2 Samuel 15
Argumento
O nome de Absalão significa “a paz de seu pai”, mas ele se mostra o maior tormento de seu pai. Muitas vezes nos decepcionamos com o que esperamos das criaturas.
A espada imposta à casa de Davi até então se voltara contra os filhos dele, mas agora começa a ser desembainhada contra o próprio Davi, com o agravante de que ele mesmo pode agradecer por isso: se tivesse feito justiça ao assassino, teria impedido o traidor.
A história da rebelião de Absalão começa neste capítulo, mas ainda teremos de passar por mais três ou quatro antes de ver o desfecho. Neste capítulo, temos: I. Os artifícios que Absalão usou para conquistar o afeto do povo, vv. 1-6.
II. Sua declaração pública de que pretendia tomar a coroa em Hebrom, para onde foi sob o pretexto de cumprir um voto, e o forte partido que se manifestou a seu favor ali, vv. 7-12. III. A notícia que chegou a Davi sobre isso e sua fuga de Jerusalém em seguida, vv. 13-18.
Durante a fuga, vemos: 1. O que se passou entre ele e Itai, vv. 19-22. 2. A preocupação do povo do país por ele, v. 23. 3. A conversa com Zadoque, vv. 24-29. 4. Suas lágrimas e orações naquela ocasião, vv. 30-31. 5. Os planos que combinou com Husai, vv. 32-37.
Então se cumpriu a palavra de Deus, de que ele “suscitaria contra ele o mal da sua própria casa”, em 2 Samuel 12:11.
Versículos 1 a 6
A Ambição de Absalão. (a.C. 1027.)
Assim que é reintegrado à corte, Absalão começa a mirar o trono. Aquele que não se humilhou em meio às tribulações tornou-se insuportavelmente orgulhoso quando elas passaram. Não consegue se contentar com a honra de ser filho do rei e com a perspectiva de sucedê-lo: quer ser rei agora.
Sua mãe era filha de um rei; talvez ele se orgulhasse disso e desprezasse seu pai, que era apenas filho de Jessé. Ela era filha de um rei pagão, o que o tornava menos preocupado com a paz de Israel. Nesse desfecho infeliz daquele casamento, Davi sofreu por ter se unido de modo desigual a uma descrente.
Quando Absalão voltou a contar com o favor do rei, se tivesse algum senso de gratidão, teria procurado agradar ao pai e dar-lhe tranquilidade. Ao contrário, planeja como subvertê-lo, roubando-lhe o coração do povo. Duas coisas recomendam alguém à estima popular: grandeza e bondade.
I. Absalão parece grande, v. 1. Aprendera com o rei de Gesur a multiplicar cavalos, prática não permitida aos reis de Israel. Isso o fazia parecer desejável, enquanto seu pai, montado em sua mula, parecia desprezível. O povo queria um rei como os das nações; e Absalão seria um deles, exibindo pompa e magnificência como nunca se vira em Jerusalém.
Samuel predissera que esse seria o costume do rei: “Terá carros e cavaleiros, e alguns correrão adiante dos seus carros” (1 Samuel 8:11). Era assim que Absalão agia. Cinquenta homens a pé, provavelmente com uniformes vistosos, corriam à sua frente para anunciar sua chegada, satisfazendo muito o orgulho dele e a fantasia tola do povo.
Davi achava que aquela ostentação servia apenas para dar brilho à sua corte e fazia vista grossa. Os pais não sabem o que fazem quando alimentam o orgulho dos filhos; já vi mais jovens arruinados pelo orgulho do que por qualquer outro desejo desordenado.
II. Absalão também quer parecer muito bom, mas com um propósito muito mau. Se tivesse se mostrado bom filho e bom súdito, dedicando-se aos interesses do pai, teria cumprido seu dever presente e se mostrado digno de futuras honras, depois da morte do pai. Quem sabe obedecer bem sabe governar.
Mas mostrar que seria bom juiz e bom rei é apenas enganar a si mesmo e aos outros. Bons de fato são os que fazem o bem no próprio lugar, não os que alegam que seriam bons no lugar de outros. Mas essa é toda a bondade que encontramos em Absalão.
- Ele desejava ser juiz em Israel, v. 4. Tinha toda a pompa e todo o prazer que podia querer; vivia com grandeza e tanto conforto quanto qualquer homem. Mesmo assim, não ficaria satisfeito sem poder: “Quem me dera ser juiz em Israel!” Ele, que deveria ter sido condenado à morte por assassinato, tem a impudência de querer julgar os outros.
Não lemos que Absalão tivesse sabedoria, virtude ou conhecimento das leis, nem que tivesse dado provas de amor à justiça; ocorreu justamente o contrário. Ainda assim, queria ser juiz. Repare: em geral, os mais ambiciosos por um cargo são os menos aptos a exercê-lo.
Os mais bem qualificados são os mais modestos e desconfiados de si mesmos; quem diz “Quem me dera ser juiz em Israel!” não tem espírito melhor que o de Absalão.
- Ele escolhe um caminho muito mau para realizar esse desejo. Se tivesse pedido humildemente ao pai que o empregasse na administração da justiça e procurado se qualificar para ela, conforme a regra de Êxodo 18:21, sem dúvida teria recebido o próximo posto de juiz que vagasse.
Mas esse cargo era pequeno demais para seu espírito orgulhoso. Estar subordinado, mesmo ao próprio pai e rei, era indigno dele: ou seria supremo, ou nada.
Ele queria ser um juiz a quem todo homem com uma causa recorresse. Em toda causa e sobre toda pessoa, teria de presidir, sem pensar no cansaço que seria receber cada homem que viesse até ele. O próprio Moisés não conseguiu suportar isso. Quem tenta agarrar poder demais não sabe o que é poder. Para conquistar o poder que almejava, Absalão procurou instilar na mente do povo:
(1.) Uma opinião ruim da administração vigente, como se os assuntos do reino fossem inteiramente negligenciados e ninguém cuidasse deles. Reunia todos os que podia encontrar diante do conselho, perguntava qual era a causa deles e, após uma investigação superficial e genérica, declarava que era boa: “Seu caso está certo”.
Que juiz apto, dando sentença depois de ouvir apenas um lado! Só quem tem uma causa muito ruim não consegue lhe dar uma boa aparência quando é ele mesmo quem conta a história.
Mas, em seguida, dizia que era inútil recorrer ao trono: “Não há ninguém designado pelo rei para ouvir você.” O rei estaria velho e incapaz de cuidar dos negócios, ou tão ocupado com suas devoções que nunca lhes daria atenção. Seus filhos estariam tão entregues aos prazeres que, embora tivessem o título de principais governantes, não cuidariam dos assuntos confiados a eles.
Também parecia insinuar que ele fazia muita falta enquanto esteve banido e confinado e que o público sofrera muito com seu exílio. O que Davi dissera com verdade durante o reinado de Saul (Salmos 75:3), Absalão dizia falsamente que a terra e todos os seus habitantes se dissolviam e tudo iria à ruína, a menos que ele sustentasse as suas colunas.
Cada pessoa que apelava seria levada a crer que nunca receberia justiça se Absalão não fosse vice-rei ou juiz supremo.
É costume de homens turbulentos, facciosos e ambiciosos caluniar o governo sob o qual vivem. São atrevidos, obstinados e não temem falar mal das autoridades, como diz 2 Pedro 2:10. Nem mesmo Davi, o melhor dos reis, nem sua administração escaparam das piores censuras. Quem busca usurpar o poder grita que há injustiças e alega que só pretende corrigi-las, como Absalão fez aqui.
(2.) Uma boa opinião da própria aptidão para governar. Para que o povo dissesse “Quem dera Absalão fosse juiz!” (pois as pessoas tendem a desejar mudanças), ele se recomendava a elas:
[1.] Como muito diligente. Levantava-se cedo e aparecia em público antes que os outros filhos do rei tivessem se levantado. Ficava ao lado do caminho da porta, onde se reuniam os tribunais, como alguém muito empenhado em ver a justiça feita e os assuntos públicos resolvidos.
[2.] Como muito curioso e intrometido, desejoso de conhecer o caso de cada um. Queria saber de que cidade era cada pessoa que vinha em busca de justiça, para se informar sobre cada parte do reino e sua situação, v. 2.
[3.] Como muito afável e humilde. Se algum israelita se aproximava para se prostrar diante dele, Absalão o segurava e o abraçava como amigo. Ninguém poderia se portar de modo mais condescendente, embora seu coração fosse orgulhoso como o de Lúcifer.
Muitas vezes, projetos ambiciosos se realizam sob uma aparência de humildade (Colossenses 2:23). Absalão sabia quanto a afabilidade e a cortesia dão brilho à grandeza e conquistam o povo. Se fosse sincero, isso seria seu louvor. Mas bajular o povo para traí-lo era hipocrisia abominável. Ele se agacha e se curva para arrastá-los à sua rede (Salmos 10:9-10).
Versículos 7 a 12
A Rebelião de Absalão. (a.C. 1023.)
Aqui começa a rebelião de Absalão, que ele vinha tramando havia muito tempo. O texto diz que foi “depois de quarenta anos”, v. 7, mas não nos informa a partir de quando se contam esses anos. Não pode ser do início do reinado de Davi, pois então isso cairia no último ano de sua vida, o que não parece provável.
Talvez se contem desde a primeira unção de Davi por Samuel, sete anos antes, ou, melhor, desde que o povo desejou um rei e o governo passou a ser uma monarquia, cerca de dez anos antes do início do reinado de Davi.
É adequado contar desde então, para mostrar que o mesmo espírito inquieto continuava agindo e que o povo continuava inclinado à mudança, tão apaixonado agora por um novo homem quanto estivera por um novo modelo de governo. Assim, a data cairia por volta do trigésimo ano do reinado de Davi. Estando agora pronto para executar seu plano, Absalão:
I. Escolheu Hebrom para reunir seus partidários. Era a cidade onde nascera e onde seu pai começara o reinado, permanecendo ali por vários anos, o que daria alguma força às pretensões de Absalão. Todos sabiam que Hebrom era uma cidade real. Ficava no centro do território de Judá, tribo na qual ele provavelmente julgava ter forte influência.
II. Alegou que iria a Hebrom e convidaria seus amigos para lá a fim de oferecer um sacrifício a Deus, cumprindo um voto que fizera durante o exílio, vv. 7-8. Temos bons motivos para suspeitar que não fizera voto algum; nada indica que tivesse inclinação religiosa.
Mas quem não hesita em cometer assassinato e traição não se preocupa em mentir para alcançar seu propósito. Se dissesse que fizera o voto, ninguém poderia provar o contrário.
- Com esse pretexto, conseguiu a permissão do pai para ir a Hebrom. Davi ficaria satisfeito ao saber que, durante o exílio, seu filho desejara voltar a Jerusalém, não só cidade paterna, mas a cidade do Deus vivo; que buscara a Deus para voltar; que prometera servi-lo, caso retornasse, embora até então negligenciasse esse serviço; e que, depois de voltar, se lembrara do voto e resolvera cumpri-lo.
Se Absalão achasse melhor fazê-lo em Hebrom, e não em Sião ou Gibeão, o bom rei estava tão satisfeito com a própria iniciativa que não se oporia à escolha do lugar. Vemos como pais ternos e bons estão dispostos a acreditar no melhor a respeito dos filhos e, ao menor sinal de bondade, esperam que até os mais rebeldes se arrependam e mudem de vida.
Mas como é fácil para os filhos se aproveitarem da credulidade dos bons pais e enganá-los com uma aparência de religião, continuando a ser os mesmos de antes!
Davi ficou radiante ao saber que Absalão parecia inclinado a servir ao Senhor. Por isso, concedeu prontamente que fosse a Hebrom e que fosse com solenidade.
- Absalão conseguiu que um bom número de cidadãos respeitáveis e influentes o acompanhasse, v. 11. Duzentos homens, provavelmente figuras importantes de Jerusalém, foram convidados para participar de seu banquete, junto ao sacrifício. Foram com simplicidade, sem suspeitar nem um pouco que Absalão tivesse algum mau propósito nessa viagem.
Absalão sabia que não adiantava tentar atraí-los para a conspiração: eram firmemente leais a Davi. Mas os convenceu a acompanhá-lo, para que o povo comum pensasse que estavam do lado dele e que alguns dos melhores amigos de Davi o haviam abandonado.
Repare: não é novidade que homens muito bons e coisas muito boas sejam usados por pessoas ardilosas para disfarçar práticas más.
Quando a religião serve de disfarce e o sacrifício de calçadeira para a sedição e a usurpação, não admira que alguns que estimavam a religião, como esses seguidores de Absalão, sejam enganados pela fraude e levados a dar apoio, com seus nomes, àquilo que abominam no coração, sem conhecerem as profundezas de Satanás.
III. O plano de Absalão era fazer-se proclamar rei em todas as tribos de Israel, assim que fosse dado um sinal, v. 10. Espiões foram enviados às diversas regiões, a fim de estarem prontos para receber a notícia com satisfação e aclamações de alegria e fazer o povo acreditar que era ao mesmo tempo verdadeira e boa, e que todos deviam pegar em armas pelo novo rei.
Quando o anúncio “Absalão reina em Hebrom” se espalhasse de repente, alguns concluiriam que Davi estava morto; outros, que havia renunciado. Assim, os que conheciam o segredo convenceriam muitos a se declarar a favor de Absalão e a ajudá-lo. Se entendessem corretamente a situação, esses homens abominariam a ideia; mas, uma vez envolvidos, ficariam ao lado dele.
Vemos que artifícios homens ambiciosos usam para alcançar seus fins. Tanto em assuntos de Estado quanto em assuntos de religião, não devemos acreditar prontamente em todo espírito; precisamos pôr os espíritos à prova.
IV. A pessoa que Absalão cortejou e em quem depositou confiança especial nessa trama foi Aitofel, um homem sagaz e ponderado, de raciocínio claro e grande capacidade de reflexão. Ele havia sido conselheiro de Davi, seu guia e conhecido (Salmos 55:13), seu amigo íntimo, em quem confiava e que comia do seu pão (Salmos 41:9).
Por ter ficado descontente com Davi, ou Davi com ele, foi banido ou se retirou dos assuntos públicos e passou a viver discretamente no campo. Como poderiam conviver por muito tempo um homem de princípios tão bons quanto Davi e outro de princípios tão corruptos quanto Aitofel?
Absalão não poderia encontrar em todo o reino instrumento mais adequado do que aquele que era grande estadista e, ainda assim, estava descontente com o governo vigente. Enquanto Absalão oferecia seus sacrifícios para cumprir o voto que fingia ter feito, mandou chamar esse homem.
Estava tão concentrado em seus projetos ambiciosos que não pôde esperar até terminar sua devoção. Isso mostrava qual era seu verdadeiro objetivo e que as longas ofertas eram apenas pretexto.
V. O partido de Absalão tornou-se numeroso. O povo se juntava continuamente a ele, tornando a conspiração forte e ameaçadora. Cada pessoa que ele elogiara e afagara, declarando justos e bons os seus casos, sobretudo se a decisão depois lhe fora contrária, não só vinha, como mobilizava toda a influência a favor dele. Assim, não lhe faltavam apoiadores.
A maioria não é critério seguro para julgar o que é justo. O mundo inteiro se maravilhou após a besta. Não sabemos se Absalão tomou essa iniciativa só por ambição e paixão por governar, ou se também havia nela malícia contra o pai e vingança pelo exílio e confinamento, embora a punição fosse muito menor do que ele merecia. Mas, em geral, quem mira a coroa também mira a cabeça que a usa.
Versículos 13 a 23
A Fuga de Davi. (a.C. 1023.)
Aqui está: I. A notícia da rebelião de Absalão que chegou a Davi, v. 13. A situação já era ruim o bastante, mas parece que a notícia lhe foi apresentada ainda pior do que realmente era, como costuma acontecer. Disseram-lhe que o coração dos homens de Israel, isto é, da maioria deles, pelo menos dos líderes, estava com Absalão.
Davi estava mais inclinado a acreditar nisso porque agora se lembrava dos artifícios que Absalão usara para seduzi-los. Talvez se arrependesse de não ter agido mais para se opor a ele e assegurar o próprio apoio, no qual confiara demais. Repare: é sábio que os príncipes assegurem a lealdade dos súditos; pois, se os têm consigo, têm a seu serviço o dinheiro, as armas e tudo o mais.
II. O alarme que a notícia causou a Davi e as decisões que tomou por causa dela. Podemos imaginá-lo quase fulminado ao saber que o filho que tanto amava e a quem tanto favorecera estava armado contra ele de maneira tão antinatural e ingrata. Bem poderia dizer, como César: Kai su teknon — “O quê, tu, meu filho?”
Os pais não devem alimentar expectativas elevadas demais em relação aos filhos, para não se decepcionarem. Davi não convocou um conselho; consultando apenas a Deus e o próprio coração, resolveu imediatamente deixar Jerusalém, v. 14. Tomou essa decisão estranha, tão contrária ao seu caráter corajoso, talvez:
- Como penitente, submetendo-se à vara e prostrando-se sob a mão corretiva de Deus. A consciência lhe recordou o pecado no caso de Urias e a sentença que recebera por ele: o mal se levantaria contra ele dentro de sua própria casa. “Agora”, pensou, “a palavra de Deus começa a se cumprir; não me cabe discutir com ela nem lutar contra ela. Deus é justo, e eu me submeto.”
Diante do injusto Absalão, podia justificar-se e resistir; diante do Deus justo, tinha de condenar a si mesmo e se render aos juízos dele. Assim, aceita a punição de sua iniquidade.
Ou 2. como homem de Estado. Jerusalém era uma cidade grande, mas não defensável. Ao que parece, pela oração de Davi (Salmos 51:18), seus muros ainda não estavam plenamente construídos, muito menos fortificados de maneira regular.
Era grande demais para ser guarnecida pela pequena força que Davi tinha consigo. Tinha motivos para temer que a maioria dos habitantes estivesse inclinada demais a Absalão para lhe ser fiel.
Se se fortificasse ali, poderia perder o restante do país, onde esperava ter mais amigos, sobretudo entre os que viviam mais longe das maquinações de Absalão. Davi tinha tanto carinho por Jerusalém que relutava em fazer dela um campo de guerra e expô-la às calamidades de um cerco.
Preferiria cedê-la sem resistência aos rebeldes. Repare: homens bons, quando sofrem, não se importam que poucos sejam envolvidos no sofrimento com eles.
III. A pressa com que fugiu de Jerusalém. Seus servos concordaram com as medidas que tomou, permaneceram fiéis a ele, v. 15, e lhe asseguraram lealdade inabalável. Então:
- Ele próprio saiu de Jerusalém a pé, enquanto seu filho Absalão tinha carros e cavalos. Nem sempre é o melhor homem, nem a melhor causa, que aparece com maior destaque. Veja aqui não só o servo, mas também o traidor, a cavalo, enquanto o príncipe, o príncipe legítimo, caminha pela terra como servo (Eclesiastes 10:7).
Davi escolheu agir assim para se humilhar ainda mais sob a mão de Deus e por consideração a seus amigos e seguidores, com quem caminharia, como sinal de que viveria e morreria com eles.
- Levou consigo sua família, as esposas e os filhos, para protegê-los naquele dia de perigo e para que lhe servissem de consolo naquele dia de aflição. Os chefes de família não devem negligenciar os seus, nem nos maiores momentos de terror.
Deixou para trás dez mulheres, suas concubinas, para cuidar da casa. Pensou que a fraqueza do sexo as protegeria do assassinato e que a idade e a relação delas com ele as protegeriam do estupro. Mas Deus dirigiu as coisas para cumprir a sua palavra.
- Levou consigo sua guarda pessoal, ou companhia de soldados pagos, os quereteus e peleteus, sob o comando de Benaia, e os giteus, sob o comando de Itai, v. 18. Esses giteus parecem ter sido filisteus de Gate de nascimento.
Um regimento de seiscentos deles veio para se alistar no serviço de Davi. Tinham-no conhecido em Gate, amavam-no muito por sua virtude e piedade e haviam abraçado a religião dos judeus.
Davi os fez parte de sua garde du corps, sua guarda pessoal, e eles permaneceram com ele em sua aflição. O Filho de Davi não encontrou fé tão grande em Israel quanto a de um centurião romano e de uma mulher cananeia.
- Levou consigo todos os habitantes de Jerusalém que quiseram acompanhá-lo. Parou a certa distância da cidade para organizá-los, v. 17. Não obrigou ninguém. Que fossem para junto de Absalão os que tinham o coração com ele, e assim receberiam o destino merecido: logo teriam o bastante dele. Cristo só alista voluntários.
IV. A conversa de Davi com Itai, o giteu, que comandava os prosélitos filisteus:
- Davi tentou dissuadi-lo de ir com ele, vv. 19-20. Embora ele e seus homens pudessem ser muito úteis a Davi, ainda assim:
(1.) Davi queria saber se Itai lhe era leal de coração, e não inclinado a Absalão. Por isso, mandou que voltasse ao seu posto em Jerusalém e servisse ao novo rei. Se fosse apenas um soldado da fortuna, como dizemos, ficaria do lado de quem melhor lhe pagasse e promovesse. Que fosse para esse lado.
(2.) Se Itai fosse fiel a Davi, ainda assim Davi não queria expô-lo aos perigos e fadigas que agora previa. Davi, de espírito terno, não suportava que um estrangeiro e exilado, prosélito e recém-convertido, que devia ser encorajado e tratado com toda consideração, recebesse tratamento tão duro logo ao chegar: “Eu te faria andar conosco de um lado para outro? Não, volta com teus irmãos.”
As almas generosas se preocupam mais com a parte que os outros têm em suas dificuldades do que com a própria. Então Itai seria despedido com uma bênção: “A misericórdia e a verdade sejam contigo”, isto é, a misericórdia e a verdade de Deus, a misericórdia segundo a promessa feita aos que renunciam aos outros deuses e se colocam sob as asas da Majestade divina.
É uma despedida piedosa e muito apropriada ao nos separarmos de um amigo: “A misericórdia e a verdade sejam contigo; assim estarás seguro e poderás viver tranquilo onde quer que estejas.” Davi dependia da misericórdia e da verdade de Deus para seu consolo e felicidade, e também para os de seus amigos. Veja Salmos 61:7.
- Itai resolveu com coragem não abandoná-lo, v. 21. Onde quer que Davi estivesse, na vida ou na morte, em segurança ou em perigo, ali estaria esse amigo fiel. Ele confirmou sua decisão com um juramento, para não ser tentado a quebrá-la.
Itai estimava Davi, não por sua riqueza ou grandeza (pois o teria abandonado ao vê-lo tão abatido), mas por sua sabedoria e bondade, que permaneciam as mesmas. Acontecesse o que acontecesse, não o deixaria.
Repare: amigo de verdade é quem ama em todo tempo e permanece ao nosso lado na adversidade. Assim também devemos nos apegar ao Filho de Davi de todo o coração, para que nem a vida nem a morte nos separem do amor dele.
V. A compaixão do povo por Davi em sua aflição. Quando Davi e seus acompanhantes atravessaram o ribeiro de Cedrom, o mesmo ribeiro que Cristo atravessou ao se encaminhar para o sofrimento (João 18:1), rumo à estrada do deserto entre Jerusalém e Jericó, todo o povo do país chorou em alta voz, v. 23.
Havia motivos suficientes para chorar. 1. Ver um príncipe tão abatido, alguém que vivera em tamanha grandeza, forçado a sair do palácio e temendo pela vida; vê-lo, com um pequeno séquito, buscar abrigo no deserto; ver a cidade de Davi, que ele próprio conquistara, construíra e fortificara, tornar-se insegura para o próprio Davi.
Até estrangeiros sentiriam compaixão ao ver alguém cair de tão alto por causa da maldade do próprio filho. Era um caso lamentável.
Pais maltratados e arruinados pelos próprios filhos merecem a terna compaixão dos amigos tanto quanto qualquer pessoa aflita. 2. Ver seu próprio príncipe tão injustiçado, ele que havia sido uma bênção tão grande para a terra e nada fizera para perder o afeto do povo. Vê-lo em sofrimento, sem que pudessem ajudá-lo, bem poderia arrancar de seus olhos rios de lágrimas.
Versículos 24 a 30
Aqui temos: I. A lealdade dos sacerdotes e levitas e sua firme dedicação a Davi e aos interesses dele. Eles conheciam o grande afeto de Davi por eles e por seu ofício, apesar das falhas dele. O método de Absalão para conquistar o afeto do povo não os impressionou. Como Absalão tinha pouca religião, eles permaneceram firmemente ao lado de Davi.
Zadoque e Abiatar, bem como todos os levitas, acompanhariam Davi se ele partisse e levariam consigo a arca, para que por meio dela pudessem consultar a Deus em favor dele, v. 24. Repare: os que são amigos da arca em tempos de prosperidade a encontrarão como amiga em tempos de adversidade.
Antes, Davi não descansou até encontrar um lugar de repouso para a arca; agora, se os sacerdotes pudessem decidir, a arca não descansaria até Davi voltar ao seu repouso.
II. Davi os mandou de volta à cidade, vv. 25-26. Abiatar era o sumo sacerdote (1 Reis 2:35), mas Zadoque era seu auxiliar e acompanhava a arca mais de perto, enquanto Abiatar cuidava dos assuntos públicos, v. 24. Por isso, Davi se dirigiu a Zadoque. Foi uma fala excelente, que mostra que ele estava em muito bom estado de espírito em meio à aflição e ainda se mantinha íntegro.
- Davi estava muito preocupado com a segurança da arca: “Levem a arca de volta à cidade. Não a deixem instável e exposta comigo; instalem-na outra vez na tenda armada para ela. Certamente Absalão, por pior que seja, não lhe fará mal.” O coração de Davi tremia pela arca de Deus, como o de Eli.
Repare: é sinal de um bom princípio preocupar-se mais com a prosperidade da igreja do que com a própria, preferir Jerusalém à nossa maior alegria (Salmos 137:6) e o êxito do evangelho e a prosperidade da igreja à própria riqueza, honra, tranquilidade e segurança, mesmo quando estas correm o maior perigo.
- Davi desejava muito voltar a desfrutar dos privilégios da casa de Deus. Consideraria a volta para vê-la e ver sua morada mais uma vez a maior demonstração do favor de Deus. Isso lhe daria mais alegria do que voltar ao próprio palácio e ao trono.
Repare: almas agraciadas avaliam seus confortos e suas conveniências neste mundo pelas oportunidades que lhes oferecem de ter comunhão com Deus. Ezequias desejou recuperar a saúde por essa razão: para subir à casa do Senhor (Isaías 38:22).
- Davi se submetia muito à santa vontade de Deus quanto ao desfecho daquela situação sombria. Esperava o melhor, v. 25, e o esperava do favor de Deus, fonte de todo bem: “Se Deus me favorecer até esse ponto, voltarei a me estabelecer como antes.”
Mas se preparava para o pior: “Se ele me negar esse favor, se disser assim: ‘Não tenho prazer em ti’, sei que mereço que o seu desagrado continue; que se faça a sua santa vontade.”
Veja como espera o resultado com paciência: “Aqui estou, como um servo aguardando ordens.” E como está disposto a confiar o caso a Deus: “Faça ele comigo como bem lhe parecer. Não tenho objeção. Tudo o que Deus faz é bom.”
Observe com que satisfação e santa serenidade Davi fala da decisão divina. Não diz apenas: “Ele pode fazer o que quiser”, reconhecendo seu poder (Jó 9:12); nem: “Ele tem o direito de fazer o que quiser”, reconhecendo sua soberania (Jó 33:13); nem: “Ele fará o que quiser”, reconhecendo sua imutabilidade (Jó 23:13, 15). Diz: “Que ele faça o que quiser”, reconhecendo sua sabedoria e bondade.
Repare: é nosso interesse, além de nosso dever, concordar de bom grado com a vontade de Deus, seja o que for que nos aconteça. Para não reclamarmos do que acontece, vejamos a mão de Deus em todos os acontecimentos. Para não temermos o que acontecerá, vejamos todos os acontecimentos nas mãos de Deus.
III. A confiança que Davi depositou nos sacerdotes: acreditava que fariam o máximo para servir aos interesses dele durante sua ausência. Chama Zadoque de vidente, v. 27, isto é, homem sábio, capaz de compreender os assuntos e discernir o tempo e o juízo: “Tens teus olhos na cabeça (Eclesiastes 2:14) e, portanto, podes me servir, em especial enviando notícias dos movimentos e planos do inimigo.”
Numa situação como aquela, um amigo vidente valia por vinte que não fossem tão perspicazes. Para estabelecer uma comunicação secreta com os sacerdotes durante sua ausência, Davi determinou:
Quem eles lhe enviariam: os dois filhos, Aimaás e Jônatas. Esperava-se que o próprio manto os protegesse, e Davi provavelmente já conhecia a prudência e a fidelidade dos dois.
Para onde os enviariam. Davi acamparia na planície do deserto até receber notícias deles, v. 28, e então se deslocaria conforme as informações e os conselhos que lhe mandassem. Por isso, os sacerdotes voltaram à cidade, para aguardar o desfecho.
Era uma pena que alguma perturbação interrompesse uma situação tão feliz, quando o príncipe e os sacerdotes tinham tanto afeto e confiança uns nos outros.
IV. A postura melancólica que Davi e seus homens adotaram quando, no início da marcha, subiram o monte das Oliveiras, v. 30:
- O próprio Davi, como alguém profundamente enlutado, cobriu a cabeça e o rosto, envergonhado e constrangido, foi descalço, como prisioneiro ou escravo, em sinal de mortificação, e chorou.
Caberia a um homem tão conhecido por sua coragem e grandeza de espírito chorar assim como uma criança, só por temer um inimigo distante, contra quem poderia facilmente resistir e talvez derrotar com um golpe audaz?
Sim. Isso não lhe era impróprio, considerando o quanto havia de:
(1.) Falta de bondade de seu filho. Davi não podia deixar de chorar ao pensar que alguém que nascera dele e tantas vezes estivera em seus braços agora levantava o calcanhar contra ele. Diz-se que o próprio Deus se entristeceu com as rebeliões dos filhos dele (Salmos 95:10) e ficou quebrantado com o coração adúltero deles (Ezequiel 6:9).
(2.) Desagrado de seu Deus. Isso infundia absinto e fel na aflição e na miséria (Lamentações 3:19). Davi tinha sempre diante de si o próprio pecado (Salmos 51:3), mas nunca tão claro, nem com aparência tão sombria, quanto agora. Nunca chorara assim quando Saul o perseguia. Mas a consciência ferida faz os sofrimentos pesarem muito (Salmos 38:4).
- Quando Davi chorava, todo o seu grupo também chorava, profundamente comovido pela dor dele e disposto a compartilhá-la. É nosso dever chorar com os que choram, sobretudo com nossos superiores e com os que são melhores do que nós. Pois, se isso acontece com a árvore verde, o que acontecerá com a seca?
Devemos chorar com os que se entristecem por causa do pecado. Quando Ezequias se humilhou por seu pecado, toda Jerusalém se juntou a ele (2 Crônicas 32:26). Para não sofrer com os pecadores, choremos com eles.
Versículos 31 a 37
O Pedido de Davi a Husai. (a.C. 1023.)
Parece que nada na conspiração de Absalão ameaçava mais a Davi do que a participação de Aitofel, pois, num plano como aquele, uma cabeça sábia vale mais do que mil boas mãos. Absalão não era estrategista, mas conseguira atrair completamente para seu lado um homem que era.
Este seria ainda mais perigoso por conhecer havia muito tempo os planos e os assuntos de Davi. Portanto, se Aitofel pudesse ser frustrado, Absalão estaria praticamente derrotado e a cabeça da conspiração, cortada. Davi procura fazer isso:
I. Por meio da oração. Quando soube que Aitofel participava da conspiração, elevou a Deus esta breve oração: “Senhor, transforma em loucura o conselho de Aitofel”, v. 31. Não teve oportunidade de fazer uma longa oração, mas também não era dos que pensavam que seriam ouvidos por falarem muito.
Foi uma oração fervorosa: “Senhor, peço-te que faças isso.” Deus se agrada da insistência dos que vêm a ele com seus pedidos. Davi é específico: menciona a pessoa cujos conselhos pede que Deus frustre. Deus nos permite falar com ele em oração com humildade e reverência e mencionar a preocupação, o medo e a tristeza particulares que pesam sobre nós.
Davi não orou contra Aitofel, mas contra seu conselho: pediu que Deus o transformasse em loucura. Embora Aitofel fosse sábio, poderia dar um conselho tolo naquela ocasião; ou, se desse um conselho sábio, este poderia ser rejeitado como tolo; ou, se fosse seguido, alguma providência poderia frustrá-lo e impedir que alcançasse seu objetivo.
Davi orou com a firme convicção de que Deus tem em suas mãos o coração de todos, e também a língua deles; quando quer, pode tirar o entendimento dos velhos e tornar tolos os juízes (Jó 12:17; Isaías 3:2-3). Esperava que Deus reconhecesse e defendesse sua causa justa, embora tivesse sido injustiçado.
Repare: podemos orar com fé e devemos orar com fervor para que Deus transforme em loucura os planos tramados contra o seu povo.
II. Por meio de estratégia. Devemos acompanhar a oração com nossos esforços; do contrário, pomos Deus à prova. É um bom serviço frustrar as estratégias dos inimigos da igreja. Quando Davi chegou ao alto do monte, adorou a Deus, v. 32. Repare: o choro não deve impedir a adoração; antes, deve estimulá-la.
Então Davi compôs o salmo terceiro, como indica o título. Alguns pensam que cantá-lo foi a adoração que prestou a Deus naquela ocasião. Nesse momento, a Providência trouxe Husai até ele. Enquanto Davi ainda falava, Deus o ouviu e enviou a pessoa que serviria para frustrar Aitofel.
Husai veio lamentar com Davi sua aflição presente, com a túnica rasgada e terra sobre a cabeça. Mas Davi confiava muito em sua habilidade e fidelidade e resolveu empregá-lo como espião junto a Absalão. Não quis levá-lo consigo, v. 33, pois agora precisava mais de soldados do que de conselheiros.
Mandou-o de volta a Jerusalém para esperar a chegada de Absalão, fingir que desertara de Davi e oferecer seus serviços ao novo rei, v. 34.
Assim, poderia conquistar a confiança de Absalão e frustrar Aitofel, dissuadindo Absalão de seguir o conselho dele ou revelando-o a Davi, para que soubesse como se proteger.
Não vejo como justificar essa dissimulação grosseira, para a qual Davi induziu Husai, como estratagema de guerra. O máximo que se pode dizer é que, ao se rebelar contra o pai, Absalão tinha de se precaver contra todos; se quisesse ser enganado, que fosse.
Davi recomendou Husai a Zadoque e Abiatar como pessoas apropriadas para serem consultadas, v. 35, e aos dois filhos deles como mensageiros de confiança para enviar recados a Davi, v. 36. Seguindo essas instruções, Husai chegou a Jerusalém, v. 37, onde Absalão chegou pouco depois com suas tropas.
Como palácios e cidades reais mudam de senhor depressa! Mas esperamos um reino que não pode ser abalado e em cuja posse não poderemos ser perturbados.