2 Crônicas 21
Argumento
Certamente nenhum reino trocou seu rei por outro tão inferior quanto Judá, quando Jeorão, um dos mais vis, sucedeu a Josafá, um dos melhores. Assim foram castigados por não terem aproveitado melhor o bom governo de Josafá e por sua resistência, ou pelo menos frieza, diante da reforma que ele promoveu, 2 Crônicas 20:33.
Aqueles que não souberam dar valor a um bom rei foram justamente afligidos com um rei mau. Aqui está:
I. A ascensão de Jeorão ao trono, vv. 1-3. II. O caminho perverso que seguiu para firmar-se nele, assassinando seus irmãos, v. 4. III. As idolatrias e os demais males de que foi culpado, v. 5, 6, 11. IV. A profecia de Elias contra ele, vv. 12-15.
V. Os juízos de Deus sobre ele: a revolta de seus súditos (vv. 8-10) e o êxito dos inimigos contra ele, v. 16, 17. VI. Sua doença miserável e seu fim sem glória, vv. 18-20. VII. Apesar de tudo, a preservação da casa de Davi, v. 7.
Versículos 1 a 10
O Reinado Perverso de Jeorão. (a.C. 889.)
Encontramos aqui:
I. Josafá foi um pai muito cuidadoso e indulgente com Jeorão. Tinha muitos filhos, aqui nomeados (v. 2), e se diz (v. 13) que eram melhores que Jeorão, tinham muito mais sabedoria e virtude e viviam de acordo com a educação recebida, enquanto ele agia contra ela.
Eram muito promissores, e qualquer um deles era mais apto para a coroa do que Jeorão. Ainda assim, por ser o primogênito (v. 3), seu pai lhe garantiu o reino e deu porções a seus irmãos, estabelecendo-os de modo que ficassem satisfeitos e não o perturbassem.
Assim fez Abraão quando tornou Isaque seu herdeiro e despediu os outros filhos com presentes.
Nisso, Josafá foi muito bondoso e justo com o filho, o que poderia ter levado Jeorão a respeitar o pai e a seguir os passos de um pai tão bom. Mas não é novidade que os filhos mais favorecidos pelos pais sejam os menos obedientes a eles.
Não sei dizer se, ao fazer isso, Josafá agiu com sabedoria, se fez bem ao povo e se foi justo com ele. A primogenitura dava a Jeorão o direito a uma porção dobrada dos bens do pai, Deuteronômio 21:17.
Mas, se ele se mostrava inteiramente inapto para governar, cujo objetivo é o bem do povo, e era provável que desfizesse tudo o que o pai fizera, talvez fosse melhor tê-lo afastado e escolhido o próximo filho promissor, que não tivesse a mesma inclinação para a idolatria.
O poder é coisa sagrada; por meio dele, os homens podem fazer muito bem ou muito mal. Por isso, Detur digniori — que o receba quem o merece. Salus populi suprema lex — a segurança do povo é a primeira consideração.
II. Jeorão foi um irmão extremamente cruel para os filhos de seu pai. Assim que se firmou no trono, matou todos os irmãos à espada, ou mediante falsas acusações sob aparência de legalidade, ou, antes, por assassinato.
De um modo ou de outro, conseguiu que todos fossem mortos por alguma mão perversa. É provável que alegasse não poder sentir-se seguro no governo enquanto eles não fossem eliminados. Os que têm más intenções costumam suspeitar, sem motivo, das pessoas ao redor.
Os perversos têm medo quando não há razão para temer, ou fingem tê-lo para esconder sua maldade. É provável que Jeorão odiasse e matasse seus irmãos pelo mesmo motivo por que Caim odiou e matou Abel: a piedade deles condenava sua impiedade e lhes conquistava o apreço do povo que ele perdera.
Com eles, matou diversos príncipes de Israel, que lhes eram fiéis ou provavelmente vingariam a morte dos irmãos.
Os príncipes de Judá, que haviam ensinado o bom conhecimento do Senhor (2 Crônicas 17:7), são aqui chamados príncipes de Israel, como antes foram chamados chefes das famílias de Israel (2 Crônicas 19:8), porque eram verdadeiros israelitas, homens íntegros.
A espada que o bom pai pusera nas mãos desses homens, o filho perverso cravou-lhes nas entranhas. Ai daquele que assim funda um reino com sangue, Habacuque 2:12; será um alicerce sob o qual toda a construção desabará.
III. Jeorão foi um rei extremamente perverso, que corrompeu e depravou seu reino e arruinou a reforma promovida por seu bom pai e por seu avô: andou no caminho da casa de Acabe (v. 6), fez lugares altos, que o povo já se apressava a fazer por conta própria, e empregou todos os esforços para restabelecer a idolatria, v. 11.
Quanto aos habitantes de Jerusalém, onde mantinha sua corte, levou-os com facilidade à sua prostituição espiritual: fez que cometessem prostituição, seduzindo-os a “comer coisas sacrificadas aos ídolos”, Apocalipse 2:20.
Parece que os moradores do interior foram levados a isso com mais dificuldade. Mas aqueles que não se deixavam corromper por bajulações foram forçados a participar de suas abomináveis idolatrias: ele obrigou Judá a isso. Empregou para destruir a igreja o poder que lhe fora dado para edificá-la.
IV. Quando Jeorão abandonou a Deus e seu culto, seus súditos retiraram-lhe a lealdade. 1. Algumas províncias estrangeiras tributárias fizeram isso. Os edomitas se revoltaram (v. 8) e, embora ele os castigasse (v. 9), não conseguiu subjugá-los, v. 10.
- Uma cidade do próprio reino também se revoltou. Libna se rebelou (v. 10) e se constituiu em Estado independente, como antigamente, quando tinha seu próprio rei, Josué 12:15.
Aqui se apresenta a razão não apenas de Deus ter permitido a revolta, mas de a cidade tê-la feito: seus moradores rejeitaram o governo de Jeorão porque ele abandonara o Senhor, Deus de seus pais, tornara-se idólatra e adorador de falsos deuses.
Eles não podiam continuar sujeitos a ele sem algum risco de também serem afastados de Deus e de seu dever.
Enquanto Jeorão permanecia fiel a Deus, eles permaneciam fiéis a ele; mas, quando Jeorão rejeitou a Deus, eles o rejeitaram. Se essa razão justifica ou não sua revolta, ela justifica a providência de Deus, que assim dispôs as coisas.
V. Ainda assim, Deus foi zeloso pela sua aliança com a casa de Davi e, por isso, não destruiu a família real, embora ela estivesse tão lamentavelmente corrompida e degenerada, v. 7. Já vimos essas coisas em 2 Reis 8:19-22.
O teor da aliança era que os descendentes de Davi seriam punidos por suas transgressões, mas a aliança jamais seria rompida, Salmos 89:30, etc.
Versículos 12 a 20
O Fim Miserável de Jeorão. (a.C. 884.)
Temos aqui:
I. Um aviso de Deus enviado a Jeorão por meio de uma carta do profeta Elias. Isso mostra que Jeorão subiu ao trono e revelou seu caráter antes do arrebatamento de Elias.
É verdade que encontramos Eliseu servindo a Josafá e descrito como aquele que derramava água nas mãos de Elias depois do relato do arrebatamento de Elias (2 Reis 3:11). Mas isso pode ter acontecido, e Eliseu pode ter sido descrito assim, enquanto Elias ainda estava na terra.
É certo que aquele relato foi colocado fora de sua ordem cronológica, pois lemos sobre a morte de Josafá e a ascensão de Jeorão ao trono antes de ler sobre o arrebatamento de Elias, 1 Reis 22:50.
Suponhamos que a hora da partida de Elias estivesse próxima, de modo que ele não pudesse ir pessoalmente a Jeorão. Ao saber da grande perversidade de Jeorão no assassinato dos irmãos, Elias deixou esta carta, provavelmente com Eliseu, para que fosse enviada na primeira oportunidade.
Assim, ela poderia servir para reconduzir Jeorão ou como testemunho contra ele de que fora devidamente avisado do resultado de seus atos. A mensagem lhe é enviada em nome do Senhor, Deus de Davi, seu pai (v. 12), censurando-o por sua ligação com Davi: embora fosse motivo de honra, ela agravava sua degeneração.
- Seus crimes são claramente apontados: o abandono dos bons caminhos de Deus, nos quais fora educado e que o exemplo de seu bom pai e avô, que viveram e morreram em paz e honra, o orientava e animava a seguir (v. 12).
Entre eles estão a conformidade com os caminhos da casa de Acabe, aquela família ímpia e escandalosa; o estabelecimento e a imposição da idolatria em seu reino; e o assassinato dos irmãos por serem melhores que ele, v. 13. Esses são os pontos principais da acusação contra Jeorão.
- Por esses crimes, a sentença é proferida contra ele. É-lhe dito claramente que seu pecado certamente causaria a ruína (1.) de seu reino e de sua família (v. 14): com um duro golpe, o da guerra e do cativeiro, o Senhor feriria o povo de Jeorão e seus filhos, etc.
Homens maus trazem os juízos de Deus sobre todos ao seu redor. O povo de Jeorão sofre com justiça porque aderiu à idolatria dele; suas mulheres, porque o arrastaram para ela.
(2.) De sua saúde e de sua vida: Jeorão teria uma doença grave, muito dolorosa e prolongada, que por fim seria mortal, v. 15. Ele recebe o aviso antecipadamente para que seu sangue recaia sobre sua própria cabeça, pois o vigia havia livrado a própria alma.
Também para que, quando essas coisas tão especificamente preditas acontecessem, ficasse claro que não vinham por acaso, mas como castigo por seus pecados, e que assim haviam sido planejadas.
Se Jeorão, assim como aprendera de Acabe a fazer o mal, tivesse ao menos aprendido dele a humilhar-se ao receber essa mensagem ameaçadora de Elias; se, como Acabe (1 Reis 21:27), tivesse rasgado suas roupas, vestido pano de saco e jejuado, quem sabe não teria obtido, como ele, pelo menos uma prorrogação da sentença?
Mas não parece que Jeorão tenha dado atenção à mensagem. Descartou-a como papel sem valor; Elias lhe pareceu alguém que zombava. Mas aqueles que não quiserem crer sentirão.
II. Os juízos anunciados se cumpriram porque Jeorão desprezou o aviso.
Não surpreende que pecadores endurecidos não se afastem do pecado nem se voltem ao arrependimento por causa de ameaças de miséria no outro mundo, que é futuro e invisível, quando a perspectiva certa de miséria neste mundo, a perda de seus bens e a ruína de sua saúde, não os refreia de uma vida perversa.
- Veja Jeorão despojado de todo o seu conforto. Deus despertou contra ele o espírito dos povos vizinhos, que tinham amado e temido Josafá, mas odiavam e desprezavam Jeorão, considerando escandaloso que uma nação trocasse seus deuses.
Por um motivo ou outro, entraram em conflito com ele e invadiram seu país. Ao que parece, porém, não combateram nem os pequenos nem os grandes, mas apenas a casa do rei. Avançaram diretamente contra ela e levaram todos os bens que ali encontraram.
Não se menciona que tenham levado outros cativos além das mulheres e dos filhos do rei, v. 17. Assim, Deus tornou evidente que sua disputa era com Jeorão e sua casa.
Aqui se diz apenas que levaram seus filhos; mas descobrimos em 2 Crônicas 22:1 que mataram todos eles. Sangue por sangue. Jeorão havia matado todos os irmãos para fortalecer-se; agora todos os seus filhos, menos um, foram mortos, e assim ele ficou enfraquecido.
Se Jeorão não fosse da casa de Davi, nem esse filho teria escapado. Quando as casas de Jeroboão, Baasa e Acabe foram destruídas, ninguém restou. Mas a casa de Davi não devia ser exterminada por completo, embora às vezes tão lamentavelmente degenerada, porque nela havia uma bênção, nada menos que a bênção do Messias.
- Veja-o atormentado por doenças graves e duradouras, como as ameaçadas na lei àqueles que não temessem o Senhor, seu Deus, Deuteronômio 28:58, 59. Sua doença era muito dolorosa. Atingia-lhe as entranhas, causando cólicas contínuas, e vinha acompanhada de outras doenças graves.
Além disso, a aflição era muito prolongada. Jeorão permaneceu doente por dois anos sem encontrar alívio, pois sua doença era incurável, embora estivesse no vigor da vida, sem ter completado quarenta anos.
Asa, cujo coração era perfeito para com Deus, embora se tivesse desviado em algumas ocasiões, adoeceu apenas dos pés. Jeorão, porém, cujo coração era perverso, foi ferido nas entranhas. Ele não tivera entranhas de compaixão pelos irmãos e foi tão atormentado nas próprias entranhas que elas lhe saíram do corpo.
Até homens bons e muito amados por Deus podem ser afligidos por doenças desse tipo. Para eles, porém, elas são castigos paternais, e, pelo amparo das consolações divinas, a alma pode descansar tranquila mesmo quando o corpo sofre dores.
Essas doenças graves o atingiram logo depois que sua casa foi saqueada e suas mulheres e filhos foram levados. (1.) Talvez a tristeza e a angústia que sentiu por essa calamidade tenham provocado a doença ou, pelo menos, contribuído para agravá-la.
(2.) A doença o incapacitou para fazer qualquer coisa a fim de recuperá-los ou vingar a injúria que sofrera. (3.) Sem dúvida, aumentou muito a tristeza de Jeorão, durante a doença, o fato de ele ter sido privado do convívio das mulheres e dos filhos e de todos os bens de sua casa terem sido levados.
Estar doente e pobre, doente e solitário, mas sobretudo doente e em pecado, doente sob a maldição de Deus, doente e sem graça para suportar a aflição nem consolo para contrabalançá-la: eis uma condição deplorável.
- Veja-o sepultado em desonra. Reinou apenas oito anos e então “partiu sem deixar saudades”, v. 20. Ninguém o estimava enquanto vivia, ninguém o lamentou quando morreu, e todos desejaram que Jerusalém jamais sofresse perda maior.
Para mostrar o pouco afeto ou respeito que tinham por ele, não o sepultaram nos túmulos dos reis, por julgarem que, tendo governado tão mal, ele era indigno de ser contado entre eles.
A exclusão de seu corpo dos túmulos de seus pais talvez tenha sido ordenada pela Providência como sinal da separação eterna, depois da morte, entre as almas dos perversos e os espíritos dos justos.
Impuseram-lhe ainda esta desonra: não fizeram por ele a queima de aromas que haviam feito por seus pais, v. 19.
Sua memória estava longe de ser doce e preciosa para eles; por isso, não a honraram com aromas doces nem especiarias preciosas, embora possamos supor que seu cadáver, após uma doença tão longa e repugnante, precisasse de algo que o perfumasse.
A maioria do povo, embora inclinada à idolatria, não tinha verdadeiro afeto por seus reis idólatras.
A perversidade e a irreverência tornam os homens desprezíveis até aos olhos daqueles que têm pouca religião, enquanto a própria consciência natural muitas vezes presta honra aos que são verdadeiramente piedosos. Os que desprezam a Deus serão pouco estimados, como Jeorão foi.