Matthew Henry

2 Reis 23

Argumento

Temos aqui: I. A feliz continuidade da bondade do reinado de Josias e o avanço da reforma que ele iniciou. Ele leu a lei (v. 1, 2), renovou a aliança (v. 3) e purificou o templo (v. 4).

Eliminou os ídolos e a idolatria, com todos os seus vestígios, em todos os lugares a que seu poder alcançava (vv. 5-20); celebrou uma Páscoa solene (vv. 21-23) e livrou o país dos feiticeiros (v. 24). Em tudo isso, agiu com vigor extraordinário (v. 25).

II. O desfecho infeliz: sua morte prematura, sinal de que a ira de Deus contra Jerusalém continuaria (vv. 26-30).

III. As consequências ainda mais infelizes de sua morte: os maus reinados de seus dois filhos, Jeoacaz e Jeoaquim, que vieram depois dele (vv. 31-37).

Versículos 1 a 3

Josias Destrói a Idolatria. (a.C. 623.)

Josias recebeu uma mensagem de Deus dizendo que a ruína de Jerusalém não podia ser evitada e que ele só livraria a própria alma. Ainda assim, não se entregou ao desespero nem decidiu nada fazer por seu país, só porque não podia fazer tudo o que desejava.

Não: cumpriria seu dever e então deixaria o desfecho nas mãos de Deus. Ele decidiu promover uma reforma pública. Se algo pudesse impedir a ruína ameaçada, seria isso; aqui vemos os preparativos para tal reforma.

  1. Convocou uma assembleia geral das autoridades: os anciãos, os magistrados ou representantes de Judá e Jerusalém deveriam reunir-se com ele na casa do Senhor, junto com os sacerdotes e os profetas, ministros comuns e extraordinários. Se todos participassem, a reforma se tornaria um ato nacional e teria mais chances de evitar juízos nacionais.

Todos foram convocados (v. 1, 2) para que o assunto fosse tratado com maior solenidade, para que pudessem aconselhar e ajudar, e para desanimar qualquer oposição daqueles que fossem contra a reforma. Parlamentos em nada diminuem a honra e o poder dos bons príncipes; ao contrário, dão-lhes grande apoio.

  1. Em vez de fazer um discurso à assembleia, Josias mandou que o livro da lei fosse lido para eles; ou melhor, ao que parece, ele mesmo o leu (v. 2), tão comovido estava com o texto e tão desejoso de que os outros também fossem.

Josias não julgava indigno de si ser leitor, assim como Salomão não julgou indigno ser pregador, nem o próprio Davi, porteiro na casa de Deus. Além da assembleia dos grandes, ele reuniu o povo de Judá e os habitantes de Jerusalém para ouvir a leitura da lei.

É do interesse dos príncipes promover o conhecimento das Escrituras em seus domínios. Se o povo estiver tão firmemente decidido a obedecer à lei quanto o rei está a governar por ela, o reino será feliz. Todos devem conhecer as Escrituras, e todos os que têm autoridade devem difundir esse conhecimento.

  1. Em vez de propor leis para firmá-los em seu dever, Josias propôs uma associação pela qual todos se obrigariam juntos a Deus (v. 3). O livro da lei era o livro da aliança: se fossem povo de Deus, ele seria o Deus deles. O povo se comprometeu a cumprir sua parte, sem duvidar de que Deus cumpriria a dele.

(1.) A aliança exigia que andassem após o Senhor, conformando-se à vontade dele, às suas ordenanças e às suas providências; que respondessem a todos os seus chamados e acompanhassem todos os seus movimentos.

Deveriam levar a sério todos os mandamentos dele, morais, cerimoniais e judiciais, e observá-los cuidadosamente, de todo o coração e de toda a alma, com todo o cuidado, cautela, sinceridade, vigor, coragem e determinação possíveis.

Assim cumpririam as condições da aliança, confiando em suas promessas. (2.) Os participantes da aliança eram, em primeiro lugar, o próprio rei. Ele ficou junto à sua coluna (2 Reis 11:14) e declarou publicamente seu consentimento à aliança.

Com isso, deu-lhes o exemplo e garantiu não só sua proteção, mas também sua liderança e toda a ajuda que seu poder pudesse oferecer para que obedecessem. Nem mesmo os príncipes perdem a liberdade por se comprometerem com Deus.

Todo o povo também se comprometeu com a aliança, isto é, manifestou seu consentimento e prometeu cumpri-la. É bom nos obrigarmos ao dever com toda a solenidade possível; isso é especialmente oportuno depois de graves recaídas no pecado e de um declínio naquilo que é bom.

Quem tem intenções honestas não recua diante de compromissos formais: quem se compromete com firmeza encontra firmeza.

Versículos 4 a 24

Josias Reforma Judá. (a.C. 623.)

Temos aqui o relato de uma reforma como não encontramos em toda a história dos reis de Judá: uma remoção tão completa de todas as coisas abomináveis e alicerces tão firmes para uma obra gloriosa e boa.

Não posso deixar de me admirar com duas coisas. 1. Que tantas práticas perversas tenham sido introduzidas e mantidas por tanto tempo, como as que vemos removidas aqui. 2. Que, apesar da remoção dessas práticas e da esperança de uma estabilidade feliz, Jerusalém tenha sido totalmente destruída poucos anos depois, e nem isso a tenha salvado. Afinal, a maioria do povo odiava a reforma.

O fundidor funde em vão; por isso os homens os chamarão prata rejeitada (Jeremias 6:29, 30). Observemos aqui:

I. A abundância de maldade que havia, e havia havido, em Judá e Jerusalém. Ninguém imaginaria que em Judá, onde Deus era conhecido, em Israel, onde seu nome era grande, em Salém e Sião, onde ficava sua morada, se encontrassem as abominações relatadas aqui.

Josias reinava havia dezoito anos. Ele próprio dera ao povo um bom exemplo e mantivera a religião conforme a lei. Mesmo assim, quando investigou a idolatria, a profundidade e a extensão do monturo que teria de remover pareceram quase inacreditáveis.

  1. Até na casa do Senhor, o sagrado templo que Salomão construiu e dedicou à honra e ao culto do Deus de Israel, havia utensílios de todo tipo para o culto a Baal, à deusa do bosque (ou Astarote) e a todo o exército dos céus (v. 4).

Embora Josias tivesse suprimido o culto aos ídolos, os utensílios feitos para esse culto foram cuidadosamente guardados, dentro do próprio templo, para serem usados outra vez quando a restrição vigente fosse suspensa.

Até a imagem da deusa do bosque ainda estava de pé no templo (v. 6); alguns pensam que era uma imagem de Vênus, a mesma Astarote.

  1. Junto à entrada da casa do Senhor havia uma estrebaria para cavalos mantidos, vocês acreditariam?, para uso religioso. Eram cavalos sagrados, dedicados ao sol (v. 11), como se o sol precisasse deles, ele que “se alegra como um homem forte ao correr uma carreira” (Salmos 19:5).

Ou talvez quisessem representar a rapidez de seu movimento, que tanto admiravam. Moldavam sua religião às ficções poéticas da carruagem do sol, absurdos que um pouco de filosofia, sem qualquer teologia, teria exposto e feito com que sentissem vergonha.

Alguns dizem que toda manhã conduziam aqueles cavalos em pompa para receber o sol nascente; outros, que os adoradores do sol montavam neles para adorar o sol ao nascer.

Ao que parece, os cavalos puxavam as carruagens do sol, que o povo adorava. É espantoso que pessoas que tinham entre si a palavra escrita de Deus se tornassem tão vãs em suas imaginações!

  1. Perto da casa do Senhor havia casas dos sodomitas, onde se praticava todo tipo de lascívia e imundície, até as mais contrárias à natureza, sob o pretexto de religião e em honra de divindades impuras.

A prostituição física e a espiritual andavam juntas. As paixões vis a que o povo foi entregue eram o castigo por suas imaginações vãs. Os que desonraram a Deus foram justamente deixados a desonrar a si mesmos (Romanos 1:24 e seguintes).

Havia mulheres que teciam cortinas para a deusa do bosque (v. 7), tendas que cercavam a imagem de Vênus, onde os adoradores cometiam todo tipo de lascívia, e isso dentro da casa do Senhor.

Foi mau transformar a casa de nosso Pai em casa de comércio; foi pior transformá-la em covil de ladrões. Mas o pior de tudo foi fazê-la (Horrendum dictu! — horrível de dizer!), um bordel, em desafio descarado à santidade de Deus e de seu templo. Com razão o apóstolo as chamou de idolatrias abomináveis.

  1. Encontraram muitos altares idólatras (v. 12), alguns no palácio, no alto do aposento superior de Acaz. Como os telhados eram planos, faziam deles seus lugares altos e instalavam altares neles: altares domésticos (Jeremias 19:13; Sofonias 1:5).

Os reis de Judá fizeram isso. Embora Josias nunca os tivesse usado, ainda permaneciam lá. Manassés construíra altares para seus ídolos na casa do Senhor.

Quando se arrependeu, removeu-os e os lançou para fora da cidade (2 Crônicas 33:15); mas, como não os destruiu, parece que seu filho Amom os trouxera de volta aos pátios do templo. Josias os encontrou ali e os derrubou (v. 12).

  1. Havia Tofete, no vale do filho de Hinom, muito perto de Jerusalém. Ali se mantinha a imagem de Moloque, deus de uma crueldade contra a natureza, assim como outras divindades eram de uma impureza contra a natureza.

Alguns sacrificavam seus filhos a Moloque, queimando-os no fogo; outros os dedicavam, fazendo-os passar pelo fogo (v. 10), “trabalhando no próprio fogo” (Habacuque 2:13).

Supõe-se que o nome Tofete venha de tof, tambor, porque batiam tambores enquanto queimavam as crianças, para que seus gritos não fossem ouvidos.

  1. Havia lugares altos diante de Jerusalém que Salomão construíra (v. 13). Podemos supor que alguns reis piedosos anteriores, ou talvez o próprio Salomão, ao se arrepender, removeram os altares e as imagens dali.

Mas os edifícios, ou partes deles, permaneceram, junto com outros lugares altos, até o tempo de Josias. Quem introduz corrupções na religião não sabe até onde chegarão nem por quanto tempo durarão. Antiguidade não é prova segura da verdade.

Também havia lugares altos por todo o reino, de Geba a Berseba (v. 8), e lugares altos junto aos portões, na entrada do portão do governador.

Nesses lugares altos, pensa o bispo Patrick, queimavam incenso aos deuses protetores a quem os reis idólatras haviam confiado a guarda da cidade. Provavelmente o governador da cidade tinha um altar particular para seus penates, os deuses domésticos.

  1. Havia sacerdotes idólatras que oficiavam em todos aqueles altares (v. 5), os kemarim, homens negros ou vestidos de preto.

Veja Sofonias 1:4. Os que sacrificavam a Osíris, choravam por Tamuz (Ezequiel 8:14) ou adoravam as divindades infernais vestiam roupas pretas, como pranteadores.

Os reis de Judá haviam designado aqueles sacerdotes idólatras para queimar incenso nos lugares altos. Ao que parece, alguns eram sacerdotes da casa de Arão, que profanavam assim sua dignidade; outros não tinham direito algum ao sacerdócio e queimavam incenso a Baal.

  1. Havia encantadores, adivinhos e pessoas que consultavam espíritos familiares (v. 24). Quando adoravam o diabo como deus, não admira que também o consultassem como oráculo.

II. A destruição completa que o bom Josias promoveu contra todos aqueles vestígios de idolatria. Seu zelo pelo Senhor dos Exércitos e sua santa indignação contra tudo o que lhe desagrada eram tamanhos que nada podia resistir a ele.

A lei determinava que todos os monumentos da idolatria dos cananeus fossem destruídos (Deuteronômio 7:5). Muito mais os da idolatria dos israelitas, nos quais ela era ainda mais ímpia, profana e traiçoeira.

  1. Josias ordenou que Hilquias e os outros sacerdotes purificassem o templo. Essa era a responsabilidade deles (v. 4). Todos os utensílios feitos para Baal deveriam ser retirados.

Não poderiam ser usados no serviço de Deus, nem sequer reservados para uso comum. Deveriam ser todos queimados, e suas cinzas, levadas a Betel.

Aquele lugar fora uma fonte comum de idolatria, pois ali se instalara um dos bezerros. Como ficava perto de Judá, a contaminação dali se espalhara para aquele reino.

Por isso Josias fez de Betel o depósito de lixo da idolatria, o monturo para onde levava a sujeira e os restos de todas aquelas coisas, na esperança de que se tornassem repulsivas aos que antes gostavam delas.

  1. Todos os sacerdotes idólatras foram destituídos. Os que não pertenciam à casa de Arão ou tinham sacrificado a Baal e a outros deuses falsos foram mortos por Josias, conforme a lei (v. 20).

Ele os matou sobre os próprios altares: o sacrifício mais agradável que jamais se oferecera ali, um sacrifício à justiça de Deus.

Quanto aos descendentes de Arão que haviam queimado incenso nos lugares altos, mas somente ao Deus verdadeiro, Josias proibiu que jamais se aproximassem do altar do Senhor. Tinham perdido essa honra (v. 9).

Ele os tirou das cidades de Judá (v. 8), para que não causassem dano no interior do país, mantendo às escondidas os antigos costumes idólatras.

Mas permitiu que comessem “pão sem fermento” (o pão da oferta de alimentos, Levítico 2:4, 5) entre seus irmãos, com quem deveriam morar. Sob a vigilância deles, poderiam ser impedidos de fazer o mal e ensinados a praticar o bem.

Aquele pão, aquele pão sem fermento, por mais pesado e desagradável que fosse, era melhor do que mereciam e bastaria para mantê-los vivos.

Mas é legítimo questionar se podiam comer de todos os sacrifícios, como os sacerdotes com defeito físico (Levítico 21:22), sacrifícios designados, em geral, como o pão do seu Deus.

  1. Todas as imagens foram quebradas e queimadas. A imagem da deusa do bosque (v. 6), fosse qual fosse, foi reduzida a cinzas, que foram lançadas sobre as sepulturas do povo comum (v. 6), o cemitério público da cidade.

Segundo a lei, tocar numa sepultura trazia impureza cerimonial. Ao lançar as cinzas ali, Josias as declarou impuras ao máximo; qualquer pessoa que as tocasse também se tornaria impura.

Ele a lançou nas sepulturas (assim diz o Targum), indicando que queria sepultar toda a idolatria, longe de seus olhos, como coisa repulsiva, e esquecê-la, como os mortos desaparecem da memória (v. 14).

Josias encheu de ossos humanos os lugares dos bosques. Assim como levou às sepulturas as cinzas das imagens, para misturá-las aos ossos dos mortos, também levou ossos humanos aos lugares onde as imagens haviam estado e os colocou em seu lugar.

De ambas as maneiras, a idolatria se tornaria repulsiva, e o povo ficaria afastado tanto do pó das imagens quanto das ruínas dos lugares onde eram adoradas. Os mortos e os deuses mortos eram muito semelhantes e deviam ficar juntos.

  1. Todos os edifícios perversos foram suprimidos: aqueles ninhos de impiedade que abrigavam idólatras, as casas dos sodomitas (v. 7). “Abaixo, abaixo com elas; arrasem-nas até os alicerces.”

Os lugares altos também foram derrubados e nivelados ao chão (v. 8), até mesmo o que pertencia ao governador da cidade. A posição ou o poder de ninguém pode protegê-lo na idolatria ou na impiedade.

Que os governadores sejam obrigados a se reformar primeiro; então os governados serão influenciados mais depressa. Josias profanou os lugares altos (v. 8, e novamente v. 13): fez tudo o que podia para torná-los abomináveis e afastar o povo deles.

Foi o que Jeú fez ao transformar a casa de Baal numa latrina (2 Reis 10:27). Tofete, ao contrário dos outros lugares idólatras, ficava num vale, não num monte ou lugar alto; Josias também o profanou (v. 10), fazendo dele o cemitério da cidade.

Sobre isso lemos um sermão inteiro (Jeremias 19:1, 2, etc.), no qual se diz: “Sepultarão em Tofete”, e toda a cidade é ameaçada de se tornar como Tofete.

  1. Os cavalos dedicados ao sol foram retirados e destinados a uso comum, livres assim da vaidade a que haviam sido submetidos.

Josias queimou no fogo as carruagens do sol. Que pena que aqueles cavalos e carruagens fossem conservados como os carros e cavaleiros de Israel! Se o sol é uma chama, nunca se pareceram tanto com ele como quando eram carruagens de fogo.

  1. Foram expulsos os que consultavam espíritos familiares e os adivinhos (v. 24). Josias provavelmente condenou à morte os que foram considerados culpados de feitiçaria, dissuadindo assim outros de tais práticas diabólicas.

Em tudo isso, ele seguiu com sinceridade as palavras da lei escritas no livro recém-encontrado (v. 24). Fez dessa lei seu padrão e a manteve sempre diante de si durante a reforma.

III. Seu zelo também se estendeu às cidades de Israel que estavam ao seu alcance. As dez tribos haviam sido levadas cativas, e as colônias assírias não povoaram completamente o país.

Assim, é provável que muitas cidades tivessem se colocado sob a proteção dos reis de Judá (2 Crônicas 30:1; 34:6). Josias foi até elas para levar adiante a reforma.

Até onde vai a nossa influência, devem ir nossos esforços para fazer o bem e pôr fim à maldade dos perversos.

  1. Josias profanou e demoliu o altar de Jeroboão em Betel, junto com o lugar alto e a deusa do bosque que lhe pertenciam (v. 15, 16).

Ao que parece, o bezerro de ouro já havia desaparecido (o teu bezerro, ó Samaria, te rejeitou). Mas o altar continuava lá, e os que se apegavam às antigas idolatrias ainda o usavam.

(1.) O altar foi profanado (v. 16). Em seu zelo piedoso, Josias vasculhava os antigos centros de idolatria. Viu sepulcros no monte, onde provavelmente estavam enterrados os sacerdotes idólatras, perto do altar em que oficiavam e junto ao qual queriam que seus ossos repousassem.

Josias abriu os sepulcros, retirou os ossos e os queimou sobre o altar. Assim mostrou que teria feito o mesmo com os próprios sacerdotes, se estivessem vivos, como fez com os que encontrou vivos (v. 20).

Desse modo, poluiu e profanou o altar, tornando-o abominável. Está ameaçado que os ossos dos idólatras sejam espalhados diante do sol (Jeremias 8:1, 2).

O que se ameaça ali e o que se executa aqui, indicando que a iniquidade permanece sobre seus ossos (Ezequiel 32:27), apontam para um castigo depois da morte, reservado aos que vivem e morrem sem arrependimento nesse ou em qualquer outro pecado.

Queimar os ossos, se isso fosse tudo, seria pouca coisa; mas, se significar o tormento da alma numa chama pior, é terrível (Lucas 16:24).

Essa ação de Josias parece ter sido fruto de uma decisão muito repentina. Ele não a teria tomado se não tivesse se virado por acaso e visto os sepulcros.

Mesmo assim, foi predita mais de 350 anos antes, quando Jeroboão construiu o altar (1 Reis 13:2). Deus sempre prevê e, às vezes, prediz como certa aquilo que para nós parece depender do acaso.

O coração do rei está nas mãos do Senhor; o de Josias também estava, e o Senhor o conduziu, antes que o próprio Josias percebesse (Cantares de Salomão 6:12), para fazer isso. Nenhuma obra de Deus ficará sem efeito.

(2.) O altar foi demolido. Josias o derrubou junto com todos os seus acessórios (v. 15); queimou o que podia ser consumido e, como um ídolo nada é no mundo, fez tudo o que pôde para aniquilá-lo. Josias esmagou o ídolo até virar pó e o espalhou como poeira ao vento.

  1. Destruiu todas as casas dos lugares altos, todas aquelas sinagogas de Satanás nas cidades de Samaria (v. 19). Os reis de Israel as construíram, e Deus levantou esse rei de Judá para derrubá-las, em honra à antiga casa de Davi, da qual as dez tribos haviam se revoltado. Em justiça, fez dos sacerdotes sacrifícios sobre os próprios altares deles (v. 20).

  2. Josias preservou cuidadosamente a sepultura daquele homem de Deus que viera de Judá para profetizar sobre isso, algo que agora executava um rei vindo de Judá.

Era o bom profeta que proclamou aquelas coisas contra o altar de Betel e que, ainda assim, foi morto por um leão por desobedecer à palavra do Senhor.

Para mostrar que o desagrado de Deus contra ele não foi além de sua morte, mas terminou ali, Deus ordenou que, quando todas as sepulturas ao redor fossem profanadas, a dele ficasse intacta (v. 17, 18) e ninguém removesse seus ossos.

Ele havia entrado em paz e, por isso, descansaria em seu leito (Isaías 57:2). Ao que parece, o velho profeta mentiroso, que quis ser enterrado o mais perto possível dele, sabia o que fazia.

A poeira do velho profeta também foi preservada por estar misturada à do bom profeta; veja Números 23:10.

IV. Lemos aqui sobre a solene Páscoa que Josias e seu povo celebraram depois de tudo isso. Primeiro limparam o país do fermento antigo; então se dedicaram a celebrar a festa.

Jeú destruiu o culto a Baal, mas não teve o cuidado de andar nos mandamentos e nas ordenanças de Deus. Josias sabia que devemos aprender a praticar o bem, e não apenas deixar de praticar o mal.

Também sabia que, para afastar os costumes abomináveis, é preciso manter as ordenanças instituídas (Levítico 18:30). Por isso ordenou que todo o povo celebrasse a Páscoa.

A Páscoa não era apenas uma lembrança da libertação do Egito, mas também um sinal de que se dedicavam àquele que os tirou de lá e de sua comunhão com ele.

Josias encontrou a ordem para celebrar a Páscoa escrita no livro da lei, aqui chamado de livro da aliança. Embora a autoridade divina possa nos tratar por meio de mandamentos absolutos, a graça divina se digna a firmar alianças conosco; por isso, Josias observou a Páscoa.

Não temos um relato tão detalhado dessa Páscoa como o da celebrada no tempo de Ezequias (2 Crônicas 30). Em termos gerais, somos informados de que não se celebrava uma Páscoa como essa em nenhum dos reinados anteriores, nem mesmo desde os dias dos juízes (v. 22).

Isso sugere, de passagem, que, embora o relato do livro de Juízes sobre a condição de Israel sob aquela dinastia pareça melancólico, houve então alguns dias de glória.

Ao que parece, essa Páscoa foi extraordinária pelo número e pela devoção dos participantes, pelos sacrifícios e ofertas e pela observância exata das leis da festa.

Não foi como na Páscoa de Ezequias, quando muitos participaram sem estar purificados conforme as regras do santuário, e os levitas foram autorizados a fazer o trabalho dos sacerdotes.

Temos motivos para pensar que, durante todo o restante do reinado de Josias, a religião floresceu e as festas do Senhor foram observadas com muito cuidado.

Mas, naquela Páscoa, a alegria que encontravam na aliança recém-renovada, a reforma realizada em cumprimento dela e o restabelecimento de uma ordenança cuja origem divina haviam acabado de encontrar no livro da lei, e que por muito tempo fora negligenciada ou celebrada sem cuidado, encheram-nos de grande alegria santa.

Deus teve por bem recompensar o zelo deles em destruir a idolatria com sinais extraordinários de sua presença e favor. Tudo isso se juntou para fazer daquela Páscoa uma celebração distinta.

Versículos 25 a 30

A Morte de Josias. (a.C. 610.)

Ao lermos estes versículos, devemos dizer: “Senhor, embora a tua justiça seja como os grandes montes”, evidente, notória e indiscutível; ainda assim, “os teus juízos são um grande abismo”, insondável e inescrutável (Salmos 36:6). Que diremos sobre isso?

I. Reconhece-se aqui que Josias foi um dos melhores reis que já se sentaram no trono de Davi (v. 25). Assim como Ezequias foi incomparável na fé e na confiança em Deus em tempos de aflição (2 Reis 18:5), Josias foi incomparável na sinceridade e no zelo ao conduzir uma obra de reforma.

Nisso, ninguém se igualou a ele. 1. Ele voltou para o Senhor, de quem seus pais haviam se afastado. É religião verdadeira voltar-se para Deus como alguém que escolhemos e amamos.

Josias fez o que podia para também conduzir seu reino ao Senhor. 2. Fez isso de todo o coração e de toda a alma; seus afetos e propósitos eram corretos no que fazia.

Quem não se empenha de coração em sua religião não faz nada dela. 3. Fez isso de todo o coração, de toda a alma e com toda a força, com vigor, coragem e determinação; de outro modo, não teria superado as dificuldades que enfrentava.

Que grandes coisas podemos realizar no serviço de Deus se formos animados e nos dedicarmos a ele de coração! 4. Fez isso conforme toda a lei de Moisés, observando-a com exatidão e levando-a realmente em conta. Seu zelo não o levou a agir de modo irregular; em tudo o que fez, seguiu a regra.

II. Apesar disso, Josias teve morte violenta no meio da vida, e poucos anos depois seu reino foi arruinado. Depois de uma reforma como essa, esperaríamos prosperidade e glória para o rei e para o reino; ao contrário, vemos ambos sob uma nuvem.

  1. O reino reformado continuou condenado à ruína. Apesar de tudo isso, o Senhor não se desviou do ardor de sua grande ira (v. 26).

É certamente verdadeira a palavra que Deus falou pelo profeta: se uma nação condenada à destruição se afastar do pecado, Deus se arrependerá do castigo (Jeremias 18:7, 8).

Portanto, devemos concluir que, embora o povo de Josias se submetesse ao poder dele, não assimilou de coração seus princípios. Foi obrigado a se voltar, mas não abandonou voluntariamente seu mau caminho; continuou apegado aos ídolos.

Por isso, aquele que conhece o coração humano não revogou a sentença: Judá seria removido como Israel, e Jerusalém seria rejeitada (v. 27).

Mesmo assim, o propósito daquela destruição era reformá-los de modo eficaz. Devemos dizer não apenas que os culpados tinham completado sua medida e estavam prontos para a ruína, mas também que a doença chegara ao ponto decisivo e estava pronta para ser curada. Esse será todo o fruto: a remoção do pecado.

  1. Como prova disso, até mesmo o rei reformador foi tirado enquanto ainda podia ser útil: foi um ato de misericórdia para ele, pois não veria o mal que se aproximava de seu reino; mas foi um ato de ira contra o povo, pois sua morte abriu caminho para a desolação.

Parece que o rei do Egito guerreava contra o rei da Babilônia, chamado aqui de rei da Assíria. O reino de Josias ficava entre os dois.

Ele se julgou obrigado a enfrentar o rei do Egito e conter o crescimento ameaçador de seu poder. Embora o faraó protestasse, naquele momento, que nada pretendia contra Josias, caso conseguisse unir o rio do Egito ao rio Eufrates, a terra de Judá logo seria inundada entre os dois.

Por isso Josias foi enfrentá-lo e morreu no primeiro combate (v. 29, 30). Aqui, (1.) Não podemos justificar a conduta de Josias.

Não tinha um chamado claro para entrar nessa guerra, e não vemos que tenha consultado a Deus por meio do Urim ou dos profetas a respeito dela.

Que motivo tinha para se apresentar e agir como amigo e aliado do rei da Assíria? Deveria ajudar os ímpios e amar os que odeiam o Senhor?

Se os reis do Egito e da Assíria brigavam, Josias tinha motivos para pensar que Deus tiraria disso algo bom para ele e seu povo, fazendo com que enfraquecessem um ao outro.

Alguns entendem que a promessa de que ele seria reunido a seus antepassados em paz não se cumpriu porque, ao falhar nesse caso, ele perdeu o benefício dela.

Deus prometeu nos guardar em todos os nossos caminhos; mas, se saímos do caminho, afastamo-nos de sua proteção.

Entendo a promessa de outra maneira e creio que se cumpriu: Josias morreu em paz com Deus e com a própria consciência, e não viu nem teve perspectiva imediata da destruição de Judá e Jerusalém pelos caldeus. Mesmo assim, entendo que essa providência o repreendeu por sua imprudência.

(2.) Devemos adorar a justiça de Deus por retirar uma joia assim de um povo ingrato, incapaz de valorizá-la. O povo lamentou muito a morte de Josias (2 Crônicas 35:25), instigado a isso por Jeremias, que lhe explicou o sentido da morte e seu caráter de sinal ameaçador.

Mas não havia aproveitado devidamente as bênçãos recebidas enquanto Josias vivia. Deus lhes ensinou o valor dessas bênçãos quando ficaram sem elas.

Versículos 31 a 37

Os Reinados de Jeoacaz e Jeoaquim. (a.C. 610.)

Jerusalém não teve um dia bom depois que Josias foi sepultado. Um problema veio após outro, até que, em 22 anos, a cidade foi totalmente destruída.

Temos aqui um breve relato dos reinados de dois de seus filhos. O primeiro aparece como prisioneiro, e o segundo, como tributário do rei do Egito; os dois passaram a essa condição logo no início de seus reinados.

O rei do Egito havia matado Josias, embora não tivesse planejado atacar Judá. Mas, provocado pela oposição que Josias lhe fizera, parece que agora voltou toda a sua força contra a família e o reino dele.

Se os filhos de Josias tivessem seguido seus passos, teriam se saído melhor graças à piedade do pai. Mas, desviando-se deles, sofreram as consequências da imprudência paterna.

I. Jeoacaz, um filho mais novo, foi primeiro escolhido rei pelo povo da terra. Provavelmente perceberam nele um temperamento mais ativo e guerreiro do que no irmão mais velho, e esperavam que enfrentasse o rei do Egito e vingasse a morte do pai.

Talvez, por honra, o povo se preocupasse mais com isso do que em manter e prosseguir a reforma de Josias. E assim aconteceu.

  1. Jeoacaz fez o que era mau (v. 32). Embora tivesse recebido boa educação e bom exemplo, e possamos supor que muitas orações tivessem sido feitas em seu favor, praticou o que era mau aos olhos do Senhor.

É de temer que tenha começado a agir assim ainda durante a vida do pai, pois reinou tão pouco que não poderia revelar muito de seu caráter nesse período.

Fez conforme tudo o que seus pais perversos haviam feito. Embora não tivesse tido tempo de fazer muita coisa, escolhera seus modelos e mostrou a quem pretendia seguir e cujos passos decidira trilhar.

Depois de fazer essa escolha, considera-se que agiu conforme toda a maldade daqueles que decidiu imitar. É muito importante que os jovens escolham quem tomarão por modelo e quem imitarão. Errar nessa escolha é fatal (Filipenses 3:17, 18).

  1. Como agiu mal, não admira que tenha tido um destino ruim. Foi príncipe por apenas três meses e depois se tornou prisioneiro; assim viveu e morreu.

O rei do Egito o capturou e o pôs a ferros (v. 33), temendo que lhe causasse problemas, e o levou para o Egito, onde morreu pouco depois (v. 34).

Esse Jeoacaz é “o leãozinho” de que Ezequiel fala em seu lamento pelos príncipes de Israel: “aprendeu a capturar a presa e devorar homens” (esse foi o mal que praticou aos olhos do Senhor). “As nações ouviram falar dele; foi capturado numa cova, e o levaram acorrentado à terra do Egito” (Ezequiel 19:1-4). Veja também Jeremias 22:10-12.

II. Eliaquim, outro filho de Josias, foi feito rei pelo rei do Egito. Não se diz que ocupou o lugar de Jeoacaz, pois o reinado deste foi tão curto que mal merecia ser mencionado, mas sim o lugar de Josias.

Até então, a coroa de Judá sempre passava de pai para filho, e nunca de um irmão para outro. Isso já acontecera uma vez na casa de Acabe, mas nunca antes na casa de Davi.

O rei do Egito, além de usar seu poder para torná-lo rei, também o usou para mudar seu nome. Chamou-o Jeoaquim, nome que faz referência a Jeová, pois não pretendia fazê-lo renunciar nem esquecer a religião de sua terra.

Todos os povos andarão cada um em nome do seu deus; que ele faça o mesmo. O rei da Babilônia não agiu assim com aqueles cujos nomes mudou (Daniel 1:7).

Sobre esse Jeoaquim, somos informados aqui: 1. O rei do Egito o empobreceu, exigindo-lhe um tributo enorme: cem talentos de prata e um talento de ouro (v. 33).

Com muita dificuldade, Jeoaquim extorquiu esse tributo de seus súditos e o entregou ao faraó (v. 35). Antes, os israelitas haviam saqueado os egípcios; agora, os egípcios saqueavam Israel. Veja que mudanças lamentáveis o pecado produz.

  1. O que o empobreceu não o tornou bom. Apesar das repreensões da Providência, que deveriam tê-lo convencido, humilhado e reformado, fez o que era mau aos olhos do Senhor (v. 37).

Assim, preparou para si juízos ainda maiores, pois Deus os enviará se os menores não realizarem o propósito para o qual foram enviados.


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