Matthew Henry

2 Reis 9

Argumento

Hazael e Jeú foram os homens escolhidos para serem instrumentos da justiça de Deus no castigo e na destruição da casa de Acabe.

Elias recebeu a ordem de designá-los para esse serviço; mas, quando Acabe se humilhou, foi concedido um adiamento, e coube a Eliseu designá-los.

No capítulo anterior, lemos sobre a ascensão de Hazael ao trono da Síria; agora, devemos acompanhar Jeú até o trono de Israel, pois Jeú teria de matar os que escapassem da espada de Hazael, como Jorão e Acazias escaparam. Este capítulo nos relata isso.

I. Um dos profetas envia a Jeú uma comissão para assumir o governo e destruir a casa de Acabe, vv. 1-10.

II. Vemos Jeú cumprir essa comissão sem demora:

  1. Ele a comunica aos seus capitães, vv. 11-15.

  2. Marcha diretamente para Jezreel, vv. 16-20, e ali mata: (1.) Jorão, rei de Israel, vv. 21-26. (2.) Acazias, rei de Judá, vv. 27-29. (3.) Jezabel, vv. 30-37.

Versículos 1 a 10

Jeú Ungido Rei. (a.C. 884.)

Vemos aqui a unção de Jeú como rei. Naquele tempo, ele era comandante, provavelmente o comandante-chefe das forças empregadas em Ramote-Gileade, v. 14.

Ali, lutava pelo rei, seu senhor, mas recebeu ordens de um rei superior para lutar contra ele. Não parece que Jeú aspirasse ao governo, nem que alguma vez tivesse pensado nisso; a comissão que recebeu foi uma completa surpresa para ele.

Alguns pensam que Elias já o havia ungido antes, conforme Deus lhe ordenara, mas em segredo e com a indicação de que não deveria agir até receber novas ordens, assim como Samuel ungiu Davi muito antes de ele subir ao trono. Mas isso não é nada provável, pois então teríamos de supor que Elias também havia ungido Hazael.

Não. Quando Deus lhe ordenou fazer essas coisas, mandou-o ungir Eliseu como profeta em seu lugar, para que Eliseu as fizesse depois que Elias partisse, conforme Deus o orientasse. Eis o que temos aqui:

I. A comissão enviada:

  1. Eliseu não foi pessoalmente ungir Jeú porque estava velho e não tinha condições de fazer uma viagem dessas. Além disso, era tão conhecido que não poderia fazê-lo em segredo, sem ir e voltar sem ser notado.

Por isso, enviou um dos filhos dos profetas para cumprir a tarefa, v. 1. Eles não só o reverenciavam como pai, 2 Reis 2:15, mas também o reconheciam e obedeciam como tal.

Esse serviço de ungir Jeú:

(1.) Envolvia perigo, 1 Samuel 16:2. Portanto, não convinha que Eliseu se expusesse; era melhor enviar um dos filhos dos profetas, cuja vida valia menos e que poderia cumprir a tarefa com menos risco.

(2.) Exigia esforço e, por isso, era mais adequado a um jovem em pleno vigor. Que os jovens trabalhem e os idosos orientem.

(3.) Ainda assim, era um serviço honroso: ungir um rei. Quem o fizesse poderia esperar receber uma posição de destaque por isso. Assim, para encorajar os jovens profetas, Eliseu empregou um deles. Não queria monopolizar todas as honras nem privá-los da parte que lhes cabia.

  1. Ao enviá-lo:

(1.) Pôs em sua mão o óleo com que deveria ungir Jeú: “Tome esta caixa de óleo”. Salomão foi ungido com óleo do tabernáculo, 1 Reis 1:39. Esse óleo já não podia ser obtido, mas o que vinha das mãos de um profeta equivalia ao óleo da casa de Deus.

Provavelmente, não era costume ungir reis em todas as ocasiões, mas quando a sucessão era contestada, como no caso de Salomão; interrompida, como no caso de Joás, 2 Reis 11:12; ou transferida para uma nova família, como aqui e no caso de Davi. Ainda assim, talvez a unção fosse praticada em geral, embora as Escrituras não o mencionem.

(2.) Pôs em sua boca as palavras que deveria dizer: “Eu te ungi rei”; sem dúvida, contou-lhe também tudo o mais que disse nos vv. 7-10. Aqueles a quem Deus envia em suas missões não ficam sem instruções completas.

(3.) Também lhe ordenou:

[1.] Fazer isso em segredo: deveria separar Jeú dos outros capitães e ungi-lo numa sala reservada, v. 2. Assim, a confiança de Jeú na comissão seria provada, pois não teria testemunha que a confirmasse.

O fato de ele se animar de repente para cumprir o serviço seria prova suficiente de que fora ungido para isso. Nenhuma outra prova seria necessária. O que a unção significava seria a melhor evidência do sinal.

[2.] Fazer isso sem demora. Ao partir, deveria cingir os lombos; depois de cumprir a tarefa, deveria fugir e não esperar por gorjeta, refeição ou para ver o que Jeú faria.

É próprio dos filhos dos profetas serem rápidos e diligentes no trabalho, começando e terminando a tarefa como quem detesta a demora e a distração. Devem ser como anjos que voam depressa.

II. A comissão entregue. O jovem profeta cumpriu prontamente sua missão e logo estava em Ramote-Gileade, v. 4.

Ali, encontrou os oficiais reunidos, talvez num jantar ou num conselho de guerra, v. 5. Com a firmeza própria de um mensageiro de Deus, apesar de sua aparência humilde, chamou Jeú para fora do grupo. Não esperou que ele tivesse tempo, nem pediu desculpas por interrompê-lo, mas falou com autoridade: “Tenho uma mensagem para você, comandante”.

Talvez Jeú tivesse recebido algum indício do motivo da visita. Para não parecer ansioso demais para obter a honra, perguntou: “A qual de todos nós?”. Assim, depois ninguém poderia dizer que ele a conquistara por ter falado primeiro; todos poderiam ter certeza de que ele era, de fato, o escolhido.

Quando o profeta ficou a sós com ele, ungiu-o, v. 6. A unção do Espírito é algo oculto, aquele nome novo que ninguém conhece, exceto quem o recebe. Com isso:

  1. Conferiu-lhe a dignidade real: “Assim diz o Senhor, Deus de Israel, cujo mensageiro sou: em nome dele, ungi você rei sobre o povo do Senhor”.

O profeta lhe dá um título incontestável, mas lembra a Jeú que ele fora feito rei:

(1.) Pelo Deus de Israel. Jeú devia reconhecer que dele vinha seu poder, pois os reis reinam por meio de Deus. Devia usá-lo para Deus e prestar contas a ele. As autoridades são servas de Deus e, por isso, devem agir na dependência dele, dedicando-se inteiramente a ele e à sua glória.

(2.) Sobre o Israel de Deus. Embora o povo de Israel estivesse terrivelmente corrompido e tivesse perdido toda a honra de seu relacionamento com Deus, ainda era chamado de povo do Senhor, pois continuava pertencendo a ele, que ainda não lhe dera carta de divórcio.

Jeú devia considerar o povo sobre o qual fora feito rei como povo do Senhor: não como vassalos seus, mas como homens livres de Deus, filhos dele, seus primogênitos, que não deviam ser maltratados nem tiranizados. Eram o povo de Deus e, portanto, deviam ser governados para ele e segundo as leis dele.

  1. Instruiu-o sobre a tarefa imediata: destruir toda a casa de Acabe, v. 7. Não para abrir caminho ao trono e garantir sua posse, mas para executar os juízos de Deus contra aquela família culpada e sujeita à punição divina.

O profeta chama Acabe de senhor de Jeú para que essa relação não servisse de objeção. “Ele era seu senhor, e levantar a mão contra o filho e sucessor dele seria não só uma ingratidão vil, mas traição, rebelião e tudo o que há de pior, se você não tivesse uma ordem direta de Deus para fazê-lo.

“Mas você tem obrigações maiores para com seu Senhor no céu do que para com seu senhor Acabe. Ele determinou que toda a casa de Acabe pereça, e isso pelas suas mãos. Não tenha medo: acaso ele não lhe deu a ordem? Não tema pecar: a ordem dele o justificará e o sustentará. Não tema o perigo: a ordem dele o protegerá e fará você prosperar.”

Para que Jeú executasse esse grande castigo contra a casa de Acabe com entendimento e da maneira correta, o profeta lhe explicou:

(1.) Qual era o crime deles, a causa da contenda com Deus e o motivo de Deus estar contra eles. Jeú devia ter em vista aquilo que Deus tinha em vista: o sangue dos servos de Deus, dos profetas e de outros adoradores fiéis, que eles derramaram e pelo qual agora Jezabel teria de responder.

Eles eram idólatras, e isso já era bastante grave para merecer tudo o que lhes sobreveio. Contudo, essa acusação não é mencionada aqui. A contenda de Deus com eles era por serem perseguidores: não tanto por derrubarem os altares de Deus, mas por matarem seus profetas à espada.

Nada leva a iniquidade de um príncipe ou de um povo à sua medida completa como isso, nem provoca uma ruína mais certa e terrível. Esse pecado causou a primeira destruição de Jerusalém, 2 Crônicas 36:16, e também a final, Mateus 23:37, 38.

As prostituições e feitiçarias de Jezabel não provocaram tanto a ira divina quanto a perseguição aos profetas: ela matou alguns e expulsou os demais para esconderijos e cavernas, 1 Reis 18:4.

(2.) Qual era a sentença deles. Estavam condenados à destruição completa: não seriam corrigidos, mas exterminados e eliminados. Jeú precisava saber disso, para não poupar ninguém por piedade, favor ou afeição.

Todos os que pertenciam a Acabe deviam ser mortos, v. 8. O profeta lhe apresenta como exemplo a destruição das famílias de Jeroboão e Baasa, v. 9, e lhe ordena especificamente que entregue Jezabel aos cães, v. 10.

Mesmo o sangue de toda a linhagem real seria pouco, muito pouco, para expiar o sangue dos profetas, dos santos e dos mártires, cujo sangue é de grande valor aos olhos de Deus.

Depois de cumprir essa missão, o profeta voltou para casa pelo caminho mais rápido e deixou Jeú sozinho para pensar no que deveria fazer e pedir orientação a Deus.

Versículos 11 a 15

Depois de uma pausa, Jeú voltou ao lugar à mesa, sem comentar o que acontecera. Ao que parece, pretendia guardar aquilo para si, caso os capitães não insistissem para que contasse. Vejamos, então, o que se passou entre ele e os capitães.

I. Com que desprezo os capitães falam do jovem profeta, v. 11: “Por que aquele louco veio falar com você? O que tinha para tratar com você? E por que você lhe fez a vontade a ponto de se retirar para conversar com ele? Profetas são companhia para capitães?”

Chamaram-no de louco porque ele era um dos que não se entregavam com eles à devassidão desenfreada, 1 Pedro 4:4; levava uma vida de renúncia, mortificação e desprezo pelo mundo, e passava o tempo em devoção. Por essas coisas, julgavam que os profetas eram tolos e os homens espirituais, loucos, Oseias 9:7. Repare:

Quem não tem religião costuma falar com desdém dos que são religiosos e considerá-los loucos. Diziam de nosso Salvador: “Está fora de si”; de João Batista: “Tem um demônio” (isto é, era um pobre homem melancólico); e de Paulo: “Muito estudo o deixou louco”.

Assim, a mais elevada sabedoria é apresentada como tolice, e aqueles que melhor se conhecem são considerados fora de si. Talvez Jeú pretendesse repreender os amigos quando disse: “Vocês sabem que aquele homem é profeta; então por que o chamam de louco? Sabem que o modo como ele se comunica não vem da loucura, mas da inspiração”.

Ou talvez quisesse dizer: “Como ele é profeta, vocês podem imaginar qual é o assunto: apontar minhas faltas e me ensinar meu dever. Não preciso explicar isso a vocês”.

Assim, pensou em esquivar-se, mas eles insistiram para que contasse. “Isso é falso”, disseram, “não conseguimos imaginar qual era a missão dele; conte-nos”. Pressionado desse modo, Jeú contou que o profeta o ungira rei; é provável que lhes tenha mostrado o óleo em sua cabeça, v. 12.

Ele não sabia se algum deles, por lealdade a Jorão ou inveja dele, poderia se opor e tentar sufocar o apoio a ele ainda no começo. Mas confiava na designação divina e não tinha medo de reconhecê-la, pois sabia em quem confiara: aquele que o levantara permaneceria ao seu lado.

II. Com que respeito os capitães saúdam o novo rei assim que ficam sabendo de sua ascensão, v. 13. Por mais desprezo que sentissem pelo profeta que o ungiu e por seu ofício, demonstraram grande reverência pela dignidade real daquele que fora ungido.

Apresaram-se a proclamá-lo e a tocar a trombeta. Como sinal de submissão e lealdade, de afeto por sua pessoa e seu governo e do desejo de vê-lo em posição elevada e segura, puseram suas roupas debaixo dele, para que ficasse de pé ou se sentasse sobre elas no alto da escada, à vista dos soldados.

Com o primeiro aviso, os soldados se reuniram para dar solenidade à ocasião. Deus pôs no coração deles o desejo de reconhecê-lo prontamente, pois ele conduz o coração do povo, assim como o dos reis, como rios de água, para onde quer.

Talvez estivessem inquietos com o governo de Jorão ou tivessem afeto especial por Jeú. Seja como for, ao que parece, as circunstâncias estavam maduras para a revolução: todos apoiaram Jeú e conspiraram contra Jorão, v. 14.

III. Com que cautela Jeú procedeu. Ele tinha vantagens contra Jorão e sabia como aproveitá-las. O exército estava com ele; Jorão o deixara e voltara para casa gravemente ferido. A prudência de Jeú se mostra em dois aspectos:

  1. Tratou os capitães com deferência e nada faria sem o conselho e o consentimento deles: “Se vocês estiverem de acordo, faremos assim e assim; caso contrário, não”. Com isso, mostrava respeito pelo discernimento deles e confiança na lealdade deles, atitudes que tendiam a agradá-los e mantê-los ao seu lado.

Quem deseja ascender rapidamente e permanecer firme age com sabedoria quando leva consigo os amigos.

  1. Planejou surpreender Jorão e, para isso, aproximar-se depressa, impedindo que ele soubesse o que acabara de acontecer: “Não deixem ninguém sair para contar isso em Jezreel, para que a ruína caia sobre ele e sua casa como uma armadilha”. Às vezes, a surpresa de um ataque é tão eficaz quanto a força.

Versículos 16 a 29

Jeú se Aproxima de Jezreel. (a.C. 884.)

De Ramote-Gileade a Jezreel havia mais de um dia de marcha; era preciso cruzar o rio Jordão aproximadamente na metade do caminho. Podemos supor que Jeú marchou com toda a rapidez possível e tomou o máximo cuidado para que as notícias não chegassem a Jezreel antes dele. Por fim, primeiro o vemos ao alcance da vista e, depois, perto o bastante para alcançar o rei condenado.

I. O vigia de Jorão o avista primeiro, ainda de longe, com sua comitiva, e avisa o rei que um grupo se aproxima, sem saber se são amigos ou inimigos.

Impaciente para saber o que se passava e talvez receoso de que os sírios, que o haviam ferido, tivessem seguido seu rastro de sangue até o próprio palácio e viessem capturá-lo, o rei enviou um mensageiro e depois outro para obter notícias, vv. 17-19.

Ele mal se recuperara do terror que sentira na batalha, e a consciência culpada o mantinha em constante pavor. Cada mensageiro fez a mesma pergunta: “Está tudo em paz? Você está do nosso lado ou do lado dos adversários? Traz boas ou más notícias?”

Ambos receberam a mesma resposta: “Que tens tu com a paz? Volta para trás de mim”, v. 18, 19. Como se Jeú dissesse: “Não darei resposta a você, mas a quem o enviou. Quanto a você, se deseja cuidar da própria segurança, venha para trás de mim e junte-se aos meus seguidores”.

O vigia avisou que os mensageiros tinham sido detidos. Por fim, observou que o líder do grupo conduzia o carro como Jeú, que, ao que parece, era conhecido por dirigir furiosamente. Assim, revelava ser um homem de espírito ardente e impetuoso, concentrado em sua tarefa e avançando com toda a força.

Um homem de temperamento tão violento era o instrumento mais adequado para o serviço que Jeú recebera. A sabedoria de Deus se revela na escolha dos instrumentos apropriados para sua obra. Mas não há grande mérito em alguém ser conhecido por sua fúria. Quem domina o próprio espírito é melhor do que o poderoso.

A paráfrase caldeia dá a isso um sentido oposto: “A condução é como a de Jeú, pois ele conduz com calma”. Ao que parece, Jeú não se aproximava muito depressa, pois então não teria havido tempo para tudo o que aconteceu.

Alguns pensam que ele escolheu avançar devagar para dar tempo a Jorão de sair ao seu encontro e, assim, matá-lo antes que entrasse na cidade.

II. Jorão sai pessoalmente ao encontro de Jeú e leva consigo Acazias, rei de Judá. Nenhum dos dois estava preparado para a guerra, pois não esperavam um inimigo; apressaram-se apenas para satisfazer a curiosidade.

Como a providência, às vezes, ordena as coisas de modo estranho: quando chega o dia da queda, os homens se apressam para encontrar a própria ruína.

  1. O lugar onde Jorão encontrou Jeú era um presságio: a propriedade de Nabote, o jezreelita, v. 21. Só de ver aquele terreno, Jorão tinha motivo para tremer e Jeú, para triunfar: a culpa pelo sangue de Nabote se levantava contra Jorão, e a força da maldição de Elias lutava por Jeú.

Às vezes, a providência divina ordena as circunstâncias dos acontecimentos de tal modo que o castigo corresponde ao pecado, como um rosto reflete outro no espelho.

  1. Jorão fez a mesma pergunta: “Está tudo em paz, Jeú? Vai tudo bem? Você volta assim, fugindo dos sírios ou como mais que vencedor deles?”

Ao que parece, esperava a paz e não conseguia pensar em outra coisa. Repare: é muito comum grandes pecadores, mesmo à beira da ruína, iludirem-se pensando que tudo vai bem e anunciarem paz a si mesmos.

  1. A resposta de Jeú foi perturbadora. Ele respondeu com uma pergunta: “Que paz podes esperar, enquanto são tantas as prostituições de tua mãe Jezabel, que, embora rainha viúva, era na prática a regente, e tantas as suas feitiçarias?”

Veja com que clareza Jeú fala com ele. Antes, não se atreveria a fazê-lo, mas agora estava com outro espírito. Repare: os pecadores não serão sempre lisonjeados; cedo ou tarde, receberão o que merecem, Salmos 36:2. Observe:

(1.) Jeú atribui a Jorão a perversidade de sua mãe, pois Jorão primeiro a aprendera e depois, com seu poder real, a protegera. Ela era acusada de prostituição física e espiritual: servia aos ídolos e os servia com os próprios atos de libertinagem.

Também era acusada de feitiçaria, encantamentos e adivinhações em honra aos seus ídolos. Suas prostituições e feitiçarias eram numerosas, pois os que se entregam a caminhos perversos não sabem até onde irão. Um pecado dá origem a outro.

(2.) Por esse motivo, Jeú o exclui de toda pretensão à paz: “Que paz pode haver numa casa em que há tanta perversidade sem arrependimento?” Repare:

O caminho do pecado nunca pode ser o caminho da paz, Isaías 57:21. Que paz os pecadores podem ter com Deus ou com a própria consciência? Que bem ou consolo podem esperar na vida, na morte ou depois dela, se continuam em suas transgressões?

Não há paz enquanto se persiste no pecado; mas, assim que ele é abandonado com arrependimento, há paz.

  1. A execução aconteceu imediatamente. Ao ouvir falar dos crimes da mãe, Jorão perdeu a coragem. Logo concluiu que chegara o dia do ajuste de contas, há muito ameaçado, e gritou: “Há traição, Acazias! Jeú é nosso inimigo; precisamos fugir para salvar a vida”.

Os dois fugiram. (1.) Jorão, rei de Israel, foi morto na mesma hora, v. 24. Jeú o matou com as próprias mãos.

A flecha não foi disparada ao acaso, como aquela que atravessou as juntas da armadura de seu pai e o feriu mortalmente. Jeú apontou-a entre os ombros de Jorão enquanto Jorão fugia. Era uma das flechas de Deus, preparada contra o perseguidor, Salmos 7:13; atingiu-lhe o coração, e ele morreu ali mesmo.

Jorão era agora o ramo mais alto da casa de Acabe e, por isso, foi o primeiro a ser cortado. Morreu como criminoso, sob a sentença da lei, que Jeú, o executor, cumpriu ao dispor do cadáver.

A vinha de Nabote ficava perto, lembrando Jeú das circunstâncias da sentença que Elias proferira contra Acabe: “Eu te retribuirei neste terreno, diz o Senhor”, pelo sangue do próprio Nabote e pelo sangue de seus filhos, v. 25, 26.

Eles talvez tenham sido mortos com ele, como cúmplices do crime, ou assassinados em segredo depois, para que não apresentassem recurso ou encontrassem um meio de vingar a morte do pai. Também poderiam morrer de tristeza por perdê-lo ou, tendo todo o patrimônio confiscado junto com a vinha, perder o sustento, o que equivalia a perder a vida.

A casa de Acabe teria de responder por isso. O próprio terreno que Acabe, com tanto orgulho e prazer, tomou para si à custa do sangue inocente tornou-se o palco em que o cadáver de seu filho ficou exposto à vista de todos. Assim o Senhor se faz conhecido pelo juízo que executa. Higaiom. Selá.

(2.) Acazias, rei de Judá, foi perseguido e morto pouco depois, não muito longe dali, v. 27, 28.

[1.] Embora estivesse então na companhia de Jorão, não teria sido morto se não estivesse ligado à casa de Acabe tanto por parentesco quanto por iniquidade. Ele se tornara um deles por causa de seus pecados e, por isso, teria o mesmo destino. Jeú interpretou com razão que sua comissão também os incluía.

[2.] Ainda assim, talvez Acazias não tivesse caído com eles naquela ocasião se não tivesse sido encontrado em sua companhia. É perigoso associar-se aos malfeitores; podemos nos envolver tanto na culpa quanto na miséria deles.

Versículos 30 a 37

Jorão e Acazias Mortos. (a.C. 884.)

A maior culpada da casa de Acabe era Jezabel. Foi ela quem introduziu Baal, matou os profetas do Senhor, tramou o assassinato de Nabote e instigou primeiro o marido e depois os filhos a fazer o mal.

Aqui ela é chamada de mulher maldita, v. 34: uma maldição para o país, amaldiçoada por todos os que desejavam o bem de sua terra. Seu domínio durou por três reinados, mas, por fim, chegara o dia de sua queda.

Lemos sobre uma falsa profetisa na igreja de Tiatira que é comparada a Jezabel e chamada por esse nome, Apocalipse 2:20: sua perversidade era a mesma, seduzia os servos de Deus à idolatria; assim como Jezabel, recebeu um longo prazo para arrepender-se, v. 21, e, por fim, sofreu uma ruína terrível, v. 22, 23, como aconteceu com Jezabel.

Portanto, a destruição de Jezabel pode ser vista como um tipo da destruição dos idólatras e perseguidores, especialmente “daquela grande prostituta, a mãe das prostitutas”, que se embriagou com o sangue dos santos e embriagou as nações com o vinho de suas prostituições, quando Deus puser no coração dos reis da terra o desejo de odiá-la, Apocalipse 17:5, 6, 16. Vemos aqui:

I. Jezabel desafiando o juízo. Ela soube que Jeú havia matado seu filho por causa de suas prostituições e feitiçarias e lançado o cadáver na propriedade de Nabote, conforme a palavra do Senhor; soube também que ele se dirigia a Jezreel, onde ela não podia deixar de esperar que, em seguida, seria sacrificada à espada vingadora dele.

Vejamos como enfrentou seu destino. Colocou-se numa janela junto à entrada do portão, para afrontar Jeú e desafiá-lo.

  1. Em vez de se esconder, como quem teme a vingança divina, expôs-se a ela e desprezou a ideia de fugir. Zombou do medo e não se assustou. Veja como um coração endurecido contra Deus enfrenta tudo até o fim e se lança contra ele, até contra o seu pescoço, Jó 15:26. Mas ninguém jamais endureceu assim o coração contra Deus e prosperou.

  2. Em vez de se humilhar e vestir luto fechado pelo filho, pintou o rosto e arrumou o cabelo, para parecer ela mesma, isto é, como imaginava, grandiosa e majestosa. Esperava, assim, intimidar Jeú, deixá-lo constrangido e deter seu avanço.

O Senhor Deus convocou o povo ao luto, com a cabeça raspada e vestido de pano de saco; mas Jezabel se pinta e se enfeita, andando na direção contrária à de Deus, Isaías 22:12, 13. Não há presságio mais seguro de ruína do que um coração que não se humilha diante de providências humilhantes. Que as mulheres de rosto pintado se contemplem no espelho de Jezabel e vejam se gostam do que veem.

  1. Em vez de tremer diante de Jeú, instrumento da vingança divina, ela pensou em fazê-lo tremer com esta pergunta ameaçadora: “Teve paz Zinri, que matou seu senhor?” Observe:

(1.) Ela não levou em conta a mão de Deus que se voltara contra a família, mas atacou aquele que era apenas a espada na mão de Deus. Quando estamos em aflição, é muito comum nos enfurecermos contra os instrumentos que a causaram, quando deveríamos nos submeter a Deus e nos irar somente contra nós mesmos.

(2.) Ela se consolou pensando que o que Jeú fazia agora certamente terminaria em sua própria ruína e que ele não teria paz. Jeú lhe negara qualquer pretensão à paz, v. 22; agora, ela pensava em fazer o mesmo com ele. Repare:

Não é novidade que aqueles que fazem a obra de Deus sejam considerados alheios ao caminho da paz. Reformadores ativos e os que repreendem fielmente são ameaçados com aflições, mas nada deve aterrorizá-los, Filipenses 1:28.

(3.) Ela citou um precedente para dissuadi-lo de levar adiante o empreendimento: “Teve paz Zinri? Não. Ele chegou ao trono por meio de sangue e traição e, em sete dias, foi obrigado a incendiar o palácio sobre si mesmo e a morrer nele. Você espera ter melhor sorte?”

Se os casos fossem semelhantes, seria bastante apropriado lembrá-lo disso, pois os juízos de Deus contra os que nos precederam em algum caminho pecaminoso devem nos advertir a não seguir seus passos. Mas Jezabel aplicou mal o exemplo de Zinri a Jeú.

Zinri não tinha autorização para o que fez; agiu movido apenas pela própria ambição e crueldade. Jeú, porém, fora ungido por um dos filhos dos profetas e agia por ordem do céu, que o sustentaria.

Ao comparar pessoas e situações, devemos distinguir cuidadosamente o precioso do vil e tomar cuidado para não concluir, pelo destino dos homens pecadores, qual será o destino dos homens úteis.

II. Jeú pede ajuda contra ela. Sem se deixar intimidar pelas ameaças da raiva insolente, porém impotente, de Jezabel, olhou para a janela e gritou: “Quem está do meu lado? Quem?”, v. 32.

Ele fora chamado para fazer a obra de Deus, reformar a terra e castigar os que a haviam corrompido. Agora, chama outros para ajudá-lo, como se procurasse alguém que viesse socorrê-lo e ampará-lo, Isaías 63:5.

Ergue um estandarte e faz uma proclamação, como Moisés: “Quem está do lado do Senhor?”, Êxodo 32:26; e como o salmista: “Quem se levantará por mim contra os malfeitores?”, Salmos 94:16. Repare: quando começa um trabalho de reforma, é hora de perguntar: “Quem está ao lado dele?”

III. Os próprios servos dela a entregam à justa vingança de Jeú. Dois ou três camareiros olharam para Jeú com uma expressão que o levou a crer que estavam do seu lado.

Jeú não lhes pediu que a detivessem ou mantivessem sob guarda até novas ordens, mas que a jogassem imediatamente para baixo, um dos modos de apedrejar criminosos: lançá-los de um lugar íngreme. Assim se fez justiça contra ela pelo apedrejamento de Nabote. Eles a lançaram para baixo, v. 33.

Se a ordem de Deus justificava Jeú, a ordem de Jeú justificava os servos. Talvez tivessem secretamente aversão à perversidade de Jezabel e a odiassem, embora a servissem. Ou talvez ela fosse bárbara e injusta com os que a cercavam, e eles aproveitaram a ocasião para se vingar.

Também é possível que, observando o sucesso de Jeú, esperassem conquistar sua confiança e conservar os cargos na corte. Seja qual for o motivo, ela foi morta da maneira mais vergonhosa: atirada contra a parede e o calçamento, depois pisoteada pelos cavalos, que ficaram cobertos com o sangue e os miolos dela. Veja o fim do orgulho e da crueldade, e diga: “O Senhor é justo”.

IV. Os cães completam sua vergonha e ruína, conforme a profecia. Depois de se refrescar no palácio, Jeú se lembrou de que devia demonstrar à mulher algum respeito por seu sexo e posição, sepultando-a.

Por pior que fosse, era filha, filha de um rei, esposa de um rei e mãe de um rei: “Vão sepultá-la”, v. 34. Mas Jeú havia esquecido o que o profeta dissera, “Os cães comerão Jezabel”, v. 10; Deus não tinha esquecido.

Enquanto Jeú comia e bebia, os cães que rondavam a cidade, Salmos 59:6, e se alimentavam de carniça devoraram o cadáver dela. Nada restou senão o crânio nu, sem o rosto pintado, os pés e as mãos.

Os cães famintos não respeitaram a nobre linhagem dela: para eles, a filha de um rei não era diferente de uma pessoa comum. Quando tratamos o corpo com luxo e o alimentamos com iguarias, pensemos em quão vil ele é e que, em breve, será banquete de vermes debaixo da terra ou de animais acima dela.

Quando levaram a notícia a Jeú, ele se lembrou da ameaça, 1 Reis 21:23: “Os cães comerão Jezabel junto ao muro de Jezreel”. Nada restaria dela além dos monumentos de sua infâmia.

Ela costumava aparecer com grande pompa em ocasiões públicas, e se dizia: “Esta é Jezabel. Que porte e figura majestosos! Como ela parece grandiosa!” Mas isso já não se diria.

Muitas vezes vimos os perversos serem sepultados, Eclesiastes 8:10; ainda assim, às vezes, como aqui, não têm sepultura, Eclesiastes 6:3.

O nome de Jezabel não permaneceu em parte alguma, senão estigmatizado nas Escrituras sagradas. Ninguém podia sequer dizer: “Esta é a poeira de Jezabel”, “Esta é a sepultura de Jezabel” ou “Esta é a descendência de Jezabel”. Assim apodrecerá o nome dos perversos: apodrecerá acima do chão.


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