Matthew Henry

2 Reis 18

Argumento

Quando o profeta condenou Efraim por suas mentiras e seu engano, consolou-se com isto: Judá ainda governava com Deus e era fiel ao Santíssimo, Oseias 11:12.

O último capítulo nos apresentou um quadro muito melancólico das desolações de Israel; este, porém, mostra que, ao mesmo tempo, os assuntos de Judá estavam em boa condição, para que se veja que Deus não rejeitou por completo a descendência de Abraão, Romanos 11:1.

Ezequias está aqui no trono:

I. Reformando seu reino, vv. 1-6.

II. Prosperando em todos os seus empreendimentos (v. 7, 8), enquanto as dez tribos eram levadas cativas (vv. 9-12).

III. Ainda assim, invadido por Senaqueribe, rei da Assíria (v. 13):

  1. Seu país é posto sob tributo (vv. 14-16).

  2. Jerusalém é sitiada (v. 17).

  3. Deus é blasfemado, o próprio Ezequias é insultado e o povo é instigado à revolta, num discurso virulento de Rabsaqué (vv. 18-37). Veremos, porém, no próximo capítulo como tudo terminou bem e para honra e consolo de nosso grande reformador.

Versículos 1 a 8

O Bom Reinado de Ezequias. (a.C. 726.)

Temos aqui um relato geral do reinado de Ezequias. Comparando sua idade com a de seu pai, parece que ele nasceu quando o pai tinha cerca de onze ou doze anos. A providência divina ordenou assim para que Ezequias chegasse à idade adulta e estivesse apto para os negócios quando a medida da iniquidade de seu pai se completasse.

Eis:

I. Sua grande piedade, tanto mais admirável porque seu pai era muito perverso e vil, um dos piores reis; ainda assim, Ezequias foi um dos melhores. Isso pode nos ensinar que o bem que há em alguém não vem da natureza, mas da graça, da graça gratuita e da graça soberana, que, contra a natureza, enxerta na boa oliveira aquilo que por natureza era bravio (Romanos 11:24).

Também nos ensina que a graça vence grandes dificuldades e desvantagens. Acaz provavelmente deu ao filho educação tão má quanto seu exemplo; talvez Urias, seu sacerdote, o tenha educado. Seus atendentes e companheiros provavelmente eram idólatras; ainda assim, Ezequias tornou-se extraordinariamente bom. Quando a graça de Deus age, o que pode impedi-la?

  1. Ele foi um verdadeiro filho de Davi, que teve muitos descendentes degenerados (v. 3): “fez o que era certo, conforme tudo o que Davi, seu pai, fizera”. A aliança fora feita com Davi e, por isso, Ezequias tinha direito ao benefício dela.

Lemos sobre alguns de seus descendentes que fizeram o que era certo, mas não como Davi (2 Reis 14:3). Eles não amavam as ordenanças de Deus nem se apegavam a elas, como Davi fazia; Ezequias, porém, foi um segundo Davi, com o mesmo amor que ele tinha pela palavra e pela casa de Deus.

Não nos deixemos assustar pela ideia de um declínio contínuo da virtude, como se, quando os tempos e as pessoas são maus, necessariamente tivessem de piorar cada vez mais. Isso não procede, pois, depois de muitos reis maus, Deus levantou um que se parecia com o próprio Davi.

  1. Ezequias foi reformador zeloso de seu reino. Como lemos em 2 Crônicas 29:3, começou cedo: pôs mãos à obra assim que subiu ao trono e não perdeu tempo. Encontrou o reino muito corrompido e o povo supersticioso em tudo, como sempre fora; mas a situação piorara no reinado anterior.

Sob a influência de seu pai perverso, uma inundação de idolatria cobrira a terra. É provável que o espírito de Ezequias se indignasse contra essa idolatria enquanto seu pai ainda vivia, como aconteceu com Paulo em Atenas.

Por isso, assim que teve poder nas mãos, empenhou-se em aboli-la (v. 4), embora, considerando o quanto o povo era apegado a ela, pudesse pensar que não conseguiria fazê-lo sem oposição.

(1.) As imagens e os bosques eram claramente idólatras e de origem pagã. Ezequias os quebrou e destruiu. Embora seu próprio pai os tivesse levantado e demonstrado afeição por eles, ainda assim ele não os protegeria. Nunca devemos desonrar a Deus para honrar nossos pais terrenos.

(2.) Os lugares altos, embora às vezes fossem usados pelos profetas em ocasiões especiais e até então tolerados pelos reis bons, ainda assim afrontavam o templo e violavam a lei, que exigia que o povo adorasse somente ali. Como não estavam sob a supervisão dos sacerdotes, davam oportunidade para a introdução de práticas idólatras.

Ezequias, portanto, que tomou a palavra de Deus por regra, e não o exemplo de seus predecessores, removeu-os. Decretou a remoção deles, a demolição das capelas, dos tabernáculos e dos altares ali erguidos, e a supressão de seu uso; essa lei foi executada com vigor.

É provável que os terríveis juízos que então recaíam sobre o reino de Israel por causa de sua idolatria tenham tornado Ezequias mais zeloso e o povo mais disposto a concordar com ele. É bom quando os males dos nossos vizinhos nos servem de advertência.

(3.) A serpente de bronze fora instituída por Deus e, ainda assim, Ezequias a quebrou em pedaços porque ela fora pervertida para a idolatria.

Os filhos de Israel a trouxeram consigo para Canaã. Não nos dizem onde a instalaram, mas parece que ela foi cuidadosamente preservada como memorial da bondade de Deus para com seus pais no deserto e como testemunho tradicional da verdade daquela história (Números 21:9).

Ela servia para encorajar os enfermos a recorrer a Deus em busca de cura e os pecadores arrependidos a recorrer a ele em busca de misericórdia. Com o passar do tempo, porém, quando começaram a adorar a criatura mais do que o Criador, até os que não adoravam imagens tomadas dos pagãos, como alguns de seus vizinhos faziam, foram levados pelo tentador a queimar incenso diante da serpente de bronze.

Isso aconteceu porque ela fora feita por ordem do próprio Deus e havia sido um instrumento de bem para eles. Mas Ezequias, em seu zelo piedoso pela honra de Deus, não só proibiu o povo de adorá-la como também mostrou, para que ela nunca mais fosse pervertida, que era Neustã, nada além de um pedaço de bronze; portanto, era tolice e maldade queimar incenso diante dela.

Então ele a quebrou em pedaços, ou seja, como explica o bispo Patrick, reduziu-a a pó e o espalhou pelo ar, para que não restasse fragmento algum.

Se alguém pensar que, com isso, se diminuiu a honra legítima da serpente de bronze, verá que ela foi abundantemente restaurada em João 3:14, onde nosso Salvador a apresenta como tipo de si mesmo. É melhor abrir mão de coisas boas quando são idolatradas do que conservá-las.

  1. Nisto Ezequias foi inigualável (v. 5). Nenhum dos reis de Judá foi como ele, nem antes nem depois. Em sua reforma, destacou-se por duas coisas:

(1.) Coragem e confiança em Deus. Ao abolir a idolatria, ele corria o risco de desagradar seus súditos e provocá-los à rebelião; mas confiou no Senhor, Deus de Israel, para sustentá-lo no que fazia e livrá-lo do mal.

A firme convicção de que Deus tem todo o poder para nos proteger e recompensar muito contribui para nos tornar sinceros, corajosos e vigorosos no caminho do dever, como Ezequias. Quando subiu ao trono, encontrou seu reino cercado de inimigos. Não buscou ajuda estrangeira, como seu pai fizera, mas confiou no Deus de Israel para guardar Israel.

(2.) Constância e perseverança no dever. Ninguém foi como ele nisso: apegou-se ao Senhor com firme resolução e nunca deixou de segui-lo (v. 6). Alguns de seus predecessores começaram bem, mas se desviaram; Ezequias, porém, como Calebe, seguiu plenamente o Senhor.

Ele não só aboliu todos os costumes idólatras, mas também guardou os mandamentos de Deus e, em tudo, fez o que sabia ser seu dever.

II. Sua grande prosperidade (v. 7, 8). Ezequias estava com Deus, e então Deus estava com ele. Com a presença especial de Deus ao seu lado, prosperava por onde quer que fosse e tinha grande sucesso em todos os empreendimentos: nas guerras, nas construções e, sobretudo, na reforma, pois essa boa obra avançou com menos dificuldade do que poderia esperar.

Quem faz a obra de Deus visando à glória dele e confiando em seu poder pode esperar prosperar. Grande é a verdade, e ela prevalecerá. Vendo que tinha sucesso:

  1. Ezequias se livrou do jugo do rei da Assíria, ao qual seu pai se submetera vergonhosamente. Isso é chamado de rebelião contra ele porque assim o rei da Assíria o chamou; na verdade, porém, Ezequias reivindicava os justos direitos de sua coroa, que Acaz não tinha poder para alienar.

Se foi imprudente fazer tão cedo essa corajosa tentativa, não vejo que tenha sido injusta, como alguns pensam. Depois de expulsar a idolatria das nações, Ezequias bem podia livrar-se do jugo de sua opressão. O caminho mais seguro para a liberdade é servir a Deus.

  1. Ezequias lançou um ataque vigoroso contra os filisteus e os derrotou até Gaza: tanto as aldeias do interior quanto a cidade fortificada, a torre dos vigias e as cidades muradas. Recuperou os lugares que eles haviam conquistado no tempo de seu pai (2 Crônicas 28:18).

Depois de eliminar as corrupções que seu pai introduzira, Ezequias podia esperar recuperar as possessões que ele havia perdido. Isaías profetizou suas vitórias sobre os filisteus (Isaías 14:28, etc.).

Versículos 9 a 16

Senaqueribe Invade a Judeia. (a.C. 726.)

O reino da Assíria havia se tornado muito poderoso, embora nunca tenhamos lido sobre ele até o reinado anterior. Assim mudam os assuntos das nações e das famílias: os que eram desprezíveis tornam-se temíveis e, ao contrário, são rebaixados os que faziam grande alarde e se destacavam.

Temos aqui um relato:

I. Do sucesso de Salmaneser, rei da Assíria, contra Israel: sitiou Samaria (v. 9), tomou-a (v. 10) e levou o povo cativo (v. 11). A razão pela qual Deus trouxe esse juízo sobre eles é dada no v. 12: “Porque não obedeceram à voz do Senhor, seu Deus.” Isso foi relatado com mais detalhes no capítulo anterior, mas aqui é repetido:

  1. Porque levou Ezequias e seu povo a expurgarem a idolatria com tanto zelo, ao verem a ruína que ela trouxe sobre Israel. Quando a casa do vizinho estava em chamas e a própria casa corria perigo, era hora de lançar fora a coisa maldita.

  2. Porque Ezequias lamentou muito aquilo, mas não tinha força para impedi-lo. Embora as dez tribos tivessem se revoltado contra a casa de Davi e muitas vezes a tivessem afligido, e isso não fazia muito tempo, ainda no reinado de seu pai, por ser da descendência de Israel Ezequias não podia alegrar-se com as calamidades delas.

  3. Porque isso deixou Ezequias e seu reino expostos ao rei da Assíria e tornou muito mais fácil para ele invadir a terra. Diz-se aqui que as dez tribos não quiseram ouvir os mandamentos de Deus nem cumpri-los (v. 12).

Muitos se contentam em dar ouvidos a Deus, mas não lhe dão mais do que isso (Ezequiel 33:31); como essas tribos estavam decididas a não cumprir seu dever, não se importavam em ouvir falar dele.

II. Da tentativa de Senaqueribe, o rei seguinte da Assíria, contra Judá. Ele foi encorajado pelo sucesso de seu predecessor contra Israel, cujas honras queria igualar e cujas vitórias pretendia levar adiante.

A invasão de Judá foi uma grande calamidade para aquele reino. Por meio dela Deus provaria a fé de Ezequias e castigaria o povo, chamado de nação hipócrita (Isaías 10:6), pois as pessoas não se submeteram à reforma de Ezequias nem se dispuseram a abandonar seus ídolos; pelo contrário, mantinham-nos no coração e talvez também em suas casas, embora os lugares altos tivessem sido removidos.

Até os tempos de reforma podem se tornar tempos difíceis, por culpa dos que se opõem a ela; depois, porém, põe-se a culpa nos reformadores. A calamidade de Ezequias parecerá grande se considerarmos:

  1. Quanto de seu país ele perdeu (v. 13). O rei da Assíria tomou todas, ou quase todas, as cidades fortificadas de Judá, os postos de fronteira e as guarnições. Depois, naturalmente, todo o restante caiu em suas mãos. O profeta descreve a confusão em que a invasão lançou o país (Isaías 10:28-31).

  2. Quanto lhe custou a paz. Ezequias viu que a própria Jerusalém corria o risco de cair nas mãos dos inimigos, como Samaria, e se dispôs a comprar sua segurança à custa de:

(1.) Uma submissão vil: Ezequias reconheceu ter ofendido ao negar o tributo de costume e declarou-se pronto a dar a satisfação que lhe fosse exigida (v. 14). Onde estava a coragem de Ezequias? Onde, sua confiança em Deus? Por que não consultou Isaías antes de enviar essa mensagem servil?

(2.) Uma enorme soma de dinheiro: trezentos talentos de prata e trinta de ouro, mais de duzentas mil libras. Não era um pagamento anual, mas um resgate pago de uma só vez.

Para levantar essa quantia, Ezequias foi obrigado não só a esvaziar os tesouros públicos (v. 15), mas também a retirar as placas de ouro das portas do templo e das colunas (v. 16).

Embora o templo santificasse o ouro que ele dedicara, como a necessidade era urgente, Ezequias julgou que podia usar aquilo com a mesma liberdade com que seu pai Davi, a quem tomava por modelo, usara os pães da proposição. Não era ímpio nem imprudente dar uma parte para preservar o todo.

Seu pai Acaz havia saqueado o templo por desprezo a ele (2 Crônicas 28:24). Ezequias já havia restituído com juros o que o pai tomara; agora, com toda a reverência devida, apenas pedia licença para tomar aquilo emprestado novamente, numa emergência e para um bem maior, decidido a restituir tudo assim que tivesse condições.

Versículos 17 a 37

O Discurso Blasfemo de Rabsaqué. (a.C. 710.)

Aqui está: I. Jerusalém sitiada pelo exército de Senaqueribe, v. 17. Ele enviou três de seus grandes generais com uma numerosa tropa contra Jerusalém.

É este o grande rei, o rei da Assíria? Não, de modo algum o chamemos assim; ele é um homem vil, falso e pérfido, digno de ser infamado por todas as gerações.

Nunca seja honrado o nome de quem pôde cometer tamanha desonra: tomar o dinheiro de Ezequias, dado sob a condição de que retirasse seu exército, e depois, em vez de deixar o país conforme o acordo, avançar contra a cidade capital sem sequer devolver o dinheiro.

São de fato perversos aqueles cujo princípio é não considerar suas promessas obrigatórias além do que lhes convém, por maior que seja sua posição; e assim os chamaremos. Ezequias tinha motivos de sobra para arrepender-se do tratado com Senaqueribe, que o deixou muito mais pobre, mas não mais seguro.

II. Ezequias, seus príncipes e seu povo são insultados por Rabsaqué, o principal orador dos três generais e o de maior talento para a sátira. Sem dúvida, Senaqueribe lhe ensinou o que dizer, pois pretendia assim iniciar uma nova disputa com Ezequias.

Depois de receber o dinheiro de Ezequias, prometera retirar seu exército; por isso, não podia, sem vergonha, atacar Jerusalém à força imediatamente. Enviou Rabsaqué para persuadir Ezequias a render a cidade; se ele recusasse, a recusa lhe serviria de pretexto — e um pretexto muito fraco — para sitiá-la e, se ela resistisse, tomá-la de assalto.

Rabsaqué teve a audácia de pedir audiência com o próprio rei junto ao aqueduto do açude superior, fora dos muros. Ezequias, porém, teve o bom senso de evitar uma negociação pessoal e enviou três comissários, os principais ministros do Estado, para ouvir o que ele tinha a dizer.

Ordenou-lhes que não respondessem ao insensato conforme a sua insensatez (v. 36), pois não poderiam convencê-lo, mas certamente o provocariam. Ezequias aprendera com seu pai Davi a crer que Deus ouviria quando ele, como surdo, não ouvisse (Salmos 38:13-15).

Uma vez eles o interromperam no discurso, apenas para pedir que falasse com eles em aramaico; considerariam o que dissesse e o relatariam ao rei. Se não lhe dessem uma resposta satisfatória, então ele poderia apelar ao povo falando na língua dos judeus, v. 26.

Era um pedido razoável e condizente com o costume nas negociações: os plenipotenciários deveriam resolver os assuntos entre si antes que algo se tornasse público. Mas Eliaquim não considerou com que homem irracional estava lidando; se tivesse considerado, não teria feito o pedido, pois isso apenas exasperou Rabsaqué e o tornou mais rude e agressivo, v. 27.

Contrariando todas as regras de decência e honra, em vez de negociar com os comissários, ele ameaça os soldados, persuade-os a desertar ou amotinar-se e ameaça, se resistirem, reduzi-los aos últimos extremos da fome. Depois prossegue com seu discurso, cujo objetivo é persuadir Ezequias, seus príncipes e o povo a render a cidade. Observemos como ele faz isso:

  1. Exalta seu senhor, o rei da Assíria. Repetidas vezes o chama de “o grande rei, o rei da Assíria”, v. 19, 28. Que ídolo ele fez daquele príncipe de quem era criatura! Deus é o grande Rei, mas, aos olhos de Rabsaqué, Senaqueribe era um pequeno deus.

Ele queria incutir neles a mesma veneração que sentia por Senaqueribe e, assim, aterrorizá-los até que se submetessem. Mas, para os que pela fé veem o Rei dos reis em seu poder e glória, até o rei da Assíria parece insignificante. O que são os maiores homens, quando comparados a Deus ou quando Deus vem contender com eles? (Salmos 82:6, 7.)

  1. Procura fazê-los crer que render-se seria muito vantajoso. Se resistissem, teriam de comer os próprios excrementos, pois os sitiantes lhes cortariam por completo o abastecimento de víveres; mas, se capitulassem, buscassem seu favor com um presente e se entregassem à sua misericórdia, ele os trataria muito bem, v. 31.

Admiro-me de como Rabsaqué pôde falar com tanta desfaçatez em fazer um acordo mediante um presente, quando seu senhor acabara de romper o acordo que Ezequias fizera com ele mediante aquele grande presente, v. 14. Podem ser dignos de confiança os que foram tão grosseiramente pérfidos?

Mas, ad populum phaleras — enfeite a corrente, e o povo deixará que o acorrentem. Rabsaqué pensava aplacar a todos prometendo que, se se rendessem incondicionalmente, embora devessem esperar ser prisioneiros e cativos, na verdade seriam felizes assim.

É de admirar que ele esperasse vencer por sugestões tão grosseiras, não fosse o diabo iludir desse modo os pecadores todos os dias por meio de suas tentações. Ele insistia em persuadi-los:

(1.) De que a prisão seria vantajosa, pois cada um comeria de sua própria videira, v. 31. Embora as propriedades passassem aos conquistadores, eles teriam livre uso delas. Rabsaqué não explicou que isso valeria apenas tanto e por tanto tempo quanto o conquistador quisesse.

(2.) De que o cativeiro seria ainda mais vantajoso: ele os levaria para uma terra como a deles; mas que vantagem haveria nisso se nada nela poderiam chamar de seu?

  1. O principal objetivo dele era convencê-los de que resistir seria inútil. “Que confiança é essa em que você se apoia?”, pergunta, insultando Ezequias (v. 19). Ao povo, diz que não devem deixar Ezequias enganá-los para sua própria ruína, pois ele não poderá livrá-los; terão de ceder ou ser destruídos (v. 29).

Seria bom se os pecadores se submetessem à força desse argumento ao fazer as pazes com Deus: é sábio render-se a ele, porque é inútil contender com ele. Em que confiam os que resistem a Deus? Somos mais fortes do que ele? O que ganharemos ao pôr espinhos e abrolhos diante de um fogo consumidor?

Ezequias, porém, não era tão indefeso e desamparado quanto Rabsaqué o apresentava. Este supõe que Ezequias poderia confiar em três coisas e procura mostrar que eram insuficientes:

(1.) Seus próprios preparativos militares: “Você diz: Tenho conselho e força para a guerra”; e vemos que ele de fato os tinha (2 Crônicas 32:3). Rabsaqué responde com desprezo que são palavras vazias e que Ezequias não é páreo para os assírios, v. 20.

Com a maior arrogância e desdém imagináveis, desafia-o a apresentar dois mil homens de seu povo capazes de montar a cavalo e se oferece para lhe dar dois mil cavalos, se ele conseguir. Insinua falsamente que Ezequias não tem homens, ou que nenhum deles serve para ser soldado, v. 23.

Assim, pensa desmoralizá-lo com bazófia e zombaria; aposta que um só capitão dos mais insignificantes servos de seu senhor é capaz de confundir Ezequias e todas as suas tropas.

(2.) Sua aliança com o Egito. Rabsaqué presume que Ezequias confia no Egito para lhe fornecer carros e cavaleiros, v. 24, porque o rei de Israel fizera o mesmo. Com razão, chama essa confiança de “uma cana quebrada”, v. 21: além de falhar quando alguém se apoia nela e espera que suporte seu peso, ela entra na mão, fura-a e lhe rasga o ombro.

O profeta amplia essa comparação e a aplica ao Egito (Ezequiel 29:6, 7). Tal é o rei do Egito, diz Rabsaqué; e o rei da Assíria também fora assim para Acaz, que confiara nele, mas ele o oprimiu e não o fortaleceu (2 Crônicas 28:20).

Os que confiam em qualquer braço de carne descobrirão que ele não passa de uma cana quebrada; Deus, porém, é a rocha eterna.

(3.) Seu vínculo com Deus e sua relação com ele. Essa era, de fato, a confiança de Ezequias (v. 22). Ele se amparava no poder e na promessa de Deus; assim encorajava a si mesmo e ao povo: “O Senhor certamente nos livrará” (v. 30), e novamente no v. 32.

Rabsaqué percebeu que essa era a grande sustentação deles e, por isso, esforçou-se ao máximo para abalá-la, como os inimigos de Davi usaram todos os meios para afastá-lo de sua confiança em Deus (Salmos 3:2; 11:1), e como fizeram os inimigos de Cristo (Mateus 27:43).

Rabsaqué sugeriu três coisas para desanimá-los de confiar em Deus, mas todas eram falsas:

[1.] Que Ezequias perdera a proteção de Deus e se excluíra dela ao destruir os lugares altos e os altares, v. 22. Rabsaqué mede o Deus de Israel pelos deuses dos pagãos, que se agradavam de muitos altares e templos, e conclui que Ezequias ofendera muito o Deus de Israel ao restringir seu povo a um só altar.

Assim, alguém que não conhecia — ou não queria conhecer — a lei do Deus de Israel interpreta como ímpia e profana uma das melhores obras que Ezequias realizou em sua vida. Não devemos estranhar se homens ignorantes e maliciosos apresentam como mal e provocação contra Deus aquilo que é bom e lhe agrada. Se isso era sacrilégio, Ezequias seria sempre sacrílego.

[2.] Que Deus dera ordens para a destruição de Jerusalém naquele momento, v. 25: Rabsaqué perguntou se havia subido contra aquele lugar sem o Senhor. Tudo isso era zombaria e bravata. Rabsaqué não pensava ter recebido de Deus comissão para fazer o que fazia — de quem a teria recebido? —, mas usava esse pretexto para confundir e aterrorizar o povo que estava sobre o muro.

Se havia algum fundamento para o que dizia, talvez fosse o conhecimento, obtido nos escritos dos profetas, da ação de Deus na destruição das dez tribos. Ele pensava ter tanta autorização para tomar Jerusalém quanto para tomar Samaria. Muitos que lutaram contra Deus alegaram ter recebido dele uma comissão.

[3.] Que, mesmo se Jeová, o Deus de Israel, tentasse protegê-los do rei da Assíria, não era capaz de fazê-lo. Com essa blasfêmia Rabsaqué concluiu seu discurso, vv. 33-35.

Ele comparou o Deus de Israel aos deuses das nações que ele havia conquistado, colocou-o no mesmo nível deles e concluiu que, se eles não puderam defender e livrar seus adoradores, o Deus de Israel também não poderia defender e livrar os seus.

Vejamos, primeiro, o orgulho de Rabsaqué. Quando conquistava uma cidade, julgava ter conquistado também seus deuses e muito se envaidecia disso. Sua elevada opinião dos ídolos o fazia ter elevada opinião de si mesmo, como se fosse mais forte do que eles.

Em segundo lugar, sua impiedade. O Deus de Israel não era uma divindade local, mas o Deus de toda a terra, o único Deus vivo e verdadeiro, o Ancião de Dias, que muitas vezes se mostrara superior a todos os deuses. Ainda assim, Rabsaqué o equipara aos deuses fictícios, surgidos recentemente, de Hamate e Arpade.

Argumenta injustamente que os deuses — como alguns dizem hoje dos sacerdotes — de todas as religiões são iguais, e que ele próprio está acima de todos.

A tradição dos judeus diz que Rabsaqué era um judeu apóstata, o que explicaria sua facilidade com a língua dos judeus. Se assim fosse, sua ignorância do Deus de Israel seria ainda menos desculpável, e sua inimizade, menos surpreendente, pois os apóstatas costumam ser os inimigos mais amargos e rancorosos; veja-se Juliano.

É preciso reconhecer que houve muita astúcia e habilidade no discurso de Rabsaqué, mas também muito orgulho, malícia, falsidade e blasfêmia. Um grão de sinceridade teria valido mais do que toda aquela inteligência e retórica.

Por fim, somos informados do que fizeram os comissários de Ezequias. 1. Guardaram silêncio, não por lhes faltarem argumentos em defesa de Deus e de Ezequias. Poderiam facilmente, e com razão, censurá-lo pela traição de seu senhor e pela quebra da palavra empenhada; poderiam perguntar que religião o levava a esperar que tal conduta prosperasse.

Ao menos poderiam ter dado, diante das exigências igualmente insolentes de Ben-Hadade, a séria advertência de Acabe: quem põe a armadura não deve se gloriar como quem já a tirou. Mas o rei lhes ordenara que não respondessem a Rabsaqué, e eles obedeceram às instruções.

Há tempo de calar e tempo de falar; há pessoas a quem oferecer algo religioso ou racional é lançar pérolas aos porcos. Que se pode dizer a um louco? É provável que o silêncio deles tenha deixado Rabsaqué ainda mais orgulhoso e confiante; assim, seu coração se exaltou e se endureceu para a própria destruição.

  1. Rasgaram as vestes, em repúdio à blasfêmia de Rabsaqué e em tristeza pela condição desprezada e aflita de Jerusalém, cuja desonra lhes pesava como um fardo.

  2. Relataram fielmente o assunto ao rei, seu senhor, e lhe contaram as palavras de Rabsaqué para que considerasse o que fazer, que rumo tomar e que resposta dar à intimação de Rabsaqué.


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