Matthew Henry

2 Reis 15

Argumento

Neste capítulo:

I. Registra-se brevemente a história de dois reis de Judá:

  1. Azarias, ou Uzias, vv. 1-7.

  2. Jotão, seu filho, vv. 32-38.

II. Apresenta-se resumidamente a história de muitos reis de Israel que reinaram ao mesmo tempo: cinco em sucessão, quase todos mortos e descidos à sepultura, e os sucessores deles foram seus assassinos.

  1. Zacarias, o último da casa de Jeú, reinou seis meses; depois foi morto, e Salum o sucedeu, vv. 8-12.

  2. Salum reinou um mês; depois foi morto, e Menaém o sucedeu, vv. 13-15.

  3. Menaém reinou dez anos, ou melhor, tiranizou: tais eram suas crueldades bárbaras (v. 16) e cobranças desmedidas (v. 20). Morreu em sua cama e deixou o filho para sucedê-lo primeiro e depois sofrer por causa dele, vv. 16-22.

  4. Pecaías reinou dois anos; depois foi morto, e Peca o sucedeu, vv. 23-26.

  5. Peca reinou vinte anos; depois foi morto, e Oseias o sucedeu, sendo o último de todos os reis de Israel (vv. 27-31). Pois as coisas avançavam rapidamente para a destruição final daquele reino.

Versículos 1 a 7

O Reinado de Azarias. (a.C. 798.)

Este é um breve relato do reinado de Azarias. 1. A maior parte é geral e repete o que já se disse de outros: ele começou a reinar jovem e reinou por muito tempo (v. 2), e, em sua maior parte, fez o que era certo (v. 3). Foi uma felicidade para o reino que um bom reinado fosse longo. Só lhe faltaram zelo e coragem suficientes para remover os lugares altos (v. 4).

  1. O que é peculiar a esse relato é o que se diz no v. 5: Deus o feriu com lepra. Isso é contado com mais detalhes, inclusive a ocasião, em 2 Crônicas 26:16, etc. Ali também encontramos um relato mais completo das glórias da primeira parte de seu reinado, bem como das desonras da parte final.

Ele fez o que era certo, assim como Amazias havia feito. Como ele, começou bem, mas fracassou antes de terminar. Aqui nos dizem:

(1.) Que ele era leproso. Até os maiores homens estão sujeitos não só às calamidades comuns, mas também às enfermidades comuns da natureza humana. E, se forem culpados de algum pecado hediondo, ficam tão expostos quanto os mais humildes aos mais graves golpes da vingança divina.

(2.) Deus o feriu com essa lepra para castigá-lo por sua invasão presunçosa do ofício dos sacerdotes. Se os grandes forem orgulhosos, de um modo ou de outro Deus os humilhará e os fará saber que está acima deles e contra eles, pois resiste aos orgulhosos.

(3.) Ele foi leproso até o dia de sua morte. Embora tenhamos razão para pensar que se arrependeu e que o pecado foi perdoado, ainda assim, como advertência aos outros, foi mantido sob esse sinal do desagrado de Deus enquanto viveu; e talvez isso tenha sido para o bem de sua alma.

(4.) Ele morava numa casa separada, pois a lei o considerava cerimonialmente impuro, e, embora fosse rei, tinha de se submeter à disciplina dela. Aquele que se intrometera presunçosamente no templo de Deus e alegara ser sacerdote foi justamente expulso do próprio palácio e confinado como prisioneiro ou recluso dali em diante.

Supomos que sua casa separada tenha sido preparada com toda a conveniência e o conforto possíveis. Alguns traduzem por uma casa onde ele tinha liberdade para desfrutar à vontade. De todo modo, foi uma grande humilhação para alguém que havia sido tão honrado e tão ocupado nos negócios ficar afastado do convívio e morar sempre numa casa separada.

Isso quase faria da própria vida um fardo, até para reis, embora não tenham com quem conversar senão com seus inferiores; até os mais contemplativos logo se cansariam disso.

(5.) Seu filho era seu vice-rei nos assuntos tanto da corte (pois governava a casa) quanto do reino (pois julgava o povo da terra). Foi ao mesmo tempo um consolo para ele e uma bênção para o reino ter um filho assim para ocupar seu lugar.

Os Reinados de Zacarias, Salum, Menaém, Pecaías, Peca e Oseias. (a.C. 758.)

Versículos 8 a 31

Os melhores dias do reino de Israel foram os anos em que o governo esteve nas mãos da família de Jeú. Durante o reinado dele e os três seguintes, embora houvesse muitas corrupções abomináveis e agravos lamentáveis em Israel, ainda assim a coroa passou de um para outro em sucessão, os reis morreram em suas camas e houve algum cuidado com os assuntos públicos.

Mas agora que aqueles dias terminaram, a história que estes versículos nos apresentam, de cerca de trinta e três anos, mostra os assuntos daquele reino na maior confusão imaginável. Ai das grávidas (v. 16) e das que amamentavam naqueles dias, pois as tribulações teriam de ser grandes quando, por causa da transgressão da terra, muitos eram os seus príncipes.

I. Observemos, em geral, algo sobre essas revoluções infelizes e as calamidades que necessariamente as acompanhavam, tempos que podemos com razão chamar de maus.

  1. Deus provou o povo de Israel tanto com julgamentos quanto com misericórdias, explicados e reforçados por seus servos, os profetas. Ainda assim, eles continuaram impenitentes e sem se reformar; por isso, Deus com razão trouxe essas misérias sobre eles, como Moisés os havia advertido.

Se vocês ainda assim andarem contra mim, castigarei vocês ainda sete vezes mais, Levítico 26:21, etc.

  1. Deus cumpriu sua promessa a Jeú: seus filhos, até a quarta geração depois dele, se sentariam no trono de Israel. Foi um favor maior do que o concedido a qualquer outra família real, antes ou depois. Deus dissera que seria assim (2 Reis 10:30), e este capítulo nos conta que assim aconteceu (v. 12).

Veja como Deus cumpre suas promessas com exatidão. Ele havia determinado aquelas calamidades para Israel fazia muito tempo, e o povo as merecia; ainda assim, elas não foram infligidas até que aquela palavra se cumprisse plenamente. Assim Deus recompensou Jeú por seu zelo em destruir o culto a Baal e a casa de Acabe.

Contudo, quando a medida dos pecados da casa de Jeú se completou, Deus vingou nela o sangue então derramado, chamado de “sangue de Jezreel”, Oseias 1:4.

  1. Todos esses reis fizeram o que era mau aos olhos do Senhor, pois seguiram os pecados de Jeroboão, filho de Nebate. Embora vivessem em conflito uns com os outros, ainda assim concordavam nisto: manter a idolatria. E o povo gostava que fosse assim.

E, embora fossem transvasados de um vaso a outro, o sabor permaneceu neles, e o aroma não mudou. Foi realmente triste que o governo mudasse tantas vezes, mas nunca para melhor: entre todos aqueles interesses em conflito, ninguém considerou tão vantajoso destruir os bezerros quanto os outros haviam considerado sustentá-los.

  1. Cada um deles, exceto um, conspirou contra o antecessor e o matou: Salum, Menaém, Peca e Oseias foram todos traidores e assassinos, mas todos reinaram por algum tempo, um por dez, outro por vinte e outro por nove anos.

Pois Deus pode permitir que a maldade prospere e conquiste riquezas e honras por algum tempo, mas, cedo ou tarde, sangue será pago com sangue, e quem trai será traído. Muitas vezes um ímpio é feito flagelo de outro; por fim, todo ímpio se torna ruína para si mesmo.

  1. A ambição dos grandes tornou a nação miserável. Uma cidade de Israel, Tifsa, foi barbaramente destruída, com todo o seu território, por um desses aspirantes ao trono (v. 16). E, sem dúvida, cada um deles avançou pelo sangue até o trono, e nenhum desses reis poderia perecer sozinho.

Nenhum país pode ter flagelos maiores, nem Israel aflições piores, do que homens que não se importam com quanto o bem-estar e a paz de seu país sejam sacrificados à vingança e à pretensão ao domínio.

  1. Enquanto a nação era assim abalada pelas divisões internas, os reis da Assíria, primeiro um (v. 19) e depois outro (v. 29), vieram contra ela e fizeram o que quiseram. Nada torna uma nação tão presa fácil para um inimigo comum quanto as disputas internas e as lutas pela soberania. Feliz a terra onde isso está resolvido.

  2. Essa era a condição de Israel pouco antes de sua ruína completa e do cativeiro, pois isso ocorreu no nono ano de Oseias, o último desses usurpadores. Se, naqueles dias de confusão e perplexidade, tivessem se humilhado diante de Deus e buscado a sua face, aquela destruição final poderia ter sido evitada; mas, quando Deus julga, ele prevalece.

Essas facções, fruto de um espírito maligno enviado entre eles, apressaram aquele cativeiro, pois um reino assim dividido contra si mesmo logo ficará desolado.

II. Consideremos brevemente os reinados específicos.

  1. Zacarias, filho de Jeroboão, começou a reinar no trigésimo oitavo ano de Azarias, ou Uzias, rei de Judá (v. 8). Alguns dos cronologistas mais criteriosos calculam que, entre Jeroboão e seu filho Zacarias, o trono ficou vago por vinte e dois anos; outros, por onze, em razão dos tumultos e das dissensões no reino.

Então não era de admirar que Zacarias tenha sido deposto antes de se firmar no trono: reinou apenas seis meses, e Salum o matou diante do povo. Talvez Zacarias tenha sido morto como César no Senado, ou Salum o tenha executado publicamente como criminoso, com a aprovação do povo, a quem de algum modo se tornara odioso. Assim terminou a linhagem de Jeú.

  1. Mas Salum teve paz, ele que matou seu senhor? Não, não teve (v. 13): um mês, contado em dias, foi o tempo de seu reinado; então foi eliminado. Talvez o profeta que vivia naquela época se referisse a isso: “Um mês os devorará, com suas porções”, Oseias 5:7.

Raramente dura muito o domínio fundado em sangue e falsidade. Menaém, talvez provocado pelo crime de Salum ou animado pelo exemplo dele, logo o tratou como havia tratado seu senhor: matou-o e reinou em seu lugar (v. 14).

Provavelmente, Menaém era general do exército, então acampado em Tirza, e, ao saber da traição e usurpação de Salum, apressou-se a puni-lo, como Onri fez com Zinri num caso semelhante, 1 Reis 16:17.

  1. Menaém manteve o reino por dez anos (v. 17). Ouvimos que os reis da casa de Israel eram misericordiosos (1 Reis 20:31).

Mas este Menaém, vergonha de seu país, foi extraordinariamente cruel com os compatriotas que hesitavam um pouco em se submeter a ele. Sua crueldade foi tamanha que não apenas arruinou uma cidade e seu território, mas também abriu o ventre de todas as grávidas (v. 16), esquecendo-se de que ele próprio nascera de uma mulher.

Podemos muito bem nos admirar de que a mente de alguém conceba tanta barbárie e se torne tão completamente desprovida de humanidade.

Por esses métodos cruéis, esperava fortalecer-se e aterrorizar todos os demais para que aderissem à sua causa; mas parece que não conseguiu o que queria, pois, quando o rei da Assíria veio contra ele:

(1.) Confiava tão pouco em seu povo que não ousou enfrentá-lo como inimigo; foi obrigado, em vez disso, a comprar a paz a um custo enorme.

(2.) Precisava tanto de ajuda para consolidar o reino em suas mãos que incluiu no acordo com o rei da Assíria que ele o ajudaria contra os próprios súditos que lhe eram hostis. Sem dúvida, o rei da Assíria sabia como tirar bom proveito desse negócio numa outra ocasião.

O dinheiro com que Menaém comprou a amizade dele era uma soma enorme: nada menos que mil talentos de prata (v. 19). É provável que Menaém o tenha exigido dos homens ricos e poderosos por meio de requisições militares, poupando com muita consideração os pobres e impondo o fardo, como convinha, aos que melhor podiam suportá-lo.

Depois de arrecadado, o dinheiro foi dado ao rei da Assíria como pagamento por seu exército: cinquenta siclos de prata por cada homem. Assim Menaém se livrou do rei da Assíria naquela ocasião; este não ficou para aquartelar-se na terra (v. 20).

Mas o exército conseguira então um saque tão rico com tão pouco esforço que isso o incentivou a voltar pouco depois, quando devastou tudo. Assim, Menaém traiu o país que deveria ter protegido.

  1. Pecaías, filho de Menaém, sucedeu ao pai, mas reinou apenas dois anos. Então foi morto traiçoeiramente por Peca, arcando com o peso tanto da própria maldade quanto da de seu pai.

Repete-se a respeito dele, como antes, que não se afastou dos pecados de Jeroboão. Isso é mencionado repetidamente para mostrar que Deus foi justo ao trazer sobre eles a destruição que veio pouco depois, pois detestavam ser reformados (v. 24).

Parece que Peca tinha alguns homens importantes a seu favor; dois deles são mencionados aqui (v. 25), e, com a ajuda deles, ele realizou seu plano.

  1. Embora tenha obtido o reino por traição, Peca o conservou por vinte anos (v. 27). Demorou esse tempo para sua violência voltar contra ele, mas por fim voltou. Este Peca, filho de Remalias:

(1.) Tornou-se mais influente no exterior do que qualquer um desses usurpadores, pois, mesmo no fim de seus dias, durante o reinado de Acaz, iniciado no décimo sétimo ano de Peca, ele foi um grande terror para o reino de Judá, como vemos em Isaías 7:1, etc.

(2.) Perdeu grande parte de seu reino para o rei da Assíria. São mencionadas aqui várias cidades que lhe foram tomadas (v. 29). Toda a terra de Gileade, do outro lado do Jordão, e a Galileia, no norte, que abrangia as tribos de Naftali e Zebulom, foram ocupadas, e seus habitantes foram levados cativos para a Assíria.

Por esse julgamento, Deus o puniu por seu ataque contra Judá e Jerusalém. Fora profetizado que, dois ou três anos depois daquele ataque, antes que uma criança então recém-nascida pudesse clamar “Meu pai e minha mãe”, as riquezas de Samaria seriam levadas diante do rei da Assíria (Isaías 8:4); e aqui vemos essa profecia se cumprir.

(3.) Pouco depois, perdeu a vida para o ressentimento de seus compatriotas. É provável que estivessem descontentes com ele por deixá-los expostos a um inimigo estrangeiro enquanto invadia Judá. Oseias se aproveitou disso e, para conquistar a coroa, tomou-lhe a vida, matou-o e reinou em seu lugar.

Certamente tinha grande apego à coroa quem, naquela época, correria o risco que um traidor correu; pois a coroa de Israel, agora que perdera suas flores e joias mais preciosas, estava mais forrada de espinhos do que nunca. Ultimamente, ela fora fatal para todas as cabeças que a usaram, estava entregue à justiça divina e prestes a ser lançada ao pó.

Era uma coroa que um sábio não teria apanhado na rua; ainda assim, Oseias não só se arriscou a tomá-la, como arriscou a vida por ela, e isso lhe custou caro.

Versículos 32 a 38

O Reinado de Jotão. (a.C. 742.)

Temos aqui um breve relato do reinado de Jotão, rei de Judá, de quem nos dizem:

  1. Ele reinou muito bem e fez o que era certo aos olhos do Senhor (v. 34). Josefo lhe atribui um caráter muito elevado: diz que foi piedoso para com Deus, justo para com os homens e dedicado ao bem público; que, quando algo estava errado, cuidava para que fosse corrigido; em suma, que não lhe faltava nenhuma virtude própria de um bom príncipe.

Embora os lugares altos não tenham sido removidos, ainda assim, para afastar o povo deles e mantê-lo junto ao lugar santo de Deus, Jotão demonstrou grande respeito pelo templo e construiu o portão superior pelo qual passava para ir ao templo.

Se os magistrados não podem fazer tudo o que desejam para suprimir o vício e a impiedade, façam ainda mais pelo apoio e promoção da piedade e da virtude, e para que sejam estimadas. Se não podem derrubar os lugares altos do pecado, ainda assim construam e embelezem o portão superior da casa de Deus.

  1. Ele morreu no meio de seus dias (v. 33). Sobre a maioria dos reis de Judá, sabemos quantos anos tinham quando começaram a reinar; assim, podemos calcular quantos anos tinham ao morrer. Mas, que eu me lembre, não há registro da idade de nenhum rei de Israel, apenas dos anos de seus reinados. Deus quis conceder essa honra aos reis da casa de Davi acima dos de outras famílias.

Pelos registros, parece que nenhum dos reis de Judá chegou à idade de Davi, setenta anos, a idade comum do ser humano. Não encontro a idade de Asa. Uzias viveu até os sessenta e oito, Manassés até os sessenta e sete e Josafá até os sessenta; esses foram os três mais velhos. Muitos dos que se destacaram não chegaram aos cinquenta.

Jotão morreu aos quarenta e um anos. Ele era uma bênção grande demais para permanecer por muito tempo junto a um povo tão indigno. Sua morte foi um julgamento, sobretudo se considerarmos o caráter de seu filho e sucessor.

  1. Durante seus dias formou-se contra Judá a aliança de Rezim, rei da Síria, e do filho de Remalias, rei de Israel. Ela pareceu tão ameaçadora no início do reinado de Acaz que, quando o príncipe foi informado dela, seu coração se abalou e o coração do povo também, “como as árvores da floresta se movem com o vento”, Isaías 7:2.

Os aliados agiram injustamente nessa tentativa; ainda assim, aqui se diz (v. 37) que o Senhor começou a enviá-los contra Judá, assim como mandou Simei amaldiçoar Davi e tirou de Jó o que os sabeus lhe haviam roubado.

Os homens são a mão de Deus — a espada, a vara em sua mão —, que ele usa como quer para cumprir seus próprios desígnios justos, embora os homens sejam injustos em suas intenções. Essa tempestade se formou durante o reinado do piedoso Jotão, mas ele foi para a sepultura em paz, e ela caiu sobre seu filho degenerado.


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