Matthew Henry

2 Samuel 12

Argumento

O capítulo anterior nos deu o relato do pecado de Davi; este nos dá o relato de seu arrependimento. Embora tenha caído, ele não foi completamente derrubado, mas, pela graça de Deus, recuperou-se e encontrou misericórdia diante de Deus.

Aqui está: I. Seu convencimento, por meio de uma mensagem que Natã lhe trouxe da parte de Deus, uma parábola que o levou a condenar a si mesmo (vv. 1-6), e a aplicação da parábola, em que Natã o acusou do pecado (vv. 7-9) e pronunciou a sentença contra ele, vv. 10-12.

II. Seu arrependimento e perdão, com uma ressalva, v. 13, 14. III. A doença e a morte da criança, e a conduta de Davi enquanto ela esteve doente e depois de morta (vv. 15-23); em ambas as situações, Davi deu prova de seu arrependimento.

IV. O nascimento de Salomão e a mensagem graciosa de Deus a respeito dele, pela qual Deus deu prova de sua reconciliação com Davi, v. 24, 25. V. A tomada de Rabá (vv. 26-31), mencionada como mais um exemplo de que Deus não tratou Davi segundo os seus pecados.

Versículos 1 a 14

A Parábola de Natã; o Arrependimento de Davi. (a.C. 1036.)

Parece que passou muito tempo entre Davi ter cometido adultério com Bate-Seba e ser levado ao arrependimento por isso. Pois, quando Natã foi enviado a ele, a criança já havia nascido (v. 14), de modo que Davi permaneceu cerca de nove meses sob a culpa daquele pecado e, pelo que tudo indica, sem se arrepender.

O que devemos pensar do estado de Davi durante todo esse tempo? Podemos imaginar que seu coração nunca o tenha acusado, ou que ele nunca tenha lamentado aquilo em secreto diante de Deus?

Eu gostaria de crer que sim, e que Natã foi enviado a ele logo após o nascimento da criança, quando o fato se tornou publicamente conhecido e comentado, para levá-lo a confessar o pecado abertamente, para a glória de Deus e a advertência de outros, e para que recebesse, por meio de Natã, absolvição com certas ressalvas.

Mas, durante esses nove meses, podemos supor que seus consolos e o exercício de suas graças ficaram suspensos, e sua comunhão com Deus, interrompida. É certo que, durante todo aquele tempo, ele não compôs salmos; sua harpa estava desafinada, e sua alma era como uma árvore no inverno, viva apenas na raiz.

Por isso, depois que Natã esteve com ele, Davi orou: “Restitui-me a alegria da tua salvação e abre os meus lábios” (Salmos 51:12, 15). Repare:

I. O mensageiro que Deus lhe enviou. As últimas palavras do capítulo anterior nos disseram que o que Davi havia feito desagradou ao Senhor. Seria de esperar que, em seguida, o Senhor enviasse inimigos para invadi-lo, terrores para se apoderarem dele e mensageiros da morte para prendê-lo.

Não; enviou-lhe um profeta, Natã, seu amigo fiel e confidente, para instruí-lo e aconselhá-lo, v. 1. Davi não mandou chamar Natã (embora nunca tivesse precisado tanto de seu confessor como agora); Deus enviou Natã a Davi.

Repare: ainda que Deus permita que seu povo caia em pecado, não permitirá que permaneça nele. “Prosseguiu obstinadamente no caminho do seu coração” e, se fosse deixado a si mesmo, teria vagado sem fim; mas Deus diz: “Vi os seus caminhos e o sararei” (Isaías 57:17, 18).

Ele vem atrás de nós antes que o busquemos; do contrário, certamente estaríamos perdidos. Natã era o profeta por meio de quem Deus lhe havia dado notícia de suas bondosas intenções para com ele (2 Samuel 7:4), e agora, pela mesma mão, envia-lhe esta mensagem de ira.

A palavra de Deus, na boca de seus ministros, deve ser recebida, quer fale de terror, quer de consolo. Natã obedeceu à visão celestial e foi cumprir a missão de Deus junto a Davi.

Não disse: “Davi pecou; não me aproximarei dele”. Não; “não o considere inimigo, mas admoeste-o como irmão” (2 Tessalonicenses 3:15). Não disse: “Davi é rei; não ouso repreendê-lo”. Não; se Deus o envia, ele “põe o rosto como pederneira” (Isaías 50:7).

II. A mensagem que Natã lhe transmitiu para convencê-lo:

  1. Valendo-se de uma parábola, Natã fez um rodeio. A Davi, ela pareceu uma queixa de Natã contra um súdito que havia prejudicado seu pobre vizinho, para que Davi reparasse a injustiça e punisse o culpado.

É provável que Natã costumasse procurá-lo com assuntos assim, e isso tornou a parábola menos suspeita. Convém que aqueles que têm influência junto aos príncipes e livre acesso a eles intercedam pelos injustiçados, para que recebam justiça.

(1.) Natã mostrou a Davi uma grave injustiça que um homem rico cometera contra um vizinho honesto, incapaz de enfrentá-lo: o rico tinha muitos rebanhos e manadas (v. 2); o pobre tinha apenas uma cordeirinha. Assim o mundo é repartido de modo tão desigual; ainda assim, a distribuição é feita com sabedoria, justiça e bondade infinitas, para que o rico aprenda a caridade e o pobre, o contentamento.

Esse pobre tinha apenas uma cordeira, uma cordeirinha, sem recursos para comprar ou manter outras. Mas era uma cordeirinha criada em casa, como dizemos; cresceu junto dos filhos dele (v. 3).

Ele tinha carinho por ela, e ela se acostumara com ele em todos os momentos. O rico, precisando de um cordeiro para oferecer a um amigo, tomou à força a cordeirinha do pobre e a usou (v. 4).

Talvez tenha feito isso por avareza, porque não queria usar o que era seu; ou, antes, por luxo, pois imaginou que a cordeirinha, criada com tanto cuidado, comendo e bebendo como uma criança, seria alimento mais delicado que qualquer um dos seus e teria sabor melhor.

(2.) Com isso, Natã mostrou-lhe a maldade do pecado que cometera ao macular Bate-Seba. Davi tinha muitas esposas e concubinas, que mantinha à distância, como os ricos mantêm seus rebanhos nos campos.

Se tivesse tido apenas uma, querida para ele como a cordeirinha para seu dono, se ela lhe tivesse sido querida como “a corça amorosa e a gazela graciosa”, seus seios o teriam satisfeito em todo o tempo, e ele não teria procurado outra (Provérbios 5:19).

O casamento é um remédio contra a fornicação, mas casar-se com muitas não é; pois, uma vez transgredida a lei da unidade, a luxúria que se alimenta dificilmente se limita.

Urias, como o pobre, tinha apenas uma esposa, que era para ele como a própria alma e sempre repousava em seu seio, pois ele não tinha outra nem desejava outra ali.

O viajante, ou homem de passagem, era, segundo o bispo Patrick explica com base nos escritores judeus, a imaginação, disposição ou desejo maligno que entrou no coração de Davi. Ele poderia tê-la satisfeito com alguma das suas, mas nada lhe serviria senão a querida de Urias.

Eles observam que essa disposição maligna é chamada de viajante porque, no começo, é apenas isso; com o tempo, torna-se hóspede e, por fim, domina a casa. Pois aquele que no início do versículo é chamado de viajante é chamado, no fim, de homem (ish, isto é, marido).

Alguns, porém, observam que, no coração de Davi, a luxúria era apenas como um viajante que fica por uma noite; ela não habitava continuamente nele nem o governava.

(3.) Por meio da parábola, Natã levou Davi a pronunciar uma sentença contra si mesmo. Davi supôs que se tratava de um caso real e não duvidou de sua veracidade, pois o ouvira do próprio Natã. Então julgou imediatamente o culpado e confirmou a decisão com um juramento (v. 5, 6).

[1.] Por sua injustiça ao tomar a cordeirinha, deveria restituir quatro vezes, conforme a lei (Êxodo 22:1): quatro ovelhas por uma.

[2.] Por sua tirania e crueldade, e pelo prazer que teve em maltratar um pobre, deveria ser morto.

Se um pobre roubar de um rico para saciar a fome, terá de restituir, ainda que isso lhe custe todos os bens de sua casa (Provérbios 6:30, 31; Salomão compara ali o pecado do adultério com esse, v. 32).

Mas, se um rico roubar por puro gosto de roubar, não por necessidade, mas por devassidão, apenas para agir com arrogância e causar aflição, merece morrer, pois para ele restituir não é castigo, ou é quase nenhum.

Se a sentença parecer severa demais, deve-se atribuí-la à dureza momentânea do ânimo de Davi, culpado e ainda sem ter recebido misericórdia.

  1. Por fim, Natã o confrontou com a aplicação da parábola. Ao começar com uma parábola, mostrou prudência; é muito necessária a prudência ao repreender.

Como aconteceu aqui, a repreensão é bem conduzida quando o culpado pode ser levado, antes de perceber, a condenar a si mesmo.

Mas, na aplicação, Natã mostra fidelidade e trata o próprio rei Davi de modo tão franco e direto como trataria qualquer pessoa comum.

Em termos claros: “Você é o homem que fez essa injustiça, e outra muito maior, contra o seu próximo; portanto, pela sua própria sentença, merece morrer e será julgado pelas suas próprias palavras.

Merecia morrer aquele que tomou o cordeiro do vizinho? E você não merece, por ter tomado a esposa do seu vizinho? Embora ele tenha tomado o cordeiro, não fez o dono perder a vida, como você fez; portanto, muito mais você merece morrer”.

Natã agora fala diretamente da parte de Deus e em nome dele. Começa assim: “Assim diz o Senhor Deus de Israel”, um nome sagrado e venerável para Davi, que exigia sua atenção.

Natã não fala mais como suplicante em favor de um pobre, mas como embaixador do grande Deus, que não faz acepção de pessoas.

(1.) Por meio de Natã, Deus lembra Davi das grandes coisas que havia feito e planejado para ele: ungiu-o rei e o preservou para o reino (v. 7); deu-lhe autoridade sobre a casa e a família de seu antecessor e sobre outros que haviam sido seus senhores, Nabal entre eles.

Deus lhe dera a casa de Israel e Judá. A riqueza do reino estava a seu dispor, e todos estavam dispostos a agradá-lo.

Mais ainda, Deus estava pronto a lhe conceder qualquer coisa para que se sentisse satisfeito: “Eu te teria dado tais e tais coisas” (v. 8). Veja como Deus é generoso em seus dons; nele não somos limitados.

Onde deu muito, ainda assim dá mais. A generosidade de Deus para conosco agrava nossa insatisfação e nosso desejo pelo fruto proibido.

É ingratidão cobiçar aquilo que Deus proibiu, enquanto temos liberdade para pedir o que Deus prometeu, e isso basta.

(2.) Deus o acusa de profundo desprezo pela autoridade divina, por causa dos pecados que cometera: “Por que, presumindo da tua dignidade e do teu poder reais, desprezaste o mandamento do Senhor?” (v. 9).

Essa é a origem e a maldade do pecado: fazer pouco caso da lei divina e daquele que a fez, como se a obrigação dela fosse fraca, seus preceitos, insignificantes, e suas ameaças, nada temíveis.

Embora ninguém tenha escrito sobre a lei de Deus com mais honra do que Davi, neste caso ele é justamente acusado de desprezá-la.

O adultério com Bate-Seba, que iniciou o mal, não é mencionado, talvez porque ele já estivesse convencido desse pecado; mas [1.] o assassinato de Urias é mencionado duas vezes.

“Você matou Urias à espada: não com a sua espada, mas, o que é igualmente grave, com a sua pena, ao ordenar que fosse colocado na linha de frente da batalha.”

Os que planejam a maldade e ordenam que seja praticada são tão culpados quanto os que a executam. A acusação é repetida com agravante: “Você o matou à espada dos filhos de Amom”, aqueles inimigos incircuncisos de Deus e de Israel.

[2.] O casamento com Bate-Seba também é mencionado duas vezes, porque Davi pensava que não havia mal nisso (v. 9): “Tomaste a mulher dele para ser tua mulher”, e novamente no v. 10.

Casar-se com aquela que ele já havia maculado e cujo marido havia matado foi um insulto à instituição do casamento: assim, o casamento não apenas encobria tais vilanias, mas, de certo modo, as consagrava.

Em tudo isso, ele desprezou a palavra do Senhor (assim está no hebraico): não apenas o mandamento geral que proibia essas coisas, mas também a promessa específica que Deus lhe enviara algum tempo antes por meio de Natã, de que lhe edificaria uma casa.

Se Davi tivesse valorizado e reverenciado devidamente essa promessa sagrada, não teria maculado sua casa com luxúria e sangue.

(3.) Deus anuncia que, por causa desse pecado, uma sequência de juízos recairá sobre a família de Davi (v. 10): “A espada jamais se apartará da tua casa”: nem durante a vida dele, nem depois; na maior parte do tempo, ele e seus descendentes estarão envolvidos em guerras. Ou isso aponta para os assassinatos entre seus filhos: Amnom, Absalão e Adonias, todos mortos à espada.

Deus havia prometido que sua misericórdia não se apartaria dele nem de sua casa (2 Samuel 7:15), mas aqui ameaça que a espada não se apartará. A misericórdia e a espada podem coexistir? Sim; alguém pode sofrer aflições grandes e prolongadas sem ser excluído da graça da aliança.

A razão dada é: “Porque me desprezaste”. Repare: aqueles que desprezam a palavra e a lei de Deus desprezam o próprio Deus e serão tidos em pouca estima.

Em particular, é ameaçado [1.] que seus filhos seriam sua aflição: “Suscitarei da tua própria casa o mal contra ti”. O pecado traz problemas à família, e muitas vezes um pecado é feito castigo de outro.

[2.] Suas esposas seriam sua vergonha: por um ato de vilania sem paralelo, seriam publicamente desonradas diante de todo o Israel (v. 11, 12).

Não se diz que isso seria feito pelo próprio filho de Davi, para que a predição, por ser tão clara, não impedisse seu cumprimento; mas foi Absalão quem o fez, por conselho de Aitofel (2 Samuel 16:21, 22).

Aquele que maculou a esposa do próximo teria a própria esposa maculada, pois esse pecado costumava ser punido assim, como se vê na imprecação de Jó: “Então moa a minha mulher para outro” (Jó 31:10), e naquela ameaça de Oseias 4:14.

O pecado foi secreto e cuidadosamente ocultado; o castigo, porém, seria público e cuidadosamente proclamado, para vergonha de Davi. Seu pecado no caso de Urias, embora cometido muitos anos antes, seria então lembrado e comentado por todos.

Assim como um rosto corresponde a outro no espelho, muitas vezes o castigo corresponde ao pecado: aqui houve sangue por sangue e impureza por impureza.

Desse modo, Deus mostraria quanto odeia o pecado, até mesmo no próprio povo, e que, onde quer que o encontre, não o deixará sem punição.

  1. A confissão arrependida de Davi depois disso. Ele não diz uma palavra para se desculpar ou diminuir a gravidade do pecado, mas o reconhece livremente: “Pequei contra o Senhor” (v. 13).

É provável que tenha dito mais nesse sentido, mas isso basta para mostrar que as palavras de Natã o humilharam de verdade e que ele se submeteu à convicção.

Ele reconhece a culpa: “Pequei”; e a agrava: “Foi contra o Senhor”. É nesse ponto que insiste no salmo que compôs naquela ocasião: “Contra ti, contra ti somente pequei” (Salmos 51:4).

  1. O perdão de Davi é declarado após essa confissão arrependida, mas com uma ressalva. Davi disse “Pequei”, e Natã percebeu seu arrependimento sincero:

(1.) Então, em nome de Deus, assegurou-lhe que seu pecado estava perdoado: “O Senhor também afastou o teu pecado da vista do seu olho vingador; não morrerás” — isto é, “não morrerás eternamente nem serás afastado para sempre de Deus, como terias sido se ele não tivesse afastado o pecado”.

Assim, a obrigação de sofrer a punição é cancelada e anulada. “Não entrará em condenação”: essa é a natureza do perdão.

“A tua iniquidade não será a tua ruína eterna. A espada não se apartará da tua casa, mas [1.] não te matará; chegarás em paz à sepultura.”

Davi merecia morrer como adúltero e assassino, mas Deus não o eliminaria, embora pudesse fazê-lo com justiça.

[2.] “Embora todos os teus dias sejas castigado pelo Senhor, não serás condenado com o mundo.” Veja como Deus está pronto para perdoar o pecado.

Talvez Davi se refira a este caso em Salmos 32:5: “Eu disse: Confessarei, e tu perdoaste”. Que os grandes pecadores não desesperem de encontrar misericórdia em Deus se de fato se arrependerem; pois quem é Deus semelhante a ele, que perdoa a iniquidade?

(2.) Ainda assim, Natã pronuncia uma sentença de morte contra a criança (v. 14). Veja a soberania de Deus! O pai culpado vive, e a criança inocente morre; mas todas as almas lhe pertencem, e ele pode glorificar a si mesmo em suas criaturas da maneira que quiser.

[1.] Por seu pecado, Davi havia lesado a honra de Deus e dado ocasião aos inimigos do Senhor para blasfemarem.

O povo ímpio daquela geração, os incrédulos, idólatras e profanos, triunfaria com a queda de Davi e falaria mal de Deus e de sua lei, ao ver alguém que professava tanta honra por ambos ser culpado de enormidades tão repugnantes.

Diria: “Estes são os que professam a fé de vocês! Este é o homem que ora, canta salmos e é tão devoto! De que servem tais exercícios, se não impedem os homens de cometer adultério e assassinato?”

Também diriam: “Saul não foi rejeitado por uma falta menor? Então por que Davi ainda deve viver e reinar?” Não consideravam que Deus não vê como o homem vê, mas sonda o coração.

Até hoje há quem insulte a Deus e permaneça endurecido no pecado por causa do exemplo de Davi.

É verdade que ninguém tem motivo justo para falar mal de Deus, de sua palavra ou de seus caminhos por causa de Davi; quem o faz peca. Ainda assim, será chamado a prestar contas aquele que pôs a pedra de tropeço no caminho deles e lhes deu, embora não a causa, ao menos pretexto para a censura.

Repare: há um grande mal nos pecados escandalosos dos que professam a religião e sua relação com Deus: eles fornecem aos inimigos de Deus e da religião motivo para censura e blasfêmia (Romanos 2:24).

[2.] Por isso, Deus defenderia sua honra, mostrando a Davi seu desagrado por esse pecado e fazendo o mundo ver que, embora ame Davi, odeia o pecado dele. Escolheu fazê-lo por meio da morte da criança.

O senhorio pode penhorar bens em qualquer parte da propriedade que escolher. Talvez as doenças e mortes de crianças não fossem tão comuns naqueles dias como são agora; por isso, sendo algo incomum, seria um sinal ainda mais evidente do desagrado de Deus, conforme a palavra que ele muitas vezes dissera: visitaria nos filhos os pecados dos pais.

Versículos 15 a 25

A Humilhação de Davi; o Nascimento de Salomão. (a.C. 1036.)

Depois de transmitir sua mensagem, Natã não permaneceu na corte, mas foi para casa, provavelmente para orar por Davi, a quem havia pregado. Ao usá-lo como instrumento para levar Davi ao arrependimento e como anunciador tanto da misericórdia quanto do juízo, Deus honrou o ministério e engrandeceu sua palavra acima de todo o seu nome.

Davi deu a um de seus filhos com Bate-Seba o nome de Natã, em honra ao profeta (1 Crônicas 3:5); foi desse filho que Cristo, o grande profeta, descendeu em linha direta (Lucas 3:31).

Quando Natã se retirou, é provável que Davi também tenha se recolhido e composto o Salmo 51. Nele, embora tivesse recebido a certeza de que seu pecado fora perdoado, ora com fervor pelo perdão e lamenta profundamente seu pecado; pois é então, quando Deus se reconcilia com eles, que os verdadeiros arrependidos sentem vergonha do que fizeram (Ezequiel 16:63).

Aqui está: I. A doença da criança: “O Senhor a feriu, e ficou muito doente”; talvez com convulsões ou outra enfermidade terrível, v. 15. As doenças e mortes de crianças que não pecaram à semelhança da transgressão de Adão, sobretudo quando às vezes ocorrem em circunstâncias tão tristes, são provas palpáveis do pecado original em que são concebidas.

II. A humilhação de Davi diante desse sinal do desagrado de Deus e a súplica que fez a Deus pela vida da criança (v. 16, 17): “Jejuou e passou a noite deitado no chão; não permitiu que nenhum de seus servos o alimentasse nem o ajudasse a se levantar.” Isso era prova da sinceridade de seu arrependimento.

  1. Assim ficou claro que estava disposto a suportar a vergonha do pecado, a tê-lo sempre diante de si e a ser continuamente censurado por ele; pois, se vivesse, aquela criança seria uma lembrança constante do pecado, tanto para ele como para os outros. Por isso, longe de desejar sua morte, como a maioria desejaria em tais circunstâncias, ele orou fervorosamente por sua vida.

Os verdadeiros arrependidos suportam com paciência a vergonha de sua juventude e de suas paixões juvenis (Jeremias 31:19).

  1. Isso revelou um espírito muito terno e compassivo, além de grande humanidade, acima do que costuma haver nos homens, especialmente nos homens de guerra, em relação às crianças, até mesmo às próprias. Esse foi outro sinal de um espírito quebrantado e contrito. Os arrependidos são compassivos.

  2. Com isso, ele demonstrou grande preocupação com o outro mundo, o que é prova de arrependimento.

Natã lhe dissera que certamente a criança morreria; ainda assim, enquanto ela estava ao alcance da oração, Davi intercedeu fervorosamente por ela, principalmente, podemos supor, para que sua alma estivesse segura e feliz no outro mundo, para que o pecado dele não se voltasse contra a criança e para que ela não sofresse por causa disso no estado futuro.

  1. Revelou santo temor de Deus e do seu desagrado. Suplicava sobretudo que a criança não morresse, pois a morte dela seria sinal da ira de Deus contra ele e sua casa e cumprimento de uma ameaça.

Por isso, orou com tanto fervor para que, se fosse da vontade de Deus, ela vivesse, pois isso seria para ele um sinal de que Deus se reconciliara com ele. “Senhor, não me repreendas na tua ira ardente” (Salmos 6:1).

III. A morte da criança: ela morreu no sétimo dia (v. 18), quando tinha sete dias de idade e, portanto, ainda não fora circuncidada. Talvez Davi tenha interpretado isso como outro sinal do desagrado de Deus: ela morreu antes de receber o selo da aliança. Ainda assim, ele não duvidou por isso de que fosse feliz, pois os benefícios da aliança não dependem dos selos.

Os servos de Davi, julgando-o por si mesmos, tiveram medo de lhe dizer que a criança havia morrido, concluindo que então ele se afligiria ainda mais. Assim, ele só soube quando perguntou (v. 19).

IV. A maravilhosa calma e serenidade de espírito de Davi quando soube que a criança havia morrido. Repare:

  1. O que ele fez. (1.) Deixou de lado as manifestações de sua tristeza, lavou-se, ungiu-se e vestiu roupas de linho limpas, para comparecer com dignidade diante de Deus na casa de Deus.

(2.) Foi ao tabernáculo adorar, como Jó quando soube da morte de seus filhos. Foi reconhecer a mão de Deus na aflição, humilhar-se diante dela e submeter-se à santa vontade de Deus; agradecer-lhe por ter poupado a própria vida e perdoado seu pecado; e orar para que Deus não continuasse a contender com ele nem despertasse toda a sua ira.

Alguém está aflito? Que ore. O choro nunca deve impedir a adoração. (3.) Depois, foi para casa e se alimentou, como alguém que encontrou benefício em sua religião no dia da aflição; pois, tendo adorado, comeu, e seu semblante já não estava triste.

  1. A razão que deu para sua atitude. Seus servos acharam estranho que ele se afligisse tanto enquanto a criança estava doente e aceitasse com tanta calma sua morte. Perguntaram-lhe o motivo (v. 21), e ele lhes deu uma explicação clara de sua conduta.

(1.) Enquanto a criança estava viva, ele considerou seu dever suplicar insistentemente o favor divino em favor dela, v. 22. Natã de fato dissera que ela morreria; mas, pelo que Davi sabia, a ameaça poderia ser condicional, como a que dizia respeito a Ezequias.

Diante de sua profunda humilhação e de sua fervorosa oração, aquele que tantas vezes ouvira a voz de seu choro poderia ter por bem revogar a sentença e poupar a criança: “Quem sabe se Deus ainda terá misericórdia de mim?”

Deus nos permite insistir com ele em oração por bênçãos específicas, confiantes em seu poder e em sua misericórdia geral, embora não tenhamos uma promessa específica em que nos apoiar. Não podemos ter certeza; ainda assim, oremos, pois quem sabe se Deus terá misericórdia de nós neste ou naquele caso particular?

Quando nossos parentes e amigos adoecem, a oração da fé tem prevalecido muito; enquanto há vida, há esperança e, enquanto há esperança, há espaço para orar.

(2.) Depois que a criança morreu, ele considerou igualmente seu dever estar satisfeito com a decisão divina a respeito dela (v. 23): “Agora, por que eu jejuaria?” Duas coisas contiveram sua tristeza.

[1.] “Não posso fazê-la voltar”; e ainda: “Ela não voltará para mim”. Os mortos estão fora do alcance da oração, e nossas lágrimas não lhes trazem proveito. Nem com choro nem com oração podemos fazê-los voltar a esta vida. Então por que jejuar? Para que serviria esse desperdício? Ainda assim, Davi jejuou e chorou por Jônatas depois da morte dele, em sua honra.

[2.] “Eu irei até ela.” Primeiro, irei para junto dela na sepultura. Repare: pensar em nossa própria morte deve moderar a tristeza pela morte de nossos parentes. É o destino comum; em vez de lamentar a morte deles, devemos pensar na nossa. Qualquer que seja a perda que tenhamos agora, em breve morreremos e iremos para junto deles.

Segundo, irei para junto dela no céu, num estado de bem-aventurança, que até mesmo os santos do Antigo Testamento esperavam de algum modo. Pais piedosos têm grande razão para esperar que a alma de seus filhos que morrem na infância esteja bem no outro mundo; pois a promessa é para nós e para a nossa descendência, e será cumprida àqueles que não fecham a própria porta, como as crianças não fazem.

Favores sunt ampliandi — os favores recebidos devem produzir a esperança de outros. Deus chama de filhos aqueles que nascem para ele; e, se são dele, ele os salvará.

Isso pode nos consolar quando nossos filhos nos são tirados pela morte: eles estão mais bem providos, tanto em trabalho como em riqueza, do que poderiam estar neste mundo. Em breve estaremos com eles, para nunca mais nos separarmos.

V. O nascimento de Salomão. Embora o casamento de Davi com Bate-Seba tivesse desagradado ao Senhor, Deus não lhe ordenou que se divorciasse dela. Muito pelo contrário: deu-lhe por meio dela o filho ao qual seria transmitida a aliança da realeza.

Sem dúvida, Bate-Seba ficou profundamente aflita ao sentir o peso do pecado e dos sinais do desagrado de Deus. Mas, tendo Deus restaurado a Davi as alegrias da salvação, ele a consolou com os mesmos consolos com que Deus o havia consolado (v. 24): “Consolou Bate-Seba”.

Tanto ele como ela tinham motivo para se consolar com os sinais da reconciliação de Deus com eles. 1. Pela providência divina, Deus lhes deu um filho, não como o anterior, dado com ira e tomado em cólera, mas como uma criança concedida com graça e inscrita entre os vivos em Jerusalém.

Deram-lhe o nome de Salomão, “pacífico”, porque seu nascimento era sinal de que Deus estava em paz com eles, por causa da prosperidade que lhe seria transmitida e porque ele seria um tipo de Cristo, o príncipe da paz.

Deus lhes tirara um filho, mas agora lhes dera outro em seu lugar, como Sete no lugar de Abel (Gênesis 4:25). Assim, Deus muitas vezes equilibra as tristezas de seu povo com consolos na mesma coisa em que o afligiu, colocando um em oposição ao outro.

Davi se submetera com muita paciência à vontade de Deus na morte da outra criança; agora, Deus compensou a perda, com grande vantagem para ele, pelo nascimento desta.

O caminho para que os consolos que recebemos das criaturas sejam mantidos, restaurados ou compensados de outra maneira é entregá-los a Deus com alegria.

  1. Pela graça de Deus, ele reconheceu e favoreceu especialmente esse filho: “O Senhor o amou” (v. 24, 25) e ordenou, por meio do profeta Natã, que fosse chamado Jedidias, “amado do Senhor”.

Embora fosse descendente de malfeitores (pois Davi e Bate-Seba o eram), a aliança foi tão bem ordenada e a coroa, transmitida por ela, que eliminava toda perda de direitos por condenação e toda incapacidade hereditária. Isso significava que os que por natureza eram filhos da ira e da desobediência seriam, pela aliança da graça, não apenas reconciliados, mas também recebidos como favoritos.

Com esse nome, ele prefigurou Jesus Cristo, o bendito Jedidias, o Filho amado de Deus, a respeito de quem Deus declarou repetidas vezes: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo”.

Versículos 26 a 31

A Conquista de Rabá. (a.C. 1036.)

Temos aqui o relato da conquista de Rabá e de outras cidades dos amonitas. Embora isso apareça aqui, depois do nascimento da criança de Davi, ainda assim é muito provável que tenha acontecido bem antes, pouco depois da morte de Urias, talvez durante os dias em que Bate-Seba o pranteava.

Repare: 1. Deus foi muito gracioso ao dar a Davi essa grande vitória sobre seus inimigos, apesar do pecado que ele cometera naquele mesmo período em que estava envolvido na guerra e do uso perverso que fizera da espada dos filhos de Amom para assassinar Urias.

Com justiça, Deus poderia ter feito daquela espada, dali em diante, uma praga para Davi e seu reino; ainda assim, quebrou-a e tornou vitoriosa a espada de Davi, mesmo antes de ele se arrepender, para que a bondade de Deus o levasse ao arrependimento.

Davi tinha bons motivos para reconhecer que Deus não o tratou segundo os seus pecados (Salmos 103:10).

  1. Joabe agiu com muita honestidade e honra. Depois de tomar a cidade das águas, a cidade real, onde ficava o palácio e de onde se abastecia o resto da cidade (que, portanto, seria obrigada a se render rapidamente quando o abastecimento fosse cortado), enviou mensageiros a Davi para que viesse pessoalmente completar essa grande conquista e recebesse o mérito dela (vv. 26-28).

Com isso, mostrou-se servo fiel: buscou a honra de seu senhor e a sua própria apenas em subordinação à dele, deixando um exemplo aos servos do Senhor Jesus, que em tudo devem procurar a honra dele: “Não a nós, mas ao teu nome, dá glória”.

  1. Nessa ocasião, Davi parece ter sido tanto altivo quanto severo em excesso; não foi tão humilde nem tão compassivo como deveria.

(1.) Parece ter cobiçado demais a coroa do rei de Amom (v. 30). Por seu valor extraordinário, devido às pedras preciosas com que era adornada, Davi quis colocá-la na própria cabeça. Teria sido melhor lançá-la aos pés de Deus e, naquele momento, pôr a própria boca no pó, sob o peso da culpa.

O coração verdadeiramente humilhado pelo pecado está morto para a glória mundana e a vê com santo desprezo.

(2.) Parece ter sido severo demais com seus prisioneiros de guerra (v. 31). A cidade fora tomada de assalto, depois de resistir obstinadamente a um cerco longo e custoso. Teria sido bastante severo se Davi tivesse matado à espada, no calor da batalha, todos os que encontrou armados.

Mas matá-los depois, a sangue-frio, com torturas cruéis, usando serras e grades para despedaçá-los, não condizia com aquele que, ao assumir o governo, prometera cantar a misericórdia e o juízo (Salmos 101:1).

Se tivesse dado exemplo apenas daqueles que maltrataram seus embaixadores, ou que aconselharam ou ajudaram nisso, por se tratar de uma violação do direito das nações, poderia ter sido considerado um ato de justiça necessário para servir de temor a outras nações.

Mas ser tão severo com todas as cidades amonitas (isto é, suas guarnições ou soldados) foi rigor excessivo, sinal de que Davi ainda não tinha o coração abrandado pelo arrependimento. Do contrário, não teria fechado suas entranhas de compaixão. Também era sinal de que não havia encontrado misericórdia; caso contrário, estaria mais pronto a mostrá-la.


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