Matthew Henry

2 Crônicas 16

Argumento

Este capítulo conclui a história do reinado de Asa, mas não nos oferece um relato de seus últimos dias tão agradável quanto o que tivemos de seu começo.

I. Temos aqui um tratado insensato com Ben-Hadade, rei da Síria, vv. 1-6. II. A censura que Deus lhe enviou por isso mediante um profeta, vv. 7-9. III. O desagrado de Asa contra o profeta por sua fidelidade, v. 10. IV. A doença, a morte e o sepultamento de Asa, vv. 11-14.

Versículos 1 a 6

O Pacto de Asa com Ben-Hadade. (a.C. 929.)

Não sei como conciliar a data desse acontecimento com a história dos reis. Baasa morreu no vigésimo sexto ano de Asa, 1 Reis 16:8. Como, então, isso poderia ter ocorrido em seu trigésimo sexto ano, quando a família de Baasa já estava inteiramente extinta e Onri ocupava o trono?

Costuma-se dizer que se trata do trigésimo sexto ano do reino de Asa, isto é, o de Judá, contado a partir do primeiro ano de Roboão, de modo que coincidiria com o décimo sexto ano do reinado de Asa. Mas, nesse caso, 2 Crônicas 15:19 teria de ser entendido da mesma forma.

E como se poderia apresentar como algo notável o fato de não ter havido mais guerra até o décimo quinto ano de Asa, quando a passagem imediatamente anterior se situava em seu décimo quinto ano (2 Crônicas 15:10)? Depois desse erro que aqui se registra, ele teve guerras, v. 9.

Josefo situa o acontecimento no vigésimo sexto ano do reinado de Asa. Nesse caso, devemos supor um erro de transcrição aqui e em 2 Crônicas 15:19; admiti-lo facilita o cálculo. Já tivemos essa passagem antes (1 Reis 15:17, etc.), e Asa errou nela de diversas maneiras.

  1. Ele não agiu bem ao fazer um pacto com Ben-Hadade, um rei pagão, nem ao orgulhar-se tanto dele como parece ter feito, v. 3. Se tivesse confiado mais em sua aliança com Deus e na de seu pai, não teria se vangloriado tanto do pacto que ele e seu pai tinham com a família real da Síria.

  2. Se tivesse dado a devida consideração à honra de Israel em geral, teria encontrado outro meio de forçar Baasa a desviar suas forças, em vez de chamar uma força estrangeira e convidar para o país um inimigo comum que, com o tempo, também poderia tornar-se uma praga para Judá.

  3. Sem dúvida, foi pecado de Ben-Hadade romper seu pacto com Baasa sem nenhuma provocação, mas apenas por influência de um suborno; e, se assim foi, certamente também foi pecado de Asa incitá-lo a isso, sobretudo contratá-lo para fazê-lo. A palavra empenhada por reis e reinos não pode ser tratada como coisa tão barata.

  4. Tirar prata e ouro da casa do Senhor para esse fim agravou muito o pecado, v. 2. Era preciso saquear o templo para servir à sua política carnal?

Teria sido melhor levar dádivas e ofertas, acompanhadas de orações e súplicas, à casa do Senhor, para conseguir que Deus ficasse do seu lado e fosse seu amigo. Então, não teria precisado fazer essa despesa para tornar Ben-Hadade seu amigo.

  1. Seria bom se Asa não tivesse de responder por todo o dano que o exército de Ben-Hadade causou injustamente às cidades de Israel, por todo o sangue que derramaram e por todos os despojos que tomaram, v. 4. Talvez Asa não pretendesse que levassem a questão tão longe.

Mas os que levam outros a pecar não sabem o que fazem nem onde isso vai terminar. O princípio do pecado é como soltar as águas. Apesar de tudo, o plano deu certo.

Ben-Hadade forçou Baasa a desviar suas forças e o obrigou a parar de construir Ramá e a dedicar-se à defesa de seu próprio país, ao norte. Isso deu a Asa a oportunidade não apenas de demolir as fortificações de Baasa, mas de se apossar dos materiais e empregá-los em benefício próprio.

Versículos 7 a 14

A Morte e o Sepultamento de Asa. (a.C. 914.)

Aqui está:

I. Uma censura clara e fiel feita a Asa por um profeta do Senhor, por ter firmado esse pacto com Ben-Hadade. O homem que o censurou foi Hanani, o vidente, pai de Jeú, outro profeta de quem lemos em 1 Reis 16:1; 2 Crônicas 19:2.

Observamos várias coisas erradas no tratado de Asa com Ben-Hadade. Mas o que o profeta lhe aponta como a maior falta de que foi culpado nesse assunto é ter confiado no rei da Síria, e não no Senhor, seu Deus, v. 7.

Asa pensou que, embora Deus estivesse do seu lado, isso não lhe seria útil a menos que Ben-Hadade também estivesse; que Deus não podia ou não queria ajudá-lo, mas que ele precisava recorrer a esse caminho tortuoso para ajudar a si mesmo.

Repare: Deus fica muito descontente quando desconfiam dele e confiam no braço da carne mais do que em seu poder e bondade. Ao depositarmos nossa confiança em Deus, nós o honramos; por isso, ele se considera ofendido quando damos essa honra a outro.

O profeta diz claramente ao rei que nisso ele agiu insensatamente, v. 9. É insensatez apoiar-se numa cana quebrada quando temos a rocha dos séculos em que confiar. Para convencê-lo de sua insensatez, mostra-lhe:

  1. Que Asa agiu contra sua própria experiência, v. 8. De todos os homens, ele não tinha motivo para desconfiar de Deus, pois já o encontrara como auxílio presente e poderoso.

Por meio de Deus, triunfara sobre um inimigo ameaçador, assim como seu pai antes dele, porque confiara no Senhor, seu Deus (2 Crônicas 13:18; 14:11).

“Quê!”, disse o profeta, “não eram os etíopes e os líbios uma hoste enorme, suficiente para engolir um reino? E, contudo, porque confiaste no Senhor, ele os entregou em tuas mãos; não era ele suficiente para ajudar-te contra Baasa?”

Repare: as muitas experiências que tivemos da bondade de Deus para conosco agravam nossa desconfiança dele. Ele não nos ajudou em seis aflições? E temos algum motivo para suspeitar dele na sétima? Mas veja como nosso coração é enganoso!

Confiamos em Deus quando não temos mais nada em que confiar, quando a necessidade nos leva a ele. Mas, quando temos outras coisas em que nos apoiar, tendemos a apoiar-nos demais nelas e a confiar em nosso próprio entendimento enquanto ele tiver algo a oferecer.

A confiança de quem crê, porém, estará somente em Deus, mesmo quando um mundo sorridente mais a corteja.

  1. Que Asa agiu contra seu conhecimento de Deus e da providência divina, v. 9. Asa não podia ignorar que “os olhos do Senhor percorrem toda a terra” para apoiar com força aqueles — assim também se pode ler — “cujo coração é perfeito para com ele”. Isso significa:

(1.) Que Deus governa o mundo com sabedoria infinita, e as criaturas e todas as suas ações estão continuamente sob seus olhos.

O olhar da Providência é perspicaz — percorre; é atento — vai de um lado para outro; alcança longe — por toda a terra, sem deixar nenhum canto fora de seu alcance, nem mesmo o mais escuro ou distante.

Seus olhos dirigem sua mão e o braço de seu poder, pois ele se mostra forte. Satanás anda de um lado para outro pela terra? A Providência percorre-a de um lado para outro; nunca está fora do caminho, nunca precisa procurar, nunca fica sem saber o que fazer.

(2.) Que Deus governa o mundo para o bem de seu povo e faz tudo conforme os desígnios de seu amor para a salvação deles: tudo por causa de Jacó, seu servo, e de Israel, seu escolhido, Isaías 45:4. Cristo é cabeça sobre todas as coisas para sua igreja, Efésios 1:22.

(3.) Que aqueles cujo coração é reto para com Deus podem ter certeza de sua proteção e têm todas as razões do mundo para depender dela. Ele pode protegê-los no caminho do dever, pois dele são a sabedoria e a força, e realmente pretende protegê-los.

A descrença prática nisso está na raiz de todos os nossos afastamentos de Deus e de nossa duplicidade para com ele. Asa não conseguiu confiar em Deus e, por isso, procurou obter o favor de Ben-Hadade.

  1. Que Asa agiu contra seus próprios interesses. (1.) Perdeu a oportunidade de conter o crescente poder do rei da Síria (v. 7): o exército sírio escapou de suas mãos. Se não fosse assim, esse exército teria se unido ao de Baasa e caído com ele.

(2.) Asa incorrera no desagrado de Deus e, daí em diante, não devia esperar paz, mas alarmes constantes de guerra, v. 9. Aqueles que não encontram no coração disposição para confiar em Deus perdem sua proteção e se lançam para fora dela.

II. O desagrado de Asa diante dessa censura. Embora ela viesse de Deus por meio de alguém reconhecido como seu mensageiro, embora fosse justa, tivesse argumentos corretos e visasse inteiramente ao bem de Asa, ele se encolerizou com o vidente por lhe falar de sua insensatez. Mais que isso, ficou tomado de ira contra ele, v. 10.

É este Asa? É este o homem cujo coração foi perfeito para com o Senhor todos os seus dias? Pois bem, que aquele que pensa estar de pé tome cuidado para não cair.

Um homem sábio e, ainda assim, tomado de ira! Um israelita e, ainda assim, irado contra um profeta! Um homem bom e, ainda assim, impaciente com a censura, incapaz de suportar que lhe apontem suas faltas!

Senhor, o que é o homem quando Deus o deixa entregue a si mesmo? Os que idolatram a própria conduta não suportam ser contrariados.

Os que dão livre curso a um temperamento irritadiço e impetuoso podem ser arrastados por ele tanto a impiedades quanto a comportamentos indecorosos e, mais cedo ou mais tarde, afrontarão o próprio Deus.

Veja que fel e que absinto essa raiz de amargura produziu. 1. Em sua ira, Asa mandou o profeta para a prisão, pô-lo numa casa de cárcere, como um criminoso, no tronco (como alguns leem), ou numa cela de tormento.

Os profetas de Deus encontram muitos que não suportam a censura e a recebem muito mal; ainda assim, precisam cumprir seu dever.

  1. Tendo ido tão longe, Asa oprimiu algumas pessoas do povo, provavelmente as que apoiaram o profeta em seu sofrimento ou eram conhecidas como seus amigos próximos.

Aquele que abusou de seu poder para perseguir o profeta de Deus foi deixado entregue a si mesmo para abusar ainda mais dele, esmagando seus próprios súditos. Assim, enfraqueceu-se e perdeu o apoio deles. A maioria dos perseguidores tem sido tirana.

III. Sua doença. Dois anos antes de morrer, Asa adoeceu dos pés (v. 12), afligido por uma gota muito grave. Ele pusera o profeta no tronco, e agora Deus o punha no tronco; assim, seu castigo correspondia ao seu pecado.

Sua doença tornou-se extremamente grave; chegou ao auge (segundo alguns); subiu-lhe à cabeça (segundo outros), e então se tornou mortal. Essa foi sua aflição; seu pecado, porém, foi que, em sua doença, em vez de buscar alívio no Senhor, procurou os médicos.

Recorrer aos médicos era seu dever. Mas confiar neles e esperar deles aquilo que só Deus podia dar foram seu pecado e sua insensatez.

Devemos sempre buscar a ajuda das criaturas com os olhos voltados para o Criador e na dependência dele, que faz de cada criatura o que ela é para nós. Sem ele, até os médicos mais hábeis e fiéis não têm valor.

Alguns pensam que esses médicos eram estrangeiros à comunidade de Israel e uma espécie de feiticeiros, aos quais Asa recorreu como se não houvesse Deus em Israel.

IV. Sua morte e seu sepultamento. Seu funeral teve uma solenidade extraordinária, v. 14. Fizeram-lhe um sepultamento muito suntuoso.

Reluto em pensar, como alguns pensam, que ele próprio ordenou essa pompa fúnebre e que ela demonstrava sua vaidade, por querer ser sepultado como os gentios, e não segundo o costume dos judeus.

De fato, diz-se que ele cavou para si a sepultura, como quem se lembrava de seu túmulo. Mas prefiro crer que a pompa fúnebre foi, antes, uma expressão do grande respeito que seu povo ainda lhe dedicava, apesar das falhas e fraquezas de seus últimos dias. Concordaram em honrá-lo em sua morte.

Repare: a piedade e a utilidade notáveis dos homens bons devem ser lembradas para seu louvor, embora tenham tido suas manchas. Que suas faltas sejam enterradas em suas sepulturas, enquanto seus serviços sejam lembrados sobre elas.

Aquele que disse: “Não há homem justo que faça o bem e não peque” também disse: “A memória do justo é bendita”. Que assim seja.


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