1 Samuel 28
Argumento
Estão sendo feitos os preparativos para a guerra que porá fim à vida e ao reinado de Saul, abrindo caminho para Davi chegar ao trono.
Nesta guerra, I. Os filisteus são os agressores, e Aquis, seu rei, faz de Davi seu confidente (v. 1, 2).
II. Os israelitas se preparam para recebê-los, e Saul, seu rei, faz do diabo seu conselheiro particular, completando assim a medida de sua iniquidade.
Observe: 1. A situação desesperadora em que Saul se encontrava (vv. 3-6). 2. O recurso que buscou numa feiticeira, para que fizesse Samuel subir (vv. 7-14). 3. A conversa que teve com a aparição (vv. 15-19). O abatimento que ela lhe causou (vv. 20-25).
Versículos 1 a 6
Os Filisteus Fazem Guerra contra Israel. (a.C. 1055.)
Aqui está: I. O plano dos filisteus contra Israel. Resolveram lutar contra eles (v. 1).
Se os israelitas não tivessem abandonado a Deus, não restariam filisteus para molestá-los; se Saul não o tivesse abandonado, a essa altura já estariam livres de todo perigo que eles representavam. Os filisteus aproveitaram a ocasião para fazer essa tentativa quando Davi estava entre eles, pois temiam-no mais que a Saul e a todas as suas forças.
II. A expectativa de Aquis de que Davi o ajudasse nessa guerra, e o incentivo que Davi lhe deu para isso. “Tu irás comigo à batalha”, diz Aquis. “Se eu te protejo, posso exigir teus serviços.” Ele se consideraria feliz se pudesse ter ao seu lado um homem como Davi, que prosperava por onde quer que fosse.
Davi lhe deu uma resposta ambígua: “Veremos o que será feito. Ainda haverá tempo de falar disso; mas certamente saberás o que teu servo pode fazer” (v. 2). Isto é: “Vou considerar em que função poderei servir-te melhor, se me deixares escolhê-la”.
Assim, não se compromete a servi-lo e, ao mesmo tempo, mantém viva a expectativa de Aquis. Este entendeu a resposta apenas como um compromisso de ajudá-lo e, por isso, prometeu fazer de Davi capitão da guarda, protetor ou primeiro-ministro.
III. Os exércitos de ambos os lados entram em campo (v. 4). Os filisteus acamparam em Suném, na tribo de Issacar, bem ao norte de seu próprio território.
Ao que parece, a terra de Israel estava mal defendida, pois os filisteus conseguiram marchar com seu exército até o coração do país.
Enquanto perseguia Davi, Saul deixara seu povo desprotegido e exposto. Saul reuniu suas forças em algumas montanhas próximas de Gilboa e se preparou para enfrentar os filisteus, embora agora tivesse pouca disposição para isso, pois o Espírito do Senhor se retirara dele.
IV. O terror que Saul sentiu e a dificuldade em que se viu nessa ocasião. Ele viu o exército dos filisteus e, tanto pela própria observação quanto pelas informações de seus espiões, percebeu que eram mais numerosos, estavam mais bem armados e mais animados que os seus. Isso o assustou, e seu coração tremeu muito (v. 5).
Se tivesse permanecido perto de Deus, não precisaria temer ao ver um exército filisteu. Mas, depois de provocar a Deus a abandoná-lo, perdeu seus apoios; seu exército diminuiu e parecia insignificante. Pior ainda, seu ânimo desmoronou, e seu coração se abateu. A consciência culpada o fez tremer ao simples tremor de uma folha.
Agora se lembrou do sangue culpado dos amalequitas, que poupara, e do sangue inocente dos sacerdotes, que derramara. Seus pecados foram alinhados diante dos olhos, deixando-o confuso, atrapalhando todos os seus planos, roubando-lhe toda a coragem e produzindo nele uma terrível expectativa de juízo e indignação ardente.
Repare: os problemas aterrorizam os filhos da desobediência. Nessa aflição, Saul consultou o Senhor (v. 6). A necessidade leva a Deus aqueles que, nos dias de prosperidade, desprezaram seus oráculos e altares. “Senhor, na angústia te visitaram” (Isaías 26:16).
Alguém já buscou o Senhor sem encontrá-lo? Sim: Saul buscou, mas o Senhor não lhe respondeu. Não deu atenção a suas súplicas nem a suas consultas, não lhe disse o que fazer nem lhe deu motivo para esperar que estaria com ele. O Senhor deveria ser consultado por alguém como Saul? (Ezequiel 14:3).
Ele não podia esperar uma resposta de paz, pois:
Consultou de tal maneira que foi como se não tivesse consultado. Por isso se diz que “não consultou o Senhor” (1 Crônicas 10:14): fez isso sem ânimo e sem fervor e com a intenção secreta de recorrer ao diabo se Deus não respondesse. Não consultou com fé, mas com ânimo dividido e instável.
Consultou o Senhor tarde demais, quando seu período de prova havia terminado e ele já fora rejeitado em definitivo. Busquem o Senhor enquanto pode ser encontrado, pois há um tempo em que ele não será encontrado.
Havia perdido o direito aos meios de consulta. Poderia esperar resposta dos profetas aquele que odiara e perseguira Samuel e Davi, ambos profetas? Poderia esperar resposta por meio do Urim aquele que matara o sumo sacerdote? Ou poderia esperar resposta por meio de sonhos aquele que pecara até perder o Espírito da graça? Não. Não se deixem enganar: de Deus não se zomba.
V. Algumas coisas ocorridas muito tempo antes são mencionadas para introduzir a história seguinte (v. 3).
A morte de Samuel. Samuel havia morrido, o que tornou os filisteus mais ousados e Saul mais temeroso. Saul provavelmente pensava que, se Samuel estivesse vivo, sua presença, seu apoio, seus bons conselhos e suas orações o ajudariam em seu sofrimento.
O decreto de Saul contra a feitiçaria.
Ele fizera cumprir as leis contra os que tinham espíritos familiares, que não deviam ser deixados com vida (Êxodo 22:18).
Alguns pensam que fez isso no começo do reinado, enquanto estava sob a influência de Samuel; outros acham que foi recente, pois o episódio é mencionado aqui (v. 9) como um decreto novo.
Talvez, quando Saul foi atormentado pessoalmente por um espírito mau, suspeitou que o haviam enfeitiçado e, por isso, eliminou todos os que tinham espíritos familiares.
Muitos parecem zelosos contra o pecado quando são de algum modo prejudicados por ele — denunciam os que praguejam quando praguejam contra eles, ou os bêbados quando, embriagados, os maltratam —, mas de resto não se preocupam com a glória de Deus nem detestam o pecado como pecado.
Seja como for, foi louvável Saul usar seu poder para aterrorizar e conter esses malfeitores. Repare: muitos parecem inimigos do pecado dos outros, enquanto o toleram em si mesmos. Saul expulsaria o diabo de seu reino, mas o acolheria em seu coração por meio da inveja e da malícia.
Versículos 7 a 14
Saul Consulta a Feiticeira de En-Dor. (a.C. 1055.)
Aqui está: I. Saul procura uma feiticeira (v. 7). Quando Deus não lhe respondeu, se ele tivesse se humilhado, arrependendo-se e perseverado em buscar a Deus, quem sabe se, por fim, Deus não teria atendido ao seu pedido?
Mas, como não encontrava consolo nem no céu nem na terra (Isaías 8:21, 22), resolveu bater às portas do inferno e ver se alguém de lá seria seu amigo e lhe daria conselho: “Buscai-me uma mulher que tenha espírito familiar” (v. 7).
Seus servos foram solícitos demais em servi-lo nesse assunto maligno: logo lhe recomendaram uma mulher em En-Dor, cidade próxima, que escapara à execução do decreto de Saul. Ele decidiu procurá-la. Nisso, é culpado de:
Desprezar o Deus de Israel, como se alguma criatura pudesse fazer-lhe algum bem depois que Deus o abandonara e se voltara contra ele.
Contradizer a si mesmo. Sabia quão hediondo era o pecado da feitiçaria; do contrário, não teria eliminado os que tinham espíritos familiares. Mesmo assim, recorreu como oráculo àquilo que antes condenara como abominação. É comum as pessoas condenarem severamente pecados pelos quais não se sentem tentadas e, depois, serem vencidas por eles.
Se alguém tivesse dito a Saul, quando ele eliminava as feiticeiras, que em breve consultaria uma delas, ele teria respondido como Hazael: “O quê? É teu servo um cão?” Mas quem sabe a que males se entregarão os que abandonam a Deus e são abandonados por ele?
II. Ao saber de uma mulher, Saul vai depressa até ela, mas de noite e disfarçado, levando apenas dois servos e provavelmente a pé (v. 8). Veja como os que são levados cativos por Satanás são obrigados:
A rebaixar-se. Saul nunca pareceu tão desprezível quanto quando foi às escondidas consultar uma mísera feiticeira para saber seu destino.
A dissimular. As más obras são obras das trevas; os que as praticam odeiam a luz e não querem se aproximar dela. Saul foi à feiticeira sem suas vestes reais, usando roupas de soldado comum.
Temia que ela, se o reconhecesse, se recusasse a servi-lo, pensando que ele fora armar-lhe uma cilada ou querendo vingar-se do decreto contra pessoas como ela; também temia que seu próprio povo o descobrisse e o detestasse. A consciência natural tem tanto poder que até os que fazem o mal se envergonham dele.
III. Saul conta a ela o que deseja e promete que não será punida:
- Tudo o que deseja dela é que faça subir alguém dentre os mortos, com quem quer conversar. Esperava alcançar seu propósito por meio da necromancia, ou adivinhação por meio dos mortos. A lei proibia expressamente isso (Deuteronômio 18:11): consultar os mortos em favor dos vivos (Isaías 8:19). “Faze subir para mim aquele que eu nomear” (v. 8).
Isso pressupõe que, em geral, se acreditava que as almas continuam a existir depois da morte e que a morte não é o fim da pessoa. Pressupõe também que se atribuía grande conhecimento às almas separadas do corpo.
Mas era absurdo pensar que alguma alma boa viria ao chamado de um espírito mau ou que Deus, tendo negado a alguém o benefício de suas próprias instituições, permitiria que obtivesse alguma vantagem real por meio de uma invenção maldita e diabólica.
- Ela demonstra temer a lei e suspeitar que aquele estranho viera atraí-la para uma armadilha (v. 9): “Tu sabes o que Saul fez”. A providência ordenou que, justamente quando Saul consultava uma feiticeira, o decreto contra as feiticeiras lhe fosse lembrado diretamente, para agravar seu pecado.
Ela insiste no perigo da lei, talvez para aumentar o preço; embora o texto não mencione pagamento, sem dúvida ela exigiu e recebeu uma quantia elevada.
Observe como ela tinha consciência do perigo que o decreto de Saul representava e como se precavia contra ele, mas não percebia de modo algum as obrigações da lei de Deus nem os terrores da sua ira. Pensava no que Saul fizera contra essas práticas, não no que Deus fizera, e temia mais uma armadilha contra a vida do que uma armadilha contra a alma.
É comum os pecadores temerem mais o castigo dos homens do que o justo juízo de Deus.
- Saul promete sob juramento que não a denunciará (v. 10). Como rei, era seu dever puni-la, e ele sabia disso; mesmo assim, jura que não o fará, como se pudesse, com o próprio juramento, obrigar-se a não cumprir aquilo que o mandamento divino lhe ordenava.
Mas prometeu mais do que podia cumprir ao dizer: “Nenhum castigo te acontecerá”, pois quem não conseguia proteger a si mesmo muito menos poderia protegê-la da vingança divina.
IV. Samuel, que morrera havia pouco, é a pessoa com quem Saul deseja conversar; e a feiticeira, com seus encantamentos, atende ao desejo dele e os põe em contato. 1. Assim que Saul lhe dá a garantia que ela queria — de que não a denunciaria —, ela recorre à feitiçaria e pergunta com muita confiança: “Quem trarei para ti?” (v. 11).
Repare: a esperança de impunidade encoraja os pecadores a persistir no mal e endurece o coração deles.
- Saul deseja falar com Samuel: “Faze Samuel subir para mim”. Samuel o ungira rei e fora seu amigo e conselheiro fiel; por isso, era com ele que queria se aconselhar.
Enquanto Samuel vivia em Ramá, perto de Gibeá de Saul, e dirigia a escola dos profetas, não lemos que Saul tenha ido consultá-lo em nenhuma das dificuldades que enfrentou — o que lhe teria feito bem. Na época, Saul o desprezava e talvez o odiasse, pensando que apoiava Davi.
Mas agora que Samuel está morto, “Ah, se Samuel estivesse aqui outra vez! Faze Samuel subir para mim, custe o que custar”. Repare: muitos que desprezam e perseguem os santos e ministros de Deus enquanto vivem gostariam de tê-los de volta depois que morrem. Envie-me Lázaro e envie Lázaro à casa de meu pai (Lucas 16:24-27). Os sepulcros dos justos são enfeitados.
- Há uma aparente lacuna nesta história. Saul diz: “Faze Samuel subir para mim”, e as palavras seguintes são: “Quando a mulher viu Samuel” (v. 12). Esperaríamos que nos contassem como ela realizou a operação, que encantamentos e fórmulas usou ou, ao menos, que nos dessem alguma indicação do que disse ou fez.
Mas o profundo silêncio das Escrituras sobre isso nos proíbe de desejar conhecer “as profundezas de Satanás” (Apocalipse 2:24) ou satisfazer nossa curiosidade com os mistérios da iniquidade.
Disseram que alguns livros dos confessores papistas, por descreverem o pecado, ensinaram as pessoas a cometê-lo. As Escrituras, porém, ocultam a arte pecaminosa, para que sejamos “simples no que diz respeito ao mal” (Romanos 16:19).
- Ao ver a aparição, a feiticeira percebe que seu cliente é Saul. É provável que seu espírito familiar a tenha informado (v. 12): “Por que me enganaste com esse disfarce? Pois tu és Saul, o próprio homem que mais temo!” Assim ela dá a Saul uma demonstração do poder de sua arte, pois o reconheceu apesar do disfarce.
Ainda assim, temia que, mais tarde ao menos, ele se voltasse contra ela por causa do que fazia naquele momento.
Se acreditasse que realmente via Samuel, teria mais motivo para temê-lo, pois ele era um bom profeta, do que a Saul, que era um rei perverso. Mas a maioria teme mais a ira dos príncipes da terra que a do Rei dos reis.
- Saul, que provavelmente estava mantido à distância, numa sala ao lado, manda que ela não tenha medo dele, continue a operação e lhe diga o que via (v. 13). “Ah, vi deuses subindo da terra”, diz a mulher, isto é, um espírito. Chamavam os anjos de deuses por serem seres espirituais. Que deuses pobres, subindo da terra! Mas ela fala como os pagãos, que tinham divindades infernais e as veneravam.
Se Saul achasse necessário trazer o corpo de Samuel do túmulo para conversar com ele, teria levado a feiticeira a Ramá, onde ficava o sepulcro. Mas seu intento visava unicamente à alma de Samuel, que, caso se tornasse visível, deveria aparecer na forma habitual do corpo.
Deus permitiu que o diabo assumisse a forma de Samuel para atender a esse propósito, a fim de que os que não acolheram o amor à verdade fossem entregues a fortes ilusões e acreditassem numa mentira.
Eles poderiam facilmente perceber que não era a alma do próprio Samuel quando ela subia da terra, pois o espírito do homem, e ainda mais o de um homem bom, sobe (Eclesiastes 3:21). Mas, se as pessoas querem ser enganadas, é justo que Deus diga: “Que sejam enganadas”.
Não é estranho que o diabo, com a permissão divina, pudesse personificar Samuel, pois pode transformar-se em anjo de luz; tampouco é estranho que lhe fosse permitido fazê-lo nessa ocasião, para levar Saul ao desespero por consultar o diabo, já que não quis consultar o Senhor da maneira correta, pela qual poderia ter recebido consolo.
Ao ouvir que deuses subiam, Saul quis saber como era aquela divindade e que forma tinha. Seu coração estava tão miseravelmente endurecido pelo engano do pecado que não sentiu horror algum. Ao que parece, Saul não teve permissão para ver nenhuma aparência. Teve de acreditar na palavra da mulher, que dizia ver um homem velho, coberto com um manto, ou túnica, veste de juiz que Samuel às vezes usava.
Alguns pensam que ela chamou a aparição de Elohim, um deus ou deuses, por causa daquela roupa e da majestade de seu aspecto, pois os magistrados também são chamados assim (Salmos 82:1).
- Pela descrição da mulher, Saul julga tratar-se de Samuel e se inclina com o rosto em terra. Em geral, entende-se que o fez em reverência a Samuel, embora não o visse. Talvez tenha se curvado para ouvir aquela voz suave e murmurada que agora esperava, pois os que tinham espíritos familiares piavam e murmuravam (Isaías 8:19).
Parece que Saul se inclinou — provavelmente por orientação da feiticeira — para ouvir o sussurro e prestar atenção. Diz-se que a voz de quem tem espírito familiar vem do chão e sussurra do pó (Isaías 29:4). Saul se curvaria diante disso, mas não se curvaria diante da palavra de Deus.
Versículos 15 a 19
A Morte de Saul é Predita. (a.C. 1055.)
Temos aqui a conversa entre Saul e Satanás. Saul veio disfarçado (v. 8), mas Satanás logo o reconheceu (v. 12). Satanás veio disfarçado, usando o manto de Samuel, e Saul não conseguiu reconhecê-lo. Esta é a desvantagem em que nos encontramos ao lutar contra os governantes das trevas deste mundo: eles nos conhecem, enquanto ignoramos suas artimanhas e seus estratagemas.
I. O espectro, ou aparição, que personificava Samuel pergunta por que foi chamado (v. 15): “Por que me perturbaste para me fazer subir?” Para nós, isso revela que quem personificava Samuel era um espírito mau.
Como observa o bispo Patrick, as feiticeiras não têm poder para perturbar o descanso dos bons e trazê-los de volta ao mundo quando querem; e o verdadeiro Samuel não reconheceria tal poder nas artes mágicas. Mas, para Saul, era um artifício apropriado de Satanás: despertar sua reverência, convencê-lo do poder da adivinhação e, assim, prendê-lo ainda mais aos interesses do diabo.
II. Saul apresenta sua queixa ao falso Samuel, confundindo-o com o verdadeiro. É uma queixa muito triste: “Estou muito angustiado e não sei o que fazer, pois os filisteus guerreiam contra mim. Eu me sairia bem contra eles se tivesse os sinais da presença de Deus comigo; mas, infelizmente, Deus se afastou de mim”.
Saul só se queixou de Deus ter se retirado quando se viu em dificuldade, quando os filisteus guerrearam contra ele e começou a lamentar que Deus o tivesse deixado.
Quando prosperava, não consultava a Deus; agora, na adversidade, achava injusto que Deus não lhe respondesse nem desse atenção às suas consultas, seja por sonhos, seja por profetas. Deus não lhe respondia pessoalmente nem enviava resposta por nenhum mensageiro.
Saul não reconhece, como um penitente, a justiça de Deus nisso; como alguém enfurecido, volta-se contra Deus, acusando-o de não ser bondoso, e afasta-se dele: “Por isso te chamei”. Como se Samuel, servo de Deus, fosse favorecer aqueles contra quem Deus se voltara, ou como se um profeta morto pudesse ajudá-lo mais que os vivos.
A julgar por isso, Saul parecia de fato desejar encontrar o diabo e não esperava outro, embora recorresse a ele sob o disfarce do nome de Samuel. Ele busca conselho fora de Deus e, portanto, do diabo, que rivaliza com Deus: “Deus me nega; por isso recorro a ti”. Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo — “Se eu fracassar com o céu, moverei o inferno”.
III. O consolo que esse espírito mau, usando o manto de Samuel, dá a Saul é frio e foi claramente destinado a levá-lo ao desespero e ao suicídio. Se fosse o verdadeiro Samuel, quando Saul lhe perguntou o que deveria fazer, ele lhe teria dito que se arrependesse, fizesse as pazes com Deus e chamasse Davi de volta do exílio.
Então lhe diria que, assim, poderia esperar encontrar misericórdia diante de Deus. Em vez disso, apresenta a situação como irremediável e sem esperança. Faz com Saul o que fez com Judas, a quem primeiro tentou e depois atormentou, levando-o primeiro a vender seu mestre e, em seguida, a enforcar-se.
Repreende Saul por seu sofrimento presente (v. 16). Diz-lhe não apenas que Deus se afastou dele, mas que se tornou seu inimigo; por isso, não deve esperar dele nenhuma resposta consoladora: “Por que me perguntas?” “Como posso ser teu amigo se Deus é teu inimigo, ou teu conselheiro se te abandonou?”
Repreende-o por Davi ter sido ungido rei (v. 17). Não poderia tocar numa questão mais dolorosa para Saul. Nada é dito para reconciliá-lo com Davi; tudo tende a irritá-lo contra Davi e aumentar a ruptura. No entanto, para fazê-lo acreditar que era Samuel, a aparição afirmou que Deus falava por meio dela.
O diabo sabe falar com ares de religião e pode ensinar falsos apóstolos a se transfigurarem em apóstolos de Cristo e a imitarem sua linguagem. Os que usam encantamentos e fórmulas mágicas, alegando em sua defesa que encontram neles apenas coisas boas, podem lembrar-se das boas palavras ditas aqui pelo diabo e, ainda assim, do propósito malicioso com que as disse.
- Repreende-o por desobedecer ao mandamento de Deus, ao não destruir os amalequitas (v. 18). Satanás o ajudara a atenuar e desculpar aquele pecado quando Samuel tentava levá-lo ao arrependimento; agora o agrava, para fazê-lo desesperar da misericórdia de Deus. Veja o que acontece aos que dão ouvidos às tentações de Satanás: ele mesmo será seu acusador e zombará deles.
Veja também a quem se assemelham os que atraem outros para o mal e, depois que o cometem, os censuram por isso.
- Prediz a ruína que se aproxima (v. 19). (1.) Seu exército será derrotado pelos filisteus. Isso é dito duas vezes: “O Senhor entregará Israel nas mãos dos filisteus”. O espírito poderia prever isso considerando a superioridade do número e da força dos filisteus, a fraqueza dos exércitos de Israel, o terror de Saul e, sobretudo, o fato de Deus ter se afastado deles.
Mas, para se passar por profeta, atribui solenemente o desfecho a Deus mais de uma vez: “O Senhor o fará”.
(2.) Saul e seus filhos morrerão na batalha: “Amanhã” — isto é, em pouco tempo; e, supondo que já passasse da meia-noite, não vejo por que não entender literalmente o dia seguinte, aquele que acabara de começar —, “tu e teus filhos estareis comigo”, isto é, no estado dos mortos, separados do corpo.
Se fosse o verdadeiro Samuel, não poderia prever o que aconteceria sem que Deus lhe revelasse. Mesmo sendo um espírito mau, Deus poderia anunciar o futuro por meio dele, assim como lemos sobre um espírito mau que previu a queda de Acabe em Ramote-Gileade e contribuiu para ela (1 Reis 22:20, etc.).
Talvez este espírito mau, pela permissão divina, também tenha contribuído para a destruição de Saul. Aquele espírito bajulou Acabe; este aterrorizou Saul, e ambos agiram para levá-los à queda. São miseráveis os que estão sob o poder de Satanás: “quer ele se enfureça, quer ria, não há descanso” (Provérbios 29:9).
Versículos 20 a 24
O Desespero de Saul. (a.C. 1055.)
Aqui nos é contado como Saul recebeu essa mensagem terrível do fantasma que consultara. Ele queria saber o que deveria fazer (v. 15), mas só ouviu o que não tinha feito e o que lhe aconteceria. Os que esperam algum bom conselho ou consolo fora de Deus e dos meios que ele instituiu ficarão tão miseravelmente decepcionados quanto Saul. Observe:
I. Como Saul sucumbiu sob o peso da mensagem (v. 20). Não estava em condições de suportá-la, pois não comera nada durante todo o dia anterior nem durante aquela noite. Saíra do acampamento em jejum e continuara sem comer, não por falta de alimento, mas por falta de apetite. O medo que sentia diante do poder dos filisteus (v. 5) tirara-lhe a fome.
Talvez o conflito com a própria consciência, depois de considerar consultar a feiticeira, o tivesse levado a enjoar até mesmo de qualquer alimento necessário, por mais saboroso que fosse.
Isso o deixou presa fácil para o novo terror, que agora veio sobre ele como um homem armado. Saul caiu estendido no chão, como se os arqueiros dos filisteus já o tivessem atingido; não tinha forças para suportar essas notícias pesadas. Agora já estava farto de consultar feiticeiras e descobrira que eram consoladoras miseráveis.
Quando Deus, em sua palavra, aterroriza os pecadores, ao mesmo tempo lhes abre uma porta de esperança se se arrependerem. Mas os que buscam socorro às portas do inferno devem esperar ali trevas, sem nenhum vislumbre de luz.
II. Com que dificuldade o convenceram a aceitar o alívio necessário para voltar ao posto no acampamento. Ao que parece, a feiticeira deixara Saul sozinho com o espectro para conversar em particular. Mas talvez, ao ouvi-lo cair e gemer e percebê-lo em grande agonia, tenha ido até ele (v. 21), insistindo muito para que comesse algo e pudesse sair de casa.
Temia ser castigada como traidora se ele adoecesse, sobretudo se morresse ali, embora tivesse escapado à punição como feiticeira.
É provável que isso, mais do que algum sentimento de bondade, a deixasse tão preocupada em ajudá-lo. Em que condição deplorável Saul havia se metido, a ponto de precisar de uma consoladora tão miserável!
- Ela insistiu muito para que ele aceitasse algum alimento. Alegou (v. 21) que obedecera à voz dele, arriscando a própria vida; por que, então, ele não ouviria a voz dela para salvar a vida dele? (v. 22). Tinha um bezerro gordo à mão — e a palavra significa um animal usado para debulhar o trigo, que, por isso, seria ainda mais difícil de dispensar —, que preparou para recebê-lo (v. 24).
Josefo elogia muito a cortesia e a generosidade extraordinárias dessa mulher, recomendando seu gesto como exemplo de compaixão pelos aflitos e de disposição para repartir o que se tem a fim de socorrê-los, mesmo sem esperança de recompensa.
- Saul mostrou grande aversão ao alimento: recusou e disse: “Não comerei” (v. 23). Preferia morrer às escondidas de fome a morrer com honra pela espada. Se sofresse apenas por falta de forças vitais, a comida poderia ajudá-lo. Mas, infelizmente, sua situação estava além do alcance desse tipo de socorro. De que servem iguarias a uma consciência ferida?
Como vinagre sobre o salitre, assim é quem canta canções para um coração aflito: algo desagradável e inoportuno.
- Por fim, com a ajuda dos servos de Saul, a mulher conseguiu convencê-lo, contra a vontade e a decisão dele, a aceitar algum alimento. Não à força, mas com conselhos amigáveis, eles o obrigaram (v. 23); é dessa compulsão racional e cortês, e de nenhuma outra, que devemos entender a parábola: “Obriga-os a entrar” (Lucas 14:23).
Como são convincentes as palavras certas quando pressionam as pessoas a fazer o que é do próprio interesse delas! (Jó 6:25).
Saul se recuperou um pouco com aquela refeição. Depois de comer, ele e seus servos se levantaram e partiram antes do amanhecer (v. 25), para se apressarem ao trabalho e não serem vistos saindo de uma casa tão vergonhosa.
Josefo admira muito a coragem e a magnanimidade de Saul: embora tivesse certeza de que perderia a vida e a honra, não abandonou o exército, mas voltou resolutamente ao acampamento, pronto para a batalha.
Admiro ainda mais a dureza de seu coração: não voltou a recorrer a Deus em arrependimento e oração, na esperança de obter ao menos um adiamento. Em vez disso, correu desesperadamente para a própria ruína.
Talvez agora, tomado ao extremo pela ira e pela inveja, tenha se conformado melhor com o destino duro que lhe fora anunciado, pois também lhe disseram que seus filhos, inclusive Jônatas, cuja afeição por Davi ele odiava, morreriam com ele.
Se tinha de cair, não se importava com a destruição de sua família e de seu reino; esperava que a situação fosse ainda pior para seu sucessor. Emou thanontos gaia michtheto pyri — “Não me importa se, quando eu morrer, o mundo for incendiado”. Ele não suplicou, como Davi: “Que a tua mão seja contra mim, mas não contra o teu povo”.