Matthew Henry

2 Crônicas 26

Argumento

Este capítulo nos dá um relato do reinado de Uzias (chamado Azarias em Reis) mais completo do que o relato anterior. Embora seu reinado tenha sido longo e, em alguns aspectos, ilustre, foi narrado ali muito brevemente, 2 Reis 14:21; 15:1, etc. Temos aqui:

I. Seu bom caráter em geral, vv. 1-5. II. Sua grande prosperidade nas guerras, nas construções e em todos os assuntos do reino, vv. 6-15. III. Sua presunção ao invadir o ofício dos sacerdotes, pela qual foi atingido pela lepra e confinado por causa dela (vv. 16-21) até a morte, v. 22, 23.

Versículos 1 a 15

A Prosperidade de Uzias. (a.C. 800.)

Temos aqui o relato de duas coisas a respeito de Uzias:

I. Sua piedade. Nisso ele não se destacou muito nem foi zeloso; ainda assim, fez o que era reto aos olhos do Senhor.

Manteve o culto puro ao Deus verdadeiro, como seu pai, e foi melhor que ele, pois não temos motivo para pensar que tenha adorado ídolos como o pai, não, nem mesmo nos últimos dias, quando seu coração se exaltou.

Diz-se (v. 5): “Ele buscou a Deus nos dias de Zacarias”, que, segundo alguns, era filho do Zacarias que seu avô Joás abateu. Esse Zacarias era alguém que tinha entendimento das visões de Deus, fossem as visões concedidas a ele próprio ou as dos profetas anteriores.

Conhecia bem a profecia e tinha muita comunhão com o mundo celestial; era um homem inteligente, devoto e bom. Ao que parece, exerceu grande influência sobre Uzias.

Felizes os homens importantes que têm pessoas assim ao seu redor e aceitam seus conselhos; infelizes, porém, os que buscam a Deus apenas enquanto as têm consigo e não possuem dentro de si um princípio que os sustente até o fim.

II. Sua prosperidade:

  1. Em geral, enquanto buscou o Senhor e cuidou da religião, Deus o fez prosperar. Repare: (1.) Só prosperam aqueles a quem Deus faz prosperar, pois a prosperidade é dádiva sua. (2.) A religião e a piedade favorecem muito a prosperidade exterior.

Muitos descobriram e reconheceram isto: enquanto buscaram o Senhor e se mantiveram fiéis ao dever, prosperaram; mas, desde que abandonaram a Deus, tudo lhes tem dado errado.

  1. Eis vários exemplos específicos de sua prosperidade: (1.) Seu sucesso nas guerras. Deus o ajudou (v. 7), e então ele triunfou sobre os filisteus (aqueles antigos inimigos do povo de Deus), demoliu as fortificações das cidades deles e colocou ali guarnições suas, v. 6.

Obrigou os amonitas a pagar-lhe tributo, v. 8. Trouxe tranquilidade a toda a região e manteve todos ao redor temerosos diante dele.

(2.) A grandeza de sua fama e reputação. Seu nome era celebrado em todos os países vizinhos (v. 8), e era um bom nome: um nome associado a boas coisas diante de Deus e das pessoas boas. Essa é a verdadeira fama, a que torna uma pessoa de fato digna de honra.

(3.) Suas construções. Enquanto atacava no exterior, não negligenciou a defesa do reino em casa: construiu torres em Jerusalém e as fortificou, v. 9. Grande parte da muralha de Jerusalém havia sido derrubada no tempo de seu pai, especialmente junto à Porta da Esquina.

Mas a melhor fortificação de Jerusalém era sua firme adesão ao culto a Deus. Se seu pai não o tivesse abandonado, a muralha de Jerusalém não teria sido derrubada.

Ao fortificar a cidade, não esqueceu o campo: construiu torres também no deserto (v. 10) para proteger a população rural das incursões de saqueadores, cujos bandos às vezes a alarmavam e saqueavam, como em 2 Crônicas 21:16.

(4.) Sua atividade agrícola. Lidava muito com gado e cereais, empregava muitos trabalhadores e acumulou muitas riquezas com essa atividade, pois tinha prazer nela: amava a agricultura (v. 10).

Provavelmente ele próprio supervisionava seus negócios no campo, o que não o diminuía, mas lhe trazia vantagem, pois incentivava a diligência entre seus súditos.

É uma honra para a atividade do agricultor que um dos príncipes mais ilustres da casa de Davi a tenha praticado e amado. Ele não era daqueles que se deleitam na guerra nem se entregou a divertimentos e prazeres; deleitava-se, porém, nas ocupações inocentes e tranquilas do agricultor.

(5.) Seus exércitos permanentes. Ao que parece, tinha dois corpos militares. [1.] Um exército de combatentes destinado a fazer incursões no exterior. Eles saíam à guerra em destacamentos, v. 11. Traziam despojos dos países vizinhos como represália pelos saques que esses povos tantas vezes haviam cometido contra Judá.

[2.] Outro exército destinado às guardas e guarnições, pronto para defender o país caso fosse invadido, v. 12, 13. Eram tão numerosos e valentes que faziam guerra com grande poder; nenhum inimigo ousava enfrentá-los ou, ao menos, conseguia resistir a eles.

Homens desarmados pouco podem fazer na guerra. Por isso, Uzias montou para si um grande arsenal, de onde seus soldados recebiam armas ofensivas e defensivas (v. 14): lanças, arcos e fundas, escudos, capacetes e couraças. Espadas não são mencionadas, provavelmente porque cada homem tinha a sua e a trazia sempre consigo.

Em seu tempo, inventaram-se máquinas para atingir os sitiantes com dardos e pedras lançados das torres e baluartes, v. 15. Que pena que as guerras e contendas, nascidas das paixões humanas, tenham tornado necessário que homens engenhosos empreguem sua habilidade para inventar instrumentos de morte!

Versículos 16 a 23

O Pecado e a Punição de Uzias. (a.C. 763.)

Esta é a única mancha que encontramos no nome do rei Uzias, e não há outra igual no nome dos demais reis. Prostituição, assassinato, opressão, perseguição e, sobretudo, idolatria caracterizaram os reis maus e macularam alguns dos bons, sem excluir o próprio Davi, como mostra o caso de Urias.

Não encontramos, porém, nenhuma dessas acusações contra Uzias. Ainda assim, ele transgrediu contra o Senhor, seu Deus, e sofreu os sinais do desagrado divino: não guerras penosas nem rebeliões, como outros reis, mas uma doença incurável.

I. Seu pecado foi invadir o ofício sacerdotal. O bom caminho é um só; os desvios são muitos. A transgressão de seus predecessores foi abandonar o templo do Senhor, afastando-se dele (2 Crônicas 24:18), e queimar incenso sobre altares idólatras, 2 Crônicas 25:14.

A dele foi entrar no templo do Senhor além do que lhe era permitido e tentar queimar incenso sobre o altar de Deus. Para isso, provavelmente alegava zelo e afeição extraordinários. Veja como é difícil evitar um extremo sem cair em outro.

  1. Na raiz de seu pecado estava o orgulho do coração, uma paixão que arruína mais que qualquer outra (v. 16).

Quando se tornou forte (e a boa providência de Deus o havia ajudado maravilhosamente a chegar a esse ponto, v. 15), quando havia crescido muito em riqueza, influência e poder, em vez de exaltar o nome de Deus por gratidão a quem tanto fizera por ele, seu coração se exaltou para sua ruína.

Assim, a prosperidade dos insensatos os destrói, enchendo-os de orgulho. Depois de tantas obras e honras conquistadas, julgou que nenhuma obra ou honra lhe era grande ou boa demais, não, nem mesmo o ofício sacerdotal.

A alegação de possuir conhecimento proibido e a ocupação com coisas altas demais para os homens decorrem do orgulho do coração e da mente carnal que os infla sem razão.

  1. Seu pecado foi entrar no templo do Senhor para queimar incenso, provavelmente em algum dia de festa solene ou quando tinha algum motivo especial para suplicar o favor divino. Não consigo imaginar o que o levou a tamanho ato de presunção ou lhe pôs essa ideia na cabeça.

Nenhum de seus predecessores, nem os melhores nem os piores, havia tentado isso. Ele sabia que a lei era expressamente contrária a esse ato, e não tinha costume ou precedente a seu favor. Tampouco podia alegar necessidade, como no caso de Davi ao comer os pães da proposição.

(1.) Talvez imaginasse que os sacerdotes não cumpriam seu ofício com tanta habilidade, decoro e devoção quanto deviam, e que ele poderia fazê-lo melhor.

Ou (2.) observou que os reis idólatras queimavam pessoalmente incenso nos altares dos seus deuses. Seu pai fez isso, assim como Jeroboão (1 Reis 13:1). A ambição por essa honra talvez fosse um dos motivos que os afastavam da casa de Deus, onde ela não lhes era permitida.

Resolvido a permanecer junto ao altar de Deus, Uzias tentou romper essa restrição e aproximar-se dele tanto quanto os reis idólatras se aproximavam dos seus altares. Mas isso é chamado de transgressão contra o Senhor, seu Deus. Ele não se contentou com as honras que Deus lhe havia concedido; quis usurpar as que lhe eram proibidas, como nossos primeiros pais.

  1. O sumo sacerdote e os outros sacerdotes que o acompanhavam e auxiliavam se opuseram a essa tentativa, v. 17, 18.

Estavam prontos para queimar incenso em favor do rei, conforme o dever do seu ofício. Mas, quando ele se propôs a fazê-lo pessoalmente, disseram-lhe claramente que se intrometia no que não lhe cabia e corria perigo.

Embora fossem homens valentes, não o impediram com violência; argumentaram com ele e lhe mostraram: (1.) Que não lhe era lícito queimar incenso: isso não cabe a você, ó Uzias, mas aos sacerdotes, a quem pertence por direito de nascimento, como filhos de Arão, e que são consagrados para o serviço.

Arão e seus filhos foram designados pela lei para queimar incenso, Êxodo 30:7. Veja Deuteronômio 33:10; 1 Crônicas 23:13.

Davi havia abençoado o povo, e Salomão e Josafá haviam orado com o povo e pregado a ele. Uzias poderia ter feito isso, e seria digno de louvor; mas queimar incenso era serviço reservado aos sacerdotes.

Os ofícios de rei e de sacerdote foram separados pela lei de Moisés e não voltariam a se unir, exceto na pessoa do Messias. Se Uzias pretendia honrar a Deus e obter sua aceitação com aquele ato, errou inteiramente o alvo.

Como esse serviço fora instituído exclusivamente por Deus, ele não podia esperar que fosse aceito, a menos que fosse realizado do modo e pelas mãos que Deus havia designado.

(2.) Que não era seguro. Isso não seria para sua honra da parte do Senhor Deus. Há mais implícito: “Seria para sua desonra, e você correria perigo.” A lei é expressa contra todos os estranhos que se aproximassem (Números 3:10; 18:7), isto é, todos os que não eram sacerdotes.

Corá e seus companheiros, embora levitas, pagaram caro por tentar queimar incenso, serviço exclusivo dos sacerdotes, Números 16:35.

Pela fé, o incenso de nossas orações deve ser colocado nas mãos de nosso Senhor Jesus, o grande sumo sacerdote da nossa confissão; caso contrário, não podemos esperar que Deus o aceite, Apocalipse 8:3.

  1. Uzias se enfureceu contra os sacerdotes que o censuraram e, apesar disso, quis avançar com seu plano (v. 19): “Uzias se encolerizou” e não quis largar o incensário que tinha na mão. Não gostou de ser contrariado e não tolerou a intervenção. Nitimur in vetitum — Somos inclinados a fazer o que é proibido.

II. Sua punição foi uma lepra incurável, que surgiu em sua testa enquanto ele contendia com os sacerdotes. Se tivesse aceitado a advertência dos sacerdotes, reconhecido seu erro e recuado, tudo teria acabado bem. Mas, quando se encolerizou contra eles e os tratou com agressividade, Deus também se encolerizou contra ele e o atingiu com a praga da lepra.

Josefo diz que Uzias ameaçou matar os sacerdotes caso se opusessem a ele; então a terra tremeu, o teto do templo se abriu e, pela fenda, um raio de sol atingiu diretamente o rosto do rei, onde a lepra apareceu de imediato.

Alguns supõem que esse foi o terremoto dos dias de Uzias mencionado em Amós 1:1 e Zacarias 14:5. Esse golpe repentino: 1. Pôs fim à controvérsia entre ele e os sacerdotes. Quando a lepra apareceu, eles se sentiram encorajados a expulsá-lo do templo; ou melhor, ele próprio se apressou em sair.

O Senhor o havia atingido com uma doença que era, de modo especial, um sinal de seu desagrado. Uzias sabia que ela o excluía do convívio com as pessoas e, muito mais, do altar de Deus. Ele não se deixou convencer pelo que disseram os sacerdotes, mas Deus empregou um meio eficaz para convencê-lo.

Se os presunçosos não quiserem reconhecer seu erro pelos juízos da boca de Deus, serão levados a reconhecê-lo pelos juízos de sua mão.

Mesmo em meio à transgressão, a atitude desse rei revelou algum temor religioso de Deus em seu coração: assim que percebeu a ira divina, não apenas abandonou a tentativa, mas se retirou com a maior pressa. Embora contendesse com os sacerdotes, não quis contender com seu Criador.

  1. Foi uma punição duradoura por sua transgressão: permaneceu leproso até o dia da morte, confinado, afastado do convívio social e obrigado a deixar que seu filho cuidasse de todos os seus negócios, v. 21. Assim, Deus deu um exemplo de sua resistência aos orgulhosos e de seu zelo pela pureza e honra das próprias instituições.

Com isso, deu até mesmo aos homens grandes e bons um aviso justo para que conhecessem e guardassem seus limites, sem se intrometerem em coisas que não viram. E deu a Uzias um chamado forte e constante ao arrependimento, além de longo tempo para arrepender-se, do qual temos motivo para esperar que ele tenha tirado proveito.

Uzias havia sido um homem de muitas ocupações no mundo; mas, afastado delas e confinado numa casa separada, teve tempo para pensar em outro mundo e preparar-se para ele.

Por esse juízo sobre o rei, Deus pretendia infundir no povo grande reverência pelo templo, pelo sacerdócio e por outras coisas sagradas, que eles tendiam a desprezar.

Enquanto o rei era leproso, era como se estivesse morto: morto em vida e sepultado vivo. Assim, na prática, cumpria-se a lei segundo a qual o estranho que se aproximasse seria morto.

A desonra sobreviveu a ele, pois, depois de sua morte, não quiseram sepultá-lo nos túmulos dos reis por ser leproso, o que maculou todo o restante de sua glória.

  1. Foi uma punição que correspondia ao pecado como um rosto corresponde a outro no espelho. (1.) O orgulho estava na raiz de sua transgressão; por isso, Deus o humilhou e o desonrou.

(2.) Ele invadiu o ofício dos sacerdotes por desprezo a eles, e Deus o atingiu com uma doença que o sujeitou, de modo especial, ao exame e à sentença dos sacerdotes, pois a eles cabia o julgamento da lepra, Deuteronômio 24:8.

(3.) Forçou a entrada no templo de Deus, ao qual somente os sacerdotes tinham acesso, e por isso foi expulso até dos pátios do templo, onde o mais humilde de seus súditos cerimonialmente puro podia entrar livremente.

(4.) Confrontou os sacerdotes que lhe fizeram frente e se opuseram à sua presunção; por isso a lepra apareceu em sua testa, o que, no caso de Miriã, é comparado ao pai que lhe cospe no rosto, Números 12:14.

(5.) Invadiu a dignidade do sacerdócio, à qual não tinha direito; por isso foi privado até da dignidade real, à qual tinha direito. Quem cobiça honras proibidas perde as permitidas.

Adão, ao tentar alcançar a árvore do conhecimento da qual não podia comer, privou-se da árvore da vida, da qual poderia ter comido. Que todos os que lerem isso digam: “O Senhor é justo.”


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