Matthew Henry

2 Crônicas 9

Argumento

Salomão continua aqui a mostrar-se grande tanto em seu país quanto no exterior. Já tivemos esse relato de sua grandeza em 1 Reis 10. Nada se acrescenta aqui; mas seu afastamento de Deus no fim da vida, que encontramos ali (1 Reis 11), é omitido aqui, e o encerramento deste capítulo o leva à sepultura com a reputação imaculada.

Talvez nenhum dos capítulos de Crônicas corresponda tanto a um capítulo de Reis quanto este corresponde a 1 Reis 10, versículo por versículo. Há apenas estas diferenças: os dois primeiros versículos de lá são reunidos em um só aqui, o v. 25 daqui é tirado de 1 Reis 4:26, e os três últimos versículos daqui vêm de 1 Reis 11:41-43.

Aqui está: I. A honra que a rainha de Sabá prestou a Salomão, na visita que lhe fez para ouvir sua sabedoria, vv. 1-12. II. Muitos exemplos da riqueza e do esplendor da corte de Salomão, vv. 13-28. III. O fim do seu reinado, vv. 29-31.

Versículos 1 a 12

A Rainha de Sabá Visita Salomão. (a.C. 992.)

Essa passagem da história já foi examinada amplamente em Reis. Contudo, visto que nosso Salvador a apresentou como exemplo para nós em nossa busca por ele (Mateus 12:42), não devemos passar por ela sem observar brevemente:

  1. Deus honrará aqueles que o honram, 1 Samuel 2:30. Salomão havia honrado muito a Deus ao construir, embelezar e dedicar o templo. Toda a sua sabedoria e toda a sua riqueza foram empregadas para torná-lo uma obra perfeita; e agora Deus fez sua sabedoria e riqueza contribuírem muito para a sua reputação.

O modo de receber tanto o crédito quanto o conforto de todos os nossos dons e de tudo o que desfrutamos é consagrá-los a Deus e usá-los para ele.

  1. Os que conhecem o valor da verdadeira sabedoria não pouparão esforços nem despesas para obtê-la.

A rainha de Sabá submeteu-se a muito trabalho e gasto para ouvir a sabedoria de Salomão. Contudo, ao aprender com ele a servir a Deus e cumprir seu dever, considerou-se bem recompensada por seus esforços. A sabedoria celestial é aquela pérola de grande preço cuja compra, mediante a entrega de tudo o que temos, é um bom negócio.

  1. Assim como cada pessoa recebeu o dom, assim deve ministrá-lo para a edificação dos outros, conforme tenha oportunidade. Salomão compartilhava sua sabedoria e estava disposto a ensinar aos outros o que ele próprio sabia. Tendo sido ensinado por Deus, de graça havia recebido e de graça dava.

Que os ricos em sabedoria, assim como em riqueza, aprendam a fazer o bem e estejam prontos para distribuir. “Dá a todo aquele que pedir.”

  1. A boa ordem numa família, especialmente numa família numerosa, sobretudo nas coisas de Deus, e o cumprimento regular dos deveres do culto religioso são muito proveitosos e devem ser muito admirados onde quer que se encontrem.

A rainha de Sabá ficou profundamente impressionada ao ver o decoro com que os servos de Salomão o atendiam e com que tanto ele quanto eles participavam do culto na casa de Deus. A subida de Davi à casa do Senhor também era agradável e interessante, Salmos 42:4.

  1. Felizes os que têm oportunidade de conviver continuamente com pessoas instruídas, sábias e boas. A rainha de Sabá considerava felizes os servos de Salomão, que ouviam continuamente sua sabedoria; pois, ao que parece, ele também a compartilhava com eles.

É digno de nota que os descendentes daqueles que tinham posições em sua corte estavam dispostos a deixar que os nomes de seus antepassados fossem esquecidos. Consideravam-se suficientemente distintos e honrados quando eram chamados “filhos dos servos de Salomão” (Esdras 2:55; Neemias 7:57). Os servos eram tão eminentes que levar o nome deles já era honra suficiente.

  1. Devemos alegrar-nos e dar graças a Deus pelos dons, pelas graças e pela utilidade dos outros. A rainha de Sabá bendisse a Deus pela honra que concedeu a Salomão e pelo favor que fez a Israel ao elevá-lo ao trono, v. 8. Ao louvar a Deus pela prosperidade dos outros, participamos do conforto dela; ao passo que, ao invejá-la, perdemos até o conforto da nossa própria prosperidade.

Ela remonta a felicidade tanto do rei quanto do reino à fonte de toda bem-aventurança, o favor divino: foi porque o Deus de Salomão se agradou dele e porque amou Israel. São duplamente doces as misericórdias nas quais podemos provar a bondade e a boa vontade de Deus como nosso Deus.

  1. Convém aos sábios e bons ser generosos conforme a sua posição e seu poder. A rainha de Sabá foi generosa com Salomão, e Salomão foi generoso com ela, v. 9, 12. Ambos sabiam dar valor à sabedoria e, por isso, nenhum dos dois era apegado ao dinheiro. Cultivaram o convívio e firmaram a amizade que haviam estabelecido mediante presentes recíprocos.

Nosso Senhor Jesus prometeu dar-nos tudo o que desejamos: “Pedi, e vos será dado”. Pensemos no que lhe retribuiremos e não consideremos excessivo fazer, sofrer ou entregar qualquer coisa por ele.

Versículos 13 a 31

A Magnificência de Salomão; a Morte de Salomão. (a.C. 975.)

Temos aqui Salomão em seu trono e Salomão em sua sepultura; pois o trono não poderia protegê-lo da sepultura. Mors sceptra ligonibus aequat — a morte arranca da mão tanto o cetro quanto a pá.

I. Aqui está Salomão reinando em riqueza e poder, em comodidade e abundância, como, pelo que sei, nenhum rei depois dele jamais igualou. Não posso alegar competência para fazer uma comparação rigorosa entre a grandeza de Salomão e a de alguns dos grandes príncipes da terra.

Posso, porém, observar que os mais ilustres entre eles ficaram famosos por suas guerras, ao passo que Salomão reinou quarenta anos em profunda paz. Alguns daqueles que se poderia julgar capazes de rivalizar com Salomão cultivavam o isolamento e mantinham o povo em temor, conservando-o a grande distância.

Ninguém podia vê-los nem aproximar-se deles, sob pena de morte; Salomão, porém, saía muito e aparecia em público para tratar de assuntos de governo. Assim, consideradas todas as coisas, cumpriu-se a promessa de que Deus lhe daria riquezas, bens e honra como nenhum rei tivera nem teria, 2 Crônicas 1:12.

  1. Nenhum príncipe jamais apareceu em público com maior esplendor do que Salomão. Isso muito o recomendaria aos olhos daqueles que julgam pela aparência, como faz a maioria das pessoas. Ele tinha 200 pavês e 300 escudos, todos de ouro batido, que eram levados à sua frente (v. 15, 16), e se sentava num trono muito majestoso, vv. 17-19.

Não havia coisa semelhante em nenhum reino. O brilho com que aparecia prefigurava a glória espiritual do reino do Messias e era apenas uma pálida representação do trono deste, que está acima de todos os tronos.

Toda a pompa de Salomão era artificial; por isso, nosso Salvador prefere a ela a beleza natural dos lírios do campo. Mateus 6:29: “Salomão, em toda a sua glória, não se vestiu como um destes”.

  1. Nenhum príncipe jamais teve tanta abundância de ouro e prata, embora não houvesse minas de ouro nem de prata em seu próprio reino.

Ou ele se tornou senhor das minas de outros países e, dispondo de um país populoso, enviou trabalhadores para extrair esses metais preciosos; ou, dispondo de um país fértil, exportou seus produtos e trouxe em troca todo esse ouro de que aqui se fala, v. 13, 14-21.

  1. Nenhum príncipe jamais recebeu de todos os seus vizinhos presentes como os que Salomão recebeu: todos os reis da Arábia e os governadores da terra lhe traziam ouro e prata (v. 14), não como tributo que ele lhes extorquia, mas como ofertas voluntárias para conquistar seu favor, ou em troca de alguns produtos de sua atividade rural, grãos ou gado.

Todos os reis da terra lhe traziam presentes, isto é, todos os reis daquela parte do mundo (v. 24, 28), porque desejavam seu convívio e sua amizade. Nisso ele foi um tipo de Cristo, a quem os sábios do Oriente trouxeram presentes, ouro, incenso e mirra, logo que nasceu (Mateus 2:11).

Todos os que estão ao redor de Cristo também devem levar-lhe presentes, Salmos 76:11; Romanos 12:1.

  1. Nenhum príncipe jamais teve tanta fama de sábio, foi tão cortejado, tão consultado e tão admirado (v. 23): “Os reis da terra” (pois era um favor grande demais para que pessoas comuns aspirassem a ele) “procuravam ouvir sua sabedoria”.

Talvez quisessem conhecer sua filosofia natural, seus conhecimentos de medicina, sua política de Estado, suas regras de prudência para a condução da vida humana ou os princípios de sua religião e as razões deles. A busca que então fizeram por Salomão para ouvir sua sabedoria agravará, envergonhará e condenará o desprezo geral dos homens por Cristo e seu evangelho.

Embora neles estejam escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento, ainda assim nenhum dos príncipes deste mundo deseja conhecer Cristo e seu evangelho, pois para eles são loucura, 1 Coríntios 2:8, 14.

II. Aqui está Salomão morrendo, despojado de sua pompa e deixando toda a sua riqueza e seu poder não para alguém a respeito de quem não soubesse se seria sábio ou tolo (Eclesiastes 2:19), mas para alguém que sabia que seria tolo. Isso era não apenas vaidade, mas aflição de espírito, vv. 29-31.

É muito digno de nota que aqui não se mencione o afastamento de Salomão de Deus nos seus últimos dias, nem se dê a menor indicação disso. 1. Porque o Espírito Santo queria ensinar-nos a não sentir prazer em repetir as faltas e loucuras alheias.

Se pessoas respeitadas por sua sabedoria e honra se comportarem mal, embora seja útil reparar em sua má conduta como advertência para nós mesmos e para os outros, ainda assim não devemos nos apressar em mencioná-la. Basta falar dela uma vez; por que tocar novamente essa corda desagradável?

Por que não podemos fazer como o historiador sagrado faz aqui, falando amplamente do que é louvável nos outros sem dizer nada de suas falhas, sim, mesmo que tenham sido graves e evidentes? Isso é apenas fazer aos outros o que desejaríamos que fizessem a nós.

  1. Porque, embora ele tenha caído, ainda assim não foi totalmente derrubado. Seu pecado não é registrado de novo, porque houve arrependimento e perdão, e ficou como se nunca tivesse ocorrido. O silêncio das Escrituras às vezes fala.

Estou disposto a crer que o silêncio delas aqui sobre o pecado de Salomão indica que nenhum dos pecados que cometeu foi mencionado contra ele, Ezequiel 33:16. Quando Deus perdoa o pecado, lança-o para trás de si e não se lembra mais dele.


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