Matthew Henry

2 Coríntios 10

Argumento

Não havia lugar em que o apóstolo Paulo encontrasse mais oposição dos falsos apóstolos do que em Corinto; tinha muitos inimigos ali.

Nenhum dos ministros de Cristo ache estranho se encontrar perigos, não só da parte de inimigos, mas de falsos irmãos; pois o próprio bem-aventurado Paulo os encontrou.

Embora fosse tão irrepreensível e inofensivo em todo o seu comportamento, tão condescendente e útil a todos, contudo havia os que lhe tinham má vontade, que o invejavam e faziam tudo o que podiam para miná-lo e diminuir a sua influência e reputação.

Por isso, defende a si mesmo da imputação deles e arma os coríntios contra as suas insinuações. Neste capítulo, o apóstolo, de maneira branda e humilde, afirma o poder da sua pregação e de punir ofensores, vv. 1-6.

Depois prossegue discutindo o caso com os coríntios, afirmando a sua relação com Cristo e a sua autoridade como apóstolo de Cristo (vv. 7-11), e se recusa a justificar a si mesmo ou a agir pelas regras pelas quais os falsos mestres agiam, mas segundo as regras melhores que havia fixado para si mesmo, v. 12 até o fim.

Versículos 1 a 6

A Autoridade Espiritual do Apóstolo. (d.C. 57.)

Aqui podemos observar:

I. A maneira branda e humilde como o apóstolo bem-aventurado se dirige aos coríntios e quanto deseja que nenhuma ocasião lhe seja dada para usar severidade:

  1. Dirige-se a eles de maneira muito branda e humilde: “Eu mesmo, Paulo, vos rogo”, v. 1. Encontramos, na introdução a esta epístola, que associou Timóteo a si mesmo; mas agora fala só por si mesmo, contra quem os falsos apóstolos haviam particularmente dirigido os seus descréditos.

Contudo, no meio das maiores provocações, mostra humildade e brandura, pela consideração da mansidão e gentileza de Cristo, e deseja que esse grande exemplo tenha a mesma influência nos coríntios. Repare:

Quando nos encontramos tentados ou inclinados a ser ásperos e severos para com alguém, devemos pensar na mansidão e gentileza de Cristo, que apareceram nele nos dias da sua carne, no desígnio do seu empreendimento e em todos os atos da sua graça para com as pobres almas.

Quão humildemente também esse grande apóstolo fala de si mesmo, como alguém que em presença é insignificante entre eles! Assim os seus inimigos falavam dele com desprezo, e ele parece reconhecê-lo.

Ao passo que outros tinham baixa opinião dele e falavam dele com escárnio, ele tinha baixa opinião de si mesmo e falava humildemente de si mesmo. Repare: Devemos ter consciência das nossas próprias fraquezas e pensar humildemente de nós mesmos, até quando os homens nos põem em descrédito por elas.

  1. Deseja que nenhuma ocasião seja dada para usar severidade, v. 2. Roga-lhes que não deem ocasião para ser ousado, ou exercer a sua autoridade contra eles em geral, como havia resolvido fazer contra alguns que o acusavam injustamente de andar segundo a carne.

Isto é, regular a sua conduta, até nas suas ações ministeriais, segundo a sagacidade carnal ou com perspectivas mundanas. Isso era o que o apóstolo havia renunciado, e isso é contrário ao espírito e desígnio do evangelho, e estava longe de ser o alvo e desígnio do apóstolo. Diante disso:

II. Afirma o poder da sua pregação e o seu poder para punir ofensores:

  1. O poder da sua pregação, v. 3, 5. Observe aqui:

(1.) A obra do ministério é uma guerra, de fato não segundo a carne, pois é uma guerra espiritual, com inimigos espirituais e para propósitos espirituais.

E, embora os ministros andem na carne, ou vivam no corpo, e nos assuntos comuns da vida ajam como outros homens, contudo, na sua obra e guerra, não devem se guiar pelas máximas da carne, nem ter por desígnio agradar à carne. Esta deve ser crucificada com as suas afeições e concupiscências; deve ser mortificada e mantida subjugada.

(2.) As doutrinas do evangelho e a disciplina da igreja são as armas dessa guerra; e estas não são carnais. A força exterior, por isso, não é o método do evangelho, mas fortes persuasões, pelo poder da verdade e pela mansidão da sabedoria.

Uma boa razão é esta contra a perseguição por causa da consciência: a consciência presta contas somente a Deus; e as pessoas devem ser persuadidas a se voltar para Deus e cumprir o seu dever, não impelidas pela força das armas.

E assim as armas da nossa guerra são poderosas, ou muito potentes; a evidência da verdade é convincente e persuasiva.

Isso de fato é por Deus, ou se deve a ele, porque são instituições dele, e acompanhadas da sua bênção, que faz toda oposição cair diante do seu evangelho vitorioso. Podemos observar aqui:

[1.] Que oposição é feita ao evangelho pelos poderes do pecado e de Satanás no coração dos homens.

Ignorância, preconceitos e concupiscências amadas são as fortalezas de Satanás nas almas de alguns; imaginações vãs, raciocínios carnais e pensamentos elevados, ou conceitos orgulhosos, em outros, se exaltam contra o conhecimento de Deus.

Isto é, por esses caminhos o diabo se esforça para afastar os homens da fé e obediência ao evangelho e assegura a sua posse do coração dos homens, como sua própria casa ou propriedade. Mas então observe:

[2.] A vitória que a palavra de Deus obtém. Essas fortalezas são derrubadas pelo evangelho como meio, pela graça e poder de Deus que o acompanham como a principal causa eficiente. Repare: A conversão da alma é a vitória sobre Satanás nessa alma.

  1. O poder do apóstolo para punir ofensores (e isso de maneira extraordinária) é afirmado no v. 6. O apóstolo era um primeiro-ministro no reino de Cristo e principal oficial no seu exército.

E tinha em prontidão (isto é, tinha poder e autoridade à mão) vingar toda desobediência, ou punir ofensores de maneira extremamente exemplar e extraordinária.

O apóstolo não fala de vingança pessoal, mas de punir a desobediência ao evangelho e o andar desordeiro entre membros da igreja, infligindo censuras da igreja. Repare:

Embora o apóstolo mostrasse mansidão e gentileza, contudo não trairia a sua autoridade; e, por isso, indica que, quando elogiasse aqueles cuja obediência se cumprira ou manifestara, outros cairiam sob censuras severas.

Versículos 7 a 11

A Autoridade Espiritual do Apóstolo. (d.C. 57.)

Nesses versículos o apóstolo prossegue discutindo o caso com os coríntios, em oposição aos que o desprezavam, julgavam e falavam dele com dureza: “Vós”, diz ele, “olhais as coisas segundo a aparência exterior?”, v. 7.

“É esta uma medida ou regra adequada para avaliar coisas ou pessoas e julgar entre mim e os meus adversários?” Na aparência exterior, Paulo era insignificante e desprezível para alguns; não tinha destaque, como talvez alguns dos seus competidores tivessem; mas essa era uma regra falsa para julgar.

Ao que parece, alguns se gabavam de coisas grandiosas acerca de si mesmos e faziam uma bela exibição. Mas frequentemente há aparências falsas. Um homem pode parecer erudito sem ter aprendido Cristo, e parecer virtuoso quando não tem um princípio de graça no seu coração.

Porém, o apóstolo afirma duas coisas acerca de si mesmo:

I. A sua relação com Cristo: “Se alguém confia em si mesmo que é de Cristo, assim também nós somos de Cristo”, v. 7. Pareceria por isso que os adversários de Paulo se gabavam da sua relação com Cristo como seus ministros e servos.

Ora, o apóstolo discute assim com os coríntios: “Suponham que seja assim, consentindo que seja verdadeiro o que dizem.”

(E observemos que, numa discussão justa, devemos consentir tudo o que possa ser razoavelmente concedido. E não devemos pensar ser impossível que os que divergem de nós muito possam contudo pertencer a Cristo, assim como nós.)

“Consentindo a eles”, poderia dizer o apóstolo, “aquilo de que se gabam, contudo também devem consentir isto a nós: que nós também somos de Cristo.” Repare:

  1. Não devemos, pelas concessões mais caridosas que fazemos a outros que divergem de nós, separar a nós mesmos de Cristo nem negar a nossa relação com ele. Pois:

  2. Há lugar em Cristo para muitos; e os que divergem muito uns dos outros podem contudo ser um nele.

Ajudaria a curar as diferenças que há entre nós se lembrássemos que, por mais confiantes que sejamos de pertencer a Cristo, contudo, ao mesmo tempo, devemos consentir que os que divergem de nós podem pertencer a Cristo também e, por isso, devem ser tratados de acordo com isso.

Não devemos pensar que nós somos o povo e que ninguém pertence a Cristo senão nós mesmos.

Podemos apelar por isso em nosso favor contra os que nos julgam e desprezam: por mais fracos que sejamos, contudo, assim como eles são de Cristo, assim somos nós. Professamos a mesma fé, andamos pela mesma regra, construímos sobre o mesmo fundamento e esperamos a mesma herança.

II. A sua autoridade de Cristo como apóstolo. Havia mencionado isso antes (v. 6), e agora lhes diz que poderia falar disso novamente, e isso com alguma espécie de gabar-se, visto ser uma verdade que o Senhor lhe dera essa autoridade, e era mais do que os seus adversários podiam justamente alegar.

Era certamente aquilo de que não deveria se envergonhar, v. 8. Acerca disso observe:

  1. A natureza da sua autoridade: era para edificação, e não para destruição. Este de fato é o fim de toda autoridade, civil e eclesiástica, e era o fim daquela autoridade extraordinária que os apóstolos tinham e de toda disciplina da igreja.

  2. A cautela com que fala da sua autoridade, professando que o seu desígnio não era aterrorizá-los com grandes palavras, nem por cartas iradas, v. 9. Assim parece antecipar uma objeção que poderia ter sido formada contra ele, v. 10.

Mas o apóstolo declara que não pretendia assustar os obedientes, nem escrevia nada nas suas cartas que não pudesse cumprir por atos contra os desobedientes.

E queria que os seus adversários soubessem isso (v. 11): que, pelo exercício do seu poder apostólico a ele confiado, tornaria manifesto que tinha eficácia real.

Versículos 12 a 18

O Apóstolo Afirma as Suas Reivindicações. (d.C. 57.)

Nesses versículos observe:

I. O apóstolo se recusa a justificar a si mesmo ou a agir pelas regras pelas quais os falsos apóstolos agiam, v. 12. Indica claramente que tomavam um método errado para elogiar a si mesmos, medindo a si mesmos por si mesmos e comparando a si mesmos entre si, o que não era sábio.

Estavam contentes e se orgulhavam das suas próprias realizações, e nunca consideravam os que muito os excediam em dons e graças, em poder e autoridade; e isso os tornava altivos e insolentes. Repare:

Se comparássemos a nós mesmos com outros que nos superam, esse seria um bom método para nos conservar humildes. Deveríamos estar contentes e agradecidos pelo que temos de dons ou graças, mas nunca nos orgulhar disso, como se não houvesse ninguém que se comparasse conosco ou nos superasse.

O apóstolo não queria pertencer ao número de tais homens vãos; resolvamos que não nos faremos desse número.

II. Fixa uma regra melhor para a sua conduta, a saber, não se gabar de coisas fora da sua medida, que era a medida que Deus lhe havia distribuído, v. 13.

O seu significado é ou que não se gabaria de mais dons ou graças, ou poder e autoridade, do que Deus realmente lhe havia concedido; ou, antes, que não agiria além da sua comissão quanto a pessoas ou coisas, nem iria além da linha que lhe fora prescrita.

Isso, como indica claramente, era o que os falsos apóstolos faziam, ao passo que se gabavam dos trabalhos de outros homens. A resolução do apóstolo era manter-se dentro da sua própria esfera e daquela extensão de terreno que Deus lhe havia demarcado.

A sua comissão como apóstolo era pregar o evangelho em todos os lugares, especialmente entre os gentios, e não se limitava a um lugar; contudo observava as orientações da Providência e do Espírito Santo quanto aos lugares particulares aonde ia ou onde permanecia.

III. Agia segundo essa regra: “Não nos estendemos além da nossa medida”, v. 14.

E, particularmente, agia segundo essa regra na pregação em Corinto e no exercício da sua autoridade apostólica ali; pois foi para lá por orientação divina, e ali converteu muitos ao cristianismo.

E, por isso, ao se gabar deles como sua incumbência, não agia contra a sua regra, não se gabava dos trabalhos de outros homens, v. 15.

IV. Declara o seu êxito em observar essa regra. A sua esperança era que a fé deles tivesse aumentado e que outros além deles, até nas partes mais remotas da Acaia, abraçassem o evangelho também; e em tudo isso não excedia a sua comissão nem agia na linha de outro homem.

V. Parece conter a si mesmo nessa questão, como se tivesse falado demais no seu próprio louvor.

As acusações e críticas injustas dos seus inimigos haviam tornado necessário justificar a si mesmo; e os métodos errados que tomavam lhe davam boa ocasião para mencionar a regra melhor que observara.

Contudo teme gabar-se, ou tomar qualquer louvor para si mesmo, e, por isso, menciona duas coisas que devem ser consideradas:

  1. Quem se gloria deve gloriar-se no Senhor, v. 17. Se somos capazes de fixar boas regras para a nossa conduta, ou agir por elas, ou ter qualquer bom êxito em fazê-lo, o louvor e glória de tudo se devem a Deus.

Os ministros em particular devem ser cuidadosos em não se gloriar das suas realizações, mas devem dar a Deus a glória da sua obra e do seu êxito.

  1. “Não é aprovado quem elogia a si mesmo, mas aquele a quem o Senhor elogia”, v. 18. De toda adulação, a adulação de si mesmo é a pior, e o aplauso de si mesmo raramente é melhor que a adulação de si mesmo e o engano de si mesmo.

Na melhor hipótese, o elogio de si mesmo não é louvor, e frequentemente é tão insensato e vão quanto orgulhoso. Por isso, em vez de louvar ou elogiar a nós mesmos, devemos contender para nos mostrar aprovados diante de Deus, e a sua aprovação será o nosso melhor elogio.


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