Matthew Henry

2 Reis 6

Argumento

Neste capítulo temos: I. Um relato adicional das obras maravilhosas de Eliseu. 1. Ele faz o ferro flutuar, vv. 1-7. 2. Revela ao rei de Israel os conselhos secretos do rei da Síria, vv. 8-12. 3. Salva a si mesmo das mãos dos que foram enviados para prendê-lo, vv. 13-23.

II. O cerco de Samaria pelos sírios e a grande aflição a que a cidade foi reduzida, vv. 24-33. O alívio da cidade é outra das maravilhas realizadas pela palavra de Eliseu, cuja história teremos no próximo capítulo. Eliseu continua sendo uma grande bênção tanto para a igreja quanto para o Estado, tanto para os filhos dos profetas quanto para o seu príncipe.

Versículos 1 a 7

O Ferro Feito para Flutuar. (a.C. 893.)

Aqui há várias coisas a observar:

I. A respeito dos filhos dos profetas, de sua condição e de seu caráter. A escola mencionada aqui parece ser a de Gilgal, pois Eliseu estava ali (2 Reis 4:38), e o lugar ficava perto do Jordão. Provavelmente, onde quer que Eliseu morasse, tantos filhos dos profetas quanto pudessem afluíam a ele em busca do benefício de suas instruções, conselhos e orações.

Todos desejariam morar com ele e ficar perto dele. Os que pretendem ser mestres devem empenhar-se em obter as melhores oportunidades de aprendizado. Observe agora:

  1. O número deles aumentou, de modo que já não tinham espaço suficiente: “O lugar é apertado demais para nós” (v. 1). Era bom ouvir isso, pois é sinal de que muitos se juntavam a eles. Sem dúvida, os milagres de Eliseu atraíram muitos.

Talvez tenham aumentado ainda mais quando Geazi foi dispensado e, ao que parece, um homem mais honesto foi posto em seu lugar para cuidar de seus mantimentos. Pois parece (pelo exemplo de 2 Reis 4:43) que o caso de Naamã não foi o único em que Geazi se ressentiu da generosidade de seu senhor.

  1. Eram homens humildes, que não buscavam o que fosse vistoso ou grandioso. Quando lhes faltou espaço, não falaram em buscar cedros, pedras de mármore e artífices primorosos, mas apenas em cada um conseguir uma viga para erguer uma cabana ou casa simples.

Convém que os filhos dos profetas, que professam esperar grandes coisas no outro mundo, se contentem com coisas humildes neste.

  1. Eram homens pobres, sem influência junto aos poderosos. Era sinal de que Jorão era rei e Jezabel também governava; caso contrário, quando lhes faltasse espaço, os filhos dos profetas só precisariam recorrer ao governo, em vez de deliberar entre si sobre ampliar suas construções.

Os profetas de Deus raramente são os favoritos do mundo. Eram tão pobres que não tinham como contratar trabalhadores, mas precisavam deixar seus estudos e trabalhar por conta própria; nem sequer podiam comprar ferramentas, e tinham de pedi-las emprestadas aos vizinhos. A pobreza, portanto, não impede ninguém de ser profeta.

  1. Eram homens diligentes, dispostos a se esforçar. Não queriam viver como zangões ociosos (eu poderia ter dito monges ociosos), à custa do trabalho alheio; só pediram permissão ao seu presidente para trabalhar por conta própria.

Os filhos dos profetas não devem se ocupar tanto da contemplação a ponto de se tornarem incapazes de agir. Muito menos devem entregar-se ao conforto a ponto de ter aversão ao trabalho. Quem precisa comer ou morrer precisa trabalhar ou passar fome (2 Tessalonicenses 3:8, 10). Ninguém pense que um trabalho honesto seja um fardo ou um rebaixamento.

  1. Eram homens que tinham grande estima e reverência por Eliseu. Embora eles mesmos fossem profetas, demonstravam-lhe muita deferência.

(1.) Não empreenderiam a construção sem a permissão dele (v. 2). É bom desconfiarmos do próprio julgamento, mesmo quando pensamos ter mais razão, e desejarmos o conselho dos que são mais sábios e experientes.

É especialmente louvável que os filhos dos profetas levem consigo o pai e, em todos os assuntos importantes, ajam sob a orientação dele, permissu superiorum — com a permissão de seus superiores.

(2.) Não iriam de bom grado cortar madeira sem a companhia dele: “Vá com os seus servos (v. 3), não apenas para nos aconselhar em alguma necessidade, mas para manter a boa ordem entre nós, para que, sob o seu olhar, nos comportemos como convém.” Bons discípulos desejam estar sempre sob boa disciplina.

  1. Eram homens honestos e cuidadosos para dar a cada um o que lhe era devido. Quando um deles, ao desferir por acaso um golpe forte demais (pois quem raramente trabalha tende a ser violento), fez a cabeça do machado cair na água, não disse: “Foi um acidente, quem pode evitar? A culpa foi do cabo, e o dono merece arcar com a perda.”

Não. Ele clamou, profundamente aflito: “Ai, meu senhor! Pois era emprestado” (v. 5). Se o machado fosse dele, só o entristeceria não poder continuar sendo útil aos irmãos. Mas, além disso, agora o afligia não poder ser justo com o dono, a quem devia não só justiça, mas também gratidão.

Repare: devemos cuidar do que nos é emprestado tanto quanto do que é nosso, para que não sofra dano, porque devemos amar o próximo como a nós mesmos e fazer com ele o que gostaríamos que fizesse conosco.

É provável que esse profeta fosse pobre e não tivesse como pagar o machado, o que tornava sua perda ainda mais penosa. Para quem tem um coração honesto, a parte mais dolorosa da pobreza não é tanto a própria necessidade ou a desonra, mas ficar, por causa dela, impossibilitado de pagar as dívidas justas.

II. A respeito do pai dos profetas, Eliseu. 1. Ele era um homem de grande condescendência e compaixão: foi com os filhos dos profetas ao bosque, quando eles pediram sua companhia (v. 3). Ninguém, especialmente nenhum ministro, pense ser grande demais para se abaixar a fim de fazer o bem; seja bondoso com todos.

  1. Ele era um homem de grande poder: podia fazer o ferro flutuar, contra sua natureza (v. 6), pois o Deus da natureza não está preso às suas leis. Eliseu não lançou o cabo atrás da lâmina; cortou um pedaço novo de madeira e o lançou no rio.

Não precisamos duplicar o milagre supondo que a madeira afundou para buscar o ferro. Bastou que fosse um sinal da ordem divina para que o ferro subisse. Assim, a graça de Deus pode erguer o coração de pedra, semelhante ao ferro, que afundou na lama deste mundo, e elevar às coisas do alto as afeições naturalmente terrenas.

Versículos 8 a 12

Os Sírios Enredados; Libertados com Generosidade. (a.C. 893.)

Aqui vemos Eliseu, com seu espírito profético, servindo ao rei, assim como antes ajudara os filhos dos profetas. Pois esse dom, como os demais, é dado a cada um para o bem de todos. Quaisquer que sejam as capacidades de alguém para fazer o bem, por meio delas ele se torna devedor tanto a sábios quanto a ignorantes. Repare:

I. O rei de Israel era informado por Eliseu de todos os planos e movimentos do inimigo, o rei da Síria, de modo mais eficaz do que poderia ser pelos espiões mais vigilantes e fiéis.

Se o rei da Síria, em um conselho de guerra secreto, decidisse em que lugar faria uma incursão nas fronteiras de Israel, pensando que ali os apanharia de surpresa e que teriam menos condições de resistir, o rei de Israel recebia a notícia de Eliseu antes que as tropas sírias recebessem as ordens. Assim, podia evitar o dano; e isso aconteceu muitas vezes (vv. 8-10).

Veja aqui: 1. Os inimigos do Israel de Deus são sagazes em seus planos e incansáveis em seus ataques contra ele. Eles não saberão nem verão até que entremos no meio deles e os matemos (Neemias 4:11).

  1. Todos esses planos são conhecidos por Deus, até os mais bem ocultos. Ele sabe não apenas o que as pessoas fazem, mas também o que planejam, e tem muitos meios de frustrá-las.

  2. É grande vantagem sermos avisados do perigo, para que possamos nos precaver contra ele. O trabalho dos profetas de Deus é nos alertar. Se, depois de alertados, não nos salvarmos, a culpa será nossa, e nosso sangue cairá sobre a nossa cabeça.

O rei de Israel dava atenção aos avisos de Eliseu sobre o perigo que os sírios representavam, mas não aos avisos sobre o perigo que seus pecados lhe traziam. A maioria dá pouca atenção a esses avisos: quer se salvar da morte, mas não do inferno.

II. O rei da Síria se ressentiu disso. Suspeitou de traição entre seus conselheiros e de que seus planos estavam sendo revelados (v. 11).

Mas um dos seus servos, que ouvira de Naamã e de outros sobre as obras maravilhosas de Eliseu, concluiu que devia ser ele quem dava essas informações ao rei de Israel (v. 12).

O que Eliseu não poderia descobrir, se era capaz de contar a Geazi o que o próprio Geazi pensava? Aqui, os sírios são obrigados a reconhecer o conhecimento ilimitado do Deus de Israel, assim como antes reconheceram o seu poder ilimitado.

Nada do que alguém faça, diga ou pense, em qualquer lugar e a qualquer hora, escapa ao conhecimento de Deus.

Versículos 13 a 23

Aqui temos: 1. A grande força que o rei da Síria enviou para capturar Eliseu. Descobriu onde ele estava, em Dotã (v. 13), não muito longe de Samaria, e mandou para lá um grande exército, que deveria atacá-lo de noite e trazê-lo, vivo ou morto (v. 14).

Talvez tivesse ouvido que, quando apenas um capitão e seus cinquenta homens foram enviados para prender Elias, fracassaram; por isso mandou um exército contra Eliseu, como se o fogo do céu que consumiu cinquenta homens não pudesse consumir com a mesma facilidade cinquenta mil.

Naamã poderia lhe dizer que Eliseu não morava em uma fortaleza, não tinha guardas nem exercia tamanha influência sobre o povo que o rei precisasse temer um tumulto entre eles. Que necessidade havia, então, de uma força tão grande?

Mas assim ele esperava garantir a captura, sobretudo atacando de surpresa. Tolo! Acreditava ou não que Eliseu havia informado o rei de Israel sobre seus conselhos secretos?

Se não acreditava, que motivo tinha para se indispor com Eliseu? Se acreditava, podia ser tão tolo a ponto de imaginar que Eliseu não descobriria os planos contra si mesmo e que, tendo influência suficiente no céu para descobri-los, não teria influência suficiente para frustrá-los? Os que lutam contra Deus, contra o seu povo e contra o seu profeta não sabem o que fazem.

II. O grande pavor do servo do profeta, ao ver a cidade cercada pelos sírios, e a maneira eficaz como o profeta o acalmou e o livrou do medo.

Parece que Eliseu acostumava seu servo a levantar cedo; assim se consegue fazer algo e realizar o trabalho de cada dia no próprio dia. Já de pé, ele deve ter ouvido o ruído dos soldados, olhado para fora e visto um exército cercando a cidade (v. 15), sem dúvida muito confiante na vitória e certo de que logo teria em mãos aquele profeta incômodo.

Repare: 1. O servo ficou aterrorizado. Correu direto a Eliseu para lhe contar o que acontecia: “Ai, meu senhor!”, disse. “O que faremos? Estamos perdidos. Não adianta pensar em lutar ou fugir; inevitavelmente cairemos nas mãos deles.”

Se tivesse estudado os Salmos de Davi, que já existiam naquela época, poderia ter aprendido a não temer “dez mil pessoas” (Salmos 3:6), nem mesmo “um exército acampado contra ele” (Salmos 27:3).

Se tivesse considerado que estava ao lado de seu mestre, por meio de quem Deus fizera grandes coisas e a quem Deus não deixaria cair agora nas mãos dos incircuncisos, e que Eliseu, tendo salvado outros, sem dúvida salvaria a si mesmo, não teria ficado tão desorientado.

Se tivesse dito apenas “O que farei?”, teria sido como os discípulos: “Senhor, salva-nos, estamos perecendo!” Mas não precisava incluir seu mestre como se também estivesse em apuros, nem perguntar “O que faremos?”.

  1. Eliseu acalmou o servo. (1.) Com palavras. O que lhe disse (v. 16) é dito a todos os servos fiéis de Deus quando há lutas lá fora e temores cá dentro: “Não tema com aquele medo que atormenta e assombra. Os que estão conosco para nos proteger são mais numerosos do que os que estão contra nós para nos destruir: há muitíssimos mais anjos, e Deus é infinitamente mais poderoso.”

Quando exageramos as causas do nosso medo, devemos ocupar a mente com pensamentos claros, grandiosos e elevados sobre Deus e o mundo invisível. “Se Deus é por nós” (Romanos 8:31), sabemos o que se segue.

(2.) Por meio de uma visão (v. 17). [1.] Parece que Eliseu se preocupava muito em tranquilizar seu servo. Os homens bons desejam não apenas estar tranquilos, mas também que os que estão com eles se sintam assim.

Eliseu havia pouco se separado de seu antigo servo; o novo, recém-chegado ao seu serviço, ainda não tivera o benefício da experiência. Por isso, seu mestre desejava lhe dar outra prova convincente da onipotência que o chamara para servi-lo e agora agia em seu favor.

Repare: os que têm uma fé forte devem considerar com ternura e compaixão os fracos e tímidos, e fazer o que puderem para fortalecê-los.

[2.] Eliseu se via a salvo e desejava apenas que o servo visse o que ele via: uma guarda de anjos ao seu redor. Anjos como os que escoltaram Elias, mestre de Eliseu, até as portas do céu o protegiam contra as portas do inferno: carros de fogo e cavalos de fogo.

O fogo é terrível e consome. O poder empenhado em proteger Eliseu podia tanto aterrorizar quanto destruir os atacantes. Assim como são mensageiros de Deus, os anjos também são seus soldados, seus exércitos (Gênesis 32:2), suas legiões ou regimentos (Mateus 26:53), para o bem do seu povo.

[3.] Para tranquilizar o servo, bastava que seus olhos fossem abertos. Eliseu orou por isso, e o pedido foi atendido: “Senhor, abre os olhos dele, para que veja.”

Os olhos do corpo estavam abertos, e com eles ele enxergava o perigo. “Senhor, abre os olhos da fé dele, para que enxergue a proteção que temos.”

Repare: primeiro, a maior bondade que podemos fazer aos medrosos e desanimados é orar por eles e recomendá-los à poderosa graça de Deus. Segundo, quando nossos olhos se abrem, nossos medos se calam. No escuro, somos mais propensos a nos assustar.

Quanto mais claramente enxergarmos a soberania e o poder do céu, menos temeremos as calamidades desta terra.

III. A vergonhosa derrota que Eliseu impôs ao exército de sírios que veio capturá-lo. Eles pensaram em fazer dele sua presa, mas Eliseu os fez de tolos e brincou com eles. Estava muito longe de temê-los ou recear qualquer dano causado por eles.

  1. Eliseu orou a Deus para que os ferisse de cegueira, e todos ficaram cegos de imediato. Não ficaram cegos como pedra nem perceberam que estavam cegos, pois ainda viam a luz; mas a visão deles se alterou de tal modo que já não reconheciam as pessoas e os lugares que antes conheciam (v. 18).

Ficaram tão confusos que nem os que deveriam orientá-los reconheciam que aquele lugar era Dotã e aquele homem era Eliseu. Ao meio-dia, tateavam como se fosse noite (Isaías 59:10; Jó 12:24, 25). A memória e a capacidade de distinguir as coisas lhes falharam.

Veja o poder de Deus sobre a mente e o entendimento das pessoas, para um lado e para o outro: ele abriu os olhos do amigo de Eliseu e escureceu os olhos dos inimigos, para que vissem de fato, mas não percebessem (Isaías 6:9).

Por meio desse duplo juízo, Cristo veio ao mundo para que os que não veem pudessem ver e para que os que veem fossem cegados (João 9:39). Para uns, ele é cheiro de vida; para outros, de morte.

  1. Depois de deixá-los desorientados e confusos, Eliseu os conduziu a Samaria (v. 19), prometendo mostrar-lhes o homem que procuravam, e assim fez.

Ele não mentiu ao dizer: “Este não é o caminho, nem esta é a cidade onde está Eliseu”, pois ele já havia saído da cidade. Se queriam vê-lo, precisavam ir a outra cidade para a qual ele os conduziria.

Os que lutam contra Deus e seus profetas enganam a si mesmos e são justamente entregues a seus próprios enganos.

  1. Depois de levá-los a Samaria, Eliseu orou a Deus para que lhes abrisse os olhos e lhes devolvesse a memória, a fim de que vissem onde estavam (v. 20). E eis que, para grande terror deles, estavam no meio de Samaria.

É provável que houvesse ali uma guarnição permanente, suficiente para exterminá-los ou fazê-los prisioneiros de guerra. Satanás, o deus deste mundo, cega os olhos das pessoas e assim as ilude até a própria ruína.

Mas, quando Deus lhes abre os olhos, elas se veem no meio de seus inimigos, cativas de Satanás e em perigo de ir para o inferno, embora antes pensassem que sua condição era boa.

Os inimigos de Deus e da sua igreja, quando imaginam que estão prestes a triunfar, descobrirão que foram vencidos e derrotados.

  1. Quando Eliseu os teve à sua mercê, mostrou-se movido tanto pela bondade divina quanto pelo poder divino. (1.) Tratou de protegê-los do perigo a que os levara e se contentou em mostrar o que poderia ter feito.

Não precisava da espada de um anjo para vingar sua causa: se quisesse, a espada do rei de Israel estava à sua disposição (v. 21). “Meu pai” — assim o rei passou a falar com respeito a Eliseu, embora pouco depois jurasse matá-lo —, “devo feri-los?” E tornou a perguntar, como se desejasse atacá-los: “Devo feri-los?”

Talvez se lembrasse de como Deus se desagradou de seu pai por deixar escapar aqueles que Deus pusera em seu poder para destruir, e não quisesse cometer o mesmo erro. Ainda assim, respeitava tanto o profeta que não daria um golpe sem sua autorização.

O profeta de modo algum permitiu que ele os atacasse. Eles tinham sido trazidos para cá a fim de serem convencidos e envergonhados, não mortos (v. 22).

Se fossem prisioneiros do rei, capturados com espada e arco, teria sido bárbaro negar-lhes clemência quando a pedissem. Depois de concedê-la, seria traiçoeiro fazer-lhes algum mal e contrário às leis da guerra matá-los a sangue frio.

Mas não eram prisioneiros do rei: eram prisioneiros de Deus e do profeta, e por isso não deviam ser feridos. Os que se humilham sob a mão de Deus tomam o melhor caminho para se proteger.

(2.) Eliseu cuidou de prover para eles. Mandou que o rei os tratasse com generosidade e depois os dispensasse em paz; e assim o rei fez (v. 23).

[1.] Foi mérito do rei ter sido tão obediente ao profeta, contra a própria inclinação e, ao que parecia, contra o próprio interesse (1 Samuel 24:19).

Estava tão disposto a agradar Eliseu que, embora tivesse recebido ordem de pôr diante deles pão e água — alimento adequado para prisioneiros —, preparou-lhes uma provisão abundante, para honrar sua corte, seu país e Eliseu.

[2.] Foi mérito do profeta ter sido tão generoso com seus inimigos. Embora tivessem vindo capturá-lo, não podiam partir sem admirá-lo como o homem mais poderoso e bondoso que já haviam encontrado.

O grande dever de amar os inimigos e fazer o bem aos que nos odeiam foi ordenado no Antigo Testamento e praticado aqui por Eliseu. Provérbios 25:21, 22 ensina que, se o inimigo tiver fome, deve-se dar-lhe de comer; Êxodo 23:4, 5 também o ordena.

Seu antecessor dera exemplo da justiça divina ao pedir que chamas de fogo consumissem a cabeça de seus perseguidores. Eliseu deu exemplo da misericórdia divina ao amontoar brasas sobre a cabeça dos seus perseguidores para derretê-los. Portanto, não nos deixemos vencer pelo mal, mas vençamos o mal com o bem.

IV. O bom efeito que isso teve, por enquanto, sobre os sírios. Eles não voltaram a entrar na terra de Israel (v. 23), isto é, com o propósito de capturar Eliseu.

Viram que tentar isso era inútil, e nenhum dos seus destacamentos se deixaria convencer a atacar um homem tão poderoso e bom. A vitória mais gloriosa sobre um inimigo é transformá-lo em amigo.

Versículos 24 a 33

O Cerco de Samaria. (a.C. 891.)

Este último parágrafo deste capítulo deveria, com razão, ser o primeiro do próximo, pois começa uma nova história, que ali prossegue e chega ao fim. Aqui temos:

I. O cerco de Samaria pelo rei da Síria e a grande aflição a que a cidade foi reduzida por isso. Os sírios logo se esqueceram da bondade que haviam recebido pouco antes em Samaria e, com grande ingratidão, sem que aparentemente houvesse provocação, buscaram destruí-la (v. 24).

Há espíritos vis que nunca se sentem em dívida. Podemos supor que a região foi saqueada e devastada quando a capital chegou ao extremo (v. 25).

A escassez que havia pouco atingira a terra provavelmente esvaziara os estoques; ou o cerco foi tão repentino que não tiveram tempo de armazenar mantimentos. Assim, enquanto a espada devorava do lado de fora, a fome dentro da cidade era ainda mais cruel (Lamentações 4:9), pois, ao que parece, os sírios não pretendiam invadir a cidade, mas fazê-la passar fome.

A escassez era tão grande que a cabeça de um jumento, com pouca carne, insossa, nociva à saúde e cerimonialmente impura, foi vendida por cinco libras.

Uma pequena porção de ervilhacas, lentilhas ou algum grão grosseiro, então chamado de “esterco de pombas”, não mais do que a quantidade de seis ovos, custava cinco peças de prata, cerca de doze ou quinze xelins.

Aprenda a valorizar a fartura e a ser grato por ela; veja como o dinheiro é desprezível quando, numa época de fome, as pessoas o entregam tão prontamente por qualquer coisa comestível.

II. A triste queixa que uma mulher pobre apresentou ao rei no auge da fome. Ele passava pela muralha para dar ordens sobre a disposição da guarda, a posição dos arqueiros, o reparo das brechas e outras coisas do gênero, quando uma mulher da cidade clamou: “Ajude, meu senhor, ó rei!” (v. 26).

A quem o súdito aflito deveria recorrer em busca de ajuda senão ao príncipe, que por dever protege o que é justo e pune o que é injusto? O rei lhe deu uma resposta desoladora (v. 27): “Se o Senhor não te ajudar, de onde poderei eu?”

Alguns pensam que foi uma resposta áspera, expressão de irritação: “Por que esperas algo de mim, quando o próprio Deus nos trata tão duramente?” Como não podia ajudá-la com o que havia na eira ou no lagar, não quis ajudá-la em nada.

Devemos ter cuidado para que as provações não nos tornem irritadiços. Parece mais que foi uma palavra para acalmá-la: “Contentemo-nos e tiremos o melhor proveito desta aflição, olhando para Deus; enquanto ele não nos ajudar, não posso te ajudar.”

  1. O rei lamentou que a eira e o lagar estivessem vazios. Já não eram como antes; até os estoques do rei tinham acabado.

Lemos (v. 23) que ele tinha à sua disposição grandes provisões, suficientes para receber um exército; ainda assim, agora não tinha como socorrer uma mulher pobre.

Às vezes, a escassez vem depois de grande fartura; não podemos ter certeza de que amanhã será como hoje (Isaías 56:12; Salmos 30:6).

  1. O rei reconheceu que estava impossibilitado de ajudar, a menos que Deus os ajudasse. Repare: as criaturas são impotentes sem Deus, pois cada criatura é aquilo, tudo aquilo e somente aquilo que Deus faz dela.

Embora não pudesse ajudá-la, o rei se dispôs a ouvi-la (v. 28): “O que te aflige? Há algo de singular no teu caso? Ou estás pior do que as tuas vizinhas?”

De fato, sim. Ela e uma vizinha haviam feito um acordo bárbaro: quando acabassem os mantimentos, cozinhariam e comeriam primeiro o filho dela e depois o da vizinha. O filho dela foi comido — quem consegue pensar nisso sem horror? —, mas agora a vizinha escondera o seu (v. 28, 29).

Veja até onde a carne pode dominar o espírito, quando os desejos naturais do corpo conseguem vencer assim os afetos mais naturais do coração.

Veja o cumprimento da palavra de Deus; entre as ameaças dos juízos de Deus contra Israel por seus pecados estava a de que comeriam a carne dos próprios filhos (Deuteronômio 28:53-57), algo que alguém poderia considerar inacreditável, mas que aconteceu.

III. A indignação do rei contra Eliseu por causa disso. O rei lamentou a calamidade, rasgou as roupas e vestiu um pano de saco sobre a pele (v. 30), como alguém sinceramente preocupado com o sofrimento do povo e com a própria incapacidade de ajudá-lo.

Mas não lamentou a própria iniquidade nem a do povo, que causara a calamidade. Não percebia que seu caminho e suas ações haviam atraído aquilo sobre si; essa é a sua maldade, pois é amarga.

A insensatez das pessoas perverte o seu caminho, e então o coração delas se irrita contra o Senhor. Em vez de jurar que derrubaria os bezerros de Dã e Betel, ou de deixar que a lei fosse aplicada contra os profetas de Baal e dos postes-ídolos, o rei jurou matar Eliseu (v. 31).

Por quê? O que Eliseu havia feito? Sua cabeça era a mais inocente e valiosa de todo o Israel, mas foi condenada e tratada como maldita.

Assim, nos dias dos imperadores perseguidores, quando o império gemia sob alguma calamidade extraordinária, a culpa era lançada sobre os cristãos e eles eram condenados à destruição: Christianos ad leones — “Os cristãos aos leões!”

Talvez Jeorão se irritasse tanto com Eliseu porque ele predissera esse juízo ou o convencera a resistir em vez de se render. Mais provavelmente, porém, ficou furioso porque o profeta não levantara o cerco nem socorrera a cidade com orações.

Jeorão pensava que Eliseu poderia fazer isso, mas não queria. Enquanto não se arrependessem, mudassem de conduta e estivessem prontos para ser libertados, não tinham motivo para esperar que o profeta orasse por isso.

IV. Eliseu previu o plano do rei contra ele (v. 32). Estava sentado em casa, tranquilo, com os anciãos em sua companhia, sem dúvida ocupados em algo proveitoso, ao passo que o rei era como um touro selvagem preso numa rede ou como o mar agitado que não pode descansar.

Eliseu contou aos anciãos que um oficial do rei vinha para cortar sua cabeça e ordenou que o impedissem à porta e não o deixassem entrar, pois, como podemos supor, o rei, seu senhor, vinha logo atrás para revogar a ordem.

O mesmo espírito de profecia que permitia a Eliseu contar ao rei o que acontecia à distância também o autorizava a chamar o rei de filho de assassino. Sem uma autorização tão extraordinária, não nos cabe imitá-lo. Longe de nós desprezar as autoridades e falar mal dos que ocupam posições de honra.

Eliseu apelou aos anciãos para que julgassem se havia merecido tão mal tratamento do rei: “Vejam se, nisto, ele não é filho de assassino!” Que mal Eliseu havia feito? Ele não desejara “o dia calamitoso” (Jeremias 17:16).

V. O discurso irado do rei, quando chegou para impedir a execução de seu decreto de decapitar Eliseu. Parece que ele estava dividido entre suas convicções e sua corrupção; não sabia o que dizer, mas, vendo que tudo chegara ao extremo, entregou-se ao desespero (v. 33): “Este mal vem do Senhor.”

Nesse ponto, suas ideias estavam certas e bem aplicadas. É uma verdade geral que todo mal punitivo vem do Senhor, causa primeira e juiz soberano (Amós 3:6). Devemos aplicá-la a casos específicos: se todo mal vem dele, também este mal, seja qual for o que agora nos aflige e sejam quais forem os instrumentos, tem Deus como agente principal.

Mas a conclusão que tirou dessa verdade era tola e perversa: “Por que esperaria eu ainda pelo Senhor?” Quando Eli, Davi e Jó disseram “Vem do Senhor”, tornaram-se pacientes; esse homem mau, porém, ficou furioso: “Não temerei coisa pior nem esperarei algo melhor, pois o pior não pode vir e o melhor nunca virá. Estamos todos perdidos, e não há remédio.”

É insensato cansar-se de esperar por Deus, pois ele é Deus de justiça, e bem-aventurados são todos os que esperam por ele.


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