2 Reis 8
Argumento
As passagens da narrativa registradas neste capítulo nos levam a olhar para trás. I. Antes lemos sobre uma mulher sunamita que foi uma benfeitora bondosa para Eliseu; agora nos contam como, depois, ela se saiu melhor por causa disso, tanto pelo conselho que Eliseu lhe deu quanto pelo favor que o rei lhe mostrou por consideração a ele, vv. 1-6.
II. Antes lemos sobre a designação de Hazael como rei da Síria (1 Reis 19:15); aqui temos um relato de sua ascensão a esse trono e do caminho que abriu à força para chegar a ele, matando seu senhor, vv. 7-15.
III. Antes lemos que Jeorão reinava sobre Judá no lugar de seu pai, Josafá (1 Reis 22:50); agora temos um breve e triste relato de seu breve e perverso reinado (vv. 16-24), e o começo da história do reinado de seu filho Acazias, vv. 25-29.
Versículos 1 a 6
Uma Fome em Israel; os Bens da Sunamita São Restituídos. (a.C. 886.)
Temos aqui:
I. A maldade de Israel é punida com uma longa fome, um dos severos juízos de Deus frequentemente ameaçados na lei. Canaã, aquela terra fértil, tornou-se estéril por causa da iniquidade dos que nela habitavam.
A fome em Samaria logo foi aliviada quando o cerco foi levantado, mas nem aquele juízo nem aquela misericórdia exerceram sobre eles a influência devida; por isso, o Senhor chamou outra fome, pois, quando julga, ele prevalece.
Se juízos menores não conseguem levar as pessoas ao arrependimento, ele enviará outros maiores e mais longos; eles estão à sua disposição e virão quando ele os convocar. Por meio dos seus ministros, ele chama à reforma e à obediência.
Se esses chamados não forem atendidos, podemos esperar que convoque alguma praga ou outra, pois será ouvido. Essa fome durou sete anos, o dobro da que houve no tempo de Elias; pois, se as pessoas insistirem em andar contra ele, ele aquecerá ainda mais a fornalha.
II. A bondade da boa sunamita para com o profeta foi recompensada pelo cuidado que se teve dela durante aquela fome. De fato, ela não foi alimentada por milagre, como a viúva de Sarepta, mas:
- Antes que a fome viesse, ela foi avisada para que pudesse se preparar e recebeu orientação para se mudar para algum outro país; em qualquer lugar fora de Israel encontraria fartura.
Foi uma grande vantagem para o Egito, no tempo de José, ter sido avisado da fome antes que ela viesse; esse aviso também foi uma grande vantagem para essa sunamita.
Outros seriam obrigados a partir por fim, depois de suportarem por muito tempo os sofrimentos da fome e consumirem seus recursos; não poderiam se estabelecer em outro lugar em condições tão boas quanto as dela, que partiu cedo, antes da multidão, levando consigo seus bens ainda intactos. É nossa felicidade prever o mal e nossa sabedoria, quando o prevemos, nos esconder.
- A Providência lhe deu uma morada estável e confortável na terra dos filisteus, que, embora subjugados por Davi, não haviam sido totalmente exterminados. Parece que a fome se restringiu à terra de Israel, enquanto outros países bem próximos tinham fartura ao mesmo tempo.
Isso mostrava claramente a mão imediata de Deus naquilo, como nas pragas do Egito, quando ele fez distinção entre os israelitas e os egípcios; mostrava também que os pecados de Israel, contra quem esse juízo era diretamente dirigido, provocavam mais a Deus que os pecados dos seus vizinhos, por causa da profissão de que pertenciam a Deus. “Somente a vós conheci; portanto, vos punirei”, Amós 3:2.
Outros países tinham chuva quando em Israel não havia nenhuma; estavam livres de gafanhotos e lagartas quando Israel era devorado por eles. Alguns pensam que essa foi a fome mencionada em Joel 1:3, 4.
É estranho que, havendo fartura nos países vizinhos, não houvesse quem se dedicasse a importar cereal para a terra de Israel, o que poderia ter impedido seus habitantes de partir. Mas, assim como foram embrutecidos pelas idolatrias, ficaram também entorpecidos até nas questões do próprio interesse civil.
III. A petição dela ao rei, quando voltou, foi favorecida pelo momento oportuno em que se apresentou a ele:
Quando a fome terminou, ela voltou da terra dos filisteus. Aquela terra não era lugar apropriado para uma israelita morar por mais tempo do que a necessidade exigia, pois ali ela não podia guardar suas luas novas e seus sábados como costumava fazer em seu próprio país, entre as escolas dos profetas, 2 Reis 4:23.
Ao voltar, ela descobriu que a haviam privado da posse da sua propriedade, que talvez tivesse sido confiscada para o tesouro real, tomada pelo senhor da terra ou usurpada, durante sua ausência, por algum vizinho.
Ou talvez a pessoa a quem confiara a administração tivesse sido desonesta e não quisesse nem devolvê-la nem prestar contas dos rendimentos. É tão difícil encontrar alguém em quem se possa confiar numa época de aflição: Provérbios 25:19; Miquéias 7:5.
- Ela apresentou seu pedido ao próprio rei para obter reparação; pois, ao que parece, e isso deve ser observado para seu louvor, ele era acessível e examinava pessoalmente as queixas dos súditos prejudicados.
Houve um tempo em que ela vivia tão segura entre seu próprio povo que não precisava que alguém intercedesse por ela junto ao rei ou ao comandante do exército, 2 Reis 4:13. Mas agora seus amigos mais íntimos, em quem confiava, mostraram-se tão injustos e insensíveis que ela ficou feliz por apelar ao rei contra eles.
Há tanta incerteza nas coisas criadas que aquilo de que mais dependemos pode falhar conosco, e aquilo de que pensamos nunca precisar pode nos favorecer.
- Ela encontrou o rei conversando com Geazi sobre os milagres de Eliseu, v. 4.
Foi uma vergonha para ele precisar ser informado a respeito deles agora, quando poderia ter conhecido os milagres enquanto aconteciam, pelo próprio Eliseu, se não tivesse preferido fechar os olhos às provas convincentes da missão do profeta.
Ainda assim, foi um mérito seu estar agora mais bem disposto e preferir conversar com um leproso capaz de dar um bom relato daqueles milagres a continuar ignorante deles.
A lei não proibia toda conversa com leprosos, mas somente morar com eles. Como então não havia sacerdotes em Israel, talvez o rei, ou alguém por ele designado, inspecionasse os leprosos e desse o veredicto, o que pode ter levado o rei a conhecer Geazi.
- Essa feliz coincidência favoreceu tanto o relato de Geazi quanto a petição dela. Devemos reconhecer a Providência ao ordenar as circunstâncias dos acontecimentos, pois coisas que, por si mesmas, parecem pequenas às vezes têm grande importância, como aconteceu aqui:
(1.) Isso deixou o rei pronto a acreditar no relato de Geazi, confirmado então pelas pessoas mais diretamente envolvidas: “Esta é a mulher, e este é o filho dela; que eles mesmos falem”, v. 5.
Assim, Deus até o forçou a acreditar no que ele poderia ter tido algum motivo para questionar se tivesse apenas a palavra de Geazi, pois este tinha a marca de mentiroso, como sua lepra testemunhava.
(2.) Isso o deixou pronto a atender ao pedido dela, pois quem não estaria disposto a favorecer alguém a quem o céu favorecera assim e a sustentar uma vida concedida uma vez e outra por milagre?
Considerando isso, o rei ordenou que lhe restituíssem a terra e todos os rendimentos obtidos durante sua ausência.
Se a terra e os rendimentos haviam sido confiscados em favor do próprio rei, foi generoso e bondoso fazer restituição tão completa; ele não quis enriquecer a coroa com as calamidades dos súditos, como o faraó fez no tempo de José.
Se outra pessoa havia invadido a propriedade dela, o rei agiu com justiça e cumpriu parte do dever do seu cargo ao repará-la, Salmos 82:3, 4; Provérbios 31:9.
Não basta que os que têm autoridade não pratiquem o mal; eles também devem defender o direito dos que são prejudicados.
Versículos 7 a 15
A Crueldade de Hazael É Predita. (a.C. 885.)
I. Podemos perguntar o que levou Eliseu a Damasco, a principal cidade da Síria. Ele teria sido enviado a alguém além das ovelhas perdidas da casa de Israel? Parece que sim.
Talvez tenha ido visitar Naamã, seu convertido, e confirmá-lo na escolha da verdadeira religião; isso se fazia ainda mais necessário porque, ao que parece, Naamã já não ocupava seu posto (pois se supõe que Hazael era o comandante daquele exército); ou ele renunciou ao posto, ou foi afastado dele, por não se curvar ou por não se curvar de coração na casa de Rimom.
Alguns pensam que Eliseu foi a Damasco por causa da fome; ou melhor, foi para lá em obediência às ordens que Deus dera a Elias, 1 Reis 19:15: vá a Damasco para ungir Hazael, você ou o seu sucessor.
II. Podemos observar que Ben-Hadade, um grande rei, rico e poderoso, estava doente. Honra, riqueza ou poder não protegem ninguém das doenças e desventuras comuns da vida humana; palácios e tronos estão tão expostos às investidas da doença e da morte quanto a mais humilde cabana.
III. Podemos nos admirar de que o rei da Síria, durante a doença, fizesse de Eliseu o seu oráculo.
- Logo lhe trouxeram a notícia de que o homem de Deus (pois esse era o título pelo qual era bem conhecido na Síria desde que curara Naamã) havia chegado a Damasco, v. 7. “Nunca em melhor hora!”, diz Ben-Hadade. “Vão e consultem o Senhor por meio dele.”
Quando tinha saúde, ele se curvava na casa de Rimom; agora, doente, desconfiava do seu ídolo e mandava consultar o Deus de Israel. A aflição leva a Deus aqueles que, na prosperidade, pouco se importavam com ele; às vezes, a doença abre os olhos das pessoas e corrige seus enganos.
Isso é ainda mais digno de nota: (1.) não fazia muito tempo que um rei de Israel, durante a doença, havia mandado consultar o deus de Ecrom, 2 Reis 1:2, como se não houvesse Deus em Israel.
Observe que, às vezes, Deus toma para si, entre estrangeiros, a honra que lhe é negada e roubada pelo seu próprio povo, que professa pertencer a ele.
(2.) Não fazia muito tempo que esse mesmo Ben-Hadade havia enviado uma grande força para tratar Eliseu como inimigo, 2 Reis 6:14; mesmo assim, agora o cortejava como profeta.
Observe que, entre outras maneiras pelas quais a doença e a aflição mudam o modo de pensar das pessoas, está esta: muitas vezes elas passam a pensar de outra maneira sobre os ministros de Deus e aprendem a valorizar os conselhos e as orações daqueles que odiavam e desprezavam.
- Para honrar o profeta: (1.) Ben-Hadade manda-lhe uma mensagem, em vez de mandar buscá-lo, como se, à semelhança do centurião, pensasse não ser digno de que o homem de Deus entrasse em sua casa.
(2.) Envia-lhe Hazael, seu primeiro-ministro, e não um mensageiro qualquer. Não é indigno dos maiores homens servir aos profetas do Senhor. Hazael deve ir encontrá-lo num lugar onde Eliseu havia marcado uma reunião com os amigos.
(3.) Ben-Hadade lhe envia um presente nobre, de todos os bons produtos de Damasco, tanto quanto quarenta camelos podiam carregar (v. 9). Com isso, demonstra seu afeto pelo profeta, dá-lhe as boas-vindas a Damasco e providencia seu sustento durante a estadia.
É provável que Eliseu o tenha aceitado (por que não?), embora tenha recusado o presente de Naamã.
(4.) Ben-Hadade manda Hazael chamar Eliseu de pai e apresentar o próprio Ben-Hadade como filho de Eliseu, seguindo o costume de Israel, que chamava os profetas de pais.
(5.) Honra Eliseu como alguém que conhece os segredos do céu quando lhe pergunta se vai se recuperar. É natural desejarmos saber o que nos espera nesta vida, enquanto quase não pensamos nem perguntamos sobre o que nos espera na eternidade.
IV. O que se passou entre Hazael e Eliseu merece atenção especial:
- Eliseu respondeu à pergunta sobre o rei: ele poderia se recuperar, pois a doença não era mortal, mas morreria de outra maneira (v. 10), não de morte natural, e sim violenta.
Há muitas maneiras de sair deste mundo e, às vezes, enquanto as pessoas pensam estar evitando uma delas, caem por outra.
- Eliseu olhou Hazael no rosto com preocupação incomum, até fazê-lo corar e ele próprio chorar, v. 11.
O homem de Deus podia encarar o homem de guerra. Não foi no semblante de Hazael que Eliseu leu o que ele faria; naquele momento, Deus lhe revelou isso, e a revelação lhe arrancou lágrimas. Quanto mais as pessoas podem prever o futuro, mais sujeitas ficam à tristeza.
- Quando Hazael lhe perguntou por que chorava, Eliseu lhe contou quanto mal previa que faria ao povo de Deus, v. 12: quantas fortalezas arrasaria e como destruiria cruelmente homens, mulheres e crianças.
Os pecados de Israel levaram Deus a entregá-los nas mãos de inimigos cruéis; ainda assim, Eliseu chorava ao pensar que os israelitas seriam tão maltratados. Embora previsse aquele dia terrível, não o desejava.
Veja a devastação que a guerra causa, a que o pecado causa e como a natureza humana foi mudada pela queda, ficando até despojada da própria humanidade.
- Hazael ficou muito surpreso com essa predição, v. 13: “O quê?”, diz ele. “É o teu servo um cão, para fazer essa grande coisa?”
Ele considera essa grande coisa: (1.) um ato de grande poder, que somente um soberano poderia praticar. “É preciso que seja algum potentado poderoso, capaz de pensar em prevalecer assim contra Israel; portanto, não posso ser eu.” Muitos chegam a um domínio que nunca imaginaram alcançar, e isso muitas vezes lhes causa dano, Eclesiastes 8:9.
(2.) Um ato de grande crueldade, que só poderia ser cometido por alguém despojado de toda honra e virtude. “Portanto”, diz ele, “jamais me passaria pela cabeça cometer tal coisa. É o teu servo um cão, para dilacerar, despedaçar e devorar? Se eu não fosse um cão, não poderia fazer isso.”
Veja aqui: [1.] que má opinião ele tinha do pecado. Considerava-o uma grande maldade, mais própria de um bruto, de uma fera predadora, que de um homem.
Observe que um homem perverso, sob as convicções e as restrições da consciência natural, pode expressar grande horror a um pecado e, ainda assim, mais tarde se reconciliar com ele.
[2.] Veja que boa opinião tinha de si mesmo, muito melhor do que merecia; achava impossível fazer coisas tão cruéis quanto o profeta previra.
Observe que costumamos pensar estar suficientemente protegidos contra pecados pelos quais, mais tarde, somos vencidos, como aconteceu com Pedro, Mateus 26:35.
- Em resposta, Eliseu apenas lhe disse que seria rei da Síria; então teria poder para fazer aquilo e também se sentiria inclinado a fazê-lo.
As honras mudam o temperamento e os modos das pessoas, e raramente para melhor. “Tu não sabes o que farás quando te tornares rei, mas te digo que farás isto.”
Os que ocupam posições humildes no mundo não conseguem imaginar como são fortes as tentações do poder e da prosperidade. Se algum dia chegarem a essas posições, descobrirão quanto seu coração os enganou e quanto eram piores do que imaginavam.
V. O mal que Hazael fez ao seu senhor em seguida. Se ele tomou o que Eliseu dissera como pretexto para fazer isso, a culpa era dele, não das palavras do profeta.
- Hazael enganou vergonhosamente seu senhor e mentiu a respeito do profeta, v. 14: “Ele me disse que você certamente se recuperaria.”
Isso era abominavelmente falso; Eliseu lhe dissera que morreria (v. 10), mas Hazael escondeu isso de maneira desleal, ou porque relutava em aborrecer o rei com más notícias, ou porque assim poderia levar adiante com mais eficácia o plano sanguinário que concebeu ao saber que seria o sucessor do rei.
O diabo arruína as pessoas dizendo que certamente se recuperarão e ficarão bem, embalando-as assim num sono de segurança, e nada é mais fatal do que isso.
Isso prejudicou o rei, que perdeu o benefício daquele aviso para se preparar para a morte, e prejudicou Eliseu, que seria tido por falso profeta.
- Hazael assassinou brutalmente o senhor e, assim, confirmou as palavras do profeta, v. 15. Molhou um pano grosso em água fria e o estendeu sobre o rosto do rei, fingindo refrescá-lo e aliviá-lo, mas de modo a impedir-lhe a respiração e sufocá-lo imediatamente, pois ele estava fraco, sem poder se defender, ou talvez dormindo.
Que bolha frágil é a vida até dos maiores homens, e quão expostos à violência estão os príncipes! Hazael, confidente de Ben-Hadade, foi seu assassino; alguns pensam que nem sequer foi suspeito e que a verdade nunca veio à tona, senão pela pena deste historiador inspirado.
Encontramos esse monarca arrogante como o terror dos poderosos na terra dos viventes (1 Reis 20); mas ele desce morto à sepultura, com sua iniquidade sobre os ossos, Ezequiel 32:27.
Versículos 16 a 24
O Reinado de Jeorão. (a.C. 884.)
Temos aqui um breve relato da vida e do reinado de Jeorão (ou Jorão), um dos piores reis de Judá, embora fosse filho e sucessor de Josafá, um dos melhores.
Observe: 1. Os pais não podem transmitir graça aos filhos. Muitos que foram piedosos tiveram a dor e a vergonha de ver os que saíram de seu ventre perversos e vis. Que as famílias afligidas dessa maneira não estranhem.
Se os filhos de bons pais se tornam perversos, em geral são piores que os outros. O espírito imundo traz outros sete, mais perversos do que ele, Lucas 11:26.
Às vezes, uma nação é justamente punida com as misérias de um mau reinado por não ter aproveitado as bênçãos e as vantagens de um bom reinado.
A respeito deste Jeorão, observe: I. A descrição geral que se dá aqui da sua maldade, v. 18: agiu como a casa de Acabe; não poderia ter agido pior.
Seu caráter é descrito a partir do mau exemplo que seguiu, pois os homens se moldam segundo a companhia em que vivem e os modelos que imitam. Nenhum erro é mais fatal para os jovens do que escolher mal aqueles a quem procuram agradar, de quem tiram seus parâmetros e por cuja boa opinião medem o próprio valor.
Jeorão escolheu a casa de Acabe como modelo, em vez da casa de seu pai, e essa escolha o arruinou. Temos um relato detalhado de sua maldade em 2 Crônicas 21: assassinato, idolatria, perseguição, tudo o que havia de ruim.
II. As causas de sua maldade. Seu pai era um homem muito bom e, sem dúvida, teve o cuidado de lhe ensinar o bom conhecimento do Senhor; mas:
- Certamente errou ao casá-lo com a filha de Acabe. Nada de bom poderia vir de uma aliança com uma família idólatra; de uma filha como Atalia, filha de Jezabel, só poderia vir todo tipo de mal.
A degeneração do mundo antigo começou quando os que professavam servir a Deus se uniram aos ímpios. Os que fazem maus casamentos já estão arruinados pela metade.
- Duvido que tenha feito bem em torná-lo rei enquanto ainda vivia. Diz-se aqui que Jeorão começou a reinar quando Josafá ainda era rei, v. 16.
Com isso, satisfez o orgulho do filho, e nada é mais nocivo aos jovens do que o orgulho. Também cedeu à ambição dele, na esperança de corrigi-lo ao agradá-lo. Assim, trouxe uma maldição sobre sua família, como Eli, cujos filhos se fizeram vis e ele não os conteve.
Josafá já havia feito desse filho perverso seu vice-rei quando foi com Acabe a Ramote-Gileade. Por isso, o décimo sétimo ano de Josafá (1 Reis 22:51) é considerado o segundo ano de Jeorão (2 Reis 1:17).
Mais tarde, no vigésimo segundo ano de Josafá, tornou Jeorão sócio no governo; a partir daí devem ser contados os oito anos de Jorão, três anos antes da morte do pai.
Foi prejudicial a muitos jovens receberem sua herança cedo demais. Samuel nada ganhou ao fazer de seus filhos juízes.
III. As repreensões da Providência que recaíram sobre ele por causa de sua maldade:
- Os edomitas se revoltaram. Desde o tempo de Davi, havia cerca de 150 anos, os edomitas estavam sob o governo dos reis de Judá, v. 20.
Jeorão tentou subjugá-los e os derrotou, v. 21, mas não conseguiu aproveitar a vantagem para recuperar seu domínio sobre eles. Ainda assim, Edom se revoltou, v. 22, e, depois disso, os edomitas se tornaram inimigos ferrenhos dos judeus, como mostram a profecia de Obadias e Salmos 137:7.
Cumpriu-se então a profecia de Isaque: o Esaú mais velho serviria ao Jacó mais novo; com o passar do tempo, porém, quebraria o jugo de sobre o pescoço, Gênesis 27:40.
- Libna se revoltou. Era uma cidade em Judá, no coração do país, uma cidade sacerdotal.
Seus habitantes sacudiram o governo de Jeorão porque ele abandonara a Deus e queria obrigá-los a fazer o mesmo, 2 Crônicas 21:10, 11. Para preservar sua religião, organizaram-se como um estado livre. Talvez outras cidades tenham feito o mesmo.
- O reinado dele foi curto. Deus o cortou no meio dos seus dias, quando tinha apenas quarenta anos e reinara somente oito. Homens sanguinários e enganadores não viverão metade dos seus dias.
IV. O cuidado gracioso da Providência em manter o reino de Judá e a casa de Davi, apesar das apostasias e calamidades do reinado de Jeorão, v. 19: “Ainda assim, o Senhor não quis destruir Judá.”
Ele poderia tê-lo feito com facilidade; poderia tê-lo feito com justiça; não teria perdido nada ao fazê-lo. Mesmo assim, não o fez, por causa de Davi; não por algum mérito dele que pudesse exigir esse favor à sua família como uma dívida, mas por causa da promessa feita a Davi de que sempre teria uma lâmpada, isto é, uma sucessão de reis de geração em geração.
Assim, seu nome seria mantido brilhante e ilustre, como uma lâmpada que continua acesa ao receber regularmente novo azeite. Sua família nunca se extinguiria antes de chegar ao Messias, aquele Filho de Davi sobre quem repousaria toda a glória da casa de seu Pai e em cujo reino eterno se cumpriria a promessa feita a Davi, Salmos 132:17: “Ordenei uma lâmpada para o meu ungido.”
V. A conclusão desse reinado ímpio e inglório, v. 23, 24. Nada de particular é dito aqui sobre ele; mas somos informados em 2 Crônicas 21:19, 20 de que morreu de doenças graves e sem ser lamentado.
Versículos 25 a 29
O Reinado de Acazias. (a.C. 884.)
Entre as pessoas comuns, há algumas a quem chamamos de homens pequenos, que não se destacam, são pouco notadas e menos valorizadas. Assim também, entre os reis, há alguns que, em comparação com outros, podemos chamar de reis pequenos.
Acazias era um deles; parece insignificante na história e, aos olhos de Deus, vil por ser perverso.
É prova evidente da afinidade entre Josafá e Acabe que as famílias dos dois tenham tido nomes iguais ao mesmo tempo; podemos supor que pretendiam, com isso, homenagear um ao outro.
Acabe teve dois filhos, Acazias e Jeorão, que reinaram um depois do outro. Josafá teve um filho e um neto chamados Jeorão e Acazias, que, do mesmo modo, reinaram um depois do outro.
Os nomes não determinam a natureza, mas foi mau presságio para a família de Josafá tomar emprestados nomes da de Acabe. Ou, se ele emprestou esses nomes àquela família miserável, não pôde transmitir-lhe a devoção contida no significado deles: Acazias, “Apegando-se ao Senhor”, e Jeorão, “O Senhor exaltado”.
Acazias, rei de Israel, havia reinado apenas dois anos; Acazias, rei de Judá, reinou apenas um. Ficamos sabendo aqui que seu parentesco com a família de Acabe foi a causa:
- De sua maldade (v. 27): “Ele andou no caminho da casa de Acabe”, aquela casa idólatra e sanguinária, pois sua mãe era filha de Acabe (v. 26) e, assim, mamou a maldade com o leite materno.
Partus sequitur ventrem — espera-se que o filho se pareça com a mãe. Quando os homens escolhem esposas, devem lembrar que estão escolhendo mães para os filhos e que precisam fazer essa escolha com cuidado.
- De sua queda. Jorão, irmão de sua mãe, convidou-o a se juntar a ele na tentativa de recuperar Ramote-Gileade; essa expedição foi fatal para Acabe e também para Jorão, seu filho, pois nela foi ferido, v. 28, e voltou a Jezreel para se curar, deixando o exército ali em posse da cidade.
Acazias também voltou, mas foi a Jezreel para ver como Jeorão estava, v. 29. A Providência ordenou as coisas de modo que aquele que fora corrompido pela casa de Acabe fosse eliminado com eles quando a medida da iniquidade deles se completasse, como veremos no próximo capítulo.
Os que participam dos pecados dos pecadores devem esperar participar também das suas pragas.