Matthew Henry

2 Crônicas 17

Argumento

Aqui começa a história da vida e do reinado de Josafá, um dos três mais destacados entre os reis ilustres, um dos melhores que empunharam o cetro de Judá desde que Davi repousou a cabeça. Foi o bom filho de um bom pai, de modo que, naquele tempo, a graça corria no sangue, até no sangue real.

Feliz o filho que teve tal pai para lançar um bom alicerce nele e para ele. Feliz o pai que teve tal filho para construir tão bem sobre o alicerce que lançara! Feliz o reino abençoado, em sequência, com dois reis assim e dois reinados assim!

Neste capítulo temos: I. Sua ascensão ao trono e consolidação nele, v. 1, 2, 5. II. Sua piedade pessoal, v. 3, 4, 6. III. O caminho que adotou para promover a religião em seu reino, vv. 7-9.

IV. A grande ascendência que exercia entre os vizinhos, v. 10, 11. V. A grande força de seu reino, tanto nas guarnições quanto nas tropas permanentes, vv. 12-19.

Assim, sua prosperidade foi a recompensa de sua piedade, e sua piedade foi a graça mais brilhante e o ornamento de sua prosperidade.

Versículos 1 a 9

Josafá Sucede a Asa. (a.C. 914.)

Quanto a Josafá, encontramos aqui:

I. Que homem sábio ele foi. Assim que subiu ao trono, fortaleceu-se contra Israel, v. 1. Acabe, príncipe ativo e guerreiro, já estava havia três anos no trono de Israel; o vigor do início de seu reinado coincidiu com o declínio do fim do reinado de Asa.

É provável que o reino de Israel tivesse ganhado terreno sobre o de Judá nos últimos tempos e começado a tornar-se temível para ele. Assim, a primeira tarefa de Josafá foi assegurar sua posição naquela frente e conter o crescente poder do rei de Israel.

Fez isso com tanta eficácia, e sem derramamento de sangue, que Acabe logo procurou sua aliança. Longe de causar-lhe qualquer perturbação, mostrou-se mais perigoso como amigo do que poderia ter sido como inimigo.

Josafá não se fortaleceu para agir ofensivamente contra os israelitas ou invadi-los, mas apenas para defender o que lhe pertencia. Fez isso fortificando as cidades de sua fronteira e instalando guarnições mais fortes do que antes nas cidades de Efraim que estavam sob seu domínio, v. 2.

Não se fortaleceu, como seu pai, por meio de um pacto com o rei da Síria, mas por meios justos e legítimos, pelos quais podia esperar a bênção de Deus e no uso dos quais confiava em Deus.

II. Que homem bom ele foi. A descrição de seu caráter aqui é excelente. 1. Andou nos caminhos de Davi, seu pai. Na caracterização dos reis, os caminhos de Davi são muitas vezes tomados como padrão, como em 1 Reis 15:3, 11; 2 Reis 14:3; 16:2; 18:3.

Mas em nenhum lugar a distinção entre seus primeiros e seus últimos caminhos é tão marcada quanto aqui, pois os últimos não foram tão bons quanto os primeiros. Seus caminhos, antes de cair de modo tão grave no caso de Urias, eram bons caminhos.

Esse caso é mencionado muito depois como a mancha em seu brasão, 1 Reis 15:5. Embora felizmente tenha se recuperado daquela queda, talvez nunca tenha recuperado por completo, enquanto viveu, a força e o consolo espirituais que perdeu por causa dela.

Josafá seguiu Davi até onde Davi seguiu a Deus, e não além disso. O próprio Paulo limita assim nossa imitação dele (1 Coríntios 11:1): sigam-me, assim como sigo a Cristo, e não de outra maneira.

Muitas pessoas boas tiveram seus primeiros caminhos, que foram os melhores, e seu primeiro amor, que foi o mais forte. Em cada modelo segundo o qual nos propomos escrever, assim como devemos escolher somente o que é bom, assim devemos escolher sobretudo o que é melhor.

As palavras aqui admitem outra leitura; são as seguintes: ele andou nos caminhos de Davi, seu pai (Hareshonim), aqueles primeiros caminhos, ou aqueles caminhos antigos.

Tomou como exemplo os primeiros tempos da família real, os tempos mais puros, antes que entrassem as corrupções dos reinados recentes. Veja Jeremias 6:16.

A Septuaginta omite Davi e, assim, refere o texto a Asa: ele andou nos primeiros caminhos de seu pai e não o imitou no que havia de errado nele no fim de sua vida. É bom ter cautela ao seguir até os melhores homens, para que não nos desviemos após eles.

  1. Não buscou os baalins, mas buscou o Senhor, Deus de seu pai, v. 3, 4. As nações vizinhas tinham seus baalins: uma tinha um Baal, outra tinha outro. Ele, porém, detestava todos e nada tinha a ver com eles.

Adorava o Senhor, Deus de seu pai, e somente a ele; orava somente a ele e somente a ele consultava. Ambas as coisas estão incluídas em buscá-lo.

  1. Andou nos mandamentos de Deus. Não apenas adorava o Deus verdadeiro, mas o adorava segundo o que o próprio Deus estabelecera, e não segundo os costumes de Israel, v. 4. Embora o rei de Israel fosse seu vizinho e aliado, ainda assim Josafá não aprendeu seu caminho.

Quaisquer que fossem as relações que mantivesse com ele em assuntos civis, não manteria comunhão com ele nem se conformaria com a religião dele. Nisso, permaneceu fiel à regra.

  1. Seu coração se elevou nos caminhos do Senhor (v. 6), ou ele elevou seu coração. Pôs o coração em sua obra e nela o elevou; isto é, tinha nela uma consideração sincera para com Deus. “A ti, ó Senhor, elevo a minha alma.” Seu coração se alargou no que é bom, Salmos 119:32.

Nunca pensou que pudesse fazer o suficiente por Deus. Era cheio de vida e afeto em sua religião, fervoroso de espírito no serviço ao Senhor, alegre e afável nela. Prosseguiu na obra com disposição, como Jacó, que, depois de sua visão de Deus em Betel, levantou os pés, Gênesis 29:1, nota marginal.

Era ousado e resoluto nos caminhos de Deus e avançava com coragem. Seu coração se elevou acima da consideração das dificuldades que havia no caminho de seu dever.

Superou-as todas com facilidade e não se deixou assustar pelos ventos e pelas nuvens a ponto de deixar de semear e colher, Eclesiastes 11:4. Andemos no mesmo espírito.

III. Que homem útil ele foi: não apenas um homem bom, mas um bom rei. Não apenas era bom, mas fazia o bem em sua geração; fazia muito bem.

  1. Removeu os mestres da mentira, como são chamadas as imagens (Habacuque 2:18), os lugares altos e os bosques sagrados, v. 6. Trata-se daqueles em que se adoravam ídolos, pois os que eram dedicados somente ao Deus verdadeiro não foram removidos, 2 Crônicas 20:33.

Foi somente a idolatria que ele aboliu. Nada corrompia mais a nação do que aqueles bosques ou imagens idólatras que removeu.

  1. Enviou mestres da verdade. Ao investigar o estado da religião em seu reino, descobriu que seu povo era, em geral, muito ignorante: não sabia que praticava o mal. Mesmo no último bom reinado, pouco cuidado se tivera em instruí-lo em seu dever.

Por isso, Josafá decidiu começar sua obra pelo lado certo: tratou-os como criaturas racionais e não quis conduzi-los de olhos vendados, não, nem mesmo a uma reforma. Procurou, antes, assegurar que fossem bem ensinados, sabendo que esse era o caminho para que fossem bem curados.

Nessa boa obra empregou:

(1.) Seus príncipes. Enviou os que estavam junto dele; enviou os que estavam no interior do país para ensinar nas cidades de Judá, v. 7. Ordenou-lhes que, na administração da justiça, não apenas corrigissem o povo quando agisse mal, mas lhe ensinassem a agir melhor e explicassem o motivo de seus atos.

Assim, o povo poderia compreender a diferença entre o bem e o mal. Os príncipes, ou juízes no tribunal, têm grande oportunidade de ensinar ao povo seu dever para com Deus e para com os homens. Isso não está fora de sua competência, pois as leis de Deus devem ser consideradas leis do país.

(2.) Os levitas e sacerdotes acompanharam os príncipes e ensinaram em Judá, levando consigo o livro da lei, v. 8, 9. Eram mestres por ofício, Deuteronômio 33:10. Ensinar fazia parte do trabalho pelo qual recebiam seu sustento. Os sacerdotes e levitas tinham pouco mais que fazer.

Ao que parece, porém, haviam negligenciado essa tarefa, talvez alegando que não conseguiam fazer o povo ouvi-los. “Muito bem”, diz Josafá, “vocês acompanharão os príncipes, e estes, com sua autoridade, obrigarão o povo a vir ouvi-los; então, se o povo não for bem instruído, a culpa será de vocês.”

Quanto bem se pode fazer quando Moisés e Arão andam assim de mãos dadas nessa tarefa, quando os príncipes, com seu poder, e os sacerdotes e levitas, com seu conhecimento das Escrituras, concordam em ensinar ao povo o bom conhecimento de Deus e de seu dever!

Esses juízes itinerantes e pregadores itinerantes foram, juntos, instrumentos para difundir uma luz bendita por todas as cidades de Judá. Mas se diz que levavam consigo o livro da lei do Senhor:

[1.] Para orientá-los, de modo que tirassem dele todas as instruções que davam ao povo e não ensinassem como doutrinas os mandamentos dos homens.

[2.] Para convencer o povo, de modo que visse que eles tinham autorização divina para o que diziam e lhe transmitiam apenas o que haviam recebido do Senhor. Repare: os ministros, quando vão ensinar o povo, devem levar consigo suas Bíblias.

IV. Que homem feliz ele foi. 1. Quão feliz foi por ter o favor de seu Deus, que claramente o reconheceu e abençoou: o Senhor estava com ele (v. 3); a palavra do Senhor era sua auxiliadora, segundo a paráfrase caldeia; “o Senhor firmou o reino em sua mão”, v. 5.

Permanecem firmes os que têm consigo a presença de Deus. Se a formosura do Senhor, nosso Deus, estiver sobre nós, isso firmará a obra de nossas mãos e nos firmará em nossa integridade.

  1. Quão feliz foi no afeto de seu povo (v. 5): todo o Judá lhe trouxe presentes, em reconhecimento por sua bondade ao enviar pregadores entre eles. Quanto mais religião verdadeira houver entre um povo, mais lealdade conscienciosa haverá.

Um governo que cumpre o fim para o qual existe será sustentado. O efeito do favor tanto de Deus quanto de seu reino foi que ele teve riquezas e honra em abundância. É sem dúvida verdade, embora poucos acreditem, que a religião e a piedade são as melhores amigas da prosperidade exterior.

E observe que, logo em seguida, vem: “Seu coração se elevou nos caminhos do Senhor”. Para muitos, riquezas e honra em abundância tornam-se um peso e um obstáculo nos caminhos do Senhor, ocasião de orgulho, falsa segurança e sensualidade.

Mas em Josafá tiveram o efeito inteiramente oposto: sua abundância foi óleo para as rodas de sua obediência. Quanto mais possuía das riquezas deste mundo, mais seu coração se elevava nos caminhos do Senhor.

Versículos 10 a 19

A Prosperidade de Josafá. (a.C. 911.)

Temos aqui mais um relato da grande prosperidade de Josafá e do estado florescente de seu reino.

I. Tinha boa influência junto aos príncipes e nações vizinhas. Embora talvez não fosse um guerreiro tão grande quanto Davi, o que poderia tê-lo tornado o terror deles, nem um estudioso tão grande quanto Salomão, o que poderia tê-lo tornado o oráculo deles, ainda assim o temor do Senhor caiu sobre eles de tal modo que todos o reverenciavam, v. 10.

Isto é, Deus influenciou e governou o espírito deles. E:

  1. Nenhum deles lhe fez guerra. A boa providência de Deus dispôs as coisas de tal maneira que, enquanto os príncipes e sacerdotes instruíam e reformavam o país, nenhum vizinho o incomodou para afastá-lo daquela boa obra.

Assim, quando Jacó e seus filhos iam adorar em Betel, o terror de Deus caiu sobre as cidades vizinhas, de modo que não os perseguiram, Gênesis 35:5. Veja também Êxodo 34:24.

  1. Muitos deles lhe trouxeram presentes (v. 11) para assegurar sua amizade. Talvez fossem um tributo que Asa lhes impusera, pois ele se apoderara das cidades dos filisteus e das tendas dos árabes, 2 Crônicas 14:14, 15.

Com 7.700 carneiros e o mesmo número de bodes que os árabes trouxeram, provavelmente havia uma quantidade proporcional de ovelhas e cordeiros, cabras e cabritos.

II. Tinha reservas muito consideráveis guardadas nas cidades de Judá. Derrubou seus celeiros e construiu outros maiores (v. 12), fortalezas e cidades de depósitos para armas e mantimentos.

Era um homem diligente e visava ao bem público em todos os seus empreendimentos, fosse para preservar a paz, fosse para preparar-se para a guerra.

III. Mantinha a milícia bem organizada. Nunca estivera em melhor ordem desde que Davi a organizara. São mencionados aqui cinco governadores militares, se assim posso chamá-los, com o número dos homens sob seu comando, aptos para a guerra em seus respectivos distritos: três em Judá e dois em Benjamim.

Diz-se de um desses grandes comandantes, Amasias, que se ofereceu voluntariamente ao Senhor (v. 16). Não se ofereceu apenas ao rei para servi-lo naquele posto, mas também ao Senhor, para glorificá-lo nele.

Era o mais destacado entre eles pela religião. Aceitou o posto não pela honra, pelo poder ou pelo proveito que traria, mas por motivo de consciência diante de Deus, para servir a seu país.

Naquele tempo, era comum que grandes generais oferecessem ao Senhor parte de seus despojos, 1 Crônicas 26:26. Mas esse bom homem ofereceu primeiro a si mesmo ao Senhor e, depois, suas ofertas consagradas.

O número dos soldados sob esses cinco generais chega a 1.160.000 homens: um contingente enorme para ser fornecido e sustentado por um território tão pequeno quanto as porções de Judá e Benjamim.

Abias só conseguiu levar a campo 400.000 (2 Crônicas 13:3), e Asa, nem 600.000 (2 Crônicas 14:8); contudo, Josafá tem sob seu comando quase 1.200.000. Mas é preciso considerar:

  1. Deus havia prometido tornar a descendência de Abraão numerosa como a areia do mar.

  2. Havia então um longo período de paz.

  3. Podemos supor que a cidade de Jerusalém tivesse crescido muito.

  4. Muitos tinham vindo para junto deles do reino de Israel (2 Crônicas 15:9), o que aumentaria o número de habitantes.

  5. Josafá estava sob uma bênção especial de Deus, que fazia suas iniciativas prosperarem muito.

Podemos supor que os exércitos estavam espalhados por todo o país e que cada homem residia, na maior parte do tempo, em sua própria propriedade. Mas eles se apresentavam com frequência para revistas e treinamento e estavam prontos para atender ao chamado sempre que houvesse necessidade.

Os comandantes acompanhavam o rei (v. 19) como oficiais de sua corte, conselheiros privados e ministros de Estado.

Por fim, porém, observe: não foi esse exército temível que incutiu terror nas nações vizinhas, as impediu de tentar qualquer coisa contra Israel ou as obrigou a pagar tributo. Foi o temor de Deus que caiu sobre elas quando Josafá reformou seu país e estabeleceu nele um ministério de pregação, v. 10.

Para a força e a segurança de um reino, as ordenanças de Deus valem mais que seu poder militar; seus homens de Deus valem mais que seus homens de guerra.


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