Matthew Henry

1 Samuel 6

Argumento

Neste capítulo, vemos o retorno da arca à terra de Israel, para onde agora a acompanharemos com alegria.

I. Veremos como os filisteus a despacharam, por conselho de seus sacerdotes (vv. 1-11), com ricos presentes ao Deus de Israel, para fazer expiação pelo pecado deles (vv. 3-5), embora planejassem trazê-la de volta caso a Providência não dirigisse as vacas, contra sua inclinação, para a terra de Israel (v. 8, 9).

II. Veremos como os israelitas a receberam: 1. Com grande alegria e sacrifícios de louvor (vv. 12-18); 2. Com curiosidade ousada demais para olhar dentro dela, pela qual muitos foram mortos; aterrorizados com isso, enviaram-na adiante, para outra cidade (vv. 19-21).

Versículos 1 a 9

A Arca Entre os Filisteus. (a.C. 1120.)

As primeiras palavras do capítulo dizem por quanto tempo a arca ficou cativa: permaneceu sete meses no território dos filisteus. “No campo dos filisteus”, diz o original.

Alguns entendem que, depois de tentarem mantê-la em todas as suas cidades e verem que era uma praga para os habitantes de cada uma, por fim a levaram para os campos abertos. Ali, camundongos saíram da terra em grande quantidade, destruíram o cereal que estava quase maduro e devastaram a região.

Essa praga também os afligiu (v. 5), embora não seja mencionada no capítulo anterior. Assim, Deus lhes mostrou que, para onde quer que levassem a arca, enquanto a mantivessem cativa, ela seria uma maldição para eles: “Maldito serás tu na cidade e maldito serás no campo” (Deuteronômio 28:16). Mas a maioria entende que a expressão significa, como traduzimos, “o território dos filisteus”.

  1. Durante sete meses, Israel foi castigado pela ausência da arca, esse sinal especial da presença de Deus. Como o tabernáculo parecia vazio sem ela! Como a cidade santa se tornara desolada e a terra santa, um deserto! Sem dúvida, foi um período melancólico para os piedosos entre eles, especialmente para Samuel.

Mas eles tinham este consolo, assim como nós também o temos em aflição semelhante, quando privados do consolo das ordenanças públicas: onde quer que esteja a arca, o Senhor está em seu santo templo; o trono do Senhor está nos céus, e pela fé e oração podemos nos aproximar dele ali com ousadia. Mesmo distante da arca, podemos ter Deus perto de nós.

  1. Durante sete meses, os filisteus foram castigados pela presença da arca. Ela foi uma praga para eles por tanto tempo porque não a mandaram de volta antes. Repare: os pecadores prolongam as próprias misérias quando se recusam obstinadamente a abandonar seus pecados.

As pragas do Egito teriam sido menos de dez se o coração do faraó não tivesse se endurecido contra a libertação do povo. Por fim, porém, decidiram que a arca precisava ser devolvida: não havia outra saída; seriam arruinados se a retivessem.

I. Os sacerdotes e adivinhos foram consultados a respeito (v. 2). Supunha-se que conhecessem bem tanto as regras da sabedoria quanto os ritos de adoração e expiação.

Como os israelitas eram seus vizinhos e famosos acima de todos os povos por suas instituições religiosas, sem dúvida os filisteus tinham curiosidade de conhecer suas leis e costumes. Por isso, era apropriado perguntar: “Que faremos com a arca de Jeová?”

Todas as nações sempre respeitaram seus sacerdotes como homens cujos lábios guardam o conhecimento. Os filisteus tinham adivinhos? Nós temos teólogos, a quem devemos perguntar com que nos apresentaremos diante do Senhor e nos curvaremos diante do Deus Altíssimo.

II. Os sacerdotes deram conselhos bem detalhados e parecem ter concordado inteiramente. É surpreendente que, como patriotas, não tivessem oferecido o conselho por iniciativa própria, ex officio, isto é, por dever de ofício, antes que lhes perguntassem.

  1. Com o exemplo do faraó e dos egípcios, insistiram que era absolutamente necessário devolver a arca (v. 6). Talvez alguns relutassem em ceder e quisessem continuar tentando conviver com ela por mais algum tempo. A esses perguntaram: “Por que vocês endurecem o coração, como fizeram os egípcios e o faraó?”

Ao que parece, conheciam bem a história de Moisés e podiam citar exemplos dela. Devemos aproveitar os registros que restam dos juízos de Deus contra pecadores obstinados para aprender a não endurecer o coração como eles. É muito mais barato aprender com a experiência alheia do que com a nossa.

Por fim, os egípcios foram obrigados a deixar Israel partir; portanto, os filisteus deveriam ceder a tempo e deixar a arca partir.

  1. Aconselharam que, ao devolvê-la, enviassem com ela uma oferta pela culpa (v. 3). Quaisquer que fossem os deuses das outras nações, sabiam que o Deus de Israel era zeloso e exigia rigorosamente ofertas pelo pecado e pela culpa de seu próprio povo.

Como viram quanto ele se indignara com a afronta de manter sua arca cativa, aqueles com quem ele tinha tal contenda precisavam, sem falta, devolver-lhe uma oferta pela culpa; não poderiam esperar ser curados em outras condições. A justiça ofendida exige reparação. Até aí, a luz natural ensinava os homens.

Mas, quando começaram a imaginar que reparação seria essa, tornaram-se miseravelmente fúteis em seus pensamentos. Quem, por pecado deliberado, aprisionou a verdade pela injustiça, como os filisteus fizeram com a arca (Romanos 1:18), pode concluir que não fará paz com aquele a quem ofendeu sem uma oferta pelo pecado. Sabemos, porém, que só há um que pode tirar o pecado.

  1. Orientaram-nos a fazer da oferta pela culpa o reconhecimento de que estavam sendo punidos por sua iniquidade. Assim, reconheceriam a própria vergonha como vencidos, rendidos e culpados diante de Deus, e dariam glória ao Deus de Israel como poderoso vencedor e justíssimo vingador (v. 5).

Deveriam fazer imagens dos tumores, isto é, dos inchaços e feridas que os haviam afligido, tornando perpétua, por ato próprio, a lembrança daquela doença vergonhosa (Salmos 78:66).

Também deveriam fazer imagens dos camundongos que haviam devastado a região, reconhecendo assim o poder todo-poderoso do Deus de Israel, capaz de castigá-los e humilhá-los, mesmo no dia do triunfo, por meio de animais tão pequenos e desprezíveis.

As imagens deveriam ser de ouro, o metal mais precioso, para indicar que aceitariam comprar a paz com o Deus de Israel a qualquer preço e não considerariam o ouro, nem muito ouro puro, caro demais. Os tumores de ouro deveriam ser cinco, um para cada governante, que provavelmente sofria deles e aceitava reconhecê-lo desse modo.

Também se aconselhou que os camundongos de ouro fossem cinco; mas, como parece que eles infestaram toda a região, depois de refletirem melhor enviaram mais, segundo o número tanto das cidades fortificadas quanto das aldeias do campo (v. 18). Os sacerdotes os lembraram de que todos haviam sofrido a mesma praga.

Não podiam culpar uns aos outros, pois todos eram culpados, como ficou evidente porque todos foram atingidos.

A proposta de uma oferta pela culpa por sua ofensa era bastante compatível com a revelação divina de então; mas usar coisas como aquelas para ofertas pela culpa estava muito distante do que a lei de Moisés determinava e mostrava que desconheciam profundamente os meios de reconciliação estabelecidos por ela. A lei mostra, do começo ao fim, que é o sangue, não o ouro, que faz expiação pela alma.

  1. Encorajaram-nos a esperar que, assim, encontrariam um meio eficaz de se livrar da praga: “Vocês serão curados” (v. 3). Ao que parece, a doença resistia obstinadamente a todos os tratamentos prescritos pelos médicos.

Os sacerdotes aconselharam, portanto, que mandassem a arca de volta; e então, diziam eles, “será sabido por vocês por que a mão dele não se retirou de vocês”. Isso mostraria se a praga lhes sobreviera por terem retido a arca; se fosse esse o motivo, a praga cessaria quando a entregassem.

Às vezes, Deus leva seu povo a fazer uma prova assim: será que a reforma não lhes trará alívio? “Provai-me agora nisto, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3:10; Ageu 2:18, 19). Ainda assim, falaram com dúvida (v. 5): “Talvez ele alivie a sua mão de sobre vocês”.

Parecia que começavam a pensar que o juízo vinha da mão de Deus, mas talvez não cessasse imediatamente quando devolvessem a arca. De qualquer forma, esse era o meio mais provável de obter misericórdia. Removida a causa, cessará o efeito.

  1. Ainda assim, indicaram um modo de fazer outra prova e descobrir se fora a mão do Deus de Israel que os ferira com aquelas pragas.

Em honra à arca, deveriam colocá-la numa carroça ou carruagem nova, puxada por duas vacas que amamentavam bezerros que mamavam nelas todos os dias (v. 7), nunca acostumadas a puxar carga e inclinadas a voltar para casa, tanto por causa do cocho em que eram alimentadas quanto dos bezerros que criavam.

Além disso, elas não conheciam o caminho para a terra de Israel. Ninguém deveria conduzi-las ou guiá-las; deveriam seguir por conta própria. Por todos os motivos, seria de esperar que voltassem para casa.

Se, depois de todos os outros milagres que já realizara, o Deus de Israel não fizesse mais um e, por poder invisível, conduzisse essas vacas para a terra de Israel, contrariando o instinto e a inclinação naturais delas, especialmente até Bete-Semes, os filisteus voltariam atrás no que haviam dito.

Então acreditariam que não fora a mão de Deus que os ferira, mas um acaso (v. 8, 9). Assim, Deus permitiu que esses filisteus incircuncisos, depois de já o terem afrontado de outras maneiras, o pusessem à prova e lhe impusessem condições. Será que aceitariam submeter a honra de Dagom, seu deus, a uma prova dessas?

Veja como os maus se dispõem a afastar de si a convicção de que a mão de Deus está sobre eles e a crer, em meio à aflição, que tudo lhes aconteceu por acaso. Se fosse assim, a vara não teria voz que eles precisassem ouvir ou atender.

Versículos 10 a 18

A Restauração da Arca. (a.C. 1119.)

Temos aqui:

I. Como os filisteus despacharam a arca (v. 10, 11). Ficaram tão contentes em se livrar dela quanto haviam ficado em tomá-la. Assim como Deus tirou Israel da casa da escravidão, agora tirou a arca do cativeiro, de modo que “o Egito se alegrou quando eles partiram” (Salmos 105:38).

  1. Não receberam dinheiro nem preço pelo resgate da arca, como esperavam receber, até mais que o resgate de um rei. Assim foi profetizado a respeito de Ciro: “Ele deixará partir os meus cativos, não por preço nem por recompensa” (Isaías 45:13). Ou melhor: 2. Deram joias de ouro, como os egípcios deram aos israelitas, para se livrar dela.

Assim, a arca, levada como troféu da vitória para a terra dos filisteus, voltou levando seus próprios troféus e monumentos duradouros da vergonha dos filisteus. Repare: no fim, a glória de Deus não sairá perdendo com as vitórias dos inimigos da igreja contra a sua arca; ele obterá honra daqueles que procuram desonrá-lo.

II. Como as vacas a levaram à terra de Israel (v. 12). Seguiram em linha reta para Bete-Semes, a cidade mais próxima dentro da terra de Israel, uma cidade sacerdotal, e não se desviaram. Foi uma demonstração maravilhosa do poder de Deus sobre os animais e, considerando todos os aspectos, um verdadeiro milagre.

O gado, que não estava acostumado ao jugo, puxou a carroça com tanta firmeza e ordem, sempre avançando. Sem condutor, deixou a casa, para a qual todos os animais domésticos têm inclinação natural, e afastou-se dos próprios bezerros, pelos quais tinha afeição natural.

Sem guia, tomou a estrada reta para Bete-Semes, cidade a oito ou dez milhas dali; não perdeu o caminho, não se desviou pelos campos para pastar e não voltou para casa a fim de alimentar os bezerros. As vacas seguiram mugindo por seus filhotes, mostrando que não os haviam esquecido e que a natureza sentia a dor de se afastar deles.

Por isso, o poder do Deus da natureza se mostrou ainda maior ao dominar um dos instintos naturais mais fortes. Segundo o doutor Lightfoot, essas duas vacas reconheceram seu dono, o grande Dono delas (Isaías 1:3), ao contrário de Hofni e Fineias, que não o reconheceram.

Acrescento que elas levaram a arca de volta para envergonhar a estupidez de Israel, que não fizera nenhuma tentativa de trazê-la para casa. A providência de Deus atua até nos movimentos dos animais e os emprega para cumprir seus propósitos.

Os governantes dos filisteus, sem dúvida com um séquito apropriado, foram atrás das vacas, maravilhados com o poder do Deus de Israel. Assim, aqueles que pensavam triunfar sobre a arca foram obrigados a segui-la como criados.

III. Como a arca foi recebida na terra de Israel. Os homens de Bete-Semes estavam colhendo o trigo (v. 13). Cuidavam de seus negócios e não se preocupavam com a arca; nem sequer perguntaram o que acontecera com ela.

Se tivessem perguntado, talvez soubessem antes da chegada e pudessem ir ao encontro da arca para conduzi-la ao seu território. Mas foram tão descuidados quanto os que revestiam as próprias casas e deixavam a casa de Deus em ruínas. Repare: Deus realizará, em seu próprio tempo, o livramento da igreja, não só quando os inimigos lutam contra ela, mas também quando os amigos a negligenciam.

Alguns observam que, ao voltar, a arca encontrou os homens de Bete-Semes não ociosos nem brincando pelas ruas da cidade, mas trabalhando na colheita do trigo em seus campos.

Assim também as notícias do nascimento de Cristo foram levadas aos pastores quando vigiavam o rebanho durante a noite. O diabo visita os ociosos com suas tentações; Deus visita os trabalhadores com seus favores.

A mesma mão invisível que dirigiu as vacas à terra de Israel conduziu-as ao campo de Josué. Ali elas pararam. Alguns pensam que foi por causa do dono, homem muito bom a quem, supõem, Deus quis conceder essa honra. Prefiro pensar que foi por causa da grande pedra naquele campo, que era conveniente para colocar a arca e é mencionada em v. 14, 15, 18.

  1. Quando os ceifeiros viram a arca, alegraram-se (v. 13); a alegria que sentiram foi maior que a alegria da colheita, por isso deixaram o trabalho para saudá-la. Quando o Senhor restaurou o cativeiro da sua arca, eles ficaram como quem sonha; então a boca se lhes encheu de riso (Salmos 126:1, 2).

Embora não tivessem zelo e coragem suficientes para tentar resgatá-la ou pagar seu resgate, quando ela chegou, receberam-na de coração. Repare: o retorno da arca e a restauração das ordenanças sagradas, depois de dias de restrição e aflição, não podem deixar de ser motivo de grande alegria para todo israelita fiel.

  1. Ofereceram as vacas em holocausto, para a honra de Deus, e usaram a madeira da carroça como lenha (v. 14). É provável que os filisteus pretendessem que elas fossem parte da oferta pela culpa que enviaram, para fazer expiação (v. 3, 7).

De qualquer maneira, os homens de Bete-Semes consideraram apropriado usá-las assim, pois de modo algum seria adequado dar outro uso a elas. Aquela carroça jamais transportaria algo comum depois de ter levado o símbolo sagrado da presença divina; e as vacas haviam sido guiadas tão diretamente pelo céu que, por assim dizer, Deus já as reivindicara.

Elas eram servas de Deus e, portanto, deveriam ser sacrificadas a ele. Sem dúvida, foram aceitas, embora fossem fêmeas, quando, em sentido estrito, todo holocausto deveria ser de um macho.

  1. Depositaram a arca e o cofre com as joias oferecidas pelos filisteus sobre a grande pedra, em campo aberto. Era um abrigo frio e muito humilde para a arca do Senhor, mas ainda assim era melhor do que o templo de Dagom ou as mãos dos filisteus.

É desejável ver a arca em sua morada com toda a solenidade e esplendor; mas é melhor tê-la sobre uma grande pedra, nos campos da floresta, do que ficar sem ela. A grandeza intrínseca das ordenanças instituídas não deve parecer menor aos nossos olhos por causa da pobreza e simplicidade do lugar em que são ministradas.

Como a queima da carroça e das vacas que trouxeram a arca para casa podia ser entendida como sinal de que esperavam que ela nunca mais fosse levada para fora da terra de Israel, colocá-la sobre uma grande pedra podia indicar a esperança de que voltasse a se firmar sobre um alicerce sólido. A igreja está edificada sobre uma rocha.

  1. Ofereceram a Deus sacrifícios de gratidão. Alguns pensam que o fizeram sobre a grande pedra; é mais provável que tenham usado um altar de terra construído para esse fim (v. 15).

Como a situação era extraordinária, abriu-se exceção à lei que exigia sacrifícios no altar do pátio do tabernáculo. Isso foi ainda mais fácil porque Siló estava desmantelada: Deus a abandonara, e a arca, sua principal glória, estava com eles naquele lugar.

Bete-Semes ficava dentro do território da tribo de Dã, mas pertencia a Judá; assim, a chegada acidental da arca ali indicava que, com o tempo, ela seria estabelecida naquela região.

Era uma das cidades concedidas, dentre a herança de Judá, aos filhos de Arão (Josué 21:16). Quando Deus rejeitou o tabernáculo de José, escolheu a tribo de Judá (Salmos 78:67, 68). A arca deveria ir para onde, senão para uma cidade sacerdotal?

Foi bom que houvesse sacerdotes daquela ordem sagrada prontos para desmontar a arca e oferecer os sacrifícios. Embora no v. 15 sejam chamados levitas, parece que eram sacerdotes.

  1. Os governantes dos filisteus voltaram a Ecrom, provavelmente muito impressionados com o que tinham visto da glória de Deus e do zelo dos israelitas, mas sem abandonar a adoração de Dagom. Quão raro é uma nação trocar seus deuses, embora não sejam deuses! (Jeremias 2:11).

Embora não pudessem deixar de reconhecer o Deus de Israel como glorioso em santidade e temível nos louvores, estavam decididos a considerar Baal-Zebube, o deus de Ecrom, pelo menos tão bom quanto ele. Apegaram-se a esse deus porque era o deles.

  1. Nota-se que a grande pedra continuava no mesmo lugar: “Ela está ali até o dia de hoje” (v. 18), pois permaneceu como memorial duradouro desse grande acontecimento e serviu para sustentar a história transmitida pela tradição às gerações futuras.

Os pais diriam aos filhos: “Esta é a pedra sobre a qual puseram a arca de Deus quando ela saiu das mãos dos filisteus, coisa que jamais deve ser esquecida”.

Versículos 19 a 21

A Arca em Bete-Semes. (a.C. 1119.)

Temos aqui: 1. O pecado dos homens de Bete-Semes: “Olharam para dentro da arca do Senhor” (v. 19). Todo israelita ouvira falar muito da arca e sentia profunda reverência por ela; mas haviam sido ensinados que ela ficava guardada atrás de um véu e que nem o sumo sacerdote podia olhar para ela, a não ser uma vez por ano, e então por trás de uma nuvem de incenso.

Talvez isso levasse muitos a dizer, como costumamos cobiçar o que é proibido, quanto dariam para vê-la. Podemos supor que alguns homens de Bete-Semes se alegraram ao ver a arca (v. 13) por esse motivo, mais do que pelo bem público. Ainda assim, não se contentaram: podiam vê-la, mas foram além; tiraram a cobertura, que provavelmente estava pregada ou aparafusada, e olharam dentro dela.

Sob o pretexto de verificar se os filisteus não haviam retirado as duas tábuas ou as danificado de algum modo, queriam, na verdade, satisfazer a própria curiosidade pecaminosa, intrometendo-se em coisas que Deus julgara adequado ocultar deles. Repare: é uma grande afronta a Deus que homens presunçosos se intrometam nos segredos que não lhes pertencem (Deuteronômio 29:29; Colossenses 2:18).

Todos fomos arruinados pela ambição de obter conhecimento proibido. O que tornou tão pecaminoso olhar dentro da arca foi a opinião baixa e desprezível que tinham dela. A familiaridade que tiveram com ela nessa ocasião gerou desprezo e irreverência.

Talvez tenham presumido que, por serem sacerdotes, podiam fazê-lo; mas a dignidade do ofício ministerial está longe de desculpar o tratamento descuidado e irreverente das coisas sagradas: torna-o ainda mais grave. Pelo exemplo, deveriam ter ensinado os outros a manter distância e olhar para a arca com santo temor.

Talvez tenham presumido que, por terem recebido bem a arca e oferecido sacrifícios para dar-lhe as boas-vindas, ela lhes devesse algo e lhes fosse permitido compensar-se com a satisfação de olhar dentro dela. Mas ninguém pense que o serviço prestado a Deus o justifica em qualquer gesto de desrespeito ou irreverência pelas coisas de Deus.

Ou talvez tenham presumido por causa das condições humildes em que a arca se encontrava: acabara de sair do cativeiro e ainda não tinha morada fixa. Agora que estava sobre uma pedra fria, pensaram que podiam tratá-la sem cerimônia; nunca teriam outra oportunidade de tanta familiaridade com ela.

Ofendemos a Deus quando pensamos pouco de suas ordenanças por causa da simplicidade com que são ministradas. Se tivessem olhado para a arca com entendimento, sem julgar apenas pela aparência exterior, teriam percebido que ela nunca resplandecera com majestade maior do que então.

Ela triunfara sobre os filisteus e saíra da casa da escravidão, como Cristo saiu do túmulo, por seu próprio poder. Se tivessem considerado isso, não teriam olhado para dentro dela como se fosse um baú comum.

  1. O castigo por esse pecado: Deus feriu muitos homens de Bete-Semes, e houve grande mortandade. Como Deus zela pela honra de sua arca! Não permitirá que seja profanada. Não se enganem: de Deus não se zomba.

Os que não temerem a sua bondade e não tratarem com reverência os sinais de sua graça sentirão a sua justiça e sucumbirão aos sinais de seu desagrado. Os que investigam o que é proibido e se aproximam demais do fogo sagrado descobrirão que isso lhes custará caro.

Deus feriu 50.070 homens. A contagem dos mortos é apresentada no original de modo muito incomum. Além de parecer improvável que houvesse tantos culpados e tantos mortos, isso levou muitos estudiosos a questionar se entendemos corretamente a passagem. No original, lê-se: “Feriu no (ou entre o) povo setenta homens, cinquenta mil homens”.

As versões siríaca e árabe dizem: cinco mil e setenta homens. A versão caldeia diz: setenta homens dentre os anciãos e cinquenta mil dentre o povo comum. Alguns entendem que os setenta homens tinham o mesmo valor que cinquenta mil, por serem sacerdotes.

Alguns pensam que os setenta homens eram os habitantes de Bete-Semes mortos por olharem para dentro da arca, e os cinquenta mil eram os que a arca matou na terra dos filisteus. Outros entendem que ele feriu setenta homens, isto é, cinquenta de cada mil: um em vinte, uma decimação pela metade.

A Septuaginta lê quase como nós: feriu setenta homens e cinquenta mil homens. Josefo diz que apenas setenta foram mortos.

  1. O terror que esse golpe severo causou aos homens de Bete-Semes. Disseram, e com razão: “Quem pode ficar em pé diante deste Senhor Deus santo?” (v. 20).

Alguns pensam que isso exprime a queixa deles contra Deus, como se ele os tivesse tratado com dureza e injustiça. Em vez de se acusarem e reconhecerem os próprios pecados, queixaram-se de Deus e de seus juízos, assim como Davi ficou indignado num caso não muito diferente (2 Samuel 6:8, 9).

Prefiro pensar que suas palavras expressam a adoração reverente e cheia de temor que prestaram a Deus: ao Senhor Deus, ao Senhor Deus santo, diante de quem ninguém pode permanecer. Inferiram isso daquele juízo terrível: “Quem pode ficar diante do Deus da arca?”

Permanecer diante de Deus para adorá-lo — bendito seja o nome dele — não é impossível: por meio de Cristo somos convidados, encorajados e capacitados a fazê-lo. Mas não podemos permanecer diante de Deus para contender com ele. Quem pode ficar diante do trono de sua glória imediata e olhar de frente para esse trono? (1 Timóteo 6:16).

Quem pode ficar diante do tribunal de sua justiça inflexível e sustentar ali a própria causa? (Salmos 130:3; 143:2). Quem pode ficar diante do braço de seu poder provocado e resistir aos seus golpes ou suportá-los? (Salmos 76:7).

  1. Em seguida, desejaram livrar-se da arca. Perguntaram: “Para quem ele subirá, afastando-se de nós?” (v. 20). Deveriam antes ter perguntado como poderiam fazer as pazes com ele e recuperar o seu favor (Miquéias 6:6, 7).

Mas começaram a se cansar da arca como os filisteus haviam se cansado. No entanto, se a tivessem tratado com a reverência devida, quem sabe ela não teria permanecido entre eles e todos não teriam sido abençoados por causa dela?

Quando a palavra de Deus age com terror na consciência dos pecadores, em vez de assumirem a culpa e a vergonha, eles discutem com a palavra e a afastam de si (Jeremias 6:10). Enviaram mensageiros aos anciãos de Quiriate-Jearim, cidade fortificada mais para o interior, e pediram que fossem buscar a arca e a levassem até lá (v. 21).

Não se atreviam a tocá-la para eles próprios a levarem até lá; mantinham-se afastados, como se fosse perigosa. Assim, os insensatos vão de um extremo ao outro: da ousadia presunçosa à timidez servil.

Quiriate-Jearim, isto é, “cidade das florestas”, pertencia a Judá (Josué 15:9, 60). Ficava no caminho de Bete-Semes para Siló; assim, ao mandarem buscar a arca, podemos supor que pretendiam que os anciãos de Siló a trouxessem dali, mas Deus tinha outros planos.

Desse modo, a arca foi passando de cidade em cidade, sem que o povo se encarregasse dela. Era sinal de que não havia rei em Israel.


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