1 Samuel 29
Argumento
Lemos no capítulo anterior como Saul, abandonado por Deus, ficou cada vez mais perplexo e confuso com os próprios planos quando se viu em aperto.
Neste capítulo, vemos como Davi, que se mantinha achegado a Deus, foi tirado do aperto e livrado pela providência divina, sem nenhum artifício seu.
Vemo-lo: I. Marchando com os filisteus (v. 1, 2); II. Sofrendo objeções dos príncipes dos filisteus (vv. 3-5); III. Sendo felizmente dispensado por Aquis de um serviço que lhe assentava muito mal e do qual, ainda assim, não sabia como se esquivar (vv. 6-11).
Versículos 1 a 5
Davi com os Filisteus. (a.C. 1055.)
Aqui está: I. O grande aperto em que Davi se encontrava, e do qual, podemos supor, ele próprio tinha consciência, embora não leiamos que tenha pedido orientação a Deus nem que tenha elaborado algum plano para sair dele. Os dois exércitos, dos filisteus e dos israelitas, estavam acampados e prontos para lutar (v. 1).
Aquis, que fora bondoso com Davi, obrigara-o a comparecer pessoalmente e a levar as forças que tinha a seu serviço. Davi foi, e, na inspeção do exército, foi encontrado junto de Aquis, na posição que lhe fora designada na retaguarda (v. 2).
Se, quando os exércitos se enfrentassem, ele recuasse e abandonasse seu posto, ficaria sujeito ao descrédito indelével, não só de covardia e traição, mas também de vil ingratidão para com Aquis, seu protetor e benfeitor, que confiara nele e lhe dera um comando muito honroso. Davi não conseguiria convencer a si mesmo a fazer algo tão inescrupuloso.
Se, como esperavam dele, lutasse pelos filisteus contra Israel, seria considerado inimigo do Israel de Deus e traidor de sua pátria. Seu próprio povo o odiaria e se oporia unanimemente à sua ascensão ao trono, julgando-o indigno do nome de israelita, quanto mais da honra e da responsabilidade de rei de Israel, depois de lutar contra eles sob a bandeira dos incircuncisos.
Se Saul fosse morto nesse combate, como de fato foi, a culpa recairia sobre Davi, como se ele o tivesse matado. Assim, qualquer dos lados parecia envolver pecado e escândalo. Esse era o grande aperto em que se encontrava; para um homem bom, é pior ver o pecado diante de si do que ver a aflição.
Ele se metera nessa situação por sua própria imprudência, ao deixar a terra de Judá e ir para junto dos incircuncisos.
É raro que os que se associam aos ímpios e se tornam íntimos deles saiam sem culpa, sem pesar, ou sem ambos. Não sabemos o que Davi pretendia fazer. Talvez pretendesse apenas servir de guarda à pessoa do rei, posição que lhe fora atribuída (1 Samuel 28:2), sem agir ofensivamente contra Israel. Mas seria muito difícil chegar tão perto da beira do pecado sem cair nele.
Portanto, embora Deus pudesse, com justiça, tê-lo deixado nessa dificuldade para castigá-lo por sua imprudência, como seu coração era reto diante dele, não permitiria que fosse tentado além do que podia suportar; com a tentação, abriria também uma saída (1 Coríntios 10:13).
II. Uma porta se abriu para livrá-lo desse aperto. Deus inclinou o coração dos príncipes dos filisteus a se oporem ao emprego de Davi na batalha e a insistirem que fosse dispensado. Assim, a inimizade deles o favoreceu, quando nenhum amigo seu podia prestar-lhe tal serviço.
- Foi pertinente a pergunta que fizeram durante a revista das tropas: “Que fazem aqui estes hebreus?” (v. 3). “Que confiança podemos depositar neles? Que serviço podemos esperar deles?” Um hebreu está fora de seu lugar e, se tiver espírito de hebreu, fora de seu elemento no acampamento dos filisteus; merece sentir-se desconfortável ali.
Davi costumava odiar a congregação dos malfeitores, embora agora estivesse entre eles (Salmos 26:5). Nessa ocasião, Aquis deu a Davi um testemunho honroso. Considerava-o um refugiado, que fugira de uma perseguição injusta em seu próprio país e se colocara sob sua proteção. Por isso, Aquis entendia que tinha o dever de cuidar dele e julgava prudente empregá-lo.
“Pois”, disse ele, “ele está comigo há estes dias, ou estes anos”, isto é, há bastante tempo: muitos dias em sua corte e um ou dois anos em seu país. Aquis nunca encontrara nele motivo de queixa, nem motivo para desconfiar de sua lealdade ou pensar que ele não tivesse vindo sinceramente para o seu lado.
Isso mostra que Davi agira com muita cautela e escondera com prudência o afeto que ainda guardava por seu próprio povo. Precisamos agir com sabedoria para com os de fora, guardar a boca quando o ímpio está diante de nós e manter reserva.
- Ainda assim, os príncipes foram inflexíveis: Davi tinha de ser mandado de volta. E apresentaram boas razões para insistir nisso. (1.) Ele fora inimigo dos filisteus por muito tempo; prova disso era o canto em honra de suas vitórias sobre eles: “Saul matou os seus milhares, e Davi, os seus dez milhares” (v. 5).
“Será um descrédito acolher e confiar num destruidor tão conhecido do nosso povo. Tampouco se pode pensar que agora lutará de coração contra Saul, que antes lutou com tanto vigor ao lado dele e em seu favor.” Quem se orgulharia de elogios ou aplausos populares, se até eles podem, em outra ocasião, voltar-se contra alguém e trazer-lhe descrédito?
(2.) Davi poderia ser um inimigo muito perigoso para eles e causar-lhes mais dano que todo o exército de Saul (v. 4): “Ele pode se voltar contra nós na batalha e nos surpreender por trás, enquanto o exército deles nos ataca pela frente. Temos razão para pensar que fará isso, traindo-nos para se reconciliar com seu senhor.
“Quem pode confiar num homem que, além de amar a própria pátria, terá interesse em nos ser infiel?” É perigoso depositar confiança num inimigo reconciliado.
Versículos 6 a 11
Davi Deixa os Filisteus. (a.C. 1055.)
Ainda que as razões de Aquis para confiar em Davi fossem mais fortes que as razões dos príncipes para desconfiar dele — não me parece que fossem, do ponto de vista da prudência, pois os príncipes certamente tinham razão —, Aquis era apenas um dos cinco.
Era o chefe e o único com título de rei; ainda assim, num conselho de guerra convocado para tratar do caso, foi derrotado na votação e obrigado a dispensar Davi, apesar de gostar muito dele. Reis nem sempre podem fazer o que querem nem ter consigo quem desejam.
I. A dispensa dada por Aquis é muito honrosa e não definitiva: vale apenas para o serviço de então: 1. Aquis expressa o grande prazer e a satisfação que sentia com Davi e sua conduta: “Tu és bom aos meus olhos como um anjo de Deus” (v. 9).
Os homens sábios e bons conquistam o respeito de todos os que sabem avaliar corretamente as pessoas e as coisas, onde quer que estejam, mesmo os de outra profissão religiosa.
O que Aquis diz de Davi, Deus diz, por meio do profeta, da casa de Davi (Zacarias 12:8): ela será como o anjo do Senhor. Mas o primeiro é um elogio de corte; o segundo, uma promessa divina.
- Aquis lhe dá um atestado de bom comportamento (v. 6), em termos muito completos e corteses: “Tu tens sido íntegro, e toda a tua conduta tem sido boa aos meus olhos, e não encontrei mal algum em ti.” Saul não lhe teria dado tal testemunho, embora Davi tivesse prestado a Saul muito mais serviços do que a Aquis.
O povo de Deus deve comportar-se sempre de modo tão irrepreensível que, se possível, receba boa recomendação de todos com quem lida. E devemos aos que agiram bem o reconhecimento desse mérito.
- Aquis atribui toda a culpa por dispensá-lo aos príncipes, que de modo algum permitiriam que ele continuasse no acampamento. “O rei gosta muito de ti e colocaria a própria vida em tuas mãos; mas os príncipes não te favorecem. Não devemos desagradá-los nem podemos nos opor a eles. Portanto, retorna e vai em paz.”
Era melhor separar-se de seu favorito do que provocar o descontentamento dos generais e um motim no exército. Aquis dá a entender por que eles estavam inquietos: não tanto por causa do próprio Davi, mas por causa de seus soldados, a quem chama de servos de seu senhor, isto é, de Saul (v. 10). Podiam confiar em Davi, mas não neles.
(4.) Aquis manda que ele parta cedo, assim que amanhecer (v. 10), para evitar mais ressentimento e as suspeitas que teriam se ele demorasse.
II. A resposta de Davi é cheia de formalidades, mas temo que não sem certa dissimulação. “O quê?”, diz Davi. “Devo deixar meu senhor, o rei, a quem tenho o dever de proteger, justamente agora que vai se expor no campo? Por que não posso ir lutar contra os inimigos de meu senhor, o rei?” (v. 8).
Ele parecia ansioso para servi-lo justamente quando, na verdade, estava ansioso para deixá-lo; mas não queria que Aquis soubesse disso. Ninguém sabe quão forte é a tentação de bajular e dissimular para os que servem a grandes homens, nem quão difícil é evitá-la.
III. A providência de Deus ordenou tudo com sabedoria e bondade para Davi. Além de a armadilha ter sido desfeita e ele ter sido livrado do dilema em que primeiro se metera, isso o apressou felizmente para socorrer sua própria cidade, que precisava muito dele, embora ele não soubesse.
Assim, a afronta que os príncipes dos filisteus lhe fizeram acabou sendo, de mais de uma maneira, uma vantagem. Os passos de um homem bom são ordenados pelo Senhor, e ele se compraz no seu caminho. O que Deus faz conosco, não o sabemos agora; mas depois saberemos e veremos que tudo foi para o bem.