Matthew Henry

2 Crônicas 33

Argumento

Neste capítulo, temos a história do reinado:

I. De Manassés, que reinou por muito tempo: 1. Sua miserável apostasia de Deus e sua entrega à idolatria e a toda espécie de perversidade, vv. 1-10. 2. Seu feliz retorno a Deus em meio à aflição: seu arrependimento (vv. 11-13), sua reforma (vv. 15-17) e sua prosperidade (v. 14), com o fim de seu reinado, vv. 18-20.

II. De Amom, que reinou com grande perversidade (vv. 21-23) e logo terminou seus dias de maneira infeliz, v. 24, 25.

Versículos 1 a 10

O Reinado de Manassés. (a.C. 662.)

Temos aqui o relato da grande perversidade de Manassés. É quase palavra por palavra o mesmo que já encontramos em 2 Reis 21:1-9 e contemplamos com tristeza. Não é assunto tão agradável que nos dê prazer deter-nos nele outra vez.

Esse jovem príncipe insensato, contrariando o bom exemplo e a boa educação recebidos de seu pai, entregou-se a toda impiedade. Copiou as abominações dos pagãos (v. 2), arruinou a religião estabelecida e desmanchou a gloriosa reforma de seu pai (v. 3).

Profanou a casa de Deus com sua idolatria (v. 4, 5), dedicou seus filhos a Moloque e tomou os oráculos mentirosos do diabo como seus guias e conselheiros, v. 6.

Desprezando a escolha de Sião por Deus como seu lugar de descanso para sempre e de Israel como seu povo de aliança (v. 8), bem como as condições favoráveis em que se encontrava diante dele, abraçou outros deuses, profanou o templo que Deus escolhera e corrompeu o povo que ele escolhera.

Fez o povo errar e agir pior que os pagãos (v. 9); pois, quando o espírito impuro volta, traz consigo outros sete espíritos mais perversos que ele.

O que agravou o pecado de Manassés foi que Deus falou a ele e a seu povo pelos profetas, mas eles não deram ouvidos, v. 10.

Podemos admirar aqui a graça de Deus ao lhes falar e a obstinação deles ao lhe fazerem ouvidos moucos: ou porque a maldade deles não afastou de todo a bondade divina, mas ele continuou esperando para lhes mostrar graça, ou porque a bondade divina não os desviou de sua maldade, mas eles continuaram a odiar a reforma.

Aprendamos disso: 1. Não é novidade, mas é algo muito triste, que filhos de pais piedosos se desviem do bom caminho de Deus em que foram criados. Os pais podem dar muitas coisas boas aos filhos, mas não podem lhes dar a graça.

  1. As corrupções no culto são doenças da igreja, às quais ela tem grande tendência de voltar, mesmo quando parecem curadas.

  2. O deus deste mundo cegou de modo estranho a mente das pessoas e exerce um poder espantoso sobre aqueles que leva cativos. De outro modo, não conseguiria afastá-los de Deus, seu melhor amigo, para fazê-los depender de seu inimigo declarado.

Versículos 11 a 20

Vimos Manassés desfazer, com sua perversidade, o bem que seu pai havia feito; aqui o vemos desfazer, com o arrependimento, o mal que ele próprio fizera.

É estranho que isso nem sequer tenha sido mencionado no livro dos Reis, onde nada indica o contrário da ideia de que persistiu no mal e pereceu em seu pecado. Talvez o motivo seja que o desígnio daquela história era mostrar a perversidade da nação, que a levou à destruição.

O arrependimento de Manassés e o benefício que dele veio foram apenas pessoais, não nacionais, e por isso ficaram de fora daquele relato. Aqui, porém, são narrados plenamente. Trata-se de um exemplo memorável da riqueza da misericórdia perdoadora de Deus e do poder de sua graça renovadora. Aqui está:

I. A ocasião do arrependimento de Manassés: sua aflição. Na angústia, ele não transgrediu ainda mais contra Deus, como o rei Acaz, mas se humilhou e voltou a Deus. Aflições santificadas muitas vezes se tornam meios felizes de conversão. O v. 11 nos diz qual foi sua angústia.

Deus trouxe contra ele um inimigo estrangeiro. O rei da Babilônia, que buscara a amizade de seu pai quando este servia fielmente a Deus, invadiu Manassés agora que ele havia abandonado a Deus traiçoeiramente.

Aqui esse invasor é chamado rei da Assíria porque se tornara senhor dela, o que lhe teria sido mais fácil após a derrota e destruição do exército de Senaqueribe diante de Jerusalém. Tinha em mira os tesouros que os embaixadores haviam visto e todas aquelas coisas preciosas.

Deus, porém, enviou-o para castigar um povo pecador e subjugar um príncipe desgarrado. O capitão capturou Manassés “entre os espinheiros”, em algum matagal, talvez em seu jardim, onde se escondera.

Ou talvez a expressão seja figurada: seus planos estavam confusos e sua situação, embaraçada. Estava, como se diz, enredado nos espinheiros e não sabia como se livrar. Assim se tornou presa fácil dos capitães assírios.

Sem dúvida, eles saquearam sua casa e levaram o que quiseram, como Isaías predissera, 2 Reis 20:17, 18. Aquilo de que Ezequias se orgulhara tornou-se presa deles. Amarraram Manassés, que antes já estava preso pelos laços de sua própria iniquidade, e o levaram cativo para a Babilônia.

Não sabemos em que altura do reinado isso aconteceu. Os judeus dizem que foi no vigésimo segundo ano.

II. As manifestações de seu arrependimento (v. 12, 13). Quando estava aflito, teve tempo e motivo para refletir.

Viu a que situação seu pecado o levara. Descobriu que os deuses aos quais servira não podiam ajudá-lo. Sabia que o arrependimento era o único caminho para restaurar sua situação; por isso, voltou àquele de quem se havia afastado.

  1. Convenceu-se de que Jeová é o único Deus vivo e verdadeiro: então soube, isto é, creu e considerou, que o Senhor era Deus. Poderia ter aprendido isso por um preço menor, se tivesse dado a devida atenção e crédito à palavra escrita e pregada.

Mas era melhor pagar tão caro pelo conhecimento de Deus do que perecer na ignorância e na incredulidade. Se tivesse sido um príncipe no palácio da Babilônia, provavelmente se teria firmado na idolatria; mas, como cativo nas prisões da Babilônia, foi convencido da verdade e afastado do erro.

  1. Passou a recorrer a ele como seu Deus, renunciando a todos os outros e decidindo apegar-se somente a ele, o Deus de seus pais e um Deus em aliança com ele.

  2. Humilhou-se profundamente diante dele, sentiu sincera tristeza e vergonha por seus pecados e temeu a cólera de Deus. Cabe aos pecadores humilhar-se diante da face do Deus que ofenderam. Cabe aos aflitos humilhar-se sob a mão do Deus que os corrige e aceitar o castigo de sua iniquidade.

Nosso coração deve ser humilhado sob as providências que nos humilham; então nos ajustamos a elas e cumprimos o propósito de Deus nelas.

  1. Orou a Deus pelo perdão dos pecados e pela volta de seu favor. A oração é o alívio dos penitentes e dos aflitos. Entre os livros apócrifos encontramos uma boa oração, muito adequada a esse caso, intitulada A oração de Manassés, rei de Judá, quando foi mantido cativo na Babilônia.

Não se sabe ao certo se é dele. Se for, nela dá glória a Deus como o Deus de seus pais e da descendência justa deles, como Criador do mundo, um Deus cuja ira é insuportável, mas cuja promessa misericordiosa não tem medida.

Afirma que Deus prometeu arrependimento e perdão aos que pecaram e designou o arrependimento aos pecadores para que fossem salvos: não aos justos, como Abraão, Isaque e Jacó, mas “a mim”, diz ele, “que sou pecador, pois pequei mais do que o número dos grãos de areia do mar”. Assim confessa amplamente seu pecado e mostra sua gravidade.

Ora: “Perdoa-me, ó Senhor! Perdoa-me e não me destruas.” Alega: “Tu és o Deus dos que se arrependem”, etc.; e conclui: “Por isso te louvarei para sempre”, etc.

III. A aceitação bondosa de seu arrependimento por Deus: Deus se deixou rogar por ele e ouviu sua súplica. Ainda que a aflição nos leve a Deus, ele não nos rejeitará por isso se o buscarmos com sinceridade, pois as aflições são enviadas justamente para nos levar a ele.

Como sinal de seu favor a Manassés, Deus abriu caminho para que escapasse. As aflições não duram além do tempo necessário para realizar sua obra. Quando Manassés é reconduzido a seu Deus e ao dever, em breve será reconduzido a seu reino.

Veja como Deus está pronto a aceitar e acolher pecadores que voltam a ele e como se apressa a mostrar misericórdia. Que os grandes pecadores não se desesperem: o próprio Manassés encontrou favor diante de Deus ao se arrepender. Nele, Deus mostrou um exemplo de longanimidade, como em 1 Timóteo 1:16; Isaías 1:18.

IV. Os frutos dignos de arrependimento que produziu depois de voltar à sua terra, v. 15, 16. 1. Abandonou seus pecados. Tirou os deuses estrangeiros, as imagens deles e aquele ídolo, fosse qual fosse, que havia instalado com tanta solenidade na casa do Senhor, como se fosse o dono da casa.

Expulsou todos os altares idólatras que havia no monte da casa e em Jerusalém, tratando-os como coisas detestáveis. Agora, esperamos, passou a odiá-los tanto quanto antes os amava e lhes disse: “Ide-vos daqui”, Isaías 30:22. “Que tenho eu ainda com os ídolos? Já tive o bastante deles.”

  1. Voltou ao dever: reparou o altar do Senhor, que ou havia sido profanado e derrubado por alguns sacerdotes idólatras ou, pelo menos, fora negligenciado e se deteriorara. Nele ofereceu sacrifícios pacíficos para implorar o favor de Deus e ofertas de ação de graças para louvá-lo por seu livramento.

Ou melhor: agora usou seu poder para reformar o povo, como antes o havia usado mal para corrompê-lo. Ordenou a Judá que servisse ao Senhor, Deus de Israel.

Repare: os que se arrependem de verdade não só voltam a Deus, mas fazem tudo o que podem para recuperar aqueles que seu exemplo seduziu e afastou de Deus. Do contrário, não desfazem inteiramente, como deveriam, o mal praticado nem fazem o curativo tão largo quanto a ferida.

Vemos que conseguiu afastá-los de seus falsos deuses, mas não dos lugares altos, v. 17. Continuaram a sacrificar ali, embora apenas ao Senhor, seu Deus. Manassés não conseguiu levar a reforma tão longe quanto levara a corrupção. É fácil corromper a conduta das pessoas, mas não é tão fácil reformá-la depois.

V. Sua prosperidade, até certo ponto, depois do arrependimento. Ele podia ver claramente que o pecado o havia arruinado, pois, quando voltou a Deus pelo caminho do dever, Deus voltou a ele pelo caminho da misericórdia.

Então construiu um muro em torno da cidade de Davi (v. 14), pois, com o pecado, havia deixado a cidade sem muros e exposta ao inimigo. Também pôs comandantes militares nas cidades fortificadas para proteger seu país.

Josefo diz que, durante todo o resto da vida, mudou tanto para melhor que era considerado um homem muito feliz.

Por fim, aqui está a conclusão de sua história. Os assuntos cujo relato completo nos é indicado em outros escritos então existentes são mais numerosos do que os de qualquer outro rei, v. 18, 19. Ao que parece, manteve-se um registro detalhado:

  1. De todos os seus pecados e transgressões, dos lugares altos que construiu e dos bosques sagrados e imagens que ergueu antes de se humilhar.

É provável que esse relato tenha vindo da confissão que ele próprio fez quando Deus lhe concedeu o arrependimento e que deixou registrada num livro chamado As palavras dos videntes.

Quando se arrependeu, enviou sua confissão aos videntes que lhe haviam falado (v. 18) para censurá-lo por seu pecado, a fim de que fosse inserida em suas memórias. Era um sinal de gratidão pela bondade que demonstraram ao censurá-lo.

Assim, cabe aos penitentes reconhecer sua vergonha, agradecer àqueles que os censuram e dar um aviso aos outros.

  1. Das palavras dos videntes que lhe falaram em nome do Senhor (v. 10, 18), das censuras que lhe fizeram por seu pecado e de suas exortações ao arrependimento.

Repare: os pecadores devem considerar que, por menos atenção que deem a isso, conserva-se um registro das palavras dos videntes que lhes falam da parte de Deus para adverti-los de seus pecados, avisá-los do perigo e chamá-los ao dever. Esse registro será apresentado contra eles no grande dia.

  1. De sua oração a Deus, mencionada duas vezes como algo notável, e de como Deus se deixou rogar por ele. Isso foi escrito para as gerações futuras, para que o povo ainda por ser criado louvasse ao Senhor por sua prontidão em receber os filhos pródigos que voltam.

Registra-se o lugar de sua sepultura: não nos túmulos dos reis, mas em sua própria casa. Foi sepultado em particular, e não recebeu na morte nenhuma das honras prestadas a seu pai. Os penitentes podem recuperar o consolo antes da reputação.

Versículos 21 a 24

O Reinado e a Morte de Amom. (a.C. 641.)

Pouco se registrou a respeito de Amom, mas o bastante, a menos que o relato fosse melhor. Aqui está:

I. Sua grande perversidade. Fez o que Manassés fizera nos dias de sua apostasia, v. 22. Os que pensam que isso prova que Manassés não se arrependeu de verdade esquecem quantos bons reis tiveram filhos perversos.

Ao que parece, Manassés falhou nisto: quando expulsou as imagens, não as desfigurou nem as destruiu completamente, como exigia a lei, que ordenava a Israel que as queimasse, Deuteronômio 7:5. Este caso mostra como aquela lei era necessária.

As imagens esculpidas haviam sido apenas postas de lado, não queimadas; Amom sabia onde encontrá-las e logo as instalou de novo e lhes ofereceu sacrifícios. Para mostrar quão grande era seu pecado e justificar Deus por eliminá-lo tão cedo, acrescenta-se:

  1. Que superou seu pai no pecado: transgredia cada vez mais, v. 23. Seu pai agiu mal, mas ele agiu pior. Aqueles que estavam ligados aos ídolos se tornavam cada vez mais loucos por eles.

  2. Que ficou aquém de seu pai no arrependimento: não se humilhou diante do Senhor como seu pai se havia humilhado. Caiu como ele, mas não tornou a se levantar como ele.

O que arruína as pessoas não é tanto o pecado como a falta de arrependimento nele; não é tanto o fato de ofenderem, mas de não se humilharem por suas ofensas; não é a doença, mas a negligência do remédio.

II. Sua rápida destruição. Reinou apenas dois anos; então seus servos conspiraram contra ele e o mataram, v. 24. Talvez, quando Amom pecava como seu pai pecara no início da vida, prometesse a si mesmo que se arrependeria como o pai no fim da vida.

Seu caso, porém, mostra que loucura é confiar nisso. Se esperava arrepender-se quando fosse velho, teve uma frustração terrível: foi eliminado ainda jovem. Rebelou-se contra Deus, e seus próprios servos se rebelaram contra ele.

Nisso Deus foi justo, mas os servos foram perversos; e com justiça o povo da terra os matou como traidores. A vida dos reis está particularmente sob a proteção da Providência e das leis, tanto de Deus como dos homens.


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