2 Reis 10
Argumento
Neste capítulo temos: I. Um relato adicional do cumprimento do encargo de Jeú. Ele eliminou: 1. Todos os filhos de Acabe (vv. 1-10). 2. Todos os parentes de Acabe (vv. 11-14, 17). 3. A idolatria de Acabe: tomou Jonadabe como testemunha de seu zelo contra ela (v. 15, 16), convocou todos os adoradores de Baal (vv. 18-23), matou-os (v. 24, 25) e, então, aboliu aquela idolatria (vv. 26-28).
II. Um breve relato do governo de Jeú. 1. Ele manteve a antiga idolatria de Israel, a adoração dos bezerros (vv. 29-31). 2. Isso trouxe sobre eles os juízos de Deus por meio de Hazael, com os quais seu reinado termina (vv. 32-36).
Versículos 1 a 14
A Morte dos Filhos de Acabe; a Morte dos Irmãos de Acazias. (a.C. 884.)
Deixamos Jeú em posse tranquila de Jezreel, triunfante sobre Jorão e Jezabel; agora acompanharemos seus próximos passos. Ele sabia que toda a casa de Acabe precisava ser eliminada e, por isso, prosseguiu nessa obra sangrenta; não a executou de modo enganoso nem pela metade (Jeremias 48:10).
I. Jeú mandou que os próprios tutores decapitassem, em Samaria, todos os filhos de Acabe. Acabe tinha setenta filhos (ou netos), o número de Gideão (Juízes 8:30). Com tantos descendentes que levavam seu nome, era provável que sua família perdurasse; no entanto, foi exterminada de uma só vez.
Uma aljava cheia de flechas como essa não podia proteger sua casa da vingança divina. Famílias numerosas, se perversas, não devem esperar prosperar por muito tempo.
Os filhos de Acabe estavam então em Samaria, uma cidade fortificada; talvez tivessem sido levados para lá por causa da guerra com a Síria, como lugar seguro, ou ao saberem da revolta de Jeú. Com eles estavam os governantes de Jezreel, isto é, os altos oficiais da corte, que tinham ido a Samaria para se proteger ou deliberar sobre o que fazer.
Os que ainda estavam sob tutela tinham consigo seus tutores, encarregados de instruí-los nos estudos conforme seu nascimento e posição; mas teme-se que os tenham criado na idolatria da casa de seu pai e feito de todos adoradores de Baal.
Jeú não achou apropriado levar suas tropas a Samaria para destruí-los. Para que a mão de Deus se manifestasse de modo ainda mais notável, fez dos tutores os assassinos deles.
- Jeú desafiou os amigos dos príncipes a defendê-los (v. 2, 3): “Vocês que desejam sinceramente o bem da casa de Acabe e são inteiramente leais aos interesses dela, chegou a hora de defendê-la. Samaria é uma cidade forte; vocês estão de posse dela, têm tropas à disposição e podem escolher, entre toda a família real, o mais apto a liderá-los.
Vocês sabem que não estão obrigados a escolher o mais velho, a menos que ele seja o melhor e o mais capaz dos filhos do seu senhor. Se têm algum ânimo, mostrem-no: ponham um deles no trono de seu pai e defendam-no com a vida e os bens.”
Jeú não queria nem esperava que fizessem isso. Assim, porém, censurou a covardia deles e sua completa incapacidade de se opor aos desígnios divinos: “Façam isso, se ousarem, e vejam o que acontecerá.”
Os que abandonam a religião muitas vezes perdem com ela tanto o bom senso quanto a coragem, e merecem ser censurados por isso.
- Com isso, Jeú obteve a submissão deles. Com prudência, raciocinaram entre si: “Vejam: dois reis não conseguiram resistir a ele, mas caíram como vítimas de sua fúria; como poderemos nós resistir?” (v. 4).
Então lhe enviaram sua rendição: “Somos seus servos e súditos; faremos tudo o que mandar, certo ou errado, e não poremos ninguém em disputa com você.”
Viram que era inútil lutar contra Jeú e, por isso, era do interesse deles submeter-se a ele. Com muito mais razão podemos nos convencer a nos submeter ao grande Deus por esse mesmo raciocínio.
Muitos reis e grandes homens caíram diante da ira de Deus por sua perversidade; como poderemos nós resistir? Despertamos o ciúme do Senhor? Somos mais fortes do que ele? Não: temos de nos curvar ou ser quebrados.
- Jeú foi ainda mais longe e os fez carrascos daqueles que estavam sob sua tutela (v. 6): “Se me são leais, tragam-me, amanhã a esta hora, as cabeças dos filhos do seu senhor.”
Embora soubesse que aquilo precisava ser feito e relutasse em fazê-lo pessoalmente, parece difícil acreditar que esperasse que eles o fizessem. Poderiam trair uma confiança como essa? Seriam capazes de agir com crueldade contra os filhos do seu senhor?
Ao que parece, curvaram-se tão baixo em adoração ao sol nascente que fizeram isso: cortaram as cabeças daqueles setenta príncipes e as enviaram a Jeú em cestos, como presente (v. 7).
Aprendamos a não confiar num amigo nem a depositar confiança num guia sem consciência. Dificilmente se pode esperar que quem foi infiel ao seu Deus alguma vez seja fiel ao seu príncipe.
Observe, porém, a justiça de Deus em meio à injustiça deles. Esses anciãos de Jezreel haviam se submetido perversamente à ordem de Jezabel para assassinar Nabote (1 Reis 21:11).
É provável que ela se orgulhasse do poder que exercia sobre eles. Agora, o mesmo espírito vil os tornava igualmente dóceis a Jeú e prontos a obedecer às ordens dele para matar os filhos de Acabe.
Que ninguém aspire ao poder arbitrário, para não se ver rolando uma pedra que, mais cedo ou mais tarde, voltará sobre si. Os príncipes que escravizam seu povo tomam o caminho mais rápido para fazê-los rebelar-se.
Ao forçar a consciência das pessoas, como fez Jezabel, acabam perdendo o domínio sobre elas. Quando as cabeças separadas foram apresentadas a Jeú, ele censurou com astúcia os que haviam executado essa vingança.
As cabeças foram postas em dois montes junto ao portão, o lugar próprio para o julgamento. Ali, declarou o povo justo diante de Deus e do mundo: “Vocês são justos” (v. 9); e, diante do que os governantes de Samaria tinham acabado de fazer, declarou-se relativamente inocente:
“Matei apenas um; eles mataram todos estes. Fiz isso por conspiração e com intenção; eles o fizeram apenas por submissão e obediência cega. Que o povo de Samaria e os amigos da casa de Acabe nunca me censurem pelo que fiz, quando os próprios anciãos deles, os tutores dos órfãos, fizeram isso.”
É comum que quem fez algo vil tente atenuar a censura que recai sobre si levando outros a fazer algo ainda pior.
(2.) Mas Jeú atribuiu tudo ao justo juízo de Deus (v. 10): “O Senhor fez o que disse por meio de Elias.” Deus não é autor do pecado de ninguém; porém, até por meio do que as pessoas fazem por motivos maus, ele cumpre seus propósitos e glorifica o próprio nome. Ele é justo naquilo em que as pessoas são injustas.
Quando o assírio é feito vara da ira de Deus e instrumento da sua justiça, “ele não pretende isso, nem seu coração pensa assim” (Isaías 10:7).
II. Jeú prosseguiu e destruiu o que restava da casa de Acabe: não só os descendentes dele, mas também todos os que tinham alguma ligação com ele. Matou todos os oficiais da casa, ministros de Estado e comandantes, chamados aqui de seus grandes homens (v. 11).
Matou também todos os seus parentes e conhecidos que haviam participado da perversidade dele, bem como seus sacerdotes, ou capelães da corte, a quem empregava nos serviços idólatras e que o fortaleciam para que não abandonasse seu mau caminho.
Depois de fazer isso em Jezreel, fez o mesmo em Samaria (v. 17): matou tudo o que restava de Acabe naquela cidade. Foi uma obra sangrenta, que em hipótese alguma deve agora servir de precedente.
Que os culpados sofram, mas não os inocentes por causa deles. Talvez essas destruições terríveis fossem tipos da destruição final de todos os ímpios.
Deus tem uma espada banhada no céu, que descerá sobre o povo destinado à sua maldição e ficará cheia de sangue (Isaías 34:5, 6). Então seu olho não poupará, nem terá piedade.
III. A providência pôs os irmãos de Acazias no caminho de Jeú enquanto ele prosseguia com aquela execução, e ele também os matou (vv. 12-14).
Os irmãos de Acazias foram mortos pelos árabes (2 Crônicas 22:1), mas estes eram filhos dos irmãos dele, como se explica ali (2 Crônicas 22:8). São chamados príncipes de Judá e serviam a Acazias.
Várias coisas os tornavam sujeitos à vingança que Jeú executava. 1. Eram ramos da casa de Acabe, pois descendiam de Atalia; por isso, estavam incluídos em seu encargo.
- Estavam contaminados pela perversidade da casa de Acabe. 3. Naquele momento, iam prestar homenagem aos príncipes da casa de Acabe, saudar os filhos do rei Jorão e da rainha Jezabel; isso mostrava que estavam ligados a eles tanto por afeição quanto por parentesco.
Esses príncipes, quarenta e dois ao todo, foram destinados como ovelhas ao sacrifício e mortos solenemente junto ao poço da casa de tosquia. O Senhor se dá a conhecer pelos juízos que executa.
Encontro entre Jeú e Jonadabe; a Destruição dos Adoradores de Baal. (a.C. 884.)
Versículos 15 a 28
Jeú continua sua obra; aqui, vemos:
I. Busca a amizade de um homem bom, Jonadabe, filho de Recabe (v. 15, 16):
Esse Jonadabe, embora mortificado para o mundo e pouco envolvido nos assuntos dele — como mostra a ordem que deu a seus descendentes, rigorosamente observada trezentos anos depois, de não beber vinho nem morar em cidades (Jeremias 35:6, etc.) —, ainda assim, nesta ocasião, foi ao encontro de Jeú para encorajá-lo na obra para a qual Deus o chamara.
O apoio dos homens bons é algo que os grandes, se forem sábios, valorizarão e considerarão motivo de honra. Davi orou: “Voltem-se para mim os que te temem” (Salmos 119:79).
Jonadabe, embora não fosse profeta, sacerdote, levita, príncipe nem governante, era, ao que podemos supor, muito notável pela prudência e piedade. Em geral, respeitavam-no pela vida de renúncia e devoção que levava.
Jeú, embora soldado, o conhecia e honrava. Na verdade, não pensara em mandar chamá-lo; mas, quando o encontrou — embora provavelmente estivesse dirigindo tão furiosamente como sempre —, parou para falar com ele. Aqui nos é contado o que se passou entre eles.
Jeú o saudou: abençoou-o — esse é o sentido da palavra —, tratando-o com o respeito e a boa vontade devidos a tão grande exemplo de piedade sincera.
Jonadabe garantiu que era sinceramente leal a Jeú e desejava de coração o bem da causa dele. Jeú declarou que seu coração era reto para com Jonadabe: tinha verdadeira afeição por ele e reverenciava a coroa de seu nazireado.
Queria saber se Jonadabe sentia a mesma afeição por ele e se estava satisfeito com a coroa da dignidade real que Deus pusera sobre a cabeça de Jeú: “Teu coração está reto?” (v. 15). Essa é uma pergunta que deveríamos fazer muitas vezes a nós mesmos:
“Faço uma profissão de fé convincente e conquistei boa reputação entre as pessoas, mas meu coração é reto? Sou sincero, de coração, com Deus?”
Jonadabe lhe assegurou: “Está”, e deu-lhe a mão como garantia da sinceridade. Submeteu-se a Jeú — é assim que se traduz a expressão “dar a mão” (2 Crônicas 30:8) —, concordou com ele, firmou um pacto e se uniu a ele na obra de vingança e reforma que Jeú empreendia.
- Jeú o tomou em sua carruagem e o levou consigo a Samaria. Honrou Jonadabe ao levá-lo consigo — ele não estava acostumado a andar numa carruagem, muito menos com um rei —, mas Jeú recebeu de Jonadabe honra ainda maior, pelo apoio que este dava à obra em curso.
Todas as pessoas sensatas pensariam melhor de Jeú ao ver Jonadabe na carruagem com ele. Não foi a única vez que a piedade de alguns serviu à política de outros e homens ardilosos fortaleceram sua posição atraindo pessoas boas para os próprios interesses.
Jonadabe era estranho às artes da sabedoria carnal e conduzia sua vida com simplicidade e sinceridade piedosa. Se Jeú fosse servo de Deus e inimigo de Baal, seria seu amigo fiel.
“Venha, então; venha comigo e veja meu zelo pelo Senhor; depois você verá motivo para abraçar minha causa”, disse Jeú. Em geral, considera-se que Jeú não falou bem e que suas palavras dão motivo para suspeitar que seu coração não era reto diante de Deus. O zelo que alegava ter pelo Senhor talvez fosse, na verdade, zelo por si mesmo e por sua própria ascensão.
(1.) Jeú se gabava disso e falava como se Deus e as pessoas lhe devessem muito por seu zelo.
(2.) Queria que todos o vissem e notassem, como os fariseus, que faziam tudo para ser vistos pelas pessoas.
Um coração íntegro busca a aprovação de Deus e não deseja nada além de ser aceito por ele. Se buscamos o aplauso das pessoas e fazemos do elogio delas nosso objetivo maior, estamos apoiados numa base falsa.
Não podemos julgar se Jeú tinha alguma intenção além dessa. De todo modo, Jonadabe foi com ele e, ao que parece, o animou e ajudou a cumprir o restante do encargo (v. 17), destruindo todos os amigos de Acabe em Samaria.
Uma pessoa pode odiar a crueldade e ainda amar a justiça; pode estar longe de ter sede de sangue e, mesmo assim, “lavar os pés no sangue dos perversos” (Salmos 58:10).
II. Trama para destruir todos os adoradores de Baal:
O culto a Baal era o pecado clamoroso da casa de Acabe. A raiz dessa idolatria fora arrancada, mas ainda havia multidões contaminadas por ela e que poderiam contaminar outras pessoas.
A lei de Deus era explícita: eles deviam ser mortos. Mas eram numerosos, espalhados por todo o reino e, talvez, alarmados com os primeiros atos de Jeú; seria difícil encontrar todos e interminável processá-los e executá-los um por um. Por isso, Jeú planejou eliminá-los todos de uma vez.
- Por um ardil, por uma fraude, Jeú os reuniu no templo de Baal. Fingiu que adoraria Baal ainda mais do que Acabe (v. 18).
Talvez tenha falado ironicamente ou para testar se o povo se oporia a uma decisão como essa e se ressentiria de sua ameaça de aumentar as exigências de seu predecessor, e dissessem: “Se é assim, não temos parte com Jeú nem herança com o filho de Ninsi.”
Mas parece mais provável que tenha dito isso de propósito para enganar os adoradores de Baal; nesse caso, seu plano não pode ser justificado. A verdade de Deus não precisa da mentira de ninguém.
Jeú proclamou que todos os adoradores de Baal deviam comparecer para participar com ele de um sacrifício a Baal (v. 19, 20): não apenas os profetas e sacerdotes, mas todos os adoradores de Baal de todo o reino — que já não eram tantos quanto haviam sido na época de Elias.
Podemos supor que os amigos de Jeú sabiam o que ele planejava e não se ofenderam. Mas os fanáticos e insensatos adoradores de Baal começaram a se considerar muito felizes, pensando que veriam dias dourados outra vez.
Jorão havia removido a imagem de Baal (2 Reis 3:2). Se Jeú a restaurasse, eles teriam o que queriam e viriam contentes de todas as partes a Samaria para celebrar a solenidade.
Ficaram satisfeitos de ver o templo de Baal lotado (v. 21), os sacerdotes com suas vestes (v. 22) e talvez todos eles usando algum distintivo de sua ligação com Baal, pois havia vestes para todos os seus adoradores.
- Jeú tomou providências para que nenhum servo do Senhor estivesse entre eles (v. 23). Os adoradores de Baal entenderam isso como uma precaução para que estrangeiros não profanassem seu culto.
Mas é surpreendente que, com essa medida, não percebessem que estavam caindo numa armadilha e que havia um plano contra eles. Não é de admirar que os que se deixam enganar por Baal — como todos os idólatras são enganados por seus ídolos — também sejam enganados por Jeú para sua própria destruição.
- Jeú ordenou que todos fossem mortos, e Jonadabe participou disso (v. 23). Fez-se uma busca rigorosa para que nenhum servo de Deus tivesse entrado ali para fazer companhia ou por curiosidade, para que nenhum trigo se misturasse ao joio.
Oitenta homens foram postos de guarda em todas as entradas do templo de Baal, para que ninguém escapasse (v. 24). Então os guardas foram enviados para matar todos à espada e misturar o sangue deles aos sacrifícios, em justa retribuição ao costume que os adoradores de Baal tinham de, às vezes, em sua devoção cega, cortar-se com facas e lancetas até o sangue jorrar (1 Reis 18:28).
Assim se fez. Embora parecesse bárbaro, considerando a natureza do crime, foi um ato justo. O Senhor, cujo nome é zeloso, é um Deus zeloso.
- Depois da destruição dos idólatras, a própria idolatria foi completamente abolida. Destruíram os edifícios ao redor do templo de Baal, tão numerosos e imponentes que eram chamados de cidade, onde viviam os sacerdotes de Baal e suas famílias.
Todas as pequenas imagens, estátuas, quadros ou santuários que adornavam o templo de Baal, junto com a grande imagem do próprio Baal, foram retiradas e queimadas (v. 26, 27), e o templo foi derrubado e transformado num monturo, o sumidouro ou esgoto comum da cidade, para que sua lembrança fosse apagada ou se tornasse infame.
Assim, pelo menos por algum tempo, o culto a Baal foi completamente destruído em Israel. Ele havia prevalecido tanto que, entre todos os milhares de Israel, apenas sete mil não tinham dobrado o joelho diante de Baal, e estes se mantinham escondidos.
Assim Deus destruirá todos os deuses das nações e, mais cedo ou mais tarde, triunfará sobre todos eles.
Versículos 29 a 36
A Inconstância de Jeú. (a.C. 884.)
Este é todo o relato do reinado de Jeú, embora tenha durado vinte e oito anos. Seu progresso não correspondeu à glória de seu começo. Temos aqui:
I. A aprovação de Deus ao que Jeú havia feito. Muitos, ao que parece, o censuraram como traiçoeiro e bárbaro, chamando-o de rebelde, usurpador e assassino; predisseram que uma família erguida dessa maneira logo seria arruinada. Mas Deus disse: “Muito bem” (v. 30), e pouco importava quem dissesse o contrário.
- Deus declarou reto o que Jeú havia feito. É justo questionar se ele agiu por um princípio bom e se não tomou alguns passos errados ao fazê-lo. Ainda assim, Deus disse: “Fizeste bem em executar o que é reto aos meus olhos” (v. 30).
O extermínio dos idólatras e da idolatria era algo reto aos olhos de Deus, pois ele castiga essa iniquidade com tanta certeza e severidade quanto qualquer outra. Isso correspondia a tudo o que havia no coração de Deus, a tudo o que ele desejava e planejava. Jeú levou sua obra até o fim.
- Deus lhe prometeu uma recompensa: seus descendentes da quarta geração depois dele se assentariam no trono de Israel. Isso superou o que ocorreu em qualquer outra dignidade ou família real daquele reino.
De fato, houve quatro reis da casa de Acabe: Onri, Acabe, Acazias e Jorão. Mas os dois últimos eram irmãos, de modo que a dinastia chegou apenas à terceira geração, e toda a família durou cerca de quarenta e cinco anos.
A dinastia de Jeú, porém, continuou por quatro gerações além dele e durou, ao todo, cerca de cento e vinte anos. Nenhum serviço prestado a Deus ficará sem recompensa.
II. A negligência de Jeú naquilo que ainda lhe cabia fazer: Isso mostrou que seu coração não era reto para com Deus e que sua reforma foi parcial.
- Ele não afastou todo o mal. Abandonou os pecados de Acabe, mas não os de Jeroboão: descartou Baal, mas se apegou aos bezerros.
O culto a Baal era, de fato, o mal maior e mais abominável aos olhos de Deus; ainda assim, o culto aos bezerros era um grande mal. A verdadeira conversão não consiste em abandonar apenas o pecado grosseiro, mas todo pecado: não apenas os deuses falsos, mas também as formas falsas de culto.
O culto a Baal enfraquecia e reduzia os israelitas, tornando-os dependentes dos sidônios; por isso, Jeú pôde abandoná-lo com facilidade. Mas o culto aos bezerros era uma idolatria de conveniência política, iniciada e mantida por razões de Estado, para impedir que as dez tribos voltassem à casa de Davi; por isso, Jeú se apegou a ela.
A verdadeira conversão não consiste apenas em abandonar pecados ruinosos, mas também os lucrativos; não apenas os que prejudicam os interesses terrenos, mas também os que os sustentam e favorecem. É ao abandonar esses pecados que se põe à prova nossa capacidade de renunciar a nós mesmos e confiar em Deus.
- Jeú afastou o mal, mas não se importou com o que era bom (v. 31): “Não teve o cuidado de andar na lei do Senhor, Deus de Israel.” Aboliu o culto a Baal, mas não manteve o culto a Deus nem andou em sua lei.
Ele havia demonstrado grande cuidado e zelo ao extirpar uma religião falsa. Mas, quanto à religião verdadeira, (1.) não demonstrou cuidado, não teve cautela: viveu sem restrições e não se preocupou em agradar a Deus nem cumprir seu dever.
Não atentou para as Escrituras, os profetas nem a própria consciência; agia sem pensar nas consequências. Teme-se que os descuidados não tenham a graça de Deus, pois, quando há um bom princípio no coração, ele torna as pessoas cautelosas e prudentes, desejosas de agradar a Deus e zelosas para não fazer nada que o ofenda.
(2.) Jeú não demonstrou zelo: o que fazia em matéria de religião não fazia de coração, nem com todo o coração. Agia como se não agisse, sem vigor nem interesse.
Parece que ele próprio era pouco religioso e, ainda assim, Deus o usou como instrumento de reforma em Israel. É uma pena que os que fazem o bem aos outros nem sempre sejam bons também.
III. O juízo que veio sobre Israel durante o reinado de Jeú. Temos razão para temer que, quando Jeú não teve o cuidado de andar na lei de Deus, os israelitas em geral tenham sido tão descuidados quanto ele, tanto no culto quanto na conduta.
Houve um declínio geral da piedade e um aumento da impiedade. Por isso, não surpreende que a notícia seguinte seja: “Naqueles dias, o Senhor começou a reduzir Israel” (v. 32).
Os vizinhos avançaram contra os israelitas por todos os lados. Eles foram negligentes em seu dever para com Deus; por isso, Deus reduziu seu território, sua riqueza e seu poder.
Hazael, rei da Síria, foi mais hostil e nocivo a Israel que qualquer outro. Atacou todas as regiões de Israel, especialmente as terras do outro lado do Jordão, que lhe eram vizinhas e estavam mais expostas. Ele fazia incursões contínuas e as devastava.
Então os rubenitas e gaditas sofreram as consequências da escolha de seus antepassados: receber uma herança daquele lado do Jordão, escolha que Moisés havia reprovado (Números 32).
Agora Hazael fez o que Eliseu previra e anunciara. Ainda assim, Deus tinha uma queixa contra ele e seu reino por causa disso, como lemos em Amós 1:3, 4: porque os de Damasco trilharam Gileade com instrumentos de debulha de ferro; por isso, diz Deus, enviarei fogo contra a casa de Hazael, que devorará os palácios de Ben-Hadade.
Por último, temos a conclusão do reinado de Jeú (vv. 34-36). Registra-se, em termos gerais, seu poder; mas, como ele não teve o cuidado de servir a Deus, as lembranças de seus grandes empreendimentos e feitos são justamente sepultadas no esquecimento.