Matthew Henry

2 Samuel 16

Argumento

No encerramento do capítulo anterior, deixamos Davi fugindo de Jerusalém, enquanto Absalão entrava nela.

Neste capítulo, I. Acompanharemos Davi em sua melancólica fuga e o encontraremos: 1. Enganado por Ziba, vv. 1-4. 2. Amaldiçoado por Simei, o que suporta com extraordinária paciência, vv. 5-14. II. Encontraremos Absalão em sua entrada triunfal e o veremos: 1. Enganado por Husai, vv. 15-19. 2. Aconselhado por Aitofel a deitar-se com as concubinas de seu pai, vv. 20-23.

Versículos 1 a 4

A Calúnia de Ziba. (a.C. 1023.)

Já lemos como Davi foi bondoso com Mefibosete, filho de Jônatas, e como confiou prudentemente a seu servo Ziba a administração dos bens dele, enquanto o recebia generosamente à sua própria mesa, 2 Samuel 9:10.

Esse assunto estava bem resolvido; mas, ao que parece, Ziba não se contenta em administrar os bens: quer ser seu dono. Agora, pensa ele, chegou a hora de conseguir isso.

Se obtiver da coroa a concessão dos bens, tanto faz para ele que Davi ou Absalão vença; espera garantir sua presa, que pretende alcançar pescando em águas turvas.

Para isso, 1. Ziba ofereceu a Davi um belo presente de provisões, ainda mais bem-vindo por ter chegado na hora certa (v. 1), com a intenção de atraí-lo para o seu lado. Pois “o presente abre espaço para quem o dá e o leva à presença dos grandes”, Provérbios 18:16.

Ou melhor, “para onde quer que se volte, ele prospera”, Provérbios 17:8. Davi concluiu que Ziba era um homem muito sensato e generoso, e que lhe era leal, quando, na verdade, ele só pensava em tirar proveito e conseguir que os bens de Mefibosete fossem entregues a si.

Será que a perspectiva de vantagem neste mundo leva as pessoas a serem generosas com os ricos, e a fé numa abundante recompensa na ressurreição dos justos não nos leva a ser generosos com os pobres? Lucas 14:14.

Ziba foi muito atencioso ao preparar o presente que levou a Davi: era algo que lhe faria bem naquela aflição, v. 2.

Observe: o vinho era para os que estavam desfalecendo, não para o rei beber nem para os membros da corte. Ao que parece, eles não costumavam beber; o vinho servia como revigorante para os que estavam prestes a perecer, Provérbios 31:6.

Feliz é a terra quando seus príncipes usam vinho para recuperar as forças, como Davi, e não para se embriagar, como Absalão, 2 Samuel 13:28. Veja Eclesiastes 10:17.

Fosse qual fosse a intenção de Ziba ao dar o presente, a providência de Deus o enviou a Davi, com grande bondade, para sustentá-lo. Deus se serve de homens maus para fazer o bem a seu povo e lhe envia alimento por meio dos corvos.

Depois de conquistar o afeto de Davi com o presente e ganhar sua confiança, Ziba precisava incitá-lo contra Mefibosete para alcançar seu objetivo. Fez isso com uma acusação falsa: apresentou-o como alguém que, em ingratidão, pretendia tirar proveito da rebelião e recuperar a coroa, agora que Davi e seu filho disputavam por ela.

Davi perguntou por Mefibosete como perguntaria por alguém de sua família, e isso deu a Ziba a oportunidade de contar essa história falsa a respeito dele, v. 3.

Que prejuízo enorme os senhores muitas vezes sofrem por causa da língua mentirosa de seus servos! Davi sabia que Mefibosete não era ambicioso, mas vivia satisfeito com sua posição e era leal a ele e ao seu governo.

Além disso, não podia ser tão ingênuo a ponto de esperar subir a escada do poder com suas pernas aleijadas. Ainda assim, Davi acreditou na calúnia e, sem investigar nem refletir mais, declarou Mefibosete culpado de traição, confiscou suas terras e as concedeu a Ziba: “Eis que são teus todos os bens que pertenciam a Mefibosete”, v. 4.

Foi um julgamento precipitado, do qual Davi se envergonhou mais tarde, quando a verdade veio à luz, 2 Samuel 19:29. Os príncipes não conseguem evitar que às vezes sejam enganados ao fazer concessões, como diz a nossa lei.

Mas devem empregar todos os meios possíveis para descobrir a verdade e se proteger contra homens maliciosos e interesseiros, como Ziba, que os iludem.

Depois de conseguir o que queria com seus ardis, Ziba riu às escondidas da credulidade do rei, congratulou-se pelo êxito e partiu com um grande elogio a Davi: dizia que valorizava o favor do rei mais do que os bens de Mefibosete. “Que eu encontre favor aos teus olhos, ó rei, e já terei o bastante.”

Os grandes devem sempre desconfiar dos bajuladores e lembrar que a natureza lhes deu dois ouvidos para que possam ouvir os dois lados.

Versículos 5 a 14

Davi Amaldiçoado por Simei. (a.C. 1023.)

Aqui vemos que Davi suportou as maldições de Simei muito melhor do que suportara as bajulações de Ziba. Estas o levaram a julgar mal outra pessoa; aquelas, a julgar corretamente a si mesmo. Os sorrisos do mundo são mais perigosos do que suas carrancas.

Observe aqui:

I. Como Simei foi insolente e furioso, aproveitando-se da aflição que Davi enfrentava para se tornar ainda mais violento. Em sua fuga, Davi chegou a Bahurim, cidade de Benjamim onde, ou perto da qual, vivia Simei.

Simei era da casa de Saul, com cuja queda também ruíram todas as suas esperanças de conseguir uma posição de destaque. Por isso, nutria uma inimizade implacável contra Davi e o considerava injustamente responsável pela ruína de Saul e de sua família, apenas porque, por determinação divina, sucedera a Saul.

Enquanto Davi vivia em prosperidade e no poder, Simei o odiava tanto quanto agora, mas não ousava dizer nada contra ele. Deus conhece o que há no coração dos que são contrários a Davi e a seu governo, mas os príncipes terrenos não.

Agora Simei saiu e amaldiçoou Davi com todas as palavras e pragas que conseguiu inventar, v. 5.

Observe:

  1. Por que ele escolheu aquela ocasião para dar vazão à sua malícia. (1.) Porque pensou que então poderia agir em segurança. Ainda assim, se Davi considerasse apropriado revidar à provocação, Simei pagaria com a vida.

(2.) Porque aquilo seria muito doloroso para Davi, acrescentaria aflição à sua tristeza e derramaria vinagre em suas feridas. O salmista se queixa dos que são mais bárbaros ao falar para aumentar a dor dos que Deus feriu, Salmos 69:26.

Foi o que Simei fez: cobriu de maldições aquele que nenhum olhar generoso poderia contemplar sem compaixão. (3.) Porque julgou que a Providência justificava suas acusações e que as aflições presentes de Davi provavam que ele era tão mau quanto Simei queria retratá-lo.

Os amigos de Jó o condenaram com base nesse falso princípio. Os que sofrem as repreensões de um Deus misericordioso não devem estranhar que também recebam as acusações de homens maus.

Quando se diz: “Deus o abandonou”, logo vem: “Persigam-no e prendam-no”, Salmos 71:11. Mas é próprio de um espírito vil pisar nos caídos e insultá-los.

  1. Como sua malícia se manifestou. Veja (1.) o que fez aquele homem miserável: atirou pedras em Davi (v. 6), como se seu rei fosse um cão ou o pior dos criminosos, que todo o Israel deveria apedrejar até morrer.

Talvez ficasse tão longe que as pedras não alcançassem Davi nem seus acompanhantes. Ainda assim, mostrou o que teria feito se estivesse ao seu alcance.

Simei atirou poeira (v. 13), que provavelmente lhe entraria nos próprios olhos, como as maldições que lançou e que, sem causa, voltariam sobre sua cabeça. Assim, sua malícia o tornou odioso, e sua impotência, ridículo e desprezível.

Os que lutam contra Deus não podem feri-lo, ainda que o odeiem. “Se pecas, que fazes contra ele?”, Jó 35:6.

Sua maldade era ainda mais grave porque Davi estava acompanhado por seus valentes à direita e à esquerda e, portanto, não se encontrava tão desamparado quanto Simei imaginava: era perseguido, mas não abandonado.

Além disso, Simei continuou a fazer aquilo e agiu com ainda mais paixão porque Davi suportava tudo com paciência. (2.) Veja o que ele disse.

Junto com as pedras, disparou suas flechas: palavras amargas (v. 7, 8), desprezando a lei: “Não amaldiçoarás os deuses”, Êxodo 22:28.

Davi era um homem honrado e de boa consciência, muito respeitado por tudo que era justo e bom. O que aquela boca imunda poderia dizer contra ele?

Ora, o único fato que Simei conseguiu recordar era o que havia acontecido tempos atrás com a casa de Saul. Ele o lançou em rosto a Davi porque fora prejudicado por aquilo.

Veja como somos inclinados a julgar as pessoas e seu caráter pelo modo como nos tratam e a concluir que são certamente maus os que foram instrumentos de aflição para nós, por mais justo que tenha sido esse papel, ou os que, por mais injustamente, julgamos que também foram.

Somos tão parciais a nosso favor que nenhum critério pode ser mais enganoso do que esse. Ninguém era mais inocente do sangue da casa de Saul do que Davi.

Mais de uma vez, ele poupou a vida de Saul, embora Saul procurasse matá-lo. Quando os filisteus mataram Saul e seus filhos, Davi e seus homens estavam a muitos quilômetros de distância; quando souberam da notícia, lamentaram a morte deles.

Davi já se livrara suficientemente da culpa pelo assassinato de Abner e de Isbosete. Ainda assim, todo o sangue da casa de Saul foi posto na conta dele.

A inocência não nos protege da malícia e da falsidade, nem devemos estranhar que nos acusem de algo que tivemos todo o cuidado de evitar. É bom que os homens não sejam nossos juízes, mas aquele cujo julgamento é conforme à verdade.

O sangue da casa de Saul é atribuído a Davi com a maior injustiça, [1.] como aquilo que definia seu caráter e fazia dele um homem sanguinário e um homem de Belial, v. 7.

Se era homem sanguinário, sem dúvida era homem de Belial, isto é, filho do diabo, chamado Belial (2 Coríntios 6:15) e assassino desde o princípio. Os sanguinários são os piores dos homens.

[2.] Como aquilo que trouxera a aflição presente sobre ele: “Agora que foste destronado e expulso para o deserto, o Senhor fez voltar sobre ti o sangue da casa de Saul”.

Veja como os homens maliciosos se apressam em pôr os juízos de Deus a serviço de sua paixão e vingança. Se alguém que, segundo pensam, os prejudicou cai em aflição, o mal que lhes fez deve ser apresentado como causa dessa aflição.

Mas devemos tomar cuidado para não ofender a Deus, apresentando sua providência como justificativa para nossos ressentimentos tolos e injustos. Assim como a ira humana não produz a justiça de Deus, assim também a justiça de Deus não serve à ira humana.

[3.] Como aquilo que agora o levaria à ruína completa, pois Simei tenta fazê-lo perder a esperança de recuperar o trono. “Agora dizem: ‘Não há socorro para ele em Deus’”, Salmos 3:2.

“O Senhor entregou o reino nas mãos de Absalão” — não de Mefibosete, pois a casa de Saul nunca sonhou em fazê-lo rei, como Ziba sugeriu. “Foste apanhado na tua maldade”, isto é, “na maldade que será tua ruína, e tudo porque és um homem sanguinário”. Assim amaldiçoava Simei.

II. Veja como Davi foi paciente e submisso diante desse abuso. Os filhos de Zeruia, em especial Abisai, estavam prontos para defender a honra de Davi com a espada. Ficaram profundamente indignados com o insulto, e com razão: “Por que se há de deixar que este cão morto amaldiçoe o rei?”, v. 9.

Se Davi lhes desse licença, silenciariam aqueles lábios mentirosos e maldizentes e lhe cortariam a cabeça. Atirar pedras contra o rei era um ato evidente, que provava amplamente que Simei tramava e planejava sua morte.

Mas o rei de modo algum permitiu: “Que tenho eu convosco? Deixai-o amaldiçoar.” Assim Cristo repreendeu os discípulos que, zelosos por sua honra, queriam fazer descer fogo do céu sobre a cidade que o ofendera, Lucas 9:55.

Vejamos com que considerações Davi se acalmou. 1. O principal motivo que o silenciou foi saber que merecia aquela aflição.

Isso, de fato, não é mencionado, pois alguém pode se arrepender verdadeiramente sem precisar proclamar a todos, em toda ocasião, as reflexões penitentes que faz. Simei o acusou injustamente do sangue de Saul; sua consciência o absolvia dessa culpa, mas, ao mesmo tempo, o acusava do sangue de Urias.

“A censura é verdadeira demais”, pensou Davi, “embora falsa na intenção de Simei”. Observe: um espírito humilde e sensível transforma insultos em repreensões e, assim, tira proveito deles em vez de se deixar provocar.

  1. Davi reconheceu a mão de Deus naquilo: “O Senhor lhe disse: ‘Amaldiçoa Davi’” (v. 10); e outra vez: “Deixai-o amaldiçoar, pois o Senhor lhe ordenou”, v. 11.

Como pecado de Simei, aquilo não vinha de Deus, mas do diabo e de seu próprio coração perverso. A mão de Deus nisso não o desculpava nem diminuía sua culpa, muito menos o justificava, assim como não justificou o pecado dos que mataram Cristo, Atos 2:23; 4:28.

Mas, como aflição de Davi, vinha do Senhor: era um dos males que ele levantara contra Davi. Este olhou além do instrumento de sua aflição para aquele que a dirigia soberanamente, assim como Jó, quando os saqueadores o despojaram, reconheceu: “O Senhor tirou”.

Nada é mais apropriado para tranquilizar uma alma piedosa em meio à aflição do que olhar para a mão de Deus nela: “Não abri a boca, porque tu o fizeste.” O açoite da língua é a vara de Deus.

  1. Davi se acalmou diante da aflição menor considerando a maior (v. 11): “Meu filho procura tirar-me a vida; quanto mais este benjamita.” Observe: a tribulação produz paciência nos que foram santificados.

Quanto mais suportamos, mais capazes devemos nos tornar de suportar ainda mais. O que põe nossa paciência à prova deve aperfeiçoá-la.

Quanto mais nos acostumamos à aflição, menos devemos nos surpreender com ela e menos estranha ela nos parecerá. Não se admire de que os inimigos nos tratem mal quando até os amigos não mostram bondade; nem de que os amigos não mostrem bondade quando até os filhos são desobedientes.

  1. Davi se consolou com a esperança de que Deus, de um modo ou de outro, tiraria o bem de sua aflição, compensando tanto a própria tristeza quanto sua paciência diante dela: “O Senhor me recompensará com o bem pela maldição dele.”

“Se Deus ordena a Simei que me aflija, é para que ele mesmo me console de modo mais perceptível. Certamente tem misericórdia reservada para mim e está me preparando para ela por meio desta provação.”

Podemos contar com Deus, que nos recompensará não só pelos serviços que prestamos, mas também pelo sofrimento que suportamos. Que eles amaldiçoem, mas você abençoe.

Por fim, Davi se abrigou em Bahurim (v. 14), onde recebeu refrigério e ficou protegido daquela contenda de línguas.

Versículos 15 a 23

Husai Engana Absalão; o Conselho Perverso de Aitofel. (a.C. 1023.)

Alguns amigos de Absalão em Jerusalém logo lhe mandaram avisar que Davi havia partido, levando consigo uma comitiva pequena. Assim, o caminho estava livre: Absalão podia tomar posse de Jerusalém quando quisesse.

Os portões estavam abertos, e não havia ninguém para se opor a ele. Por isso, veio sem demora (v. 15), muito exaltado, sem dúvida, por esse sucesso inicial e porque aquilo que, ao planejar sua conspiração, provavelmente lhe parecera a maior dificuldade fora realizado com tanta facilidade e eficácia.

Agora que era senhor de Jerusalém, concluiu que tudo já lhe pertencia e que o país o seguiria naturalmente. Deus permite que os maus prosperem por algum tempo em seus planos perversos, até além do que esperavam, para que sua decepção seja mais amarga e vergonhosa.

Os políticos mais célebres daquela época eram Aitofel e Husai. Absalão levou o primeiro consigo a Jerusalém (v. 15), e o segundo o encontrou ali (v. 16).

Assim, Absalão não podia deixar de se julgar seguro do êxito, tendo ambos como conselheiros. Confiava neles e consultava-os, mas não consultava a arca, embora a tivesse consigo. Mas ambos eram conselheiros miseráveis:

I. Husai jamais aconselharia Absalão a agir com sabedoria. Era, de fato, seu inimigo e pretendia traí-lo, embora fingisse estar ao seu lado. Absalão não poderia ter junto de si homem mais perigoso.

  1. Husai o cumprimentou por ter subido ao trono, como se estivesse plenamente satisfeito com o título de rei e contente por ele ter tomado posse, v. 16.

Que artifícios de dissimulação são levados a usar os que se governam pela sabedoria carnal! E como são felizes os que nunca conheceram essas profundezas de Satanás, mas se conduzem no mundo com simplicidade e sinceridade piedosa!

  1. Absalão ficou surpreso ao ver Husai ao seu lado, pois sabia que ele era amigo íntimo e confidente de Davi. Perguntou-lhe: “É esta a tua bondade para com teu amigo?” (v. 17), satisfeito com a ideia de que tudo seria seu, já que Husai também era.

Não duvidou da sinceridade de Husai, mas acreditou facilmente naquilo que desejava ser verdade: que os melhores amigos de Davi amavam tanto Absalão que aproveitariam a primeira oportunidade para declarar apoio a Absalão, embora o orgulho de seu coração o enganasse, Obadias 1:3.

  1. Husai o confirmou na crença de que era sincero em seu favor.

Embora Davi fosse seu amigo, Husai estava ao lado do rei que ocupava o trono, v. 18. Seria leal àquele que o povo escolhesse e sobre quem a Providência sorrisse.

Também apoiava o rei sucessor (v. 19), o sol nascente. Era verdade que amava seu pai, mas este já tivera o seu tempo, e ele passara. Por que não amaria também seu sucessor? Assim, Husai fingiu apresentar razões para uma decisão que detestava pensar em tomar.

II. Aitofel aconselhou Absalão a agir perversamente. Com isso, traiu-o tão efetivamente quanto o homem que deliberadamente fingia estar ao seu lado, pois quem aconselha alguém a pecar certamente o aconselha a se prejudicar; e todo governo fundado no pecado está assentado na areia.

  1. Aitofel era conhecido como político perspicaz; seu conselho era como se alguém houvesse consultado o oráculo de Deus, v. 23.

Era famoso por sua astúcia e sagacidade nos assuntos públicos, por enxergar muito além dos demais conselheiros do rei, por apresentar razões para suas recomendações e pelo êxito que seus planos costumavam ter.

Por isso, todos, bons e maus, tanto Davi como Absalão, respeitavam profundamente suas opiniões, e muito mais do que deveriam, quando o consideravam um oráculo de Deus. Poderia a prudência de qualquer mortal se comparar àquele que é o único sábio?

Observe, com base nesta reputação de Aitofel como homem de grande habilidade política: (1.) Muitos se destacam na sabedoria mundana, embora sejam completamente destituídos da graça celestial.

Isso acontece porque os que se fazem passar por oráculos tendem a desprezar os oráculos de Deus. Deus escolheu as coisas loucas do mundo, e os maiores estadistas raramente são os maiores santos.

(2.) Muitas vezes, os maiores políticos agem com a maior insensatez contra si mesmos. Aitofel era aclamado como oráculo, mas agiu com pouca sabedoria ao se aliar a Absalão.

Absalão não era apenas usurpador, mas também um jovem imprudente, fadado ao fracasso. Qualquer um com um décimo da habilidade política que Aitofel alegava ter poderia prever a queda dele e de todos os que o apoiassem.

No fim, a honestidade é a melhor política e assim se mostrará no longo prazo.

  1. Mas, neste caso, a estratégia de Aitofel frustrou o próprio objetivo. Observe:

(1.) O conselho perverso que Aitofel deu a Absalão. Ao saber que Davi deixara suas concubinas para cuidar da casa, aconselhou Absalão a deitar-se com elas (v. 21), uma coisa muito perversa.

A lei divina a considerava crime capital, Levítico 20:11. O apóstolo fala dela como uma perversidade nem sequer mencionada entre os gentios, 1 Coríntios 5:1. Rúben perdeu o direito de primogenitura por causa disso.

Aitofel, porém, aconselhou Absalão a fazê-lo publicamente, pois isso daria a todo o Israel a certeza de que:

[1.] Absalão levava a sério suas pretensões. Sem dúvida, estava decidido a se apossar de tudo o que pertencera ao seu antecessor, pois começara pelas concubinas dele.

[2.] Nunca faria as pazes com o pai, em hipótese alguma. Com aquilo, se tornaria tão odioso ao pai que este jamais se reconciliaria com ele.

Talvez o povo temesse que tivesse de ser sacrificado para que os dois se reconciliassem. Depois de desembainhar a espada, Absalão, com essa provocação, jogou fora a bainha.

Isso fortaleceria seus partidários e os manteria firmemente ao lado dele. Essa era a política maldita de Aitofel, que o revelava antes como oráculo do diabo do que como oráculo de Deus.

(2.) Absalão aceitou esse conselho. Ele se encaixava perfeitamente em sua mente perversa e libertina, e Absalão não demorou a colocá-lo em prática, v. 22.

Já que a rebelião antinatural era a peça, que prólogo poderia ser mais apropriado do que uma luxúria igualmente antinatural? Assim, sua maldade formava um todo, e uma consciência que não estivesse completamente cauterizada não poderia sequer pensar nela sem sentir o mais profundo horror.

Absalão foi além do que o conselheiro recomendara. Aitofel o aconselhou a fazê-lo para que todo o Israel visse. Então armaram uma tenda no terraço para esse fim.

Com tamanha impudência, Absalão proclamou seu pecado como Sodoma. Ainda assim, a palavra de Deus se cumpriu ao pé da letra.

Deus ameaçara, por meio de Natã, que, por Davi ter contaminado Bate-Seba, suas próprias mulheres seriam publicamente desonradas (2 Samuel 12:11, 12).

Alguns pensam que Aitofel o aconselhou para se vingar de Davi pela ofensa feita a Bate-Seba, sua neta. Ela era filha de Eliã (2 Samuel 11:3), que era filho de Aitofel (2 Samuel 23:34).

Jó fala disso como a punição justa do adultério: “Que minha mulher moa para outro”, Jó 31:9, 10. Assim também fala o profeta, Oseias 4:13, 14.

O que pensar dessas concubinas, que se submeteram a tamanha perversidade, não sei. Mas, por mais injustos que tenham sido Absalão e elas, devemos dizer: “O Senhor é justo”. Nenhuma palavra dele cairá por terra.


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