2 Samuel 14
Argumento
No capítulo anterior, lemos como Absalão se colocou fora da proteção e do favor de seu pai, o rei, ficando exilado, fora da lei e proscrito. Neste capítulo, vemos os artifícios usados para reunir novamente pai e filho e como, por fim, isso aconteceu.
O relato é apresentado para mostrar a insensatez de Davi ao poupá-lo e tolerar sua maldade, atitude pela qual logo depois foi severamente corrigido pela rebelião desnatural de Absalão.
I. A decisão geral que Joabe obtém do rei, mediante um caso inventado para julgamento, como dizem os juristas, envolvendo uma pobre viúva de Tecoa: poderia haver circunstâncias em que se devesse deixar de executar um assassino (vv. 1-20).
II. A ordem que Joabe obtém, com base nisso, para trazer Absalão de volta a Jerusalém, embora ainda lhe fosse proibido comparecer à corte (vv. 21-24).
III. Depois de um relato sobre Absalão, sua aparência e sua família, a apresentação dele ao rei por Joabe e a plena reconciliação do rei com ele (vv. 25-33).
Versículos 1 a 20
O Estratagema de Joabe em Favor de Absalão; A Habilidade de Joabe. (a.C. 1029.)
Aqui temos: I. O plano de Joabe para conseguir que Absalão fosse chamado de volta do exílio, perdoado por seu crime e tivesse anulada sua condenação, v. 1. Joabe se empenhou muito nesse assunto.
- Como homem da corte empenhado em conquistar, por todos os meios possíveis, o favor do príncipe e ampliar sua influência junto dele: percebeu que o coração do rei estava voltado para Absalão e que, passado o auge de sua indignação, ainda conservava por ele a antiga afeição.
Só lhe faltava um amigo que o persuadisse à reconciliação e planejasse como fazê-lo sem comprometer a honra de sua justiça. Ao perceber a disposição de Davi, Joabe assumiu essa boa tarefa. 2. Como amigo de Absalão, por quem talvez tivesse estima particular e a quem, pelo menos, considerava um sol nascente, a quem lhe convinha recomendar-se.
Previu claramente que o pai acabaria se reconciliando com ele e, por isso, pensou que faria dos dois seus amigos se fosse o instrumento dessa reconciliação. 3. Como estadista, preocupado com o bem público.
Sabia quanto Absalão era querido pelo povo e que, se Davi morresse enquanto ele estivesse exilado, poderia haver guerra civil entre os que o apoiavam e os que eram contra ele; pois é provável que, embora todo o Israel amasse Absalão, houvesse grande divisão quanto ao caso dele. 4. Como alguém que também era culpado, pelo assassinato de Abner.
Tinha consciência de sua culpa de sangue e de estar sujeito à justiça pública; por isso, qualquer favor que conseguisse para Absalão reforçaria a suspensão da própria punição.
II. Seu plano foi apresentar ao rei um caso paralelo. A mulher que empregou o expôs com tanta habilidade que o rei o tomou por verdadeiro e deu seu parecer, como fizera com a parábola de Natã.
Como a decisão favorecia o culpado, quem conduzia o plano poderia assim descobrir o que o rei pensava e arriscar-se a aplicá-lo ao caso da família do próprio rei. É provável que a mulher tivesse instruções para não avançar se a decisão do rei fosse severa.
- O nome da mulher que Joabe empregou não é mencionado. Diz-se apenas que era de Tecoa, alguém que ele julgou capaz de realizar a tarefa. Era necessário situar o caso longe, para que Davi não estranhasse nunca ter ouvido falar dele. Ela era sábia, mais perspicaz e eloquente que a maioria de suas vizinhas, v. 2.
A história seria menos suspeita quando viesse, como se supunha, da própria boca da mulher envolvida.
- Ela assumiu o papel de uma viúva inconsolável, v. 2. Joabe sabia que uma mulher assim teria fácil acesso ao rei, sempre pronto a consolar os que choravam, em especial as viúvas. Ele próprio mencionara entre os títulos de honra de Deus o de “juiz das viúvas” (Salmos 68:5).
Sem dúvida, Deus dá mais atenção aos clamores dos aflitos, e seu coração também se inclina mais a eles do que o dos príncipes mais misericordiosos da terra.
- O caso que apresentou ao rei era comovente, e ela não poderia obter alívio senão da justiça equitativa no coração do rei, pois a lei, e consequentemente a decisão de todos os tribunais inferiores, era contra ela.
Disse ao rei que havia enterrado o marido, v. 5; que tinha dois filhos, sustento e consolo de sua viuvez; e que os dois, como é próprio dos jovens, brigaram e lutaram, até que um deles matou o outro por infelicidade, v. 6.
Ela queria proteger o que matara, pois, como Rebeca argumentou a respeito dos filhos, por que ela deveria perder os dois num só dia (Gênesis 27:45)? Embora ela, parente mais próxima do morto, estivesse disposta a abrir mão da exigência do vingador do sangue, os demais parentes insistiam que o irmão sobrevivente fosse executado conforme a lei.
Não faziam isso por amor à justiça nem à memória do irmão morto, mas para que, destruindo o herdeiro — coisa que tiveram a impudência de admitir que pretendiam —, a herança ficasse com eles.
Assim, apagariam (1.) o consolo dela: “Apagarão a minha brasa, privar-me-ão do único sustento da minha velhice e porão fim a toda a minha alegria neste mundo, que se reduziu a esta única brasa”; e (2.) a memória do marido: “Sua família será extinta por completo, e não lhe deixarão nome nem descendência”, v. 7.
- O rei prometeu favorecer a mulher e proteger o filho. Veja como ela aproveitou as concessões compassivas do rei. (1.) Ao ouvir seu caso, ele prometeu examiná-lo e dar ordens a respeito, v. 8.
Foi animador que não rejeitasse a petição com Currat lex — “Que a lei siga seu curso: sangue exige sangue, e receba o que exige” —, mas reservasse tempo para verificar se as alegações eram verdadeiras.
(2.) A mulher não se contentou com isso: pediu que ele decidisse imediatamente a seu favor. Se os fatos não fossem como ela os relatara e a decisão fosse injusta, que a culpa recaísse sobre ela, livrando o rei e seu trono, v. 9. Dizer isso, porém, não absolveria o rei se ele sentenciasse sem examinar devidamente o caso.
(3.) Pressionado assim, ele prometeu ainda que os adversários não a prejudicariam nem a insultariam, mas a protegeria de toda perturbação, v. 10.
Os magistrados devem ser protetores das viúvas oprimidas. (4.) Ainda assim, ela não se satisfazia sem obter também o perdão e a proteção do filho.
Os pais não descansam enquanto os filhos não estão seguros, para este mundo e para o próximo: “Que o vingador do sangue não destrua meu filho”, v. 11, “pois estarei arruinada se o perder; seria melhor tirar a minha vida que a dele.”
“Portanto, que o rei se lembre do Senhor, seu Deus.” Isto quer dizer: [1.] “Que ele confirme com juramento esta decisão misericordiosa, invocando o Senhor, nosso Deus, para que seja indiscutível e irrevogável; então ficarei tranquila.” Veja Hebreus 6:17, 18. [2.] “Que considere boas razões para essa decisão misericordiosa e então se firme nela.”
“Lembre-se de como o Senhor, seu Deus, é gracioso e misericordioso; como é paciente com os pecadores, não os trata conforme merecem e está pronto a perdoar. Lembre-se de que o Senhor, seu Deus, poupou Caim, que matou o irmão, e o protegeu dos vingadores do sangue (Gênesis 4:15).”
“Lembre-se de que o Senhor, seu Deus, lhe perdoou o derramamento do sangue de Urias e de que o rei, tendo encontrado misericórdia, deve mostrar misericórdia.” Nada é mais apropriado nem mais poderoso para nos levar a cumprir todos os deveres, sobretudo os atos de misericórdia e bondade, do que lembrar-nos do Senhor, nosso Deus.
(5.) Ao insistir tanto, essa viúva importuna finalmente obteve perdão completo para o filho, confirmado por juramento, como desejava: “Tão certo como vive o Senhor, não cairá por terra nem um só cabelo de seu filho”; isto é: “Garanto que ele não sofrerá dano algum por causa disso”.
O Filho de Davi assegurou a todos os que se colocam sob sua proteção que, ainda que sejam mortos por causa dele, nem um fio de cabelo da cabeça se perderá (Lucas 21:16-18); se perderem algo por ele, não terão prejuízo por causa dele. Não posso dizer se Davi agiu bem ao assumir a proteção de um assassino a quem as cidades de refúgio não protegeriam.
Mas, conforme os fatos lhe foram apresentados, havia boa razão para se compadecer da mãe e espaço para uma decisão favorável sobre o filho: ele matara o irmão, mas não o odiara antes; foi por provocação repentina e, pelo que se sabia, talvez em legítima defesa. O próprio acusado não alegou isso, mas cabe ao juiz defender o réu. Portanto, que a misericórdia triunfe sobre o juízo desta vez.
- Decidido o caso em favor do filho dela, era hora de aplicá-lo ao filho do rei, Absalão. A máscara começa a cair e outra cena se abre.
O rei se surpreende, mas não se desagrada, quando sua humilde suplicante de repente se torna sua repreendedora, conselheira particular, defensora de seu filho príncipe e porta-voz do povo, encarregada de lhe apresentar os sentimentos deles.
Ela pede perdão e paciência para dizer mais alguma coisa, v. 12; recebe licença para falar, pois o rei gostava muito de sua inteligência e vivacidade. (1.) Ela considera o caso de Absalão, na prática, igual ao que apresentara como sendo de seu filho.
Portanto, se o rei protegeria o filho dela, embora tivesse matado o irmão, muito mais deveria proteger o próprio filho e trazer de volta o banido, v. 13. Mutato nomine, de te fabula narratur — basta trocar o nome: a história é sobre você. Ela não menciona Absalão, nem precisava.
Davi ansiava tanto por ele e pensava tanto nele que logo percebeu a quem ela chamava de “seu banido”. Naquelas duas palavras havia dois argumentos que tocaram o coração sensível do rei: “Ele está banido e, há três anos, suporta a vergonha, o terror e todos os inconvenientes do exílio. Para alguém assim, essa punição já basta.”
“Mas ele é seu banido, seu próprio filho, parte de você mesmo, seu filho querido, a quem ama.” É verdade que os casos eram muito diferentes. Absalão não matou o irmão num acesso repentino, mas por malícia e rancor antigo; não no campo, sem testemunhas, mas à mesa, diante de todos os convidados.
Absalão tampouco era filho único como o dela: Davi tinha muitos outros filhos, inclusive um que acabara de nascer e parecia mais provável sucessor de Absalão, pois se chamava Jedidias, porque Deus o amava.
Mas Davi estava tão inclinado a essa causa que não quis examinar criticamente as diferenças; desejava mais do que ela levar ao próprio filho a decisão favorável que dera ao dela. (2.) Ela argumenta com o rei para persuadi-lo a chamar Absalão de volta do exílio, perdoá-lo e recebê-lo novamente em seu favor.
[1.] Invoca o interesse do povo de Israel nele: “O que se faz contra ele se faz contra o povo de Deus, que o vê como herdeiro do trono, ou pelo menos mantém os olhos na casa de Davi em geral, com a qual foi feita a aliança.”
“O povo não pode assistir passivamente à diminuição e ao declínio dessa casa, quando tantos de seus ramos caem no vigor da juventude.”
“Portanto, o rei age como alguém em falta: providenciará para que o nome e a memória de meu marido não sejam apagados, mas nada faz para evitar que o próprio nome corra perigo, embora valha mais e tenha mais importância que dez mil nomes como o nosso.” [2.] Invoca a mortalidade humana, v. 14: “Todos temos de morrer.”
“A morte está determinada para nós; não podemos evitá-la nem adiá-la. Estamos todos sob a necessidade fatal de morrer e, depois de mortos, não podemos voltar, como água derramada no chão. Na verdade, mesmo vivos, já perdemos a imortalidade, sem possibilidade de recuperá-la.”
“Amnom teria morrido um dia, mesmo que Absalão não o tivesse matado; e, se Absalão agora for executado por matá-lo, isso não o trará de volta à vida.” Esse argumento era fraco e serviria para impedir a punição de qualquer assassino.
Mas parece que Amnom era pouco estimado pelo povo e sua morte foi pouco lamentada; em geral, achava-se duro que uma vida tão querida como a de Absalão fosse sacrificada por outra tão pouco valorizada como a de Amnom.
[3.] Apela à misericórdia de Deus e à clemência dele para com pecadores culpados: Deus não tira a alma, ou a vida, mas planeja meios para que seu banido — seus filhos que o ofenderam e estão sujeitos à sua justiça, como Absalão está sujeito à justiça de Davi — não fique para sempre expulso de sua presença, v. 14.
Eis duas grandes provas da misericórdia de Deus para com os pecadores, apresentadas corretamente como razões para também mostrarmos misericórdia: primeiro, a paciência que Deus exerce para com eles.
Sua lei é quebrada, mas ele não tira imediatamente a vida de quem a transgride; não mata os pecadores no próprio ato, como poderia fazer com justiça, mas os suporta e espera para ser gracioso. A vingança de Deus permitiu que Absalão vivesse; por que, então, a justiça de Davi não o permitiria? Segundo, a provisão que Deus fez para restaurá-los ao seu favor.
Embora pelo pecado tenham se exilado dele, não precisam ser expulsos nem rejeitados para sempre. Pode-se fazer expiação pelos pecadores com sacrifícios. Os leprosos e outros cerimonialmente impuros eram banidos, mas havia provisão para sua purificação, para que, embora excluídos por algum tempo, não fossem expulsos definitivamente.
O estado dos pecadores é de exílio de Deus. Os pobres pecadores banidos provavelmente serão expulsos para sempre se não forem tomadas medidas para impedi-lo. Isso contraria a vontade de Deus, pois ele não quer que ninguém pereça. A sabedoria infinita planejou meios apropriados para evitá-lo; portanto, a culpa de ser rejeitado é do próprio pecador.
Essa demonstração da boa vontade de Deus para com todos nós deve nos levar a ter misericórdia e compaixão uns dos outros (Mateus 18:32, 33).
- Ela conclui seu discurso com grandes elogios ao rei e fortes expressões de confiança de que ele agirá com justiça e bondade nos dois casos, vv. 15-17. Como se o caso fosse real, ainda fala em seu próprio favor e no de seu filho, embora esteja pensando em Absalão. (1.) Diz que não teria incomodado o rei, mas o povo a assustara.
Se entendemos que fala do próprio caso, todos os vizinhos lhe fizeram temer a ruína iminente dela e do filho por causa dos vingadores do sangue; o terror deles a levou a ousar recorrer ao próprio rei.
Se entendemos que fala de Absalão, ela dá a entender ao rei, que ainda não sabia, que a nação estava tão desgostosa com a severidade dele para com Absalão que ela temia uma revolta geral. Para evitar esse grande mal, arriscou-se a falar com o próprio rei.
O medo que sentiu deve desculpar seu atrevimento. (2.) Ela o procurou com grande confiança em sua sabedoria e clemência: “Eu disse: falarei pessoalmente com o rei, sem pedir que ninguém fale por mim, pois o rei ouvirá a razão, mesmo da criatura mais insignificante como eu.”
“Ouvirá o clamor dos oprimidos e não permitirá que o mais pobre dos súditos seja despojado da herança de Deus”, isto é, “seja expulso da terra de Israel para buscar abrigo entre os incircuncisos, como Absalão, cujo caso é ainda pior.”
“Excluído da herança de Deus, ele não tem a lei e as ordenanças de Deus, que poderiam ajudá-lo a se arrepender, e corre o risco de se contaminar com a idolatria dos gentios entre os quais vive e trazer essa contaminação para casa.”
Para convencer o rei a atender ao pedido, ela expressou a esperança confiante de que sua resposta seria consoladora, como as mensagens dos anjos, mensageiros da misericórdia divina, segundo explica o bispo Patrick.
O que ela diz como elogio, o profeta diz como promessa (Zacarias 12:8): quando o fraco for como Davi, a casa de Davi será como o anjo do Senhor.
“E, para que isso aconteça, o Senhor, seu Deus, estará com você e o ajudará nesta e em toda decisão que tomar.” Grandes expectativas são grandes compromissos, sobretudo para pessoas honradas, que devem fazer o máximo para não decepcionar quem confia nelas.
- O rei suspeita que Joabe esteja por trás de tudo isso, e a mulher o confirma, vv. 18-20. (1.) O rei logo suspeitou, pois não podia imaginar que uma mulher como ela fosse procurá-lo por iniciativa própria num assunto tão importante.
Ninguém lhe parecia mais provável de tê-la instruído do que Joabe, homem sagaz e amigo de Absalão. (2.) A mulher reconheceu isso com toda honestidade: “Foi seu servo Joabe que me orientou.
Se foi bem feito, que ele receba o agradecimento; se foi mal, que ele leve a culpa.” Embora percebesse que o rei apreciara muito o que ela fizera, não tomou para si o mérito; disse a verdade como era e nos deu exemplo de fazer o mesmo, sem jamais mentir para esconder um plano bem conduzido. Tenha coragem de dizer a verdade; nada precisa de uma mentira.
Versículos 21 a 26
Absalão é Chamado de Volta. (a.C. 1029.)
Observe aqui: I. As ordens para trazer Absalão de volta. O pedido que a mulher fez a Davi lhe agradou, e a maneira como ela o conduziu foi tão engenhosa e surpreendente que o rei ficou num humor especialmente favorável: “Vá”, disse a Joabe, “traga de volta o jovem Absalão”, v. 21.
Davi já estava inclinado a favorecê-lo, mas, para preservar a honra de sua justiça, não agiria sem que alguém intercedesse por ele.
Isso ilustra os meios da graça divina. É verdade que Deus teve compaixão dos pecadores, pois não quer que ninguém pereça; contudo, reconciliou-se com eles por meio de um Mediador que intercede em favor deles e a quem deu esta ordem: “Vá, traga-os de volta”.
Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, e Cristo veio à terra do nosso exílio para nos levar a Deus. Depois de receber a ordem, Joabe: 1. Agradeceu ao rei por honrá-lo, empregando-o num assunto tão agradável a todos, v. 22.
Joabe entendeu isso como bondade para consigo e, segundo alguns, como sinal de que o rei nunca o responsabilizaria pelo assassinato que cometera. Se foi isso que pensou, enganou-se, como veremos em 1 Reis 2:5, 6. 2. Não demorou a cumprir a ordem de Davi: levou Absalão a Jerusalém, v. 23.
Não vejo como Davi poderia ser justificado por suspender a execução da antiga lei (Gênesis 9:6): “Quem derramar sangue humano, por mãos humanas terá seu sangue derramado”. Um magistrado justo não deve poupar nem irmãos nem os próprios filhos.
As leis de Deus nunca foram feitas para ser como teias de aranha, que prendem mosquinhas e deixam os insetos grandes rompê-las. Deus fez de Absalão, que sua piedade insensata poupou, um flagelo para Davi. Embora lhe permitisse voltar para sua casa, proibiu-lhe a corte e não quis vê-lo, v. 24.
Impôs-lhe essa restrição: (1.) pela própria honra, para não parecer apoiar um criminoso tão grave nem perdoá-lo com facilidade; (2.) para humilhar Absalão ainda mais. Talvez tivesse ouvido alguma coisa sobre a conduta dele quando Joabe o foi buscar, que lhe desse motivos demais para pensar que ele não estava realmente arrependido.
Por isso, impôs-lhe essa demonstração de desagrado, para despertá-lo à consciência de seu pecado e ao pesar por ele, e para que se reconciliasse com Deus. Assim que Davi soubesse dessa reconciliação, sem dúvida teria prazer em recebê-lo novamente em seu favor.
II. O relato aproveita a ocasião para descrever Absalão. Nada se diz de sua sabedoria ou piedade. Embora fosse filho de um pai tão devoto, não lemos nada sobre sua devoção. Os pais não podem dar graça aos filhos, ainda que lhes deem a melhor educação.
Tudo o que se diz dele é: 1. que era muito bonito; não havia em todo Israel ninguém que se igualasse a ele em beleza, v. 25. É um elogio pobre para alguém sem outra qualidade valiosa. Belos são os que praticam o bem.
Muitas almas impuras e deformadas habitam corpos formosos; assim era a de Absalão, manchada de sangue e deformada por sua desafeição desnatural ao pai e ao rei. Seu corpo não tinha defeito, mas sua mente só tinha feridas e contusões. Talvez a beleza fosse uma das razões de seu pai ser tão afeiçoado a ele e protegê-lo da justiça.
Quem se agrada mais da beleza dos filhos que de sua virtude tem motivos para temer aflições por causa deles. 2. Tinha cabelos muito bonitos. Talvez fosse o comprimento, a cor ou a maciez extraordinária que os tornasse valiosos e um grande adorno, v. 26.
O texto menciona seu cabelo não como o de um nazireu — ele estava longe de tamanha disciplina —, mas como o de um homem vaidoso. Deixava-o crescer até se tornar um fardo pesado, e não o cortava enquanto conseguia suportá-lo.
Assim como o orgulho não sente frio, também não sente calor; ninguém se queixa do que o alimenta e satisfaz, mesmo quando causa grande desconforto.
Quando cortava o cabelo em determinadas épocas, fazia questão de pesá-lo, para que todos vissem quanto excedia o cabelo dos outros. Pesava duzentos siclos, o que alguns calculam como três libras e duas onças de nosso sistema de pesos, cerca de 1,4 quilo.
Considerando o óleo e o pó — especialmente se, como diz Josefo, costumavam aplicar pó de ouro —, o bispo Patrick não considera esse peso nada impossível. Esse cabelo bonito acabou sendo sua forca, 2 Samuel 18:9.
- Sua família começou a crescer. É provável que tenha passado bastante tempo sem filhos; então, desesperado por ter um, ergueu a coluna mencionada em 2 Samuel 18:18 para perpetuar seu nome. Mais tarde, teve três filhos e uma filha, v. 27.
Ou talvez, enquanto preparava a rebelião, seus filhos tenham sido todos mortos pela justa mão de Deus; por isso ele ergueu aquele monumento.
Versículos 28 a 33
O Retorno de Absalão. (a.C. 1029.)
Durante três anos, Absalão viveu exilado longe do sogro; depois, passou mais dois anos como prisioneiro em liberdade dentro da própria casa. Nas duas situações foi tratado melhor do que merecia.
Ainda assim, seu espírito não se humilhou, seu orgulho não foi abatido e, em vez de agradecer por ter a vida poupada, julgava-se profundamente injustiçado por não ser reintegrado a todos os seus postos na corte.
Se tivesse se arrependido de verdade, teria gostado de estar longe dos prazeres da corte e de viver isolado e recolhido em sua casa, sobretudo por estar em Jerusalém, a cidade santa. Se um assassino precisa continuar vivo, que viva para sempre em reclusão. Mas Absalão não suportava essa humilhação justa e branda.
Queria ver o rosto do rei, alegando que era por amá-lo, mas na verdade porque queria uma oportunidade para tomar o lugar dele. Não podia causar dano ao pai antes de se reconciliar com ele; por isso, esse foi o primeiro passo de seu plano. A serpente não podia picar de novo antes de ser aquecida no peito do pai.
Conseguiu isso não com falsas demonstrações de submissão e promessas de mudança, mas — quem diria? — com insultos e ofensas. 1. Com sua atitude insolente para com Joabe, levou-o a interceder por ele. Mandou chamá-lo uma e outra vez para conversar, pois não ousava ir até ele; mas Joabe não quis ir, v. 29.
Provavelmente Absalão não reconhecera com gratidão a bondade que Joabe lhe fizera ao trazê-lo de volta a Jerusalém, como Joabe achava que deveria. Os orgulhosos tratam cada serviço que recebem como se fosse uma dívida.
Seria de esperar que alguém na situação de Absalão enviasse a Joabe uma mensagem cordial e lhe oferecesse uma generosa gratificação, pois os homens da corte esperam presentes generosos. Em vez disso, ordenou aos servos que incendiassem o campo de cevada de Joabe, v. 30, uma maldade que dificilmente poderia ser pior.
Sansão não imaginou ofensa maior contra os filisteus. É estranho que Absalão pensasse que prejudicar Joabe o convenceria a ajudá-lo, ou que pretendesse conquistar o favor do rei e do povo mostrando-se tão malicioso e perverso, inimigo do bem público — pois o fogo poderia alastrar-se à cevada dos outros. Mesmo assim, com esse recurso, fez Joabe ir até ele, v. 31.
Assim Deus, por meio das aflições, traz a si os que se mantinham distantes. A lei obrigava Absalão a restituir o prejuízo (Êxodo 22:6), mas não lemos que ele tenha oferecido reparação nem que Joabe a tenha exigido.
Talvez Joabe achasse que não poderia justificar sua recusa em ir falar com ele; por isso Absalão julgou que poderia justificar o modo de fazê-lo ir.
Joabe talvez tenha se assustado com a audácia e a fúria surpreendentes de Absalão, receando que ele já tivesse influência suficiente sobre o povo para se arriscar às atitudes mais ousadas; caso contrário, não teria feito aquilo. Assim, Joabe não apenas suportou o prejuízo, como foi cumprir a missão junto ao rei. Veja o que alguns conseguem por meio de ameaças e de atitudes autoritárias.
- Com sua mensagem insolente ao rei — não consigo chamá-la de outra coisa —, recuperou seu lugar na corte, para ver o rosto do rei, isto é, para tornar-se conselheiro íntimo (Ester 1:14). (1.) Sua mensagem foi arrogante e imperiosa, muito imprópria para um filho ou súdito, v. 32.
Ele menosprezou o favor que recebera quando o tiraram do exílio e o devolveram à própria casa, em Jerusalém: “Por que voltei de Gesur?” Negou seus crimes, embora fossem notórios, e recusou-se a admitir culpa; deu a entender que, por isso, fora injustiçado pela repreensão recebida.
Desafiou a justiça do rei: “Que ele me mate, se tiver coração para isso”, sabendo que Davi o amava demais para fazê-lo. (2.) Mesmo com essa mensagem, alcançou seu objetivo, v. 33. A forte afeição de Davi por ele o levou a interpretar tudo como grande respeito pelo pai e um desejo sincero de reconquistar seu favor, quando, infelizmente, era exatamente o contrário.
Veja como homens sábios e bons podem ser facilmente enganados pelos próprios filhos quando estes têm más intenções, sobretudo se os amam cegamente. Com a postura do corpo, Absalão demonstrou submissão ao pai: prostrou-se com o rosto em terra, e Davi selou o perdão com um beijo.
Se o amor de um pai o levou a reconciliar-se com um filho impenitente, por que pecadores arrependidos questionariam a compaixão daquele que é o Pai das misericórdias? Se Efraim se lamenta, logo Deus se compadece dele, com toda a ternura de um pai: Ele é um filho querido, uma criança agradável (Jeremias 31:20).