Matthew Henry

2 Crônicas 19

Argumento

Temos aqui mais um relato do bom reinado de Josafá:

I. Seu retorno em paz a Jerusalém, v. 1. II. A censura que recebeu por seu pacto com Acabe e por agir em conjunto com ele, v. 2, 3. III. O grande cuidado que teve, depois disso, de reformar seu reino, v. 4.

IV. As instruções que deu a seus juízes: tanto aos das cidades do interior, que presidiam os tribunais inferiores (vv. 5-7), quanto aos de Jerusalém, que integravam o tribunal supremo do reino, vv. 8-11.

Versículos 1 a 4

A Piedade de Josafá. (a.C. 897.)

Aqui está:

I. O grande favor que Deus mostrou a Josafá:

  1. Ao trazê-lo de volta em segurança de sua perigosa expedição com Acabe, que quase lhe custou caro (v. 1): ele “voltou para sua casa em paz”. O fato é registrado para mostrar:

(1.) Que lhe foi melhor do que esperava. Ele correra perigo iminente e, ainda assim, voltou para casa em paz.

Sempre que voltamos em paz para nossas casas, devemos reconhecer a providência de Deus, que preserva nossa saída e nossa entrada. Mas, se fomos guardados em perigos maiores que os habituais, temos um dever especial de gratidão. Talvez houvesse apenas um passo entre nós e a morte e, ainda assim, estamos vivos.

(2.) Que lhe foi melhor do que merecia. Estava fora do caminho do seu dever e partira numa expedição da qual dificilmente poderia prestar contas a Deus e à própria consciência.

Apesar disso, voltou em paz, pois Deus não é rigoroso a ponto de marcar tudo o que fazemos de errado, nem retira sua proteção toda vez que a perdemos por nossa culpa.

(3.) Que lhe foi melhor do que a Acabe, rei de Israel, que foi levado morto para casa. Embora Josafá tivesse dito a Acabe: “Sou como tu és”, Deus fez distinção entre eles, pois conhece e reconhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá.

Misericórdias que nos distinguem de outros exigem muita gratidão. Aqui estavam dois reis juntos no campo de batalha: um foi levado e o outro deixado; um foi levado para casa ensanguentado, o outro, em paz.

  1. Ao enviar-lhe uma censura por seus laços com Acabe. É grande misericórdia tomar consciência das próprias faltas e ouvir a tempo em que erramos, para que possamos arrepender-nos e corrigir o erro antes que seja tarde demais.

O profeta enviado para censurá-lo é Jeú, filho de Hanani. O pai fora um profeta notável no reinado anterior, como mostrou o fato de Asa tê-lo posto no tronco por falar francamente; ainda assim, o filho não teve medo de censurar outro rei.

Paulo queria que seu filho Timóteo não ficasse desanimado, mas, pelo contrário, fosse animado por seus sofrimentos, 2 Timóteo 3:11, 14.

(1.) O profeta lhe disse claramente que fizera muito mal em unir-se a Acabe: você, um homem piedoso, deveria ajudar os ímpios, dar-lhes a mão em sinal de comunhão e estender-lhes a mão para auxiliá-los? Ou deveria amar os que odeiam o Senhor? Você acolherá junto ao peito aqueles que Deus contempla de longe?

O traço sombrio dos ímpios é serem “os que odeiam a Deus”, Romanos 1:30. Os idólatras são considerados assim no segundo mandamento; por isso, não cabe aos que amam a Deus ter prazer na companhia deles nem cultivar intimidade com eles.

Davi pergunta se não odeia aqueles que odeiam a Deus, Salmos 139:21, 22. Aqueles que a graça de Deus dignificou não devem rebaixar-se. Que o povo de Deus tenha o mesmo pensamento que ele.

(2.) Que Deus estava descontente com Josafá por isso: “Há cólera contra ti da parte do Senhor”; você deve, pelo arrependimento, fazer as pazes com ele, ou será pior para você. Ele o fez, e a ira de Deus se desviou.

Ainda assim, a aflição registrada no capítulo seguinte foi uma repreensão por Josafá ter-se intrometido numa contenda que não lhe dizia respeito.

Se gosta tanto de guerra, terá guerra de sobra. E o grande dano em que seus descendentes caíram por causa da casa de Acabe foi o justo castigo por seus laços com aquela casa.

(3.) Contudo, o profeta reparou no que era digno de louvor, como nos convém fazer quando censuramos alguém (v. 3): “São encontradas coisas boas em ti”; por isso, embora Deus esteja descontente com você, ele não rejeita nem rejeitará você.

Ter abolido a idolatria com o coração firme para com Deus e dedicado a buscá-lo foi algo bom, que Deus aceitou e queria que Josafá continuasse a fazer, apesar do desagrado que agora havia provocado.

II. O cumprimento do dever com que Josafá retribuiu esse favor a Deus. Recebeu bem a censura: não se encolerizou com o vidente como seu pai fizera, mas se submeteu. “Que o justo me fira: isso será bondade para comigo.” Veja o efeito que a censura teve sobre ele.

  1. Josafá permaneceu em Jerusalém (v. 4), cuidou de seus próprios assuntos em casa e não quis se expor fazendo mais visitas como aquela a Acabe. Repreenda o sábio, e ele se tornará ainda mais sábio e aceitará o aviso, Provérbios 9:8, 9.

  2. Para expiar, por assim dizer, a visita que fizera a Acabe, ele realizou uma visita piedosa e proveitosa ao próprio reino: saiu pessoalmente por entre o povo, desde Berseba, ao sul, até o monte Efraim, ao norte, e os conduziu de volta ao Senhor, Deus de seus pais. Isto é, fez tudo o que podia para recuperá-los.

(1.) Pelas palavras do profeta, percebeu que suas tentativas anteriores de reforma tinham agradado a Deus. Por isso, retomou-as e fez o que antes ficara por fazer. É bom que os elogios nos estimulem assim ao dever e que, quanto mais nos louvem por fazer o bem, mais vigorosos sejamos em fazê-lo.

(2.) Talvez tenha percebido que seus recentes laços com a casa idólatra de Acabe e com o reino de Israel exerceram má influência sobre seu próprio reino.

Podemos supor que muitos se sentiram encorajados a voltar à idolatria ao verem até seu rei reformador tão íntimo de idólatras; por isso, Josafá considerou-se duplamente obrigado a fazer tudo o que podia para restaurá-los.

Se nos arrependemos verdadeiramente de nosso pecado, faremos o máximo para reparar o estrago que, de algum modo, causamos com ele à religião ou às almas de outros. Temos especial responsabilidade de recuperar aqueles que, por nosso exemplo, caíram no pecado ou se endureceram nele.

Versículos 5 a 11

Depois de fazer o que podia para tornar seu povo bom, Josafá procura agora, se possível, conservá-lo assim pela influência de uma magistratura estável.

Havia enviado pregadores ao povo para instruí-lo (2 Crônicas 17:7-9), e essa providência teve bom resultado. Mas então viu que também precisava enviar juízes para garantir a aplicação das leis e inspirar temor aos malfeitores.

É provável que já houvesse juízes espalhados pelo país, mas ou eles negligenciavam seu trabalho, ou o povo lhes dava pouca atenção, de modo que o objetivo da instituição não era alcançado. Por isso, era necessário reorganizá-la, empregar novos homens e dar-lhes novas instruções. É isso que se faz aqui.

I. Josafá erigiu tribunais inferiores nas diversas cidades do reino, v. 5. Os juízes desses tribunais deviam manter o povo no culto a Deus, punir as violações da lei e resolver controvérsias entre uma pessoa e outra. Aqui estão as instruções que lhes deu (v. 6), nas quais temos:

  1. Os meios que lhes prescreve para mantê-los firmes no dever são dois:

(1.) Grande cautela e prudência: “Tomai cuidado com o que fazeis”, v. 6. E, novamente: “Tomai cuidado e fazei-o”, v. 7. Prestem atenção ao trabalho de vocês; tomem cuidado para não cometer erros; temam interpretar mal qualquer ponto da lei ou qualquer questão de fato.

Os juízes, mais do que quaisquer outros, precisam ser cautelosos, pois tanto depende da correção de seu julgamento.

(2.) Grande piedade e religião: que o temor de Deus esteja sobre vocês; ele os refreará para que não façam o mal (Neemias 5:15; Gênesis 42:18) e os estimulará a cumprir ativamente os deveres do seu cargo.

Que a destruição vinda de Deus lhes cause temor, como diz Jó (Jó 31:23), e então não causarão temor a ninguém, exceto aos malfeitores.

  1. Os motivos que ele queria que considerassem para levá-los à fidelidade são três, todos derivados de Deus:

(1.) Que dele haviam recebido seu mandato; eram seus ministros. Os poderes existentes são ordenados por ele e para ele: “Não julgais para o homem, mas para o Senhor”; o trabalho de vocês é glorificá-lo e servir aos interesses de seu reino entre os homens.

(2.) Que seu olhar estava sobre eles: ele “está convosco no julgamento”; repara no que vocês fazem e lhes pedirá contas se agirem mal.

(3.) Que Deus é o grande exemplo de justiça para todos os magistrados: nele não há iniquidade, suborno nem acepção de pessoas. Os magistrados são chamados deuses e, por isso, devem esforçar-se para assemelhar-se a ele.

II. Josafá erigiu em Jerusalém um tribunal supremo, que era consultado e ao qual se recorria em todas as causas difíceis surgidas nos tribunais inferiores. Ele decidia sobre objeções de direito, vereditos especiais e pedidos de revisão por erro, para falar na linguagem de nosso direito.

Esse tribunal funcionava em Jerusalém, pois ali estavam postos os tronos de julgamento. Lá os juízes estariam sob a supervisão do próprio rei. Observe:

  1. As causas da competência desse tribunal eram de dois tipos, como entre nós:

(1.) Os processos da Coroa, chamados aqui de julgamento do Senhor, porque a lei de Deus era a lei do reino. Todos os criminosos eram acusados de violar alguma parte da lei divina e dizia-se que ofendiam sua paz, sua coroa e sua dignidade.

(2.) As causas civis entre uma parte e outra, chamadas aqui de controvérsias (v. 8) e causas de seus irmãos (v. 10); diferenças “entre sangue e sangue”, expressão que remete a Deuteronômio 17:8, entre o sangue da pessoa morta e o sangue de quem a matou.

Desde a revolta das dez tribos, todas as cidades de refúgio, exceto Hebrom, pertenciam ao reino de Israel. Por isso, podemos supor que os pátios do templo ou os chifres do altar eram os santuários mais usados nesses casos. Daí que os processos por homicídio fossem reservados ao tribunal de Jerusalém.

Se os juízes inferiores não chegassem a um acordo sobre o sentido de alguma lei ou mandamento, de algum estatuto ou julgamento, cabia a esse tribunal resolver a controvérsia.

  1. Os juízes desse tribunal eram alguns dos levitas e sacerdotes mais versados na lei, notáveis pela sabedoria e de integridade comprovada.

Havia também alguns dos principais chefes das famílias de Israel, pares do reino, como poderia chamá-los, ou pessoas idosas e experientes, acostumadas aos assuntos práticos.

Esses seriam os juízes mais competentes para apreciar os fatos, assim como os sacerdotes e levitas o eram para interpretar a lei.

  1. Os dois chefes, ou presidentes, desse tribunal. Amarias, o sumo sacerdote, devia presidir às causas religiosas, orientar o tribunal e ser seu porta-voz, ou talvez ser consultado por último nos casos em que os próprios juízes tivessem dúvidas.

Zebadias, o principal ministro daquele Estado, devia presidir a todas as causas civis, v. 11. Assim, há diversidade de dons e operações, mas todos vêm do mesmo Espírito e se destinam ao bem do corpo.

Alguns entendem melhor os assuntos do Senhor; outros, os assuntos do rei. Nenhum pode dizer ao outro: “Não tenho necessidade de ti”, pois o Israel de Deus precisa dos dois. E, assim como cada um recebeu o dom, assim o empregue em serviço.

Bendito seja Deus tanto pelos magistrados quanto pelos ministros, pelos escribas e pelos estadistas, pelos homens dos livros e pelos homens da prática.

  1. Os oficiais inferiores do tribunal. Alguns dos levitas (aqueles que não tinham capacidade para ser juízes) “serão oficiais diante de vós”, v. 11. Cabia-lhes levar as causas ao tribunal e garantir a execução da sentença dos juízes.

Essas mãos e esses pés eram tão necessários em suas funções quanto os olhos e as cabeças, isto é, os juízes, nas deles.

  1. As instruções que o rei lhes deu. (1.) Deviam cuidar de agir a partir de um bom princípio: fazer tudo no temor do Senhor, mantendo-o sempre diante de si. Assim, agiriam com fidelidade, consciência e um coração perfeitamente reto, v. 9.

(2.) Deviam ter como cuidado grande e constante prevenir o pecado: advertir o povo para que não transgredisse contra o Senhor e inspirar-lhe temor do pecado, não só por ser prejudicial a ele e à paz pública, mas por ofender a Deus e trazer cólera sobre o povo, se o cometesse, e sobre os magistrados, se não o punissem.

“Fazei isso, e não transgredireis.” Isso implica que aqueles que têm poder nas mãos contraem eles próprios a culpa pelo pecado se não usam seu poder para prevenir e restringir o pecado nos outros. Vocês transgridem se não os impedem de transgredir.

(3.) Deviam agir com determinação: “Procedei corajosamente”; não temam a face do homem, sejam ousados e destemidos no cumprimento do dever e, seja quem for que se oponha a vocês, Deus os protegerá: “O Senhor estará com os bons”. Onde quer que encontre um homem bom, um bom magistrado, Deus se mostrará um Deus bom.


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