Matthew Henry

2 Crônicas 11

Argumento

Prosseguimos aqui com a história de Roboão. I. Sua tentativa de recuperar as dez tribos que perdera e o abandono dessa tentativa em obediência à ordem divina, vv. 1-4. II. Seus esforços bem-sucedidos para preservar as duas tribos que restaram, vv. 5-12.

III. A vinda dos sacerdotes e levitas para junto dele, vv. 13-17. IV. Um relato de suas esposas e filhos, vv. 18-23.

Versículos 1 a 12

Roboão Proibido de Fazer Guerra. (a.C. 975.)

Lemos no capítulo anterior como as dez tribos abandonaram a casa de Davi. Já antes sua ligação com essa família era frouxa (2 Samuel 20:1, 2).

Agora a rejeitaram completamente, sem considerar quanto isso enfraqueceria o interesse comum e faria Israel descer do nível de glória que alcançara no reinado anterior. Assim, porém, tanto o reino quanto a casa de Davi deviam ser corrigidos.

  1. Por fim, Roboão, como homem ousado, reúne um exército com o desígnio de subjugar os revoltosos, v. 1. Judá e Benjamim estavam não só decididos a continuar leais a ele, mas prontos para prestar-lhe a maior ajuda possível na recuperação de seu direito.

Judá era sua própria tribo, que o reconhecera alguns anos antes das demais; Benjamim era a tribo em cujo território ficava Jerusalém, ou sua maior parte, o que talvez fosse uma das razões pelas quais aquela tribo permaneceu fiel a ele.

  1. Contudo, como homem consciencioso, quando Deus o proibiu de levar adiante esse desígnio, abandonou-o em obediência a ele.

Talvez tenha sido porque reverenciava a autoridade divina ou porque sabia que não prosperaria se contrariasse a ordem de Deus; em vez de recuperar o que perdera, correria o risco de perder o que possuía.

É perigoso empreender qualquer coisa contra a vontade de Deus, sobretudo empreender uma guerra. Deus o chama de “Roboão, filho de Salomão” (v. 3), para indicar que isso havia sido determinado por causa do pecado de Salomão, e que seria inútil opor-se a um decreto já promulgado.

“Obedeceram às palavras do Senhor”; e, embora isso parecesse humilhante e os expusesse ao descrédito entre seus vizinhos, depuseram as armas porque Deus assim quis.

  1. Como homem sensato, fortificou seu próprio país. Viu que era inútil pensar em subjugar aqueles que se haviam revoltado. Algumas palavras gentis poderiam ter impedido a deserção deles; agora, porém, todas as forças de seu reino não conseguiam trazê-los de volta.

O fato estava consumado e assim devia permanecer; a atitude sábia era tirar o melhor proveito da situação.

Talvez os mesmos jovens conselheiros que o haviam aconselhado a responder com aspereza o tivessem instado a combater os rebeldes, apesar da proibição divina. Mas ele já pagara caro demais por seguir o conselho deles. Por isso, podemos supor que agora tenha dado ouvidos aos conselheiros idosos e experientes.

Estes o aconselharam a submeter-se à vontade de Deus quanto ao que perdera e a ocupar-se em conservar o que possuía. Provavelmente foi por conselho deles que:

(1.) Fortificou suas fronteiras e muitas das principais cidades do reino, cuja defesa havia sido negligenciada durante o reinado pacífico de Salomão.

(2.) Abasteceu essas cidades com boas reservas de mantimentos e armas, v. 11, 12. O fato de Deus lhe ter proibido lutar não o levou a sentar-se mal-humorado e dizer que nada faria pela segurança pública se não pudesse fazer aquilo.

Em vez disso, preparou-se prudentemente contra um ataque. Os que não podem ser conquistadores ainda assim podem ser construtores.

Versículos 13 a 23

Os Sacerdotes Aderem a Roboão. (a.C. 974.)

Veja aqui: I. Como Roboão foi fortalecido pela adesão dos sacerdotes e levitas, e de todos os israelitas devotos e piedosos, isto é, todos os que eram fiéis a seu Deus e à sua religião.

  1. Jeroboão os rejeitou: instituiu uma forma de culto que sabia que eles não poderiam aceitar em boa consciência, obrigando-os a afastar-se de seu altar. Ao mesmo tempo, não consentia que subissem a Jerusalém para adorar no altar de lá. Assim, impediu-os totalmente de exercer o ofício sacerdotal, v. 14.

Ele desejava muito que deixassem seus postos, para abrir espaço àquelas pessoas desprezíveis e escandalosas que ordenou sacerdotes para os lugares altos, v. 15. Compare 1 Reis 12:31. Não é de admirar que aquele que rejeitou a Deus também rejeitasse os ministros de Deus.

Eles não serviam aos propósitos de Jeroboão: não fariam tudo o que ele lhes ordenasse, não serviriam aos seus deuses nem adorariam a imagem de ouro que ele havia erguido.

  1. Por isso, deixaram os arredores de suas cidades e suas propriedades, v. 14. Da porção de cada tribo haviam sido concedidas cidades aos levitas, onde tinham um sustento confortável e oportunidade de fazer muito bem. Agora, porém, foram expulsos de todas as suas cidades, exceto das que ficavam em Judá e Benjamim.

Poderíamos pensar que seu sustento estava bem assegurado; ainda assim, eles o perderam. Era-lhes um consolo que a lei tantas vezes os lembrasse de que o Senhor era sua herança, e assim o encontrariam quando fossem expulsos de suas casas e propriedades. Por que, porém, deixaram suas propriedades?

(1.) Porque viram que não podiam fazer bem algum entre seus vizinhos, nos quais renasceu a antiga propensão à idolatria quando Jeroboão instituiu seus bezerros.

(2.) Porque eles próprios sofreriam a tentação contínua de fazer concessões indignas e correriam o risco de ser atraídos imperceptivelmente para o mal. Se oramos com sinceridade para não ser conduzidos à tentação, nós nos afastaremos dela tanto quanto pudermos e permaneceremos afastados.

(3.) Porque, se conservassem sua integridade, tinham motivos para esperar perseguição de Jeroboão e de seus filhos. Os sacerdotes que eles constituíram para os demônios não deixariam os sacerdotes do Senhor permanecer muito tempo entre eles.

Nenhuma vantagem temporal deve atrair-nos nem reter-nos onde corremos o risco de sofrer naufrágio quanto à fé e à boa consciência.

  1. Vieram a Judá e Jerusalém (v. 14) e se apresentaram a Roboão, v. 13, nota marginal. Onde deveriam estar os sacerdotes e levitas de Deus senão onde estava seu altar? Vieram para lá porque lhes cabia comparecer nas ocasiões determinadas.

(1.) Foi uma misericórdia para eles dispor de um refúgio para onde fugir. Quando Jeroboão os rejeitou, havia gente tão perto que os acolheu e lhes deu as boas-vindas, e eles não foram obrigados a ir para terras pagãs.

(2.) Foi prova de que amavam sua obra mais que seu sustento. Deixaram os arredores de suas cidades e suas propriedades no campo, onde poderiam ter vivido confortavelmente com seus próprios recursos, porque ali estavam impedidos de servir a Deus.

Ao ir para um lugar onde podiam desfrutar livremente das ordenanças de Deus, conforme ele as instituiu, confiaram-se à providência divina e à caridade de seus irmãos.

É preferível a pobreza no caminho do dever à abundância no caminho do pecado. Melhor viver de esmolas ou morrer numa prisão com boa consciência do que nadar em riqueza e prazer com uma consciência prostituída.

(3.) Foi sábio e louvável que Roboão e seu povo os acolhessem, embora talvez tenham precisado apertar-se para abrir-lhes espaço. Refugiados de boa consciência trazem uma bênção aos países que os acolhem, assim como deixam uma maldição para os que os expulsam.

“Abri os portões, para que entre a nação justa, que guarda a verdade”; essa será uma boa política. Veja Isaías 26:1, 2.

  1. Quando os sacerdotes e levitas chegaram a Jerusalém, todos os israelitas devotos e piedosos de cada tribo os seguiram. Aqueles que dispuseram o coração a buscar o Senhor, Deus de Israel, levavam a sério seu dever para com Deus e eram sinceros e resolutos nele.

Deixaram a herança de seus pais e foram morar em casas em Jerusalém, para ter livre acesso ao altar de Deus e ficar longe da tentação de adorar os bezerros, v. 16. Repare:

(1.) O que é melhor para a nossa alma é o melhor para nós; e, em todas as nossas escolhas, as vantagens para a religião devem ter precedência sobre todas as conveniências exteriores.

(2.) Onde estão os sacerdotes fiéis de Deus, ali deve estar seu povo fiel. Se Jeroboão rejeita os ministros de Deus, todo verdadeiro israelita se sentirá obrigado a reconhecê-los e a apoiá-los. Não abandone o levita, o levita expulso, enquanto você viver. Quando a arca se mover, mova-se você também e siga-a, Josué 3:3.

  1. Eles fortaleceram o reino de Judá (v. 17), não apenas por acrescentar-lhe tantas pessoas, que provavelmente trouxeram consigo tudo o que puderam de seus bens, mas porque, por sua piedade e suas orações, obtiveram uma bênção para o reino que lhes servia de santuário. Veja Zacarias 12:5.

É do interesse de uma nação proteger e incentivar a religião e as pessoas religiosas; isso contribui para sua força mais do que qualquer outra coisa. Durante três anos, eles fortaleceram Roboão e seu povo, pois por esse tempo estes andaram no caminho de Davi e Salomão, o bom caminho deles.

Quando, porém, o abandonaram e assim se privaram do favor e da proteção de Deus, os melhores amigos que tinham já não puderam ajudar a fortalecê-los. Conservamos nossa força enquanto permanecemos ligados a Deus e ao nosso dever, e não por mais tempo.

II. Como Roboão foi enfraquecido por entregar-se aos seus prazeres. Desejou muitas esposas, como seu pai (v. 23); contudo:

  1. Nisso foi mais sábio que seu pai: não parece ter-se casado com mulheres estrangeiras. As esposas mencionadas aqui eram não só filhas de Israel, mas também da família de Davi. Uma descendia de Eliabe, irmão de Davi (v. 18); outra, de Absalão, provavelmente o filho de Davi (v. 20); outra, de Jerimote, filho de Davi.

  2. Nisso foi mais feliz que seu pai: teve muitos filhos e filhas, ao passo que não lemos sobre mais de um filho de Salomão. Dificilmente se pode imaginar que ele não tivesse outros; mas, se os teve, não mereceram ser mencionados.

Vários dos filhos de Roboão, por sua vez, são aqui nomeados (v. 19, 20) como homens de destaque. Eram tão ativos que ele julgou prudente distribuí-los pelos territórios de Judá e Benjamim (v. 23). Talvez tenha feito isso:

(1.) Para que não rivalizassem com seu filho Abias, a quem designara como sucessor; ou, antes:

(2.) Porque podia confiar neles para preservar a paz e a segurança públicas. Podia entregar-lhes cidades fortificadas, que tomou o cuidado de abastecer bem de mantimentos, para que lhe fossem úteis em caso de invasão.

Sabedoria tardia é melhor do que nenhuma; ou melhor, como se diz: “O bom senso só vale depois de comprado”. A Roboão, porém, essa compra custou caro: a perda de um reino.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra