ou sua família. Se fossem vingativos, teriam feito o pedido por iniciativa própria muito tempo antes. Fizeram-no por amor ao povo de Israel, a quem viam castigado pelo mal que lhes fora feito: “Nós os penduraremos ao Senhor”, v. 6, para satisfazer a justiça de Deus, não para nos vingarmos; para o bem público, não para nossa reputação.
(5.) Deixaram a escolha das pessoas a cargo de Davi. Ele teve o cuidado de poupar Mefibosete por causa de Jônatas, para que, ao vingar a quebra de um juramento, não quebrasse ele mesmo outro, v. 7. Entregou dois filhos de Saul que ele tivera com uma concubina e cinco netos, que Merabe, filha de Saul, tivera com Adriel (1 Samuel 18:19), mas que sua filha Mical criara, v. 8.
Assim, foi punida a traição de Saul, que entregou Merabe a Adriel depois de tê-la prometido a Davi, com o propósito de provocá-lo. O bispo Hall comenta: “É perigoso fazer mal a qualquer um dos fiéis de Deus. Se a mansidão deles perdoar a ofensa com facilidade, Deus não a deixará passar sem severa retribuição, ainda que demore muito.”
(6.) O lugar, o tempo e a maneira da execução acrescentaram solenidade ao fato de eles serem sacrificados à justiça divina. [1.] Foram pendurados como anátemas, sob um sinal particular do desagrado de Deus, pois a lei dizia: “O que for pendurado é maldito de Deus” (Deuteronômio 21:23; Gálatas 3:13).
Cristo foi feito maldição por nós e, para expiar nossos pecados e afastar a ira de Deus, submeteu-se a essa morte vergonhosa.
[2.] Foram pendurados em Gibeá de Saul, v. 6, para mostrar que morreram por causa do pecado dele. Foram pendurados, por assim dizer, diante da própria casa para expiar a culpa da casa de Saul. Assim, Deus consumou a ruína daquela família por causa do sangue dos sacerdotes e de suas famílias, que sem dúvida agora veio à memória de Deus e foi objeto de investigação (Salmos 9:12).
Menciona-se apenas o sangue dos gibeonitas, pois foi derramado com violação de um juramento sagrado. Embora esse juramento tivesse sido feito havia muito tempo, obtido por meio de um ardil e a promessa fosse a cananeus, a violação foi severamente cobrada.
O desprezo pelo juramento e a quebra da aliança serão retribuídos àqueles que profanam assim o santo nome de Deus (Ezequiel 17:18, 19). Deus mostrou, assim, que ricos e pobres se encontram diante dele. Até o sangue real teve de expiar o sangue dos gibeonitas, que eram apenas vassalos da congregação.
[3.] Foram executados durante a época da colheita, v. 9, no começo da colheita, v. 10. Isso mostrou que eram sacrificados para afastar a ira de Deus, que por alguns anos lhes negara as bênçãos da colheita, e para obter seu favor durante a colheita daquele ano. Só há um modo de aplacar a ira de Deus: mortificar e crucificar nossas paixões e corrupções.
Esperamos em vão receber misericórdia de Deus se não praticarmos justiça contra nossos pecados.
Não se devem considerar cruéis as execuções que se tornam necessárias ao bem público. É melhor que sete homens da casa sanguinária de Saul sejam pendurados do que todo o Israel morra de fome.
Versículos 10 a 14
A Morte dos Filhos de Saul. (a.C. 1021.)
I. Os filhos de Saul não foram apenas pendurados; seus corpos ficaram pendurados em correntes e expostos, até cessar o juízo que sua morte deveria afastar, por meio da chuva enviada sobre a terra. Morreram como sacrifícios e, de certo modo, foram oferecidos: não consumidos de uma só vez pelo fogo, mas aos poucos pelo ar.
Morreram como anátemas e, por esse tratamento ignominioso, foram apresentados como execráveis, pois a iniquidade pesava sobre eles. Quando nosso bendito Salvador se fez pecado por nós, também se fez maldição por nós.
Mas como conciliar isso com a lei, que exigia expressamente que os enforcados fossem sepultados no mesmo dia? (Deuteronômio 21:23). Um rabino judeu deseja que esse trecho da história seja eliminado, para que o nome de Deus seja santificado. Na opinião dele, Deus seria desonrado ao aceitar uma ação que violava sua lei.
Mas este era um caso extraordinário, que não se enquadrava naquela lei. Na verdade, a própria razão daquela lei justifica esta exceção. Quem é deixado pendurado dessa maneira é maldito; por isso os malfeitores comuns não devem ser tratados assim.
Mas estes deviam, pois foram sacrificados não à justiça da nação, mas pelo crime da nação — nada menos que a violação da fé pública — e para livrar a nação de um juízo nada menor que uma fome geral.
Feitos assim como o refugo de todas as coisas, tornaram-se espetáculo para o mundo (1 Coríntios 4:9, 13), por determinação de Deus, ou pelo menos com sua permissão.
II. Rizpa, mãe de dois deles, vigiava os corpos mortos, v. 10. Foi uma grande aflição para ela, já idosa, ver seus dois filhos — que, podemos supor, lhe haviam trazido consolo e provavelmente sustentariam sua velhice — morrerem dessa maneira terrível. Ninguém sabe que dores lhe estão reservadas. Não lhe era permitido vê-los sepultados com dignidade, mas ela cuidaria deles com dignidade.
Ela não tentou violar a sentença que determinava que eles ficassem pendurados até Deus enviar chuva. Não roubou nem forçou a retirada dos corpos, embora pudesse ter invocado a lei divina para fazê-lo. Submeteu-se com paciência e armou uma tenda de pano de saco perto das forcas. Com seus servos e amigos, protegeu os corpos das aves e dos animais selvagens. Assim:
Deu vazão à sua tristeza, como os enlutados tendem a fazer, sem proveito algum. Quando a tristeza corre o risco de se tornar excessiva, devemos procurar desviá-la e acalmá-la, em vez de alimentá-la e satisfazê-la. Por que nos endurecermos desse modo na tristeza?
Demonstrou seu amor. Deixou que todos soubessem que seus filhos não morreram por causa de algum pecado próprio, nem como filhos teimosos e rebeldes, cujo olho desprezara obedecer à mãe. Se fosse esse o caso, ela teria deixado os corvos do vale arrancarem esse olho e as jovens águias o devorarem (Provérbios 30:17).
Morreram pelo pecado do pai; por isso, seu coração não podia se afastar deles por causa do destino terrível que tiveram. Embora nada pudesse ser feito e eles tivessem de morrer, seriam chorados e lamentados.
III. O sepultamento solene de seus corpos, junto com os ossos de Saul e Jônatas, no túmulo da família. Davi não se desagradou com o que Rizpa fizera; antes, foi levado por isso a honrar a casa de Saul e aqueles que dela descendiam. Ficou claro que ele não os entregara por aversão pessoal à família nem desejava aquele dia de aflição, mas que se vira obrigado a agir pelo bem público.
- Davi então se lembrou de retirar os corpos de Saul e Jônatas do lugar onde os homens de Jabes-Gileade os haviam sepultado com dignidade, embora em segredo e sem honras, debaixo de uma árvore (1 Samuel 31:12, 13).
Embora o escudo de Saul tivesse sido lançado fora de modo vil, como se ele não tivesse sido ungido com óleo, não se devia deixar que o pó real se perdesse entre os túmulos do povo comum. A humanidade nos obriga a respeitar os corpos humanos, sobretudo os dos grandes e bons, considerando tanto o que foram quanto o que serão.
- Com eles, Davi sepultou os corpos dos que haviam sido pendurados. Quando a ira de Deus se afastou, eles já não deveriam ser vistos como maldição, v. 13, 14. Quando, conforme o v. 10, a água caiu sobre eles do céu — isto é, quando Deus enviou chuva para regar a terra, talvez poucos dias depois de serem pendurados —, foram retirados, pois se viu que Deus atendera às súplicas em favor da terra.
Quando se faz justiça na terra, cessa a vingança do céu. Por meio de Cristo, que foi pendurado num madeiro e assim se fez maldição por nós para expiar nossa culpa, embora ele próprio fosse inocente, Deus se aplaca e atende às súplicas feitas em nosso favor.
E lemos que “quando cumpriram tudo o que estava escrito a respeito dele, tiraram-no da árvore e o puseram num sepulcro”, como sinal da completa realização do sacrifício e da aceitação de Deus (Atos 13:29).
Versículos 15 a 22
Os Gigantes Derrotados. (a.C. 1020.)
Aqui temos o relato de alguns conflitos com os filisteus, ocorridos, ao que parece, no fim do reinado de Davi. Ele os havia subjugado a tal ponto que não podiam levar grandes tropas ao campo de batalha. Ainda assim, enquanto tivessem gigantes entre eles para servirem de campeões, não sossegariam.
Aproveitavam qualquer ocasião para perturbar a paz de Israel, desafiá-lo ou fazer incursões contra ele.
I. O próprio Davi enfrentou um dos gigantes. Os filisteus recomeçaram a guerra, v. 15. Os inimigos do Israel de Deus persistem em seus ataques. Davi, embora já idoso, não pediu dispensa do serviço público; desceu pessoalmente para lutar contra os filisteus. Senescit, non segnescit — envelhece, mas não se torna indolente.
Isso mostra que não lutava pela própria glória: naquela idade já estava coberto de glória e não precisava de mais, mas lutava pelo bem do reino.
Nesse combate, porém, vemos Davi: 1. Em aflição e perigo. Pensou que suportaria as fadigas da guerra tão bem quanto antes. Sua vontade era firme, e esperava poder agir como em outras ocasiões. Mas viu que se enganara: a idade lhe cortara os cabelos e, depois de um pequeno esforço, desfaleceu. Seu corpo não conseguia acompanhar o espírito.
O campeão dos filisteus logo percebeu a vantagem: notou que as forças de Davi falhavam. Como ele próprio era forte e estava bem armado, pensou em matá-lo. Mas Deus não estava em seus pensamentos e, por isso, naquele mesmo dia todos eles pereceram.
Os inimigos do povo de Deus muitas vezes são muito fortes, astutos e certos de que vencerão, como Isbi-Benobe. Mas não há força, conselho nem confiança contra o Senhor.
- Foi resgatado de modo extraordinário por Abisai, que chegou a tempo de socorrê-lo, v. 17. Devemos reconhecer a coragem e a lealdade de Abisai ao seu príncipe: para salvar a vida dele, arriscou bravamente a própria. Mas devemos reconhecer ainda mais a boa providência de Deus, que o levou a socorrer Davi no momento extremo.
Uma causa assim e um campeão assim, embora em perigo, não serão abandonados. Quando Abisai o socorreu — talvez dando-lhe algo revigorante para aliviar o desfalecimento, ou assumindo o papel de seu segundo —, ele, isto é, Davi, como entendo, feriu o filisteu e o matou. Pois se diz, v. 22, que o próprio Davi participou da morte dos gigantes.
Davi desfalecera, mas não fugiu; embora as forças lhe faltassem, manteve bravamente sua posição. Então Deus lhe enviou ajuda na hora da necessidade. Embora essa ajuda viesse de um subordinado mais jovem, ele a aceitou com gratidão, recuperou um pouco as forças, alcançou seu objetivo e saiu vencedor.
Cristo, em sua agonia, foi fortalecido por um anjo. Nas lutas espirituais, até os santos fortes às vezes desfalecem; então Satanás os ataca com violência. Mas os que mantêm sua posição e resistem serão socorridos e feitos mais que vencedores.
- Por causa disso, os servos de Davi decidiram que ele nunca mais se exporia daquela maneira. Eles facilmente o haviam convencido a não lutar contra Absalão (2 Samuel 18:3), mas, contra os filisteus, ele insistia em ir.
Depois desse livramento por um triz, o conselho decidiu — e confirmou a decisão com um juramento — que a luz de Israel, seu guia e sua glória, como Davi era, nunca mais seria colocada em tamanho perigo, a ponto de poder ser apagada.
As vidas dos que são tão valiosos para seu país quanto Davi devem ser preservadas com cuidado redobrado, por eles mesmos e pelos outros.
II. Os demais gigantes caíram pelas mãos dos servos de Davi. 1. Saf foi morto por Sibecai, um dos guerreiros de Davi, v. 18; 1 Crônicas 11:29. 2. Outro, irmão de Golias, foi morto por Elanã, mencionado em 2 Samuel 23:24.
- Outro, de tamanho extraordinário e com mais dedos nas mãos e nos pés que as outras pessoas, v. 20, tinha uma insolência sem igual: embora tivesse visto a queda de outros gigantes, ainda desafiava Israel. Foi morto por Jônatas, filho de Simeia.
Simeia tinha um filho chamado Jonadabe (2 Samuel 13:3), que eu teria tomado pela mesma pessoa que esse Jônatas, não fosse o fato de o primeiro ser conhecido pela astúcia e o segundo pela bravura.
Esses gigantes provavelmente eram remanescentes dos filhos de Anaque, temidos por muito tempo, mas que por fim caíram. Observe: (1) É tolice o homem forte se gloriar de sua força. Os servos de Davi não eram maiores nem mais fortes que os outros homens; ainda assim, com a ajuda divina, venceram um gigante após outro.
Deus escolhe as coisas fracas para confundir as fortes. (2) É comum descerem mortos à cova os que foram “o terror dos poderosos na terra dos viventes” (Ezequiel 32:27). (3) Os inimigos mais poderosos muitas vezes são reservados para o último combate. Davi começou sua glória vencendo um gigante e a terminou vencendo quatro.
A morte é o último inimigo do cristão, um filho de Anaque; mas, por meio daquele que triunfou por nós, esperamos ser mais que vencedores, até mesmo sobre esse inimigo.