Matthew Henry

1 Samuel 4

Argumento

As predições dos capítulos anteriores acerca da ruína da casa de Eli começam aqui a se cumprir; não se sabe quanto tempo depois, mas certamente não muito. Deus muitas vezes age depressa contra tais pecadores.

Temos aqui:

I. A desonra e a perda que Israel sofreu num confronto com os filisteus, v. 1, 2.

II. O plano insensato de se fortalecerem trazendo a arca de Deus para o acampamento, aos ombros de Hofni e Fineias (v. 3, 4), o que os deixou confiantes (v. 5) e infundiu temor nos filisteus, mas um temor que os despertou para a luta, vv. 6-9.

III. As consequências fatais disso: Israel foi derrotado, e a arca foi tomada como prisioneira, v. 10, 11.

IV. A notícia disso levada a Siló e a triste recepção que teve. 1. A cidade ficou em alvoroço, v. 12, 13. 2. Eli desmaiou, caiu e quebrou o pescoço, vv. 14-18. 3. Ao saber o que acontecera, sua nora entrou em trabalho de parto, deu à luz um filho, mas morreu logo depois, vv. 19-22. Essas foram as coisas que fariam tinir os ouvidos dos que as ouvissem.

Versículos 1 a 9

A Guerra contra os Filisteus. (a.C. 1120.)

As primeiras palavras deste parágrafo, relativas a Samuel — que sua palavra chegou a todo o Israel — parecem não ter relação alguma com a história seguinte, como se os israelitas tivessem saído contra os filisteus por alguma orientação dele. Se tivessem consultado Samuel, embora recém-iniciado como profeta, o conselho dele talvez lhes tivesse sido mais útil do que a presença da arca.

Mas é possível que os príncipes de Israel desprezassem sua juventude e não recorressem a ele como oráculo, e que ele ainda não interviesse nos assuntos públicos. Não encontramos outra menção ao nome dele até alguns anos depois (1 Samuel 7:3). Sua palavra chegou a todo o Israel, isto é, gente de todas as partes, disposta piedosamente, recorria a ele como profeta e o consultava.

Talvez isso se refira à profecia dele contra a casa de Eli. Ela era amplamente conhecida e comentada, e todos os que eram sérios e observadores compararam os acontecimentos aqui relatados, quando ocorreram, com a profecia e viram que ela se cumpria neles. Temos aqui:

I. Uma guerra empreendida contra os filisteus, v. 1. Era uma tentativa de se livrar do jugo da opressão deles; teria sido mais bem-sucedida se primeiro tivessem se arrependido e se reformado, começando o trabalho pela ponta certa.

Calcula-se que isso ocorreu por volta da metade dos quarenta anos de domínio dos filisteus sobre Israel (Juízes 13:1), pouco depois da morte de Sansão. O bispo Patrick pensa que a matança que Sansão provocou ao morrer pode ter encorajado essa tentativa; mas o dr. Lightfoot calcula que ocorreu quarenta anos depois da morte de Sansão, pois Eli julgou Israel por esse período, v. 18.

II. A derrota de Israel naquela guerra, v. 2. Israel, que foi o agressor, foi ferido, e quatro mil homens morreram no local. Deus prometera que um deles faria fugir mil; mas agora, ao contrário, Israel foi derrotado pelos filisteus. O pecado, coisa maldita, estava no acampamento e deu aos inimigos toda a vantagem que poderiam desejar contra eles.

III. As medidas que combinaram para outro confronto. Convocaram um conselho de guerra e, em vez de resolverem jejuar, orar e corrigir a própria vida, tão mal instruídos eram (e não é de admirar, tendo mestres como aqueles), fizeram o seguinte:

  1. Contestaram a Deus por ter agido contra eles (v. 3): “Por que o Senhor nos feriu?” Se pretendiam investigar a causa do desagrado de Deus, não precisavam ir longe para descobri-la. Ela era bastante evidente: Israel pecara, embora não quisesse enxergar nem reconhecer isso.

Mas parece mais provável que questionassem Deus com audácia, descontentes com o que ele fizera e discutindo a questão com ele. Reconheceram a mão de Deus na aflição (nisso estavam certos): “Foi o Senhor que nos feriu”; mas, em vez de se submeterem, contestaram o que ele fizera e falaram como quem se irrita com ele e com sua providência.

Não percebiam nenhuma provocação justa que lhe tivessem feito: “Por que nós, que somos israelitas, seríamos derrotados pelos filisteus? Que absurdo e injustiça!” Repare: a insensatez do homem perverte o seu caminho, e então o coração dele se irrita contra o Senhor (Provérbios 19:3) e o culpa.

  1. Imaginaram que poderiam obrigar Deus a agir em favor deles na próxima vez, trazendo a arca para o acampamento. Os anciãos de Israel foram tão ignorantes e insensatos que fizeram a proposta (v. 3), e o povo logo a pôs em prática (v. 4).

Mandaram buscar a arca em Siló, e Eli não teve coragem de retê-la; enviou com ela seus filhos ímpios, Hofni e Fineias, ou pelo menos permitiu que fossem, embora soubesse que a maldição de Deus os acompanharia aonde quer que fossem. Repare:

(1.) Na profunda veneração que o povo tinha pela arca: “Mandem buscá-la, e ela fará maravilhas por nós”. Por determinação divina, a arca era um sinal visível da presença de Deus. Deus dissera que habitaria entre os querubins que ficavam sobre a arca e eram transportados com ela.

Por isso, pensaram que, demonstrando grande reverência por esse objeto sagrado, provariam ser verdadeiros israelitas e levariam o Deus Todo-Poderoso a agir eficazmente em seu favor.

Repare: é comum que aqueles que se afastaram do essencial da religião demonstrem grande apego aos seus ritos e práticas externas; os que chegam a negar o poder da piedade não só conservam sua forma, como também a admiram.

Multidões que não têm consideração alguma pelo Senhor do templo nem pelo Deus da arca proclamam a importância do templo do Senhor e defendem a arca do Senhor com zelo aparentemente fervoroso, como se a preocupação intensa com o nome do cristianismo pudesse compensar o desprezo profano por aquilo que ele significa.

Na verdade, fizeram da arca um ídolo e a consideraram uma imagem do Deus de Israel, tanto quanto os ídolos que os pagãos adoravam eram imagens dos seus deuses. Adorar o Deus verdadeiro sem adorá-lo como Deus, na prática, é não adorá-lo de modo algum.

(2.) Na espantosa insensatez de pensarem que a arca, se estivesse no acampamento, certamente os salvaria dos inimigos e faria a vitória voltar para o lado deles. Pois:

[1.] Quando a arca partia, Moisés orava: “Levanta-te, Senhor, e sejam dispersos os teus inimigos”, sabendo muito bem que não era a arca que se movia com eles, mas Deus agindo em favor deles, que lhes daria a vitória. Não usaram meios adequados para levar Deus a favorecê-los com sua presença; que bem lhes faria então a arca, a casca sem o miolo?

[2.] Estavam tão longe de ter a permissão de Deus para remover a arca que ele lhes indicara claramente, na lei, que, depois de estabelecidos em Canaã, ela deveria permanecer no lugar que ele escolheria (Deuteronômio 12:5, 11), e que eles deveriam ir até ela, não ela até eles.

Como poderiam esperar alguma vantagem dela se não tinham posse legítima e legal da arca, nem autorização para removê-la do seu lugar? Em vez de honrarem a Deus com o que fizeram, na verdade o afrontaram.

[3.] Se nada mais invalidasse suas expectativas em relação à arca, como poderiam esperar que ela trouxesse uma bênção quando Hofni e Fineias eram os homens que a transportavam? A arca teria dado apoio demais à perversidade deles se tivesse feito algum bem a Israel enquanto estivesse nas mãos daqueles sacerdotes ímpios.

IV. A grande alegria no acampamento de Israel quando a arca foi levada para lá (v. 5): “Gritaram, e a terra tornou a ressoar”. Agora pensavam que a vitória estava garantida e, por isso, deram um grito triunfal antes da batalha, como se o dia já fosse certamente deles. Com aquele grito poderoso, pretendiam animar a si mesmos e suas tropas e intimidar os adversários.

Repare: os que vivem segundo a carne triunfam muito nos privilégios e práticas externas da religião e se apoiam bastante neles, como se fossem salvá-los infalivelmente; como se a arca, o trono de Deus no acampamento, os levasse ao céu, embora o mundo e a carne reinassem no coração.

V. O terror que a chegada da arca ao acampamento de Israel provocou nos filisteus. Os dois exércitos estavam acampados tão perto que os filisteus ouviram o grito dos israelitas naquela ocasião. Logo entenderam aquilo em que eles triunfavam (v. 6) e temeram as consequências. Pois:

  1. Aquilo nunca tinha acontecido nos dias deles: “Deus veio ao acampamento deles, e por isso ai de nós!” (v. 7), e repetiram: “Ai de nós!” (v. 8). O nome do Deus de Israel era temível até para os que adoravam outros deuses, e mesmo os infiéis tinham certa noção do perigo de lutar contra os israelitas. A consciência natural sugere que é lamentável a condição de quem tem Deus contra si.

Mas veja como tinham ideias grosseiras sobre a presença divina, como se o Deus de Israel não estivesse no acampamento antes de a arca chegar lá. Isso pode ser muito bem desculpado neles, pois os próprios israelitas não tinham ideias melhores sobre essa presença.

“Ah!”, disseram, “é uma nova estratégia contra nós, mais assustadora que todas as outras, pois nunca aconteceu algo assim antes. Esta foi a medida mais eficaz que eles poderiam tomar para desanimar nossos homens e enfraquecer suas mãos”.

  1. Quando algo semelhante ocorrera antigamente, tinha produzido maravilhas: “Estes são os deuses que feriram os egípcios com todas as pragas no deserto” (v. 8). Aqui, erraram tanto na história quanto na teologia: as pragas do Egito vieram antes de a arca ser feita e antes de Israel chegar ao deserto.

Mas tinham tradições confusas sobre maravilhas realizadas por Israel ou em favor dele quando a arca era levada à frente do povo, e atribuíram essas maravilhas não a Jeová, mas à arca.

“Quem nos livrará das mãos desses deuses poderosos?”, disseram, tomando a arca por Deus, como era de esperar, já que os próprios israelitas a idolatravam. Ainda assim, parece que mal acreditavam no que diziam quando falavam desses deuses poderosos de modo tão temeroso; estavam apenas zombando.

Em vez de recuar ou propor condições de paz — como teriam feito se estivessem realmente convencidos do poder do Deus de Israel —, incitaram uns aos outros a lutar com ainda mais valentia. Essa dificuldade inesperada só fortaleceu a resolução deles (v. 9): “Sejam fortes e comportem-se como homens”.

Os comandantes inspiraram pensamentos corajosos e nobres nos soldados, mandando-os lembrar como haviam dominado Israel e que tristeza e vergonha intoleráveis seria recuar agora e deixar Israel dominá-los.

Versículos 10 a 11

A Derrota dos Israelitas. (a.C. 1120.)

Temos aqui um breve relato do desfecho dessa batalha.

I. Israel foi derrotado: o exército se dispersou e foi completamente desbaratado. Desta vez, não recuou para o acampamento, como antes (v. 2), quando esperava reunir-se de novo; cada homem voltou para sua tenda, cuidando da própria segurança e procurando chegar em casa pelo melhor caminho, sem esperança de resistir novamente. Trinta mil foram mortos no campo de batalha, v. 10. Israel levou a pior:

  1. Embora tivesse a causa melhor, fosse o povo de Deus e os filisteus fossem incircuncisos, Israel se levantara em defesa necessária dos seus direitos e liberdades contra invasores e, ainda assim, fracassou, pois a sua rocha o vendera. Muitas vezes uma causa justa sofre por causa dos homens maus que a defendem.

  2. Embora tivesse mais confiança e coragem. Os israelitas gritaram enquanto os filisteus tremiam; contudo, quando Deus assim ordenou, os temores dos filisteus se transformaram em triunfos, e os gritos de Israel, em lamentos.

  3. Embora tivessem consigo a arca de Deus. Privilégios externos não protegem os que abusam deles e não vivem à altura deles. A arca no acampamento nada acrescentará à sua força quando houver nele um Acã.

II. Os filisteus tomaram a própria arca; e Hofni e Fineias, que provavelmente ficaram junto dela e, quando ela correu perigo, arriscaram-se muito para defendê-la, pois era dela que tiravam o sustento, foram mortos, v. 11. O salmista se refere a esse triste acontecimento: “Entregou o seu poder à prisão, e a sua glória, às mãos do inimigo. Seus sacerdotes caíram à espada” (Salmos 78:61, 64).

  1. Considerando o mau caráter dos sacerdotes, a morte deles não foi grande perda para Israel, mas foi um juízo terrível contra a casa de Eli.

Cumpriu-se a palavra que Deus lhe dissera (1 Samuel 2:34): “Isto te será por sinal”, uma garantia dos juízos ameaçados: “Teus dois filhos morrerão ambos no mesmo dia”, e assim também “todos os descendentes da tua casa morrerão na flor da idade” (1 Samuel 2:33).

Se Eli tivesse cumprido seu dever e os afastado do sacerdócio, como impuros (Neemias 7:64), eles poderiam ter vivido, embora em desonra; mas agora Deus toma a questão em suas próprias mãos e os expulsa do mundo pela espada dos incircuncisos. O Senhor se faz conhecido pelos juízos que executa. É verdade que a espada devora uns e outros, mas eles eram esperados pela espada, marcados para a vingança.

Estavam fora do seu lugar; que tinham a fazer no acampamento? Quando as pessoas abandonam o caminho do dever, excluem a si mesmas da proteção de Deus. Mas não foi só isso: ao levar a arca para o perigo sem autorização de Deus, traíram-na e completaram a medida das suas iniquidades.

  1. A tomada da arca foi um juízo muito grande contra Israel e um sinal seguro da ardente indignação de Deus contra o povo. Agora foram levados a reconhecer a insensatez de confiar nos privilégios externos que tinham perdido por sua perversidade, imaginando que a arca os salvaria quando Deus já se afastara deles.

Agora foram levados a refletir, com o mais profundo pesar, sobre sua imprudência e presunção ao levar a arca para o acampamento e expô-la; desejariam mil vezes tê-la deixado onde Deus a estabelecera.

Agora estão convencidos de que Deus não se submeterá às ordens de homens vãos e insensatos; embora nos tenha ligado à sua arca, não se ligou a ela. Antes a entregará nas mãos dos inimigos jurados, em vez de permitir que seus falsos amigos a profanem e de dar apoio à superstição deles.

Ninguém pense que pode se abrigar da ira de Deus sob o manto de uma profissão de fé visível, pois haverá os que serão lançados nas trevas exteriores, embora tenham comido e bebido na presença de Cristo.

Versículos 12 a 18

A Morte de Eli. (a.C. 1120.)

Aqui é levada a Siló a notícia do desfecho fatal da batalha contra os filisteus. Más notícias voam depressa.

Logo se espalharam por todo o Israel: cada homem que fugiu para sua tenda levou a notícia aos vizinhos, com prova evidente. Mas nenhum lugar estava tão envolvido quanto Siló.

Por isso, um mensageiro partiu imediatamente para lá; era um homem de Benjamim. Os judeus imaginam que fosse Saul. Rasgou as roupas e pôs terra sobre a cabeça, sinais com os quais anunciava a triste notícia a todos que o viam correr e mostrava quanto ele próprio estava abalado, v. 12. Foi direto a Siló com a notícia; e aqui nos é dito:

I. Como a cidade a recebeu. Eli estava sentado junto ao portão (v. 13, 18), mas o mensageiro relutou em contar primeiro a ele; por isso passou adiante e contou a notícia na cidade, com todos os pormenores agravantes. Então tiniram os ouvidos de todos os que a ouviram, como fora anunciado (1 Samuel 3:11).

O coração deles tremeu, e todos os rostos ficaram sombrios. A cidade inteira gritou (v. 13), e tinha razão para isso: além de ser uma calamidade para todo o Israel, era uma perda particular para Siló e a ruína daquele lugar.

Embora a arca logo tivesse sido resgatada das mãos dos filisteus, nunca mais voltou a Siló. O seu candelabro foi removido do lugar, porque haviam abandonado o primeiro amor; a cidade definhou, decaiu e chegou ao fim.

Agora Deus abandonava o tabernáculo de Siló, pois o povo o expulsara dali; e a tribo de Efraim, que por 340 anos fora abençoada com a presença da arca em seu território, perdeu essa honra (Salmos 78:60, 67).

Algum tempo depois, a arca foi transferida para a tribo de Judá, para o monte Sião que ele amou, como vem em seguida (v. 68), porque os homens de Siló não reconheceram o dia em que foram visitados.

Muito tempo depois, esse abandono de Siló foi lembrado a Jerusalém, que foi advertida a tomar cuidado: Vão a Siló e vejam o que lhe fiz (Jeremias 7:12). A partir deste dia, deste dia fatal, comecem as desolações de Siló. Portanto, tinham motivos suficientes para gritar quando ouviram que a arca fora tomada.

II. O golpe fatal que isso foi para o velho Eli. Vejamos:

  1. Com que temor ele esperava a notícia. Embora velho, cego e pesado, não conseguiu ficar em seu aposento quando percebeu que a glória de Israel estava em jogo; colocou-se à beira do caminho para receber as primeiras notícias, pois seu coração tremia pela arca de Deus, v. 13.

Seus pensamentos apreensivos lhe mostravam que desonra seria para Deus e que perda irreparável para Israel se a arca caísse nas mãos dos filisteus, e com que triunfos profanos a notícia seria contada em Gate e proclamada nas ruas de Asquelom.

Ele também percebia o perigo iminente disso. Israel perdera o direito à arca — em especial por causa dos filhos de Eli —, e os filisteus tentariam tomá-la. Agora lhe vinha à mente a ameaça de que veria um adversário na habitação de Deus (1 Samuel 2:32); talvez o próprio coração o censurasse por não ter usado a autoridade para impedir que levassem a arca ao acampamento. Tudo isso o fazia tremer.

Repare: todos os bons homens consideram os interesses da igreja de Deus mais importantes do que qualquer interesse ou preocupação secular própria e não podem deixar de sentir angústia e temor quando ela corre perigo. Como poderíamos ficar tranquilos se a arca não estivesse segura?

  1. Com que dor ele recebeu a notícia. Embora não pudesse ver, ouviu o tumulto e os gritos da cidade, percebeu que eram vozes de lamentação, pranto e aflição; como um magistrado cuidadoso, pergunta: “Que significa o barulho deste tumulto?” (v. 14).

É-lhe dito que chegou um mensageiro do exército, que lhe relata a história de modo muito claro e com grande segurança, pois a testemunhou pessoalmente (v. 16, 17).

O relato da derrota do exército e da morte de grande número de soldados foi muito doloroso para ele como juiz; a notícia da morte dos dois filhos, pelos quais fora tão indulgente e que, tinha razão para temer, morreram sem arrependimento, tocou-o como pai num ponto sensível. Mas não foi por eles que seu coração tremeu: há uma preocupação maior em seu espírito, que absorve a menor.

Ele não interrompeu o relato com lamentos apaixonados pelos filhos, como Davi por Absalão; esperou o fim da história, sem duvidar de que o mensageiro, sendo israelita, falaria da arca sem que fosse preciso perguntar.

Se ele ao menos pudesse ter dito: “Mas a arca de Deus está segura, e nós a estamos trazendo de volta”, a alegria por isso teria vencido a dor por todos os outros desastres e o teria deixado tranquilo.

Mas, quando o mensageiro concluiu a história dizendo: “A arca de Deus foi tomada”, Eli foi atingido no coração; seu ânimo desfaleceu e, ao que parece, ele desmaiou, caiu do assento e, em parte pelo desmaio, em parte pela queda, morreu imediatamente, sem dizer mais uma palavra. Primeiro seu coração se partiu; depois, seu pescoço.

Assim caiu o sumo sacerdote e juiz de Israel; assim caiu sua cabeça pesada, quando lhe faltavam dois anos para completar cem; assim caiu a coroa da sua cabeça, depois de julgar Israel por cerca de quarenta anos. Assim o seu sol se pôs sob uma nuvem; assim a insensatez e a perversidade daqueles filhos, a quem fora indulgente, acabaram sendo sua ruína.

Às vezes Deus deixa marcas do seu desagrado nesta vida sobre bons homens que se conduziram mal, para que outros ouçam, temam e tomem isso como aviso. Alguém pode morrer miseravelmente e, ainda assim, não morrer eternamente; pode ter um fim prematuro e, ainda assim, ter paz no fim.

O dr. Lightfoot observa que Eli morreu como um jumento não resgatado, cujo pescoço deveria ser quebrado (Êxodo 13:13). Contudo, para louvor de Eli, devemos observar que foi a perda da arca, não a morte dos filhos, que o matou.

Na prática, ele diz: “Deixem-me cair junto com a arca, pois que israelita piedoso pode viver com algum conforto quando as ordenanças de Deus são removidas?” Adeus a tudo neste mundo, até à própria vida, se a arca se for.

Versículos 19 a 22

A Morte da Mulher de Fineias. (a.C. 1120.)

Temos aqui outra história triste, que dá continuidade à devastação da casa de Eli e ao pesar provocado pela notícia do cativeiro da arca. Trata-se da mulher de Fineias, um daqueles filhos perversos de Eli que trouxeram toda essa calamidade sobre Israel.

Embora fosse jovem, ela perdeu a vida, assim como o sogro, que era velho; pois muitas cabeças ainda jovens, assim como muitas grisalhas, foram levadas ao túmulo pela tristeza: ela produz a morte. Pelo que se relata aqui a respeito dela, parece:

I. Que era uma mulher de espírito muito sensível. A providência dispôs as coisas de tal modo que, justamente naquela ocasião, ela estava perto de dar à luz; e nosso Salvador disse que aqueles dias seriam de aflição para as que estivessem grávidas ou amamentassem (Mateus 24:19).

Haveria tão pouca alegria no nascimento, mesmo de um menino, que se diria: “Bem-aventurados os ventres que não dão à luz” (Lucas 23:29).

A notícia espantosa chegou nesse momento infeliz e a fez entrar em trabalho de parto, como às vezes acontece com grandes sustos ou outras emoções intensas. Ao saber da morte do sogro, a quem respeitava, e do marido, a quem amava apesar da maldade dele, e sobretudo da perda da arca, entrou em trabalho de parto, pois suas dores vieram em rápida sucessão (v. 19).

A notícia abalou tanto o ânimo dela, quando precisava de todo o apoio possível, que, embora tivesse força para dar à luz, logo depois desmaiou e morreu. Estava muito disposta a deixar a vida quando perdera os maiores consolos de sua vida.

Quem se aproxima daquela hora difícil precisa guardar para si os consolos da aliança da graça, para equilibrar não apenas as tristezas habituais, mas também qualquer acontecimento extraordinário, imprevisto, que possa aumentar a dor. A fé, num momento assim, impedirá que desfaleça (Salmos 27:13).

II. Que era uma mulher de espírito muito piedoso, embora casada com um marido perverso. A preocupação com a morte do marido e do sogro evidenciava seu afeto natural; mas sua preocupação muito maior com a perda da arca evidenciava seu afeto piedoso e devoto por Deus e pelas coisas sagradas.

A primeira preocupação ajudou a apressar o parto; mas suas últimas palavras mostram que a outra estava mais perto do coração dela (v. 22): ela disse: “A glória se foi de Israel”. Não lamentava tanto o declínio daquela família em particular, à qual era ligada, mas a calamidade geral de Israel causada pelo cativeiro da arca. Era isso, isso era o que a afligia; isso causou sua morte.

  1. Isso a deixou indiferente ao filho. As mulheres que a assistiam, provavelmente algumas das mais importantes da cidade, a animaram. Pensando que a preocupação dela se devia sobretudo às dores do parto, quando a criança nasceu lhe disseram: “Não tenha medo; o pior já passou, pois você deu à luz um filho” — talvez fosse o primogênito dela. Mas ela não respondeu nem deu atenção à criança.

As dores do parto teriam sido esquecidas, se não houvesse outra preocupação, pela alegria de um menino ter nascido no mundo (João 16:21). Mas que alegria é essa:

(1.) Para quem sente que está morrendo? Só a alegria espiritual e divina nos será de algum proveito então. A morte é uma realidade séria demais para admitir o sabor de qualquer alegria terrena; naquele momento, tudo isso fica insípido e sem vigor.

(2.) O que essa alegria significa para quem lamenta a perda da arca? Pouco conforto ela poderia encontrar num filho nascido em Israel, em Siló, quando a arca fora perdida e era prisioneira na terra dos filisteus.

Como podemos desfrutar os nossos consolos e prazeres terrenos quando nos faltam a palavra e as ordenanças de Deus, sobretudo o consolo da sua presença graciosa e a luz do seu rosto? Como vinagre sobre salitre, assim é quem canta canções para corações tão aflitos.

  1. Isso a levou a dar ao filho um nome que perpetuasse a lembrança da calamidade e do que ela sentia.

Não tinha nada a dizer ao menino; como cabia a ela dar-lhe o nome, agora que seu marido estava morto, mandou que o chamassem Icabô, isto é, “Onde está a glória?”, “Ai da glória!” ou “Não há glória” (v. 21).

Com os lábios moribundos, explicou isso (v. 22): “A glória se foi de Israel, pois a arca de Deus foi tomada. Chamem a criança de Sem Glória, pois assim ela é; a beleza de Israel se perdeu, e parece não haver esperança de recuperá-la. Que jamais o nome de um israelita, muito menos de um sacerdote, carregue glória, agora que a arca foi tomada”. Repare:

(1.) A pureza e a abundância das ordenanças de Deus, e os sinais da sua presença nelas, são a glória de qualquer povo, muito mais do que sua riqueza, seu comércio e sua influência entre as nações.

  1. Nada é mais doloroso, mais mortal, para um israelita fiel do que a falta e a perda dessas coisas. Se Deus se vai, a glória se vai, e todo o bem se vai. Ai de nós se ele partir!

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