Matthew Henry

1 Samuel 3

Argumento

No capítulo anterior, vimos Samuel como um jovem sacerdote, embora fosse levita apenas por nascimento, pois ministrava diante do Senhor usando um éfode de linho. Neste capítulo, vemos nele um jovem profeta, o que era algo maior: Deus se revelou a ele de modo extraordinário e, por meio dele, reavivou, se não inaugurou, a profecia em Israel.

Temos aqui: I. A primeira manifestação extraordinária de Deus a Samuel (vv. 1-10); II. A mensagem que Deus enviou por meio dele a Eli (vv. 11-14); III. A entrega fiel dessa mensagem a Eli e a submissão de Eli à justiça de Deus contida nela (vv. 15-18); IV. A confirmação de Samuel como profeta em Israel (vv. 19-21).

Versículos 1 a 10

O Chamado de Samuel. (a.C. 1128.)

Para introduzir o relato da primeira revelação de Deus a Samuel, somos informados: 1. De quão dedicado Samuel era ao serviço de Deus, conforme sua posição e capacidade (v. 1): o menino Samuel, embora fosse apenas uma criança, ministrava ao Senhor diante de Eli. A maldade dos filhos de Eli se agravava porque o menino Samuel os envergonhava.

Eles se rebelavam contra o Senhor, mas Samuel o servia; eles desprezavam as advertências do pai, mas Samuel as atendia; ele ministrava diante de Eli, sob os olhos e a orientação dele. Samuel era digno de louvor porque o mau exemplo daqueles homens não o influenciou em nada: ele não retrocedeu nem um pouco, mas se aperfeiçoou e seguiu adiante.

Isso o preparou para as honras que Deus lhe reservava; quem foi fiel no pouco logo recebeu muito mais. Que os jovens sejam humildes e diligentes, pois descobrirão que esse é o caminho mais seguro para alcançar uma posição de destaque. Os mais aptos para governar são os que aprenderam a obedecer.

  1. Quão rara era a profecia naquele tempo, o que tornou o chamado de Samuel uma surpresa ainda maior para ele e uma dádiva ainda maior para Israel: “A palavra do Senhor era preciosa naqueles dias”.

De vez em quando, um homem de Deus era enviado como mensageiro numa ocasião extraordinária (como em 1 Samuel 2:27), mas não havia profetas estabelecidos a quem o povo pudesse recorrer em busca de orientação, nem de quem pudesse esperar revelações da vontade divina.

A raridade da profecia a tornava ainda mais preciosa para todos os que sabiam dar-lhe o devido valor. Ela era preciosa porque, ao que parece, a profecia que havia era particular: “Não havia visão manifesta”, isto é, ninguém era publicamente reconhecido por ter visões.

Talvez a impiedade e a impureza que prevaleciam no tabernáculo, e que sem dúvida corromperam toda a nação, tivessem provocado Deus a retirar, como sinal de seu desagrado, o Espírito de profecia até que fosse expedido o decreto para levantar um sacerdote mais fiel. Então, como garantia disso, foi levantado esse profeta fiel.

O modo como Deus se revelou a Samuel é relatado aqui com muitos detalhes, pois foi algo incomum.

I. Eli havia se recolhido. Samuel o acompanhara até a cama, e os demais que serviam no santuário, podemos supor, tinham ido para seus aposentos (v. 2). Eli se deitara em seu lugar.

Foi cedo para a cama, pois não tinha disposição para o trabalho e logo se cansava dele; talvez gostasse demais do conforto. É provável que passasse muito tempo em seus aposentos, o que dava maior liberdade aos filhos.

Também buscava mais o recolhimento porque seus olhos começavam a escurecer, aflição que lhe sobreveio com justiça por fazer vista grossa aos erros dos filhos.

II. Samuel se deitara para dormir, talvez num pequeno quarto perto do de Eli, como seu pajem dos aposentos interiores, pronto para atender quando o velho precisasse de algo durante a noite, ou talvez para ler para ele se não conseguisse dormir. Eli preferiu Samuel para essa função a qualquer pessoa de sua família porque percebeu nele uma disposição promissora.

Quando os próprios filhos lhe causavam tristeza, seu pequeno servidor lhe trazia alegria. Que os pais aflitos com os filhos agradeçam a Deus se têm por perto alguém que os consola. Samuel se deitara antes que a lâmpada de Deus se apagasse (v. 3).

Ao que parece, dormia tão perto do lugar santo que se recolhia com a luz das lâmpadas dos braços do candelabro, antes que alguma delas se apagasse (pois a lâmpada principal nunca se apagava), provavelmente perto da meia-noite. Até então, Samuel se ocupara de alguma atividade boa: leitura e oração, ou talvez a limpeza e a preparação do lugar santo.

Depois, foi em silêncio para a cama. Podemos esperar as visitas graciosas de Deus quando somos constantes e diligentes no dever.

III. Deus o chamou pelo nome, mas Samuel pensou que fosse Eli e correu até ele (v. 4, 5). Samuel estava desperto na cama, sem dúvida com os pensamentos bem ocupados, como os de Davi (Salmos 63:6), quando o Senhor o chamou.

O bispo Patrick pensa que a voz veio do Santo dos Santos; a paráfrase caldeia a interpreta assim: “Ouviu-se uma voz vinda do templo do Senhor”. Eli, embora provavelmente estivesse mais perto, não a ouviu; ainda assim, talvez ela tenha vindo de outro lugar. Temos aqui: 1. Um exemplo da dedicação de Samuel e da prontidão com que atendia Eli.

Pensando que Eli o chamara, saiu depressa de sua cama aquecida e correu até ele para ver se precisava de algo, talvez receando que não estivesse bem.

“Eis-me aqui”, disse ele. É um bom exemplo para os servos, que devem vir quando são chamados, e para os mais jovens: não apenas se submeter aos mais velhos, mas cuidar deles com carinho. 2. Um exemplo de sua limitação e de sua falta de familiaridade com as visões do Todo-Poderoso: ele pensou que o chamado de Deus fosse apenas o de Eli.

Cometemos erros desse tipo mais vezes do que imaginamos. Deus nos chama por sua palavra, mas pensamos que é apenas o ministro que nos chama e respondemos de acordo; chama-nos por suas providências, mas olhamos apenas para os instrumentos. Sua voz clama, mas só aqui e ali alguém sábio entende que é a voz dele. Eli lhe garantiu que não o chamara.

Não o repreendeu por perturbá-lo com zelo excessivo, nem o chamou de tolo ou disse que estava sonhando; apenas lhe disse com bondade que voltasse a se deitar, pois não tinha nada para ele fazer.

Se os servos devem estar prontos quando seus senhores os chamam, os senhores também devem zelar pelo descanso dos servos, “para que o teu servo e a tua serva descansem como tu”. Samuel voltou e se deitou. Deus chama muitos por meio da pregação da palavra, e eles respondem como Samuel: “Eis-me aqui”.

Mas, como não olham para Deus nem reconhecem sua voz no chamado, logo perdem essa impressão; voltam a se deitar, e suas convicções se desfazem.

IV. O mesmo chamado se repetiu, e o mesmo engano aconteceu pela segunda e pela terceira vez (vv. 6-9). 1. Deus continuou a chamar o jovem, mais uma vez (v. 6) e, depois, pela terceira vez (v. 8).

O chamado que a graça divina pretende tornar eficaz será repetido até produzir efeito, isto é, até que nos apresentemos quando somos chamados; pois o propósito de Deus, segundo o qual somos chamados, certamente se cumprirá. 2. Samuel ainda não sabia que era o Senhor quem o chamava (v. 7): “Samuel ainda não conhecia o Senhor”.

Conhecia a palavra escrita e a vontade de Deus revelada nela, mas ainda não compreendia o modo como Deus se revela a seus servos, os profetas, sobretudo por meio de uma voz mansa e suave. Aquilo era inteiramente novo e estranho para ele.

Talvez reconhecesse mais depressa uma revelação divina se viesse em sonho ou visão, mas não conhecia esse modo e nunca ouvira falar dele. Quem tem o maior conhecimento das coisas divinas deve lembrar-se de que já foi como criança, sem habilidade na palavra da justiça.

“Quando eu era criança, entendia como criança.” Ainda assim, não devemos desprezar o dia das coisas pequenas. Assim fez Samuel (como diz a margem) antes de conhecer o Senhor e antes que a palavra do Senhor lhe fosse revelada. Ele se atrapalhou uma vez após outra, mas depois compreendeu melhor o seu dever.

Muitas vezes, o testemunho do Espírito no coração dos fiéis é confundido, e assim eles perdem o consolo que ele traz; também se confundem as insistências do Espírito na consciência dos pecadores, e o benefício de suas convicções se perde. “Deus fala uma vez, sim, duas vezes, mas o homem não o percebe” (Jó 33:14). 3. Samuel foi até Eli pela segunda e pela terceira vez.

Talvez a voz se parecesse com a dele, e o jovem estivesse bem perto. Samuel disse a Eli, com toda a certeza: “Tu me chamaste” (vv. 6-8), pois não podia ter sido outra pessoa. A disposição de Samuel para atender quando era chamado, ainda que fosse apenas por Eli, provava que era obediente e ativo, qualidades que o preparavam para o favor que receberia.

Deus escolhe empregar pessoas assim. Mas houve uma providência especial nisso: Samuel foi tantas vezes até Eli para que, por fim, Eli percebesse que o Senhor chamava o jovem (v. 8). (1.) Isso o humilharia.

Eli entenderia que isso era um passo para o rebaixamento de sua família, pois, quando Deus tinha algo a dizer, escolhera falar ao jovem Samuel, seu servo, em vez de falar com ele. Mais tarde, quando descobrisse que a mensagem era para ele mesmo, mas fora enviada por intermédio de uma criança, sua humilhação seria ainda maior.

Ele tinha motivos para ver nisso outro sinal do desagrado de Deus. (2.) Isso o levaria a perguntar o que Deus dissera a Samuel e o convenceria plenamente da verdade e da certeza da mensagem que seria transmitida.

Eli não poderia alegar que Samuel apenas imaginara aquilo, pois, antes de a mensagem ser entregue, ele próprio percebeu que Deus estava prestes a falar com o jovem; ainda assim, só saberia o conteúdo pela boca do próprio Samuel. Assim, a sabedoria infinita governa as limitações e os enganos daqueles a quem Deus emprega e os põe a serviço de seus propósitos.

V. Por fim, Samuel foi preparado para receber uma mensagem de Deus, que não deveria ficar apenas com ele, mas ser proclamada como visão manifesta, para que se tornasse um profeta completo. 1. Eli, percebendo que a voz ouvida por Samuel era a voz de Deus, ensinou-lhe o que dizer quando o Senhor o chamasse novamente (v. 9).

Fez isso com honestidade: embora fosse uma vergonha para ele que o chamado de Deus o deixasse de lado e se dirigisse a Samuel, ainda assim lhe mostrou como acolhê-lo.

Se tivesse inveja da honra concedida a Samuel, teria feito o possível para privá-lo dela; como não percebia por si mesmo que era Deus quem chamava, poderia ter mandado o jovem voltar a dormir e não dar atenção, pois não passava de um sonho. Mas Eli tinha um espírito melhor: deu-lhe o melhor conselho para ajudá-lo a avançar.

Assim, os mais velhos devem, sem ressentimento, fazer o máximo para ajudar e aperfeiçoar os mais jovens que estão surgindo, mesmo quando percebem que logo os ofuscarão e eclipsarão. Nunca deixemos de informar e instruir os que vêm depois de nós, inclusive aqueles que em breve serão promovidos acima de nós (João 1:30).

Eli lhe disse que, quando Deus o chamasse da próxima vez, respondesse: “Fala, Senhor, pois o teu servo ouve”. Samuel devia chamar a si mesmo servo de Deus e desejar conhecer a vontade dele. “Fala, Senhor, fala comigo, fala agora.” Devia também preparar-se para ouvir e prometer que prestaria atenção: “O teu servo ouve”.

Deus falará conosco quando nos dispusermos a escutar o que ele diz (Salmos 85:8; Habacuque 2:1).

Quando lemos a palavra de Deus e assistimos à sua pregação, devemos nos apresentar com essa disposição, submetendo-nos à luz e ao poder que ela ordena: “Fala, Senhor, pois o teu servo ouve”. 2. Ao que parece, na quarta vez Deus falou de modo um pouco diferente das anteriores.

Como nas outras ocasiões, chamou Samuel pelo nome, mas então se pôs de pé e o chamou. Isso sugere que agora a glória divina apareceu visivelmente a Samuel, numa visão diante dele, como a visão que apareceu a Elifaz, embora ele não conseguisse discernir sua forma (Jó 4:16).

Isso lhe confirmou que não era Eli quem o chamava, pois agora via a voz que falava com ele, conforme se diz em Apocalipse 1:12. Também desta vez o chamado foi duplicado: “Samuel, Samuel”, como se Deus se alegrasse em mencionar seu nome ou quisesse que ele entendesse quem falava com ele. “Deus falou uma vez; duas vezes ouvi isto” (Salmos 62:11).

Foi uma honra que Deus se dignasse a conhecê-lo pelo nome (Êxodo 33:12). Seu chamado se tornou poderoso e eficaz quando Deus o chamou pelo nome e o dirigiu a ele pessoalmente, como fez com “Saulo, Saulo”.

Assim Deus chamou Abraão pelo nome (Gênesis 22:1). 3. Samuel respondeu como lhe haviam ensinado: “Fala, pois o teu servo ouve”. É bom ensinar desde cedo às crianças boas palavras e expressões apropriadas de sentimentos piedosos e devotos, para que se preparem para conhecer melhor as coisas divinas e aprendam a conviver santamente com elas.

Ensinem aos jovens o que dizer, pois não sabem ordenar as palavras por causa da escuridão. Dessa vez Samuel não se levantou nem correu como antes, quando pensou que Eli o chamava; ficou imóvel, deitado, e escutou. Quanto mais calmos e serenos forem nossos espíritos, mais preparados estarão para as revelações divinas.

Que todos os pensamentos e paixões tumultuosos sejam contidos; que tudo fique quieto e sereno na alma, e então estaremos prontos para ouvir a voz de Deus. Tudo deve silenciar quando ele fala. Mas observe: Samuel omitiu uma palavra. Não disse “Fala, Senhor”, mas apenas “Fala, pois o teu servo ouve”.

Assim se abriu o caminho para a mensagem que receberia e Samuel conheceu as palavras de Deus e as visões do Todo-Poderoso antes que a lâmpada de Deus se apagasse (v. 3) no templo do Senhor. Alguns escritores judeus dão a isso um sentido místico: antes da queda de Eli e do obscurecimento temporário do Urim e do Tumim, Deus chamou Samuel e fez dele um oráculo.

Por isso, seus doutores observam: “O sol nasce, e o sol se põe” (Eclesiastes 1:5); isto é, dizem eles, antes que Deus faça o sol de um justo se pôr, faz nascer o sol de outro justo. Smith, citando Kimhi.

Versículos 11 a 18

Eli e Sua Casa Ameaçados. (a.C. 1128.)

Temos aqui: I. A mensagem que Deus entregou a Samuel, depois de toda essa introdução, a respeito da casa de Eli. Deus não veio lhe dizer que grande homem ele seria, que destaque teria ou que bênção seria para Israel.

Os jovens costumam ter muita curiosidade para saber o próprio futuro; mas Deus veio a Samuel não para satisfazer sua curiosidade, e sim para empregá-lo em seu serviço e enviá-lo numa missão a outra pessoa, o que era muito melhor.

Ainda assim, o conteúdo dessa primeira mensagem, que sem dúvida lhe causou forte impressão, poderia ser útil mais tarde, quando os próprios filhos de Samuel se mostrassem, embora não tão maus quanto os de Eli, ainda assim não tão bons quanto deveriam ser (1 Samuel 8:3).

A mensagem é curta, muito menos extensa que a trazida pelo homem de Deus (1 Samuel 2:27). Como Samuel era criança, não se podia esperar que se lembrasse de uma mensagem longa, e Deus levou em conta sua condição. Não se deve sobrecarregar a memória das crianças, nem mesmo com coisas divinas.

Mas era uma mensagem triste, de ira, para confirmar a do capítulo anterior e reafirmar a sentença ali pronunciada, talvez porque Eli não lhe tivesse dado a devida atenção. Quanto menos se considera uma ameaça divina, mais certo é que ela se cumprirá e mais pesada será sua execução. A mensagem retoma tanto o pecado quanto o castigo mencionados antes.

  1. Quanto ao pecado: é “a iniquidade que ele conhece” (v. 13). O homem de Deus já lhe falara dela, e muitas vezes a própria consciência de Eli também lhe falara.

Quanta culpa e corrupção há em nós a respeito das quais podemos dizer: “É a iniquidade que o nosso próprio coração conhece; temos consciência dela!” Em resumo, era isto: “Seus filhos se fizeram desprezíveis, e ele não os conteve”. Ou, como diz o hebraico, ele não franziu a testa para eles.

Talvez mostrasse desaprovação pelo mau proceder deles, mas não como deveria: repreendeu-os, porém não os puniu pelos danos que causavam nem os privou do poder de causar dano, embora pudesse fazê-lo como pai, sumo sacerdote e juiz. Observe: (1.) Os pecadores se tornam desprezíveis por causa da própria maldade.

Corrompem a si mesmos, pois cada um é tentado quando atraído e seduzido pela própria cobiça (Tiago 1:14). Assim, rebaixam a si mesmos e se tornam não apenas vis, mas detestáveis para o Deus santo, para os homens santos e para os anjos. O pecado é vil e degrada as pessoas mais do que qualquer outra coisa (Salmos 15:4).

Os filhos de Eli fizeram pouco caso de Deus e tornaram as ofertas dele desprezíveis aos olhos do povo; mas a vergonha voltou ao próprio peito deles: eles se fizeram desprezíveis. (2.) Quem não contém o pecado alheio quando está ao seu alcance fazê-lo participa da culpa e será acusado como cúmplice.

Os que têm autoridade terão muito a responder se não fizerem da espada que portam um terror para os que praticam o mal.

  1. Quanto ao castigo: trata-se do que Deus havia dito a respeito da casa de Eli (v. 12, 13). “Eu lhe disse que julgarei sua casa para sempre”, isto é, que uma maldição recairia sobre a família de geração em geração.

Os detalhes já foram apresentados e não se repetem aqui, mas acrescenta-se: (1.) Quando a sentença começasse a ser executada, seria terrível e espantosa para todo Israel (v. 11): “Ambos os ouvidos de todo aquele que ouvir isso formigarão”.

Todo israelita ficaria aterrorizado e espantado ao ouvir falar da morte dos filhos de Eli, da quebra do pescoço de Eli e da dispersão de sua família. Senhor, como são terríveis os seus juízos!

Se isto se faz com a árvore verde, que será da seca? Observe: os juízos de Deus sobre outros devem nos despertar um santo temor (Salmos 119:120). (2.) Os primeiros frutos terríveis dessa execução seriam sinais certos de seu avanço e cumprimento total: Quando eu começar, prosseguirei e porei fim a tudo o que ameacei (v. 12).

Isso indica que talvez demorasse algum tempo até que começasse; mas que ninguém chame essa tolerância de absolvição, nem esse adiamento de perdão.

Quando enfim começasse, Deus faria uma obra completa: ainda que demorasse, acertaria em cheio. (3.) Não haveria espaço para esperar que a sentença fosse revogada ou que sua execução fosse suspensa ou atenuada (v. 14). [1.] Deus não revogaria a sentença, pois a confirmou com um juramento: “Jurei à casa de Eli”.

Deus não voltará atrás no que jurou, seja em misericórdia, seja em juízo. [2.] Deus não aceitaria acordo algum para cancelar a pena: “A iniquidade da casa de Eli nunca será expiada por sacrifício ou oferta”. Nenhuma expiação seria feita pelo pecado, nem haveria redução do castigo.

Essa era a imperfeição dos sacrifícios da lei: havia iniquidades que eles não alcançavam nem expiavam. Mas o sangue de Cristo purifica de todo pecado e livra da morte eterna, salário do pecado, todos os que pela fé participam dele.

II. A entrega da mensagem a Eli. Observe:

  1. Samuel a ocultou com modéstia (v. 15). (1.) Permaneceu deitado até de manhã. Podemos supor que ficou acordado, ponderando o que ouvira, repetindo a mensagem para si mesmo e pensando no uso que deveria fazer dela.

Depois de recebermos o alimento espiritual da palavra de Deus, é bom aquietar-nos e dar-lhe tempo para ser assimilada. (2.) Pela manhã, abriu as portas da casa do Senhor como costumava fazer, pois era o primeiro a se levantar no tabernáculo.

Que fizesse isso em outras ocasiões já era uma demonstração extraordinária de aptidão numa criança; fazê-lo naquela manhã mostrou grande humildade. Deus o honrara acima de todas as crianças do seu povo, mas ele não se orgulhou nem se exaltou.

Não se julgou grande e bom demais para tarefas humildes e servis; foi abrir as portas do tabernáculo com a mesma disposição de sempre. Observe: aqueles a quem Deus se revela são feitos e mantidos humildes aos próprios olhos, dispostos a se rebaixar a qualquer tarefa que sirva à glória dele, ainda que seja apenas guardar as portas de sua casa.

Seria de esperar que Samuel, tomado pela visão, esquecesse o serviço habitual e corresse aos companheiros, em êxtase, para contar a comunhão que tivera com Deus naquela noite. Mas ele a guardou para si, não contou a visão a ninguém e seguiu tranquilamente seu trabalho.

Nossa comunhão secreta com Deus não deve ser proclamada dos telhados. (3.) Teve medo de contar a visão a Eli. Se temia que Eli ficasse zangado e o repreendesse, temos motivos para suspeitar que Eli fosse severo com aquela criança promissora, embora tolerasse os próprios filhos perversos; isso pesaria contra ele.

Mas podemos supor que Samuel se calou por receio de entristecer e afligir o bom e velho Eli. Se corresse para lhe contar a notícia, pareceria desejar aquele dia terrível e esperar construir a própria família sobre a ruína da família de Eli. Por isso, não lhe cabia anunciar a visão com precipitação.

Nenhum homem bom sente prazer em trazer más notícias, sobretudo Samuel a Eli, o aluno ao mestre que amava e honrava.

  1. Eli procurou saber cuidadosamente o que havia acontecido (v. 16, 17). Assim que ouviu Samuel se movimentar, chamou-o, provavelmente para perto de sua cama. Como já percebera que Deus falara com o jovem, insistiu: “Peço-te, não o escondas de mim”.

Vendo que Samuel estava receoso e hesitante, também o conjurou: “Que Deus faça assim contigo e ainda mais, se esconderes de mim alguma coisa!” Ele tinha motivos suficientes para temer que a mensagem não anunciasse nada de bom a seu respeito, mas sim o mal. Ainda assim, por ser uma mensagem de Deus, não conseguia se contentar com a ignorância.

O homem bom deseja conhecer toda a vontade de Deus, seja ela favorável ou contrária a ele.

A conjuração de Eli — “Que Deus faça assim contigo, se esconderes alguma coisa de mim” — talvez indique o destino terrível dos vigias infiéis: se não advertirem os pecadores, atrairão para si a ira e a maldição que deveriam ter anunciado, em nome de Deus, aos que persistem em suas transgressões.

  1. Por fim, Samuel entregou sua mensagem com fidelidade (v. 18): “Contou-lhe tudo”. Ao ver que devia contá-la, não amenizou nada nem tentou torná-la menos dura; não suavizou o que era severo nem dourou a pílula amarga. Transmitiu a mensagem com clareza e por inteiro, tal como a recebera, sem deixar de declarar todo o conselho de Deus. Os ministros de Cristo devem agir assim com fidelidade.

  2. Eli submeteu-se piedosamente. Não questionou a integridade de Samuel, não se irritou com ele nem contestou a justiça da sentença. Não reclamou do castigo, como Caim, dizendo que era maior do que merecia ou podia suportar; aceitou pacientemente a punição por sua iniquidade.

“É o Senhor; faça ele o que bem lhe parecer.” Eli entendeu que a sentença se referia apenas a um castigo temporal e à transmissão da desonra e da pobreza à sua posteridade, não a uma separação definitiva da família do favor de Deus. Por isso, submeteu-se de bom grado.

Não se queixou, pois conhecia as faltas de sua família, nem intercedeu agora para que a sentença fosse revogada, porque Deus a confirmara com um juramento do qual não se arrependeria. Resignou-se, então, humildemente à vontade de Deus, como Arão num caso parecido. Ele se calou (Levítico 10:3).

Em poucas palavras: (1.) Eli afirma esta verdade consoladora: “É o Senhor; é ele quem pronuncia o juízo, e não há apelação de seu tribunal nem contestação de sua sentença. É ele quem executará o juízo; seu poder não pode ser resistido, sua justiça não pode ser acusada e sua soberania não pode ser contestada.

“É o Senhor, que assim se santificará e glorificará, como é plenamente justo que faça. É o Senhor, em quem não há injustiça, que nunca fez nem fará mal a criatura alguma, nem exigirá mais do que sua iniquidade merece.”

(2.) Dessa verdade ele tira esta conclusão consoladora: “Faça ele o que bem lhe parecer.

“Nada tenho a contestar em seu proceder. Ele é justo em todos os seus caminhos e santo em todas as suas obras; portanto, seja feita a sua vontade. Suportarei a indignação do Senhor, porque pequei contra ele.” Assim devemos aquietar-nos sob a repreensão de Deus e nunca contender com o nosso Criador.

Versículos 19 a 21

Samuel Honrado como Profeta. (a.C. 1128.)

Depois de Samuel conhecer as visões de Deus, temos aqui o relato da honra adicional que recebeu como profeta.

I. Deus o honrou. Depois de começar a favorecê-lo, deu continuidade à sua obra e a coroou nele: Samuel crescia, pois o Senhor era com ele (v. 19). Todo o nosso crescimento em sabedoria e graça se deve à presença de Deus conosco; ela é tudo para o nosso crescimento. Deus honrou Samuel: 1. Revelando-se a ele ainda mais.

Samuel entregara fielmente a mensagem que lhe fora confiada e, por isso, Deus o empregou novamente em seu serviço: O Senhor voltou a revelar-se a Samuel em Siló (v. 21).

Repare: Deus repetirá graciosamente suas visitas àqueles que as recebem como devem. 2. Cumprindo o que anunciava por meio dele: Deus não deixou nenhuma de suas palavras cair por terra (v. 19). Tudo o que Samuel dizia como profeta se mostrava verdadeiro e se cumpria no tempo devido.

Provavelmente, alguns exemplos marcantes de suas previsões se cumpriram pouco depois e confirmaram outras que se cumpririam mais tarde, convencendo a todos de que ele fora enviado por Deus. Deus confirmará a palavra de seus servos e cumprirá o conselho de seus mensageiros (Isaías 44:26), e fará o que disse.

II. Israel também o honrou. Todos reconheceram que Samuel fora confirmado como profeta (v. 20). 1. Ele ganhou fama: todos os que subiam a Siló para adorar reparavam nele, admiravam-no e falavam dele ao voltar para casa. A piedade precoce será a maior honra dos jovens e os levará à boa reputação tanto quanto qualquer outra coisa, e com a mesma rapidez.

Deus honrará os que o honram. 2. Ele se tornou útil e prestou grandes serviços à sua geração. Quem começou cedo a ser bom logo começou a fazer o bem. A missão confirmada que recebeu de Deus e a reputação confirmada que tinha entre o povo lhe deram uma grande oportunidade de brilhar como luz em Israel.

Quando o velho Eli foi rejeitado, o jovem Samuel foi confirmado, pois Deus nunca ficará sem uma testemunha nem deixará sua igreja sem guia.


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