2 Reis 24
Argumento
Aqui tudo amadurece e se encaminha depressa para a destruição total de Jerusalém. Deixamos Jeoaquim no trono, posto nele pelo rei do Egito. Agora temos:
I. As dificuldades do reinado de Jeoaquim: ele foi subjugado pelo rei da Babilônia e severamente castigado por tentar sacudir o jugo (vv. 1-6); o Egito também foi conquistado por Nabucodonosor (v. 7).
II. As devastações no reinado de seu filho, que durou apenas três meses: ele e todos os seus grandes homens tiveram de se render sem condições e foram levados cativos para Babilônia (vv. 8-16).
III. Os preparativos do reinado seguinte, o último, para a ruína total de Jerusalém, relatada no capítulo seguinte (vv. 17-20).
Versículos 1 a 6
Jeoaquim Subjugado por Nabucodonosor. (a.C. 599.)
Aqui se menciona pela primeira vez um nome que se destaca tanto nas histórias quanto nas profecias do Antigo Testamento: o de Nabucodonosor, rei da Babilônia (v. 1), a cabeça de ouro.
Ele era um príncipe poderoso e o terror dos poderosos na terra dos viventes. Ainda assim, seu nome não teria sido conhecido nas Escrituras sagradas se ele não tivesse sido usado para destruir Jerusalém e levar os judeus ao cativeiro.
I. Ele tornou Jeoaquim seu tributário e o manteve subjugado por três anos (v. 1).
Nabucodonosor começou a reinar no quarto ano de Jeoaquim. No oitavo, fez dele seu prisioneiro, mas o restituiu ao trono depois de receber sua promessa de fidelidade.
Jeoaquim manteve a promessa por cerca de três anos, mas depois se rebelou, provavelmente na esperança de receber ajuda do rei do Egito.
Se Jeoaquim tivesse servido a seu Deus como devia, não teria servido ao rei da Babilônia; mas Deus queria fazê-lo conhecer a diferença entre servir a Deus e servir aos reis das nações, 2 Crônicas 12:8.
Se tivesse se conformado à sua condição de servo e sido fiel à palavra, sua situação não teria piorado; mas, ao se rebelar contra o rei da Babilônia, mergulhou em ainda mais aflição.
II. Quando Jeoaquim se rebelou, Nabucodonosor enviou tropas para destruir o país: bandos de caldeus, sírios, moabitas e amonitas, todos então em serviço e pagos pelo rei da Babilônia e que, além disso, ainda nutriam e agora demonstravam sua antiga inimizade contra o Israel de Deus (v. 2).
No entanto, não se menciona aqui que o rei da Babilônia os enviou, mas somente o Rei dos reis: o Senhor enviou contra ele todos esses bandos; e, de novo (v. 3): “Certamente por ordem do Senhor veio isto sobre Judá”.
Sem isso, a ordem de Nabucodonosor não teria produzido esse resultado. Muitos servem aos propósitos de Deus sem perceber.
Deus pretendia duas coisas ao permitir que Judá fosse assim afligido:
- A punição pelos pecados de Manassés, que Deus agora fez recair sobre a terceira e a quarta geração.
Deus esperou muito antes de castigá-los, para ver se a nação se arrependeria. Mas eles continuaram impenitentes, apesar dos esforços de Josias para reformá-los, e prontos a voltar às antigas idolatrias à primeira oportunidade.
Agora que a antiga dívida foi cobrada, eles foram chamados a responder pelo juízo anterior; reviveu-se aquilo que Deus guardara e selara entre os seus tesouros (Deuteronômio 32:34; Jó 14:17), e, por causa disso, Deus removeu Judá de diante de si e mostrou ao mundo que o tempo não apaga a culpa do pecado e que os adiamentos do castigo não são perdões.
Veio à memória tudo o que Manassés fizera, sobretudo o sangue inocente que derramara, boa parte do qual, podemos supor, era o sangue das testemunhas e dos adoradores de Deus, que o Senhor não perdoaria. Existe então algum pecado imperdoável além da blasfêmia contra o Espírito Santo? Aqui se fala da remissão do castigo temporal.
Embora Manassés tivesse se arrependido, temos motivo para pensar que até as perseguições e os assassinatos de que era culpado foram perdoados, de modo que ele foi livrado da ira vindoura; ainda assim, por serem pecados nacionais, continuavam imputados à terra e clamavam por juízos nacionais.
Talvez alguns que deram apoio e foram cúmplices desses crimes ainda estivessem vivos; e o rei de então também era culpado de derramar sangue inocente, como se vê em Jeremias 22:17.
Veja que pecado provocador é o assassinato, como seu clamor é alto e quanto tempo dura. Veja como as nações precisam lamentar os pecados de seus pais, para não sofrerem por causa deles.
Deus pretendia também cumprir assim as profecias; tudo aconteceu conforme a palavra do Senhor, que ele pronunciou por meio de seus servos, os profetas.
Antes Judá será removido de diante dele; ou melhor, antes passarão o céu e a terra do que qualquer palavra de Deus caia por terra.
As ameaças se cumprirão tão certamente quanto as promessas, se o arrependimento do pecador não se antecipar ao seu cumprimento.
III. O rei da Babilônia também subjugou o rei do Egito e tomou grande parte de seu país (v. 7).
Pouco antes, o rei do Egito havia oprimido Israel, 2 Reis 23:33. Agora ele próprio foi derrubado e impedido de tentar recuperar suas perdas ou ajudar seus aliados.
Não ousou mais sair de seu país. Mais tarde, tentou socorrer Zedequias, mas foi obrigado a recuar, Jeremias 37:7.
IV. Ao que parece, vendo seu país devastado e prestes a cair nas mãos do inimigo, Jeoaquim morreu de coração partido, ainda na metade da vida (v. 6).
Assim, “Jeoaquim dormiu com seus pais” (v. 6); mas não se diz que foi sepultado com eles, pois sem dúvida se cumpriu a profecia de Jeremias: ele não seria lamentado como seu pai, mas seria “sepultado com a sepultura de um jumento” (Jeremias 22:18, 19), e seu cadáver seria “lançado fora” (Jeremias 36:30).
Versículos 8 a 20
Joaquim Levado Cativo para Babilônia. (a.C. 599.)
Esta deveria ser a história do reinado do rei Joaquim; mas, infelizmente, é só a história de seu cativeiro, como é chamado, Ezequiel 1:2. Ele chegou ao trono não para ter a honra de usá-lo, mas a vergonha de perdê-lo. Ideo tantum venerat, ut exiret — Ele entrou apenas para sair.
I. Seu reinado foi breve e sem importância. Governou por apenas três meses, e então foi deposto e levado cativo para Babilônia, como provavelmente teria acontecido com seu pai se ele tivesse vivido só um pouco mais.
Que príncipe jovem e infeliz, lançado numa casa em ruínas, num trono prestes a ruir! Que pai desnaturado, que o gerou para sofrer por ele e, por seu próprio pecado e insensatez, não deixou ao filho nada para herdar além das próprias misérias!
Ainda assim, esse jovem príncipe reinou o bastante para mostrar que merecia sofrer pelos pecados de seus antepassados, pois seguiu os passos deles: “Praticou o que era mau aos olhos do Senhor”, como eles haviam feito (v. 9).
Não fez nada para romper a sucessão da maldição nem para eliminar os ônus de sua coroa. Por isso, transit cum onere — o ônus passa junto com a coroa —, e a iniquidade dele e a de seus pais entrarão na conta.
II. As calamidades que recaíram sobre ele, sua família e seu povo logo no começo de seu reinado foram muito graves:
- Jerusalém foi sitiada pelo rei da Babilônia (v. 10, 11). Ele havia enviado suas tropas para devastar o país (v. 2); agora veio pessoalmente e sitiou a cidade.
Cumpriu-se então a palavra de Deus (Deuteronômio 28:49 e seguintes): O Senhor trará contra você, de longe, uma nação de aspecto feroz, que primeiro comerá o fruto da sua terra e depois sitiará você em todas as suas portas.
- Joaquim se rendeu imediatamente, sem condições. Assim que soube que o rei da Babilônia, cujo nome já era temível, viera pessoalmente contra a cidade, Joaquim pediu para negociar e saiu ao encontro dele (v. 12).
Se tivesse feito as pazes com Deus e seguido o exemplo de Ezequias no caso semelhante, não teria precisado temer o rei da Babilônia; poderia ter resistido com coragem, honra e sucesso (um perseguiria mil); mas, sem a fé e a piedade de um israelita, não teve a resolução de um homem, de um soldado ou de um príncipe.
Ele e sua família real, sua mãe e suas mulheres, seus servos e seus príncipes se entregaram como prisioneiros de guerra; essa foi a consequência de serem escravos do pecado.
- Nabucodonosor saqueou os tesouros tanto do templo quanto do estado e levou a prata e o ouro de ambos (v. 13).
Cumpriu-se então a palavra de Deus por meio de Isaías: “Tudo o que há em sua casa será levado para Babilônia” (2 Reis 20:17).
Até os utensílios do templo que Salomão fizera e guardara para substituir os antigos quando se desgastassem foram retirados do templo por Nabucodonosor, que começou a cortá-los em pedaços, mas, reconsiderando, reservou-os para seu uso, pois vemos Belsazar beber vinho neles (Daniel 5:2, 3).
- Nabucodonosor levou cativa grande parte da população de Jerusalém para enfraquecê-la, assegurar seu domínio e impedir que se revoltasse, além de enriquecer com os bens ou o trabalho dos que levou.
Oito anos antes, alguns já tinham sido levados cativos, no primeiro ano de Nabucodonosor e no terceiro de Jeoaquim. Entre eles estavam Daniel e seus companheiros. Veja Daniel 1:1, 6.
Eles haviam se mostrado tão bons que esse príncipe sagaz desejou levar mais deles. Agora ele levou: (1.) o jovem rei e sua família (v. 15). Vemos que Joaquim continuou preso rigorosamente por 37 anos, 2 Reis 25:27-29.
(2.) Todos os grandes homens, os príncipes e os oficiais, cujas riquezas eram “retidas para prejuízo dos próprios donos” (Eclesiastes 5:13), o que atraía os inimigos para saqueá-los primeiro.
(3.) Todos os homens de guerra: os valentes (v. 14), os poderosos da terra (v. 15) e todos os homens fortes e aptos para a guerra (v. 16).
Eles não podiam se defender, e o conquistador não os deixaria defender seu país. Levou-os para empregá-los a seu serviço.
(4.) Todos os artesãos e ferreiros que fabricavam armas de guerra. Ao levá-los, na prática desarmou a cidade, seguindo a estratégia dos filisteus, 1 Samuel 13:19. Ezequiel, o profeta, foi levado nesse cativeiro (Ezequiel 1:1, 2), assim como Mordecai, Ester 2:6.
Joaquim também era chamado Jeconias (1 Crônicas 3:16) e, em sinal de desprezo, Conias (Jeremias 22:24), passagem que profetiza seu cativeiro.
III. O sucessor que o rei da Babilônia escolheu para o lugar de Joaquim. Deus o declarara sem filhos (Jeremias 22:30), por isso seu tio ficou encarregado do governo.
O rei da Babilônia fez Matanias, filho de Josias, rei; e, para lembrá-lo e mostrar a todos que Matanias era criatura do rei, mudou seu nome e o chamou Zedequias (v. 17).
Deus já censurara seu povo: “Eles estabeleceram reis, mas não por mim” (Oseias 8:4), e agora, para puni-los por isso, o rei da Babilônia é que escolheria seus reis.
Os que usam a liberdade e insistem nela contra a autoridade de Deus são justamente privados dela.
Zedequias foi o último dos reis de Judá. O nome que o rei da Babilônia lhe deu significa justiça do Senhor e anunciava que a justiça de Deus seria glorificada em sua ruína.
Veja como Zedequias foi ímpio. Os juízos de Deus contra seus três predecessores imediatos poderiam tê-lo advertido a não seguir os passos deles; mesmo assim, “praticou o que era mau”, como todos os outros (v. 19).
Veja como foi insensato. Seu predecessor perdeu a coragem; ele perdeu a sabedoria e a religião, pois se rebelou contra o rei da Babilônia (v. 20).
Zedequias, tributário desse rei, provocou-o, embora fosse completamente incapaz de enfrentá-lo, e o rei da Babilônia o teria protegido se Zedequias lhe tivesse permanecido fiel. Foi a coisa mais insensata que podia fazer e apressou a ruína de seu reino.
Foi a ira do Senhor que levou a isso, para que ele os expulsasse de sua presença. Quando os que recebem a responsabilidade pelos conselhos de uma nação agem sem sabedoria e contra o verdadeiro interesse dela, devemos perceber nisso o desagrado de Deus.
Por causa dos pecados de um povo, Deus tira a palavra dos conselheiros de confiança e a compreensão dos idosos, e esconde de seus olhos o que diz respeito à paz pública. A quem Deus quer destruir, ele torna insensato.