2 Reis 20
Argumento
Neste capítulo temos: I. A doença de Ezequias e sua recuperação, em resposta à oração, como cumprimento de uma promessa, pelo uso de meios e confirmada por um sinal (vv. 1-11). II. O pecado de Ezequias e sua restauração após o pecado (vv. 12-19). Em ambos os casos, Isaías foi mensageiro de Deus para ele. III. A conclusão de seu reinado (v. 20, 21).
Versículos 1 a 11
A Doença e a Recuperação de Ezequias. (a.C. 713.)
Depois de nos mostrar o blasfemo Senaqueribe destruído quando ainda tinha perspectivas de vida, o historiador mostra agora Ezequias, que ora e é livrado quando está às portas da morte: os dias do primeiro foram abreviados; os do segundo, prolongados.
I. Temos aqui a doença de Ezequias. “Naqueles dias” significa no mesmo ano em que o rei da Assíria sitiou Jerusalém. Ezequias reinou ao todo vinte e nove anos e viveu mais quinze depois disso; portanto, a doença ocorreu no décimo quarto ano de seu reinado, assim como o cerco (2 Reis 18:13).
Alguns pensam que a doença aconteceu enquanto o exército assírio sitiava a cidade ou se preparava para isso, pois Deus promete (v. 6): “Defenderei esta cidade”; essa promessa foi repetida quando o perigo se tornou iminente (2 Reis 19:34). Outros pensam que ocorreu pouco depois da derrota de Senaqueribe, o que nos mostra a instabilidade de todos os nossos confortos neste mundo.
Em meio aos triunfos de Ezequias no favor de Deus e sobre as forças de seus inimigos, ele é acometido por uma doença e fica sob a sentença de morte. Por isso, devemos sempre nos alegrar com temor. Ao que parece, ele sofria de peste, pois lemos sobre o furúnculo ou a chaga pestilenta, v. 7.
A mesma doença que foi mortal para os assírios era uma provação para ele; Deus a tirou dele e a fez recair sobre seus inimigos. Nem a grandeza nem a bondade nos livram de doenças, inclusive das dolorosas e mortais.
Ezequias, favorecido pelo céu mais do que a maioria dos homens havia pouco, agora está doente até a morte: ainda estava no vigor da vida, com menos de quarenta anos, e, contudo, adoecia e morria.
Talvez temesse ainda mais que a doença fosse fatal porque seu pai morreu por volta da mesma idade, dois ou três anos mais jovem. “No meio da vida, estamos na morte.”
II. Um aviso o levou a preparar-se para morrer. Foi trazido por Isaías, que, como vimos no capítulo anterior, já lhe fora mensageiro de boas-novas duas vezes. Não podemos esperar dos profetas de Deus outra coisa além do que receberam do Senhor; devemos acolhê-la, seja agradável ou não.
O profeta lhe diz, 1. que sua doença é mortal e, se um milagre de misericórdia não o restabelecer, certamente será fatal: “Morrerás, e não viverás.” 2. Por isso, ele deve preparar-se para morrer sem demora: “Põe a tua casa em ordem.”
Devemos dar grande atenção a isso quando estamos com saúde, mas somos chamados a fazê-lo com muito mais urgência quando adoecemos. Ponha o coração em ordem por atos renovados de arrependimento, fé e submissão a Deus, despedindo-se com alegria deste mundo e acolhendo o outro.
E, se ainda não o fez — o que seria o melhor e mais sábio —, ponha a casa em ordem: faça seu testamento, organize seus bens e deixe seus assuntos na melhor condição possível, para facilitar a vida dos que virão depois. Isaías não fala do reino de Ezequias, apenas de sua casa.
Davi, por ser profeta, tinha autoridade para designar quem reinaria depois dele; os outros reis, porém, não pretendiam legar suas coroas como parte de seus bens e pertences.
III. Em resposta ao aviso, Ezequias orou ao Senhor, v. 2. Alguém está doente? Que orem por ele, orem com ele, e que ele mesmo ore. Como, conforme registrado no capítulo anterior, Ezequias descobrira que não era inútil esperar em Deus e que as orações feitas com fé trazem respostas de paz, invocará a Deus enquanto viver.
As experiências felizes da eficácia da oração nos comprometem e nos animam a perseverar nela. Ezequias recebera em si a sentença de morte; se ela podia ser revogada, isso teria de ocorrer por meio da oração. Quando Deus decide conceder misericórdia, quer ser consultado a esse respeito (Ezequiel 36:37).
Não recebemos porque não pedimos, ou pedimos mal. Se a sentença fosse irrevogável, ainda assim a oração seria um dos melhores preparativos para a morte, pois por ela recebemos de Deus força e graça para terminar bem. Observe:
- As circunstâncias dessa oração. (1.) Ezequias voltou o rosto para a parede, provavelmente enquanto estava deitado na cama. Talvez tenha feito isso para ficar a sós; não podia retirar-se ao aposento em que costumava orar, mas afastou-se como pôde das pessoas ao redor para ter comunhão com Deus.
Quando não podemos ficar tão a sós quanto gostaríamos em nossas devoções, nem realizá-las com as expressões exteriores de reverência e solenidade de costume, não devemos por isso deixá-las de lado; devemos nos preparar para elas da melhor maneira possível.
Ou, como alguns pensam, voltou o rosto para o templo, para mostrar quanto desejaria ter ido até lá e orado, como fizera (2 Reis 19:1, 14), se pudesse, lembrando-se dos incentivos dados a todas as orações feitas naquele lugar ou voltadas para ele.
Cristo é o nosso templo; devemos manter os olhos nele em todas as nossas orações, pois ninguém e nenhum serviço chegam ao Pai senão por meio dele. (2.) Ezequias chorou muito. Alguns concluem disso que ele não queria morrer.
É natural que o ser humano tema, em certa medida, a separação da alma e do corpo; não seria estranho se os santos do Antigo Testamento, para quem a outra vida fora revelada apenas obscuramente, relutassem mais em deixar esta vida do que Paulo e outros santos do Novo Testamento.
Havia também algo peculiar no caso de Ezequias: ele estava no auge de sua utilidade. Começara uma boa obra de reforma e temia que, por causa da corrupção do povo, ela acabasse desfeita se morresse.
Se isso ocorreu antes da derrota do exército assírio, como alguns pensam, talvez relutasse em morrer porque seu reino corria perigo iminente de ruína. Não parece, porém, que ele tivesse um filho naquela época: Manassés, seu sucessor, só nasceu três anos depois.
Se morresse sem filhos, tanto a paz de seu reino quanto a promessa feita a Davi ficariam em perigo. Mas talvez aquelas fossem apenas lágrimas de insistência e expressões de fervorosa afeição na oração.
Jacó chorou e suplicou; e nosso bendito Salvador, embora estivesse muito disposto a morrer, ofereceu fortes clamores e lágrimas àquele que sabia ser capaz de salvá-lo (Hebreus 5:7). Que a oração de Ezequias interprete suas lágrimas; nela nada indica que ele estivesse sujeito ao medo da morte que causa escravidão ou tormento.
- A própria oração: “Lembra-te agora, Senhor, de como andei diante de ti em verdade”; Ezequias pediu que Deus lhe poupasse a vida para continuar andando assim ou, se sua obra estivesse concluída, o recebesse na glória que preparara para os que tinham andado desse modo. Observe aqui:
(1.) A descrição da piedade de Ezequias. Sua conduta no mundo tivera intenções corretas — “andei diante de ti”, sob teu olhar e sempre com os olhos voltados para ti —, nascera de um princípio correto, a verdade e a integridade de coração, e seguira uma regra correta: “Fiz o que é bom à tua vista.”
(2.) O consolo que sentia ao refletir sobre isso tornava-lhe leve o leito de enfermidade. Repare: o testemunho de nossa consciência em nosso favor, de que andamos com Deus em integridade, nos sustentará e nos alegrará quando encararmos a morte (2 Coríntios 1:12).
(3.) A maneira humilde como ele menciona isso a Deus. “Senhor, lembra-te agora.” Não como se Deus precisasse que o lembrássemos de algo — ele é maior que nosso coração e conhece todas as coisas —, nem como se a recompensa fosse uma dívida que pudéssemos exigir.
Somente a justiça de Cristo adquire para nós misericórdia e graça. Mas nossa sinceridade pode ser apresentada como condição da aliança que Deus operou em nós: “É obra das tuas próprias mãos; Senhor, reconhece-a.”
Ezequias não ora: “Senhor, poupa-me”, nem: “Senhor, leva-me; seja feita a vontade de Deus”, mas: “Senhor, lembra-te de mim; viva eu ou morra, que eu seja teu.”
IV. Deus respondeu de imediato à oração de Ezequias. O profeta mal chegara ao pátio central quando foi mandado de volta com outra mensagem para Ezequias (v. 4, 5), dizendo que ele se restabeleceria.
Isso não significa que Deus seja sim e não, nem que diga algo e depois volte atrás. Em resposta à oração de Ezequias, que Deus previra e para a qual seu Espírito o inclinara, ele fez por Ezequias o que de outro modo não teria feito.
Deus chama Ezequias de comandante de seu povo para indicar que o pouparia por causa do povo, pois, em tempo de guerra, eles mal podiam dispensar um comandante como ele. Chama a si mesmo de Deus de Davi para indicar que o pouparia por consideração à aliança feita com Davi e à promessa de que sempre lhe proveria uma lâmpada.
Nesta resposta, 1. Deus honra suas orações ao reconhecê-las e levá-las em conta na mensagem: ele ouviu as orações de Ezequias e viu suas lágrimas. As orações cheias de fervor e afeição lhe são especialmente agradáveis.
- Deus vai além do que Ezequias pediu. Ele apenas pediu que Deus se lembrasse de sua integridade; Deus, porém, promete: (1.) Restaurá-lo de sua doença: “Eu te sararei.” As doenças são servas de Deus: vão para onde ele as envia e vêm quando ele as chama de volta (Mateus 8:8, 9). “Eu sou o Senhor que te sara” (Êxodo 15:26).
(2.) Restabelecê-lo a ponto de subir à casa do Senhor no terceiro dia, para dar graças. Deus conhecia o coração de Ezequias: quanto amava a morada da casa de Deus e o lugar onde sua honra habitava.
Assim que melhorasse, ele iria participar das ordenanças públicas. Quando adoeceu, voltou o rosto para lá; quando se restabelecesse, voltaria os passos para lá. Por isso, Deus lhe promete o que mais o agradaria: “Que minha alma viva, e ela te louvará.”
O homem que Cristo curou foi encontrado pouco depois no templo (João 5:14). (3.) Acrescentar quinze anos à sua vida. Isso não faria dele um ancião; ele chegaria apenas aos cinquenta e quatro ou cinquenta e cinco anos, mas viveria mais do que há pouco esperava.
Seu contrato de vida, que julgava estar prestes a expirar, foi renovado. Não conhecemos o caso de outra pessoa a quem tenha sido dito de antemão exatamente quanto tempo viveria. Sem dúvida, aquele homem bom fez bom uso da informação; Deus, porém, sabiamente nos deixou na incerteza, para que estejamos sempre prontos.
(4.) Livrar Jerusalém do rei da Assíria, v. 6. Ezequias desejava isso tanto quanto a própria recuperação, e por isso a promessa é repetida. Se isso ocorreu depois de levantado o cerco, ainda havia motivo para temer que Senaqueribe reunisse suas tropas novamente. “Não”, diz Deus, “eu defenderei esta cidade.”
V. Os meios que deveriam ser usados para sua recuperação, v. 7. Isaías foi seu médico. Receitou uma aplicação externa, muito barata e comum: que pusessem uma pasta de figos sobre o furúnculo para fazê-lo amadurecer e formar uma ponta, por onde a matéria da doença pudesse ser expelida.
Isso talvez tenha contribuído um pouco para a cura, mas, considerando o estágio avançado a que a doença chegara e a rapidez com que foi contida, a cura não deixou de ser milagrosa. Repare: 1. Quando estamos doentes, devemos usar os meios apropriados para ajudar a natureza; do contrário, não confiamos em Deus, mas o pomos à prova.
- Não devemos desprezar remédios simples e comuns, pois Deus, por sua graça, tornou muitos deles úteis aos seres humanos, levando em conta os pobres. 3. O que Deus determina, ele abençoará e tornará eficaz.
VI. O sinal dado para fortalecer a fé de Ezequias. 1. Ele o pediu, não por desconfiar do poder ou da promessa de Deus, nem por vacilar diante dela, mas porque considerava muito grandiosas as coisas prometidas e dignas de serem confirmadas dessa maneira.
Além disso, Deus costumava glorificar-se e favorecer seu povo assim; Ezequias se lembrava de como Deus se desagradara de seu pai por este se recusar a pedir um sinal (Isaías 7:10-12).
Observe: Ezequias perguntou qual era o sinal de que subiria, não aos tronos de julgamento nem à porta, mas à casa do Senhor. Queria recuperar-se para glorificar a Deus nas portas da filha de Sião. Não vale a pena viver para qualquer outro propósito que não seja servir a Deus.
- Ficou a seu critério se o sol deveria voltar para trás ou avançar, pois ambas as coisas eram igualmente possíveis para a Onipotência. O sinal confirmaria ainda mais sua fé se escolhesse aquilo que lhe parecesse mais difícil.
Talvez a isso se refira esta palavra do profeta: “Perguntai-me acerca das coisas futuras a respeito de meus filhos, e acerca da obra de minhas mãos ordenai-me” (Isaías 45:11). Supõe-se que cada grau correspondesse a meia hora e que fosse exatamente meio-dia quando a proposta foi feita.
A pergunta era: “O sol deve voltar ao lugar em que estava às sete da manhã ou avançar até o lugar em que estará às cinco da tarde?” 3. Com humildade, Ezequias pediu que o sol voltasse dez graus.
Embora qualquer das opções fosse um grande milagre, o curso natural do sol era avançar; por isso, seu retrocesso pareceria mais extraordinário e indicaria melhor o retorno de Ezequias aos dias de sua juventude (Jó 33:25) e o prolongamento de sua vida.
Foi o que aconteceu, em resposta à oração de Isaías (v. 11): ele clamou ao Senhor, com autorização e direção especiais, e Deus fez o sol voltar dez graus. Ezequias viu isso — pois o sinal lhe era destinado — quando a sombra retrocedeu no relógio de sol de Acaz; provavelmente pôde vê-la pela janela de seu quarto.
O mesmo fenômeno foi observado em todos os outros relógios de sol, até mesmo na Babilônia (2 Crônicas 32:31). Não nos é dito se o movimento retrógrado do sol ocorreu gradualmente ou per saltum — de repente —, nem se voltou no mesmo ritmo em que costumava avançar, o que faria o dia durar dez horas a mais que o normal.
Também não nos é dito se o sol recuou de repente e, depois de permanecer algum tempo, voltou ao lugar de costume, sem mudança na disposição dos corpos celestes, como pensa o erudito bispo Patrick. Mas essa obra maravilhosa mostra o poder de Deus no céu e na terra, o quanto ele considera a oração e o grande favor que tem por seus escolhidos.
A forma mais plausível de idolatria entre os pagãos era a dos que adoravam o sol; mas esse acontecimento provou a extrema loucura deles, pois mostrou que seu deus estava sujeito ao controle do Deus de Israel.
O dr. Lightfoot sugere que os quinze Cânticos dos Degraus (Salmos 120, etc.) talvez tenham recebido esse nome por terem sido escolhidos por Ezequias para serem cantados com seus instrumentos de cordas (Isaías 38:20), em memória dos graus do relógio de sol pelos quais o sol voltou e dos quinze anos acrescentados à sua vida.
Ele observa quanto desses salmos se aplica à aflição e ao livramento de Jerusalém, e à doença e à recuperação de Ezequias.
Versículos 12 a 21
A Piedade e a Morte de Ezequias. (a.C. 713.)
Temos aqui, I. Uma embaixada enviada a Ezequias pelo rei da Babilônia para congratulá-lo por sua recuperação, v. 12. Até então, os reis da Babilônia eram apenas representantes e tributários dos reis da Assíria, e Nínive era a cidade real. A Babilônia estava sujeita ao rei da Assíria (2 Reis 17:24).
Mas esse rei da Babilônia começou a afirmar sua independência e, pouco a pouco, as coisas mudaram a tal ponto que a Assíria passou a estar sujeita aos reis da Babilônia. O rei babilônio enviou-lhe elogios e procurou conquistar sua boa vontade por dois motivos.
Por motivo religioso. Os babilônios adoravam o sol; ao perceberem a honra que o deus deles concedera a Ezequias ao retroceder por causa dele, julgaram-se obrigados a honrá-lo também. É bom ter como amigos aqueles que percebemos serem favorecidos pelo céu.
Por interesse político. Se o rei da Babilônia já planejava rebelar-se contra o rei da Assíria, era prudente conquistar Ezequias para seu lado. Em resposta às orações de Ezequias e para protegê-lo, o céu desferira aquele golpe fatal contra o rei da Assíria.
O rei babilônio se sentia em dívida com Ezequias e com o Deus dele pelo enfraquecimento das forças assírias; tinha motivos para pensar que não encontraria aliado mais poderoso e valioso do que alguém com tanta influência junto aos poderes do céu.
Por isso, procurou conquistar Ezequias com toda a deferência possível, enviando embaixadores, cartas e um presente.
II. A acolhida gentil que Ezequias deu aos embaixadores, v. 13. Era seu dever ser cortês e recebê-los com o respeito devido a embaixadores; mas ele foi longe demais e pecou por excesso de gentileza.
- Agradou-se demais deles. Deu-lhes ouvidos. Embora fossem idólatras, tornou-se íntimo deles, mostrou-se disposto a fazer aliança com o rei, senhor deles, e atendeu a todos os pedidos que trouxeram.
Foi mais aberto e espontâneo do que devia, sem se manter suficientemente alerta. Que motivo tinha ele, que estava em aliança com Deus, para buscar com tanto empenho uma aliança com um príncipe pagão ou dar tanto valor à consideração respeitosa dele?
Que honra essa embaixada poderia acrescentar a alguém a quem Deus favorecera tão grandemente, para que Ezequias se agradasse tanto dela?
- Agradou-se demais de mostrar-lhes seu palácio, seus tesouros e seus depósitos, para que vissem e relatassem ao rei deles que grande rei Ezequias era e como merecia a honra que seu senhor lhe prestara.
Não se diz que lhes mostrou o templo, o livro da lei e o modo como adorava, para convertê-los à religião verdadeira, algo que agora tinha uma excelente oportunidade de fazer.
Por formalidade, para não os ofender, deixou isso de lado e mostrou o valioso conteúdo de sua câmara particular, aquela casa de objetos preciosos, as riquezas que acumulara desde que o rei da Assíria esvaziara seus cofres: prata, ouro e especiarias.
Mostrou-lhes todas as coisas valiosas que possuía, ele próprio ou por meio de seus oficiais. E que mal havia nisso? O que é mais comum e, como pensamos, mais inocente do que mostrar aos estrangeiros as riquezas e raridades de um país, ou aos amigos nossas casas e mobílias, jardins, estábulos e bibliotecas?
Mas, se fazemos isso por orgulho, como Ezequias fez, para receber aplausos das pessoas e sem dar glória a Deus, isso se torna pecado para nós, como se tornou para ele.
III. O interrogatório de Ezequias sobre o assunto, v. 14, 15. Isaías, que muitas vezes o consolara, agora o repreende. O bendito Espírito faz as duas coisas (João 16:7, 8). Os ministros também devem consolar e repreender, conforme a ocasião.
Isaías falou em nome de Deus e, portanto, chamou Ezequias a prestar contas com autoridade: perguntou quem eram aqueles homens, de onde vinham, o que pretendiam e o que tinham visto.
Ezequias não só se submeteu ao interrogatório, sem perguntar “Por que você se envolve e me questiona sobre esse assunto?”, como também confessou com franqueza: “Não há nada entre os meus tesouros que eu não lhes tenha mostrado.”
Por que, então, não os levou a Isaías e o apresentou a eles? Sem dúvida, ele era o maior tesouro de seus domínios e, por suas orações e profecias, fora instrumento de todas as maravilhas que os embaixadores vieram investigar.
Espero que Ezequias ainda estimasse Isaías como o estimara em sua aflição. Mas teria sido apropriado demonstrar isso levando primeiro os embaixadores até ele, o que talvez tivesse evitado o passo em falso que deu.
IV. A sentença contra Ezequias por seu orgulho e vaidade e por dar apreço excessivo às coisas do mundo, depois da íntima comunhão com as coisas divinas que lhe fora concedida havia pouco. A sentença é esta (v. 17, 18):
Os tesouros de que tanto se orgulhava seriam saqueados, e sua família seria despojada de todos eles. É justo que Deus nos tire aquilo de que fazemos motivo de orgulho e em que depositamos confiança.
O rei da Babilônia, com quem ele tanto desejara aliar-se, seria o inimigo que os saqueasse. Não seria por causa desse pecado que tal juízo viria sobre eles: os pecados de Manassés, sua idolatria e seus assassinatos, causariam aquela calamidade.
Mas agora isso foi anunciado a Ezequias para convencê-lo da tolice de seu orgulho e do valor que atribuía ao rei da Babilônia, e para envergonhá-lo. Ezequias se empenhara em ajudar o rei da Babilônia a ascender e a reduzir o poder desmedido dos reis da Assíria.
Ele é informado, porém, de que a serpente que está nutrindo em breve picará o peito que a alimenta e de que seus descendentes reais serão escravos do rei da Babilônia — o que se cumpriu (Daniel 1:1, etc.). Nada poderia ser mais humilhante para Ezequias do que pensar nisso.
A Babilônia será a ruína dos que têm afeição por ela. Sábios e felizes são os que saem dela (Apocalipse 18:4).
V. A submissão humilde e paciente de Ezequias a essa sentença, v. 19. Observe como ele se convence a submeter-se:
- Estabelece como verdade que “boa é a palavra do Senhor”, até mesmo essa palavra, embora seja uma ameaça, pois toda palavra dele é boa. Ela não é apenas justa, mas boa; Deus não faz injustiça a ninguém, e não quer o mal dos que são bons.
Ela é boa porque Deus fará resultar dela o bem e fará bem a Ezequias ao lhe dar conhecimento antecipado dela. Devemos crer, a respeito de toda providência, que ela é boa e opera para o bem.
- Repara no que havia de bom nessa palavra: ele não viveria para ver aquele mal, muito menos participaria dele. Tira o melhor da notícia ruim: “Não é bom?” Ele conclui que sim, que certamente era bom e melhor do que merecia.
Repare: (1.) Os verdadeiros penitentes, quando estão sob repreensões divinas, chamam-nas não só de justas, mas de boas. Não apenas se submetem ao castigo por sua iniquidade, mas o aceitam. Foi o que Ezequias fez, e assim mostrou que de fato se humilhara por causa do orgulho de seu coração.
(2.) Quando estamos sob circunstâncias sombrias ou temos perspectivas sombrias, públicas ou pessoais, devemos observar tanto o que nos favorece quanto o que está contra nós. Assim, honraremos a Deus com ações de graças e, com paciência, manteremos o domínio sobre nós mesmos.
(3.) Quanto aos assuntos públicos, é bom — e somos obrigados a considerar assim — que haja paz e verdade em nossos dias. [1.] Se temos paz e verdade, é bom, sejam quais forem as outras carências: que a religião verdadeira seja professada e protegida, que tenhamos Bíblias e ministros e que desfrutemos disso em paz, sem pavor diante dos alarmes de guerra ou perseguição.
[2.] Mesmo que venham dificuldades depois que partirmos, é bom que tudo esteja bem em nossos dias. Isso não quer dizer que não devamos nos preocupar com a posteridade; é doloroso prever males. Mas devemos reconhecer que adiar os juízos é, em geral, um grande favor.
Que sejam adiados por tempo suficiente para que possamos morrer em paz é um favor especial para nós, pois a caridade começa em casa. Não sabemos como suportaremos a provação; por isso, temos motivos para considerar bom se ao menos pudermos chegar em segurança ao céu antes que ela venha.
Por fim, temos a conclusão da vida e da história de Ezequias, v. 20, 21. Em 2 Crônicas 29–32, registram-se muito mais obras de reforma de Ezequias do que neste livro dos Reis.
Parece que nas crônicas civis, hoje desaparecidas, registraram-se muitos relatos de seus feitos e dos bons serviços que prestou a Jerusalém, especialmente a condução de água por canos até a cidade.
Ter água em abundância, sem lutar por ela nem se aterrorizar com o ruído dos arqueiros ao buscá-la, e tê-la à mão, ao alcance, deve ser considerado grande misericórdia, pois a falta de água seria uma grande calamidade.
Mas este historiador o deixa descansar com seus pais, com um filho no trono que se mostrou muito perverso, pois os pais não podem conceder graça aos filhos.
O perverso Acaz era filho de um pai piedoso e pai de um filho piedoso; o santo Ezequias era filho de um pai perverso e pai de um filho perverso.
Quando a terra não era reformada como devia sob um bom reinado, era castigada e preparada para a ruína por um mau; depois, porém, era posta novamente à prova com um bom reinado, para mostrar como Deus relutava em exterminar seu povo.