2 Reis 5
Argumento
Este capítulo registra mais dois milagres de Eliseu.
I. A purificação de Naamã, um sírio estrangeiro, de sua lepra. E nela:
A gravidade de seu caso, v. 1.
A providência que o levou a Eliseu e a notícia que uma jovem cativa lhe deu, vv. 2-4.
Uma carta do rei da Síria ao rei de Israel para apresentá-lo, vv. 5-7. E o convite que Eliseu lhe enviou, v. 8.
O método indicado para curá-lo, sua difícil submissão a esse método e a cura por meio dele, vv. 9-14.
Os agradecimentos que, em consequência, dirigiu a Eliseu, vv. 15-19.
II. O castigo de Geazi, servo do próprio Eliseu, atingido por aquela lepra:
Os pecados de Geazi: mentir sobre seu senhor a Naamã (vv. 20-24) e mentir ao senhor quando este o interrogou (v. 25).
A punição por esses pecados. A lepra de Naamã ficou como herança para a família de Geazi, vv. 26-27.
E, se a cura de Naamã foi uma figura do chamado dos gentios, como nosso Salvador parece dizer (Lucas 4:27), a ferida de Geazi pode ser vista como figura do cegamento e da rejeição dos judeus, que invejaram a graça de Deus para com os gentios, assim como Geazi invejou o favor que Eliseu mostrou a Naamã.
Versículos 1 a 8
A Lepra de Naamã. (a.C. 894.)
Os milagres do nosso Salvador se destinavam às ovelhas perdidas da casa de Israel; contudo, uma migalha caiu da mesa para uma mulher de Canaã. Assim também Eliseu realizou este milagre em favor de Naamã, um sírio, pois Deus faz o bem a todos e quer que todos sejam salvos. Aqui está:
I. A grande aflição que pesava sobre Naamã, em meio a todas as suas honras, v. 1.
Ele era um grande homem, ocupava um alto posto e não era apenas rico e elevado; era especialmente afortunado por duas razões:
- Havia sido muito útil ao seu país. Foi Deus quem o tornou assim: por meio dele, o Senhor muitas vezes concedera livramento à Síria e êxito em suas guerras, até mesmo contra Israel.
A preservação e a prosperidade até daqueles que não conhecem nem servem a Deus devem ser atribuídas a ele, pois é o Salvador de todos os homens, mas especialmente dos que creem. Que Israel saiba que, quando os sírios prevaleciam, isso vinha do Senhor.
- Ele era muito estimado por seu soberano, seu favorito e primeiro-ministro de Estado. Era grande, ocupava posição elevada e honrosa e era um poderoso guerreiro; mas era leproso e sofria dessa doença repugnante, que o tornava um peso para si mesmo.
Repare: (1.) A grandeza, a honra, a influência, o valor e a vitória de ninguém podem livrá-lo das mais severas calamidades da vida humana. Há muitos corpos fracos e enfermos sob roupas ricas e vistosas.
(2.) Todo homem tem algum defeito ou outro em seu caráter, algo que o macula e diminui, algum abatimento de sua grandeza, algum desânimo para sua alegria. Ele pode ser muito feliz e muito bom e, ainda assim, em algum aspecto, não ser tão bom quanto deveria nem tão feliz quanto desejaria.
Naamã era tão grandioso quanto o mundo podia torná-lo; no entanto, como diz o bispo Hall, até o mais vil escravo da Síria não trocaria de pele com ele.
II. A notícia sobre o poder de Eliseu que lhe deu uma menina a serviço de sua senhora, vv. 2-3.
Essa menina era israelita de nascimento; pela providência, foi levada cativa à Síria e ali colocada a serviço da família de Naamã, onde tornou conhecido o renome de Eliseu, para honra de Israel e do Deus de Israel.
A dispersão dolorosa do povo de Deus às vezes se tornou uma feliz ocasião para difundir o conhecimento de Deus (Atos 8:4).
Como convinha a uma israelita de nascimento, ela zelou pela honra de seu país e, embora fosse apenas uma menina, podia falar do famoso profeta que havia entre eles. As crianças devem desde cedo se familiarizar com as obras maravilhosas de Deus, para que, aonde quer que vão, possam falar delas. Veja Salmos 8:2.
Como convinha a uma boa serva, ela desejava a saúde e o bem-estar de seu senhor, embora fosse cativa e servisse à força. Quanto mais os servos que estão ali por escolha deveriam buscar o bem de seus senhores!
Os judeus na Babilônia deviam buscar a paz da terra de seu cativeiro (Jeremias 29:7). Eliseu não havia purificado leproso algum em Israel (Lucas 4:27); ainda assim, com base nos outros milagres que ele realizara, a menina concluiu que poderia curar seu senhor. E, com base em sua beneficência habitual, concluiu que ele o faria, embora fosse sírio.
Os servos podem ser uma bênção para as famílias onde vivem ao contar o que sabem da glória de Deus e da honra de seus profetas.
III. O pedido que o rei da Síria fez então ao rei de Israel em favor de Naamã.
Naamã deu atenção à notícia, embora tivesse sido trazida por uma menina humilde, e não a desprezou por causa de sua condição, pois dizia respeito à sua saúde física.
Ele não disse: “A menina fala como uma tola! Como algum profeta de Israel poderia fazer por mim o que todos os médicos da Síria tentaram em vão?”
Embora não amasse nem honrasse o povo judeu, se alguém daquela nação ao menos pudesse curá-lo da lepra, ele reconheceria de bom grado sua obrigação para com essa pessoa.
Quem dera os que estão espiritualmente enfermos ouvissem com a mesma prontidão as notícias que lhes trazem do grande Médico! Veja o que Naamã fez diante dessa pequena sugestão.
Ele não mandou chamar o profeta para que viesse até ele. Em vez disso, honraria alguém que possuía tanto poder divino a ponto de curar doenças, indo ele próprio até o profeta, embora estivesse enfermo, fosse impróprio para o convívio, tivesse uma longa viagem pela frente e fosse a um país inimigo; na opinião dele, os príncipes devem se curvar aos profetas quando precisam deles.
Não quis ir incógnito, disfarçado, embora sua missão revelasse a doença repugnante que tinha. Foi com pompa e uma grande comitiva, para honrar ainda mais o profeta.
Não quis ir de mãos vazias; levou ouro, prata e roupas para oferecer a seu médico. Os que têm riqueza, mas não têm saúde, mostram qual bênção consideram mais valiosa; o que não dariam para ter alívio, vigor e saúde no corpo?
Não quis ir sem uma carta do rei, seu senhor, ao rei de Israel, que também desejava sinceramente sua recuperação.
Ele não sabia onde encontrar, em Samaria, o profeta que realizava maravilhas, mas dava por certo que o rei saberia onde encontrá-lo. Para fazer com que o profeta se empenhasse ao máximo por Naamã, iria apoiado pela influência de dois reis.
Se o rei da Síria precisava implorar a ajuda do profeta, Naamã esperava que o rei de Israel, como suserano do profeta, pudesse ordená-la.
Na opinião de Naamã, todos os presentes dos súditos deveriam ser para o serviço e a honra do príncipe; por isso, pediu ao rei que curasse o leproso (v. 6), supondo que havia entre o rei e o profeta uma intimidade maior do que realmente havia.
IV. O alarme que isso causou ao rei de Israel, v. 7. Ele entendeu que aquela carta continha:
- Um grande insulto a Deus. Por isso rasgou as roupas, como era costume dos judeus ao ouvirem ou lerem algo que julgavam blasfemo. O que poderia ser, senão atribuir ao rei de Israel um poder divino?
“Sou eu Deus, para matar quem eu quiser e dar vida a quem eu quiser? Não, não alego ter tal autoridade.” Nabucodonosor fez isso, como lemos em Daniel 5:19.
“Sou eu Deus, para matar com uma palavra e dar vida com uma palavra? Não, não alego ter tal poder.” Assim, esse grande homem, esse homem mau, é levado a reconhecer que não passa de um homem.
Por que, diante disso, ele não se corrigiu por sua idolatria e raciocinou assim: “Devo adorar como deuses aqueles que não podem matar nem dar vida, e não podem fazer nem o bem nem o mal?”
- Um mau desígnio contra ele mesmo. Ele apela aos que estavam ao seu redor: “Vejam como ele procura provocar uma desavença comigo! Exige que eu cure o leproso e, se eu não o fizer, embora não possa, alegará isso como motivo para fazer guerra contra mim.” Ele suspeita ainda mais disso porque Naamã era seu general.
Se tivesse entendido corretamente a carta — que, ao pedir a cura do leproso, o rei da Síria queria que o rei de Israel a providenciasse —, não teria ficado tão alarmado. Repare: muitas vezes criamos grande inquietação para nós mesmos ao interpretar mal palavras e ações bem-intencionadas dos outros. É um ato de bondade para conosco não presumir o mal.
Se tivesse se lembrado de Eliseu e de seu poder, teria entendido facilmente a carta e saberia o que fazer. Mas entrou em confusão por ter se mantido alheio ao profeta; a menina cativa pensava mais nele do que o rei.
V. A oferta de ajuda que Eliseu fez. Ele estava disposto a fazer qualquer coisa para tranquilizar seu príncipe, embora este o tivesse negligenciado e esquecido seus bons serviços anteriores.
Ao saber por que o rei rasgara as roupas, Eliseu lhe enviou uma mensagem para que soubesse que, se Naamã fosse até ele, não teria feito a viagem em vão (v. 8): “Ele saberá que há um profeta em Israel” — e seria triste para Israel se não houvesse —; há em Israel um profeta capaz de fazer o que o rei de Israel não ousa tentar e que os profetas da Síria não podem alegar fazer.
Eliseu não buscava a própria honra; desejava que todos soubessem que havia um profeta em Israel, embora fosse obscuro e ignorado, para a honra de Deus.
Versículos 9 a 14
A Cura da Lepra de Naamã. (a.C. 894.)
Aqui temos a cura da lepra de Naamã.
I. A instrução breve e clara que o profeta lhe deu, acompanhada da garantia de sucesso.
Naamã pretendia honrar Eliseu quando chegou à porta dele em sua carruagem, com toda a comitiva (v. 9). Os que pouco respeitavam os profetas em outras ocasiões mostravam-se muito corteses quando precisavam deles.
Naamã esperava à porta de Eliseu como um mendigo que pede esmola. Os que desejam ser purificados da lepra espiritual devem esperar à porta da Sabedoria e vigiar junto aos batentes de suas portas.
Naamã esperava que Eliseu retribuísse sua cortesia, mas o profeta lhe respondeu sem cerimônia. Não foi até a porta, para não parecer satisfeito demais com a honra que lhe era prestada; mandou-lhe um mensageiro com esta ordem: “Vai lavar-te no Jordão sete vezes”, e prometeu que, se o fizesse, sua doença seria curada.
A promessa foi explícita: “Ficarás limpo.” O método prescrito foi simples: lavar-se no Jordão. Não se pretendia que isso fosse um meio de cura; embora muitos recomendem banhos frios como algo muito saudável, alguns pensam que, no caso da lepra, poderiam até fazer mal.
O banho foi indicado como sinal da cura e prova de sua obediência. Os que querem receber a ajuda de Deus devem fazer o que lhes é ordenado. Mas por que Eliseu lhe enviou um mensageiro com essas instruções?
Talvez porque tivesse se retirado naquele momento para orar, concentrado em suas súplicas pela cura e sem querer ser interrompido.
Ou talvez porque soubesse que Naamã era orgulhoso e quisesse mostrar-lhe que, diante do grande Deus, todos estão no mesmo nível.
II. O desgosto de Naamã com o método prescrito, por não ser o que esperava. Duas coisas o desagradaram:
- Ele achou que Eliseu o desprezara ao lhe mandar ordens por um servo, em vez de ir pessoalmente falar com ele (v. 11).
Cheio da expectativa de ser curado, imaginava como a cura aconteceria e havia traçado este plano: “Com certeza ele virá até mim. Isso é o mínimo que pode fazer por mim, um nobre da Síria, por mim, que vim até ele com toda esta pompa e tantas vezes fui vitorioso sobre Israel.
Ele ficará de pé, invocará o nome do seu Deus e mencionará meu nome em sua oração; então passará a mão sobre o lugar, e assim realizará a cura.”
Como não foi feito exatamente assim, Naamã se enfureceu, esquecendo-se: (1.) de que era leproso e de que a lei de Moisés, fielmente observada por Eliseu, excluía os leprosos do convívio. Por ser leproso, ele não devia insistir em minúcias de honra. Repare: muitos não têm o coração humilhado mesmo sob providências humilhantes. Veja Números 12:14.
(2.) Ele era um suplicante que pedia um favor que não podia exigir; mendigos não devem escolher, nem pacientes prescrever aos médicos. Veja em Naamã a insensatez do orgulho.
A cura não lhe bastaria se não viesse com cerimônia e grande aparato; ele desprezava ser curado se não lhe satisfizessem os caprichos.
- Ele achou que Eliseu desprezara seu país. Levou a mal que o mandassem lavar-se no Jordão, um rio de Israel, pois julgava que Abana e Farpar, rios de Damasco, eram melhores do que todas as águas de Israel.
Com que magnificência ele fala desses dois rios que regavam Damasco e que, pouco depois, se uniram num só, chamado pelos geógrafos de Crisoroas, o rio de ouro!
Com que desprezo fala de todas as águas de Israel, embora Deus tivesse chamado a terra de Israel de glória de todas as terras, especialmente por seus ribeiros de água (Deuteronômio 8:7)!
É comum Deus e os homens terem juízos diferentes. Como ele menospreza as instruções do profeta! “Não posso lavar-me nesses rios e ficar limpo?” Poderia lavar-se neles e ficar limpo da sujeira, mas não da lepra.
Naamã se irritou porque o profeta mandou que se lavasse e ficasse limpo. Achava que o profeta deveria fazer tudo e não gostou de receber uma tarefa; ou julgava que aquilo era simples, comum e barato demais para que um homem tão grande fosse curado assim.
Ou não acreditava que aquilo pudesse curá-lo; ou, se pudesse, que virtude medicinal haveria no Jordão que não houvesse nos rios de Damasco?
Mas ele não considerou: (1.) que o Jordão pertencia ao Deus de Israel, de quem devia esperar a cura, e não dos deuses de Damasco. O rio regava a terra do Senhor, a terra santa; numa cura milagrosa, a relação com Deus era muito mais importante do que a profundidade do leito ou a beleza da correnteza.
(2.) Que, mais de uma vez, o Jordão já obedecera às ordens da Onipotência. Antigamente, abrira passagem para Israel; mais recentemente, para Elias e Eliseu.
Por isso, era mais apropriado a esse propósito do que aqueles rios, que apenas seguiam as leis comuns da criação e nunca haviam recebido tal distinção.
Mas, acima de tudo, (3.) o Jordão era o rio determinado. Se Naamã esperava uma cura pelo poder divino, devia se submeter à vontade divina sem perguntar por quê. Repare: os sábios aos próprios olhos costumam desprezar as orientações e prescrições da sabedoria divina e preferir as próprias fantasias. Os que procuram estabelecer a própria justiça não se submetem à justiça de Deus (Romanos 10:3).
Naamã se inflamou tanto com suas próprias palavras, como costumam fazer os homens irados, que se afastou furioso da porta do profeta, pronto a jurar que nunca mais falaria com Eliseu. E quem sairia perdendo? Repare: os que observam vaidades mentirosas abandonam as próprias misericórdias (Jonas 2:8). Os orgulhosos são os piores inimigos de si mesmos e abrem mão da própria redenção.
III. O conselho modesto que seus servos lhe deram: que seguisse as instruções do profeta. O conselho censurava discretamente seu ressentimento (v. 13).
Em outras ocasiões, eles mantinham distância; agora o viram irado. Mas sabiam que ele era um homem disposto a ouvir a razão de qualquer pessoa, em qualquer ocasião, um bom atributo dos grandes, embora muito raro.
Por isso, aproximaram-se e ousaram conversar com ele sobre o assunto. Tinham grande consideração pelo profeta — talvez tivessem ouvido mais a respeito dele do povo, com quem conversavam, do que Naamã ouvira do rei e dos cortesãos, com quem se relacionava — e lhe pediram que refletisse:
“Se o profeta lhe tivesse mandado fazer algo grandioso, submetê-lo a um tratamento longo ou a uma intervenção dolorosa — vesicatórios, ventosas ou salivação —, você não o teria feito? Sem dúvida. E não se submeteria a um método tão simples como este: ‘Lava-te e fica limpo’?”
Observe: 1. Seus próprios servos o repreenderam e aconselharam; isso não o desonrava mais do que receber da serva de sua esposa a notícia de quem podia curá-lo (v. 3). Repare: é uma grande bênção ter por perto quem nos fale francamente e aponte com lealdade nossas faltas e insensatezes, ainda que seja inferior a nós. Os senhores devem estar dispostos a ouvir a razão de seus servos (Jó 31:13, 14).
Assim como devemos rejeitar o conselho dos ímpios, ainda que venha de pessoas muito importantes e respeitáveis, também devemos estar atentos às boas orientações, mesmo quando nos são trazidas por quem está muito abaixo de nós. Não importa quem fala, se o que diz é bem dito.
- A repreensão foi muito modesta e respeitosa. Eles o chamaram de Pai, pois os servos devem honrar e obedecer a seus senhores com uma espécie de afeição filial.
Ao repreender ou aconselhar alguém, devemos mostrar que o fazemos por amor e verdadeira honra, com a intenção de corrigir, não de censurar.
- O conselho foi muito sensato e ponderado. Se os servos rudes e irrefletidos tivessem atiçado a ira de seu senhor e se oferecido para vingar a afronta que, segundo ele, o profeta lhe fizera, que consequências terríveis poderiam ter resultado! Talvez caísse fogo do céu sobre todos eles!
Mas, para nossa grande surpresa, eles tomaram o partido do profeta. Eliseu provavelmente percebeu que suas palavras haviam contrariado Naamã, mas não se preocupou em acalmá-lo; caberia a Naamã responder por persistir em sua ira.
Porém, a providência se serviu dos criados para acalmá-lo. Eles argumentaram com ele:
(1.) A partir de seu desejo ardente de ser curado: “Você não faria qualquer coisa?” Repare: quando pecadores enfermos chegam ao ponto de aceitar fazer qualquer coisa, submeter-se a qualquer coisa e abrir mão de qualquer coisa para serem curados, só então há alguma esperança para eles.
Só então aceitarão Cristo nos termos dele, quando estiverem dispostos a tê-lo em quaisquer termos.
(2.) A partir da simplicidade do método prescrito: “É só lavar-se e ficar limpo.” Era só experimentar: o teste era barato e fácil, não podia fazer mal, mas poderia fazer bem. Repare: os métodos prescritos para curar a lepra do pecado são tão simples que seremos totalmente indesculpáveis se não os seguirmos. Basta: “Crê e serás salvo”; “Arrepende-te e serás perdoado”; “Lava-te e fica limpo.”
IV. A cura realizada pelo uso dos meios prescritos, v. 14.
Depois de refletir melhor, Naamã aceitou fazer a experiência, embora, ao que parece, sem muita fé ou determinação. O profeta lhe mandara lavar-se sete vezes no Jordão, mas ele apenas mergulhou-se tantas vezes, tão superficialmente quanto pôde.
Contudo, Deus se agradou de honrar a si mesmo e à sua palavra, tornando eficaz aquele método. Sua carne voltou a ser como a de uma criança, para sua grande surpresa e alegria.
É isso que as pessoas alcançam quando se submetem à vontade de Deus e atendem às suas ordenanças. O fato de ter sido purificado pela lavagem honrou a lei sobre a purificação dos leprosos. Deus engrandecerá sua palavra acima de todo o seu nome.
Versículos 15 a 19
Dos dez leprosos que nosso Salvador purificou, o único que voltou para agradecer foi um samaritano (Lucas 17:16). Este sírio fez o mesmo e aqui se expressa.
I. Convencido do poder do Deus de Israel: não apenas de que ele é Deus, mas de que é o único Deus e de que, de fato, não há Deus em toda a terra senão em Israel (v. 15). Era uma confissão nobre, mas que também sugere a miséria do mundo gentio: as nações que tinham muitos deuses, na realidade, não tinham Deus e estavam sem Deus no mundo.
Antes, Naamã julgava que os deuses da Síria eram deuses de verdade, mas a experiência corrigiu seu engano, e ele reconheceu que o Deus de Israel era o único Deus, o soberano Senhor de todos.
Talvez ver outros leprosos purificados não o tivesse convencido; a misericórdia da cura o tocou mais do que o milagre em si. Repare: os que melhor podem falar do poder da graça divina são os que a experimentaram.
II. Grato ao profeta Eliseu: “Por isso, em consideração àquele de quem tu és servo, tenho um presente para ti: prata, ouro e roupas, tudo o que quiseres aceitar.” Ele avaliou a cura não pela facilidade com que o profeta a realizara, mas pelo bem que ela lhe fizera; e de bom grado pagaria por ela à altura.
Mas Eliseu recusou generosamente o pagamento, embora Naamã insistisse que o aceitasse. Para se antecipar a novas insistências, reforçou a recusa com um juramento: “Tão certo como vive o Senhor, nada receberei” (v. 16).
Ele não recusou porque não precisasse do dinheiro: era bastante pobre e saberia como empregá-lo, distribuindo-o entre os filhos dos profetas. Tampouco o recusou por julgá-lo ilícito, pois aceitava presentes de outras pessoas. Mas não queria ficar em dívida com aquele sírio, nem queria que ele dissesse que havia enriquecido Eliseu, como em Gênesis 14:23.
Seria uma grande honra para Deus mostrar a esse novo convertido que os servos do Deus de Israel aprendiam a olhar para as riquezas deste mundo com santo desprezo. Isso o confirmaria em sua crença de que não havia Deus senão em Israel. Veja também 1 Coríntios 9:18; 2 Coríntios 11:9.
III. Convertido à adoração do Deus de Israel. Ele não só oferecerá um sacrifício ao Senhor em agradecimento pela cura recebida, como também decide que nunca mais oferecerá sacrifício a outros deuses (v. 17). Foi uma cura feliz: ao curar sua lepra, curou também sua idolatria, doença mais perigosa. Mas há dois sinais de fraqueza e imperfeição em sua conversão:
- Num aspecto, ele foi longe demais: queria não apenas adorar o Deus de Israel, mas também levar torrões de terra do jardim do profeta, ou ao menos terra por ordem dele, para fazer um altar (v. 17).
Pouco antes, ele falara com desprezo das águas de Israel (v. 12); agora foi ao extremo oposto e valorizava demais a terra de Israel. Supunha que, como Deus havia ordenado altares de terra (Êxodo 20:24), um altar feito daquela terra lhe seria mais agradável, sem considerar que toda a terra e tudo o que nela há pertencem ao Senhor.
Ou talvez o entusiasmo de seu afeto e de sua reverência pelo profeta — não só por seu poder, mas também por sua virtude e generosidade — o fizesse, como se diz, amar até o chão por onde ele passava e desejar levar um pouco consigo. O elogio moderno equivalente seria: “Por favor, senhor, deixe-me ficar com o seu retrato.”
- Em outro aspecto, ficou aquém: reservou para si a liberdade de se curvar na casa de Rimom, em deferência ao rei, seu senhor, e por dever de seu cargo na corte (v. 18); nesse assunto, pedia que o desculpassem.
Ele reconhecia que não devia fazê-lo, mas alegava que não podia deixar de se curvar sem perder seu posto. Protestava que sua reverência não era, nem voltaria a ser, como antes, uma honra prestada ao ídolo, mas somente ao rei; por isso, esperava que Deus o perdoasse.
Talvez, consideradas todas as circunstâncias, isso admitisse alguma desculpa, embora não fosse justificável. Quanto a nós, porém, tenho certeza de que:
(1.) Se, ao fazer aliança com Deus, reservarmos para nós algum pecado conhecido em que pretendemos continuar, essa reserva anula a aliança. Temos de abandonar todas as nossas transgressões, sem abrir exceção para nenhuma casa de Rimom.
(2.) Somos incentivados a pedir perdão pelos pecados que cometemos; mas, se pedimos licença para continuar em algum pecado, zombamos de Deus e enganamos a nós mesmos.
(3.) Os que não sabem deixar um posto na corte quando só podem conservá-lo pecando contra Deus e ferindo a própria consciência não dão o devido valor ao favor divino.
(4.) Os que realmente odeiam o mal terão o cuidado de se abster de toda aparência do mal.
Embora não se possa aprovar que Naamã dissimulasse sua religião, sua promessa de sacrificar somente ao Deus de Israel foi uma grande conquista para um sírio; ao pedir perdão nesse assunto, mostrou convicção e franqueza que davam esperança de progresso. Por isso, o profeta se despediu dele cordialmente: “Vai em paz” (v. 19). Os novos convertidos devem ser tratados com ternura.
Versículos 20 a 27
A Gratidão de Naamã. (a.C. 894.)
Naamã, sírio, cortesão e soldado, tinha muitos servos; vimos como eram sábios e bons (v. 13). Eliseu, profeta santo e homem de Deus, tinha apenas um servo, que se mostrou vil, mentiroso e perverso.
Os que ouviram falar de Eliseu de longe o honraram e receberam benefícios do que ouviram; mas aquele que permanecia continuamente diante dele para escutar sua sabedoria não recebeu nenhuma boa impressão, nem de sua doutrina, nem de seus milagres.
Esperaríamos que o servo de Eliseu fosse um santo — até Obadias, servo de Acabe, era —, mas o próprio Cristo teve um Judas entre os seus seguidores. Os meios da graça não podem conceder a graça. Até os melhores homens e os melhores ministros muitas vezes tiveram ao redor de si pessoas que lhes causaram pesar e vergonha. Quanto mais perto da igreja, mais longe de Deus.
Muitos vêm do Oriente e do Ocidente para se sentar com Abraão, enquanto os filhos do Reino serão expulsos. Aqui está:
I. O pecado de Geazi. Foi um pecado composto:
- O amor ao dinheiro, raiz de todo mal, estava na origem de tudo. Seu senhor desprezou os tesouros de Naamã, mas Geazi os cobiçou (v. 20). Como diz o bispo Hall, seu coração estava guardado nos baús de Naamã, e ele precisava correr atrás de Naamã para recuperá-lo.
Multidões, por cobiçarem as riquezas do mundo, se desviaram da fé e causaram a si mesmas muitas dores.
Geazi censurou o senhor por ter recusado o presente de Naamã. Considerou-o tolo por não aceitar o ouro quando podia; invejou e ressentiu-se da bondade e generosidade dele para com aquele estrangeiro, embora fossem para o bem da alma de Naamã. Em suma, julgou-se mais sábio que o senhor.
Quando Naamã, homem de modos refinados, desceu da carruagem para encontrá-lo (v. 21), Geazi lhe contou uma mentira deliberada: disse que o senhor o enviara. Assim, recebeu para si a cortesia que Naamã pretendia oferecer a Eliseu.
Geazi difamou seu senhor e o apresentou a Naamã de maneira infame: como alguém que logo se arrependera de sua generosidade, volúvel, sem saber o que queria; dizia e desdizia, jurava e depois se retratava; não fazia uma coisa honrosa sem logo desfazê-la.
Sua história sobre os dois filhos dos profetas era tão tola quanto falsa. Se queria pedir um presente para dois jovens estudiosos, certamente menos de um talento de prata lhes bastaria.
- Havia o perigo de afastar Naamã daquela religião santa que ele acabara de abraçar e diminuir a estima que tinha por ela. Naamã poderia dizer, como os inimigos de Paulo sugeriram a respeito dele (2 Coríntios 12:16, 17), que, embora o próprio Eliseu não o tivesse sobrecarregado, fora astuto e o iludira, enviando pessoas para tirar proveito dele.
Esperamos que depois Naamã tenha entendido que Eliseu não participara da fraude e que Geazi tenha sido obrigado a devolver o que obtivera injustamente; do contrário, isso poderia tê-lo levado de volta aos ídolos.
- Geazi aumentou muito seu pecado ao tentar esconder o que obtivera injustamente:
(1.) Escondeu o que recebera, como Acã escondera seu ganho por sacrilégio: na torre, um lugar secreto e seguro, até que pudesse gastar o dinheiro (v. 24).
Agora pensava que os bens estavam seguros e elogiava para si mesmo a esperteza da fraude. Com ela, enganara não só a prudência de Naamã, mas também o dom de Eliseu para discernir, como Ananias e Safira iludiram os apóstolos.
(2.) Negou o que fizera: entrou e se pôs diante do senhor, pronto para receber ordens. Ninguém parecia tão atento ao senhor, embora, na verdade, ninguém o prejudicasse mais.
Geazi pensava como Efraim: “Tornei-me rico, mas não acharão em mim nenhuma iniquidade” (Oseias 12:8). Seu senhor perguntou onde ele estivera. “Em lugar nenhum, senhor; não saí de casa”, respondeu Geazi. Repare: uma mentira geralmente gera outra. A trilha desse pecado é ladeira abaixo; por isso, ouse dizer a verdade.
II. O castigo por esse pecado. Eliseu imediatamente o chamou para prestar contas. Observe:
- Como Geazi foi desmascarado:
Ele pensava que enganaria o profeta, mas logo entendeu que o Espírito da profecia não podia ser enganado e que era inútil mentir ao Espírito Santo. Eliseu podia lhe dizer:
(1.) O que fizera, embora o tivesse negado: “Dizes que não foste a lugar nenhum; mas o meu coração não foi contigo?” (v. 26).
Geazi não sabia que profetas tinham olhos espirituais? Pensava esconder algo de um vidente, que conhecia o segredo do Senhor? Repare: é tolice pecar contando com o sigilo. Quando você toma qualquer desvio, sua consciência não o acompanha? E o olhar de Deus não o acompanha? Quem encobre seu pecado não prosperará; em especial, “a língua mentirosa dura só um instante” (Provérbios 12:19).
A verdade virá à tona, muitas vezes de modo inesperado, para confundir os que fazem da mentira seu refúgio.
(2.) O que planejara, embora guardasse isso no próprio coração: agora que conseguira aqueles dois talentos, pretendia comprar terras e gado, deixar o serviço de Eliseu e estabelecer-se por conta própria. Repare: todas as esperanças e maquinações insensatas dos mundanos carnais estão abertas diante de Deus.
E Eliseu também lhe mostrou a maldade disso: “É tempo de receber dinheiro? É esta a ocasião de enriquecer? Não encontraste modo melhor de obter dinheiro do que caluniar teu senhor e pôr uma pedra de tropeço diante de um novo convertido?” Repare: quem quer enriquecer a qualquer tempo e por quaisquer meios, justos ou injustos, expõe-se a muitas tentações.
Os que querem ser ricos (per fas, per nefas; rem, rem, quocunque modo rem — por meios lícitos ou ilícitos; dinheiro, dinheiro, por qualquer meio), sem se importar com princípios e pensando somente em dinheiro, afundam na destruição e na perdição (1 Timóteo 6:9).
Guerra, fogo, peste e naufrágio não são, como muitos imaginam, meios de ganhar dinheiro. Não é tempo de aumentar nossas riquezas quando só podemos fazê-lo por meios que desonram a Deus e a religião, prejudicam nossos irmãos ou causam dano ao público.
- Como Geazi foi castigado: “A lepra de Naamã se apegará a ti” (v. 27). Se ele queria ficar com o dinheiro, receberia também a doença: transit cum onere — passa junto com esse ônus.
Geazi planejava deixar terras como herança à sua posteridade; mas, em vez delas, deixa aos seus descendentes uma doença repugnante, de geração em geração.
A sentença foi imediatamente executada nele: mal acabara de ser pronunciada quando “saiu da presença de Eliseu leproso, branco como a neve”. Assim, Geazi foi marcado e desonrado, levando para onde fosse o sinal de sua vergonha.
Desse modo, lançou uma maldição sobre si mesmo e sua família, que não só anunciaria naquele momento sua vilania, mas também perpetuaria para sempre sua lembrança. Repare: “A obtenção de tesouros por meio de uma língua mentirosa é vaidade levada de um lado para outro por quem busca a morte” (Provérbios 21:6).
Os que obtêm riquezas por fraude e injustiça não podem esperar desfrutá-las com conforto nem conservá-las. De que proveito foram para Geazi os dois talentos que ganhou, se com isso perdeu a saúde, a honra, a paz e o serviço — e, se o arrependimento não o impediu, também a alma para sempre? Veja Jó 20:12, etc.