Matthew Henry

1 Samuel 23

Argumento

Depois de se embriagar com o sangue dos sacerdotes do Senhor, Saul agora, neste capítulo, procura tirar a vida de Davi. Aqui, Davi faz o bem e sofre o mal ao mesmo tempo. Temos aqui: I. O bom serviço que prestou ao rei e ao país, ao resgatar a cidade de Queila das mãos dos filisteus, vv. 1-6.

II. O perigo em que isso o colocou, por causa da malícia do príncipe a quem servia e da traição da cidade que salvara, e como foi livrado desse perigo por orientação divina, vv. 7-13. III. Davi num bosque, onde seu amigo Jônatas o visita e o encoraja, vv. 14-18.

IV. A notícia que os zifeus levaram a Saul sobre os esconderijos de Davi e a expedição que Saul fez para persegui-lo, vv. 19-25. Davi escapa por pouco de cair em suas mãos, vv. 26-29. “Muitas são as aflições dos justos, mas o Senhor os livra de todas.”

Versículos 1 a 6

Davi Resgata Queila. (a.C. 1057.)

Agora entendemos por que o profeta Gade, sem dúvida por orientação divina, mandou Davi ir para a terra de Judá (1 Samuel 22:5). Era para que, já que Saul negligenciava a segurança pública, Davi cuidasse dela, apesar dos maus-tratos que recebia.

Ele devia retribuir o mal com o bem e, nisso, ser um tipo daquele que não apenas arriscou a vida, mas a entregou por aqueles que eram seus inimigos.

I. Chega a Davi, como patrono e protetor das liberdades de seu país, a notícia de que os filisteus tinham invadido a cidade de Queila e saqueado os arredores (v. 1). É provável que a partida de Deus e de Davi de junto de Saul tenha encorajado os filisteus a fazer essa incursão.

Quando os príncipes começam a perseguir o povo e os ministros de Deus, não devem esperar outra coisa senão aflição por todos os lados. Para que um país viva em paz, é preciso deixar em paz a igreja de Deus que nele está. Se Saul lutar contra Davi, os filisteus lutarão contra o país de Saul.

II. Davi está bem disposto a socorrê-los, mas quer consultar o Senhor a respeito. Vemos aqui: 1. Sua generosidade e dedicação ao bem público. Embora estivesse ocupado com seus próprios problemas e tivesse muito a fazer com a pequena força que possuía para se proteger, preocupava-se com a segurança do país e não podia ficar parado vendo-o ser saqueado.

Além disso, embora Saul, cuja obrigação era guardar as fronteiras do país, o odiasse e procurasse matá-lo, Davi estava disposto a servi-lo e defender seus interesses, tanto quanto pudesse, contra o inimigo comum. Repudiava corajosamente a ideia de sacrificar o bem comum à vingança pessoal.

Quem se recusa, ressentido, a fazer o bem porque não foi tão reconhecido quanto merecia pelos serviços que prestou não se parece com Davi. 2. Sua piedade e devoção a Deus. Davi consultou o Senhor por meio do profeta Gade; ao que parece, Abiatar não veio a ele com o éfode até que estivesse em Queila (v. 6).

Sua pergunta foi: “Devo ir e atacar estes filisteus?” Ele consultou tanto sobre o dever — se podia licitamente assumir a tarefa de Saul e agir sem receber ordens dele — quanto sobre o resultado: se podia enfrentar em segurança uma força como aquela, tendo consigo tão poucos homens e um inimigo tão perigoso como Saul às suas costas.

Em qualquer situação, é nosso dever reconhecer Deus em todos os nossos caminhos e pedir-lhe direção; e isso também será nosso consolo.

III. Deus ordenou, mais de uma vez, que Davi fosse contra os filisteus e lhe prometeu sucesso: “Vai e ataca os filisteus” (v. 2). Seus homens se opuseram (v. 3). Assim que começou a ter soldados seus, Davi descobriu como era difícil comandá-los.

Eles objetaram que já tinham inimigos suficientes entre seus próprios compatriotas; não precisavam fazer dos filisteus seus inimigos também. Seu coração desfaleceu quando apenas imaginaram estar em perigo diante do grupo de perseguidores de Saul; muito mais quando tiveram de enfrentar os exércitos filisteus.

Para convencê-los, Davi consultou novamente o Senhor. Dessa vez, recebeu não apenas uma autorização plena para lutar sem ordens de Saul — “Levanta-te e desce a Queila” —, mas também a plena garantia da vitória: “Entregarei os filisteus nas tuas mãos” (v. 4). Isso bastava para animar o maior covarde de seu bando.

IV. Davi partiu, atacou os filisteus, derrotou-os e resgatou Queila (v. 5). Ao que parece, também fez uma incursão no território dos filisteus e levou seu gado como represália pelo mal que fizeram ao roubar as eiras dos habitantes de Queila.

Observa-se (v. 6) que Abiatar foi até Davi com o éfode na mão enquanto ele ainda estava em Queila, depois de livrar a cidade dos filisteus. Era o éfode do sumo sacerdote, no qual estavam o Urim e o Tumim.

No exílio, foi um grande consolo para Davi que, embora não pudesse ir à casa de Deus, alguns dos tesouros mais preciosos dessa casa viessem até ele: o sumo sacerdote e seu peitoral do juízo.

Versículos 7 a 13

Davi Escapa de Queila. (a.C. 1057.)

Aqui, I. Saul planeja secretamente a destruição de Davi (v. 7, 8). Soube que ele tinha ido a Queila. Mas não soube o que o levara até lá? Não lhe contaram que Davi havia resgatado corajosamente Queila e libertado a cidade das mãos dos filisteus? Seria de esperar que isso levasse Saul a pensar que honra e dignidade deveria conceder a Davi por esse feito.

Em vez disso, ele aproveita a ocasião para lhe fazer mal. Era um ingrato, para sempre indigno de receber qualquer serviço ou bondade. Com razão Davi se queixou de que seus inimigos retribuíam o bem com o mal e de que, por seu amor, tornavam-se seus adversários (Salmos 35:12; 109:4). Cristo também foi tratado dessa maneira vil (João 10:32). Repare:

  1. Saul abusou do Deus de Israel, atribuindo à providência divina apoio e incentivo para seus planos maliciosos e prometendo a si mesmo que teria sucesso: “Deus o entregou na minha mão”, como se Deus, que rejeitara Saul, o estivesse reconhecendo e favorecendo naquele caso, e Davi tivesse perdido a razão.

Saul triunfa em vão antes da vitória, esquecendo-se de quantas vezes tivera oportunidades melhores contra Davi e ainda assim errara o alvo. Ímpio, associa Deus à sua causa por pensar que venceu uma etapa. Por isso, Davi ora: “Não concedas, Senhor, os desejos dos ímpios; não favoreças seu plano perverso, para que não se exaltem” (Salmos 140:8).

Não devemos pensar que uma providência favorável justifique uma causa injusta ou garanta que ela terá sucesso. 2. Saul abusou do Israel de Deus, fazendo do povo instrumento de sua malícia contra Davi. Reuniu todos para a guerra, e eles tiveram de marchar depressa até Queila.

Saul fingia que ia se opor aos filisteus, mas pretendia cercar Davi e seus homens, embora ocultasse esse plano. Diz-se que praticava secretamente o mal contra Davi (v. 9). Miserável é o povo cujo príncipe é tirano: enquanto alguns sofrem com a tirania, outros — o que é pior — são feitos seus servos e instrumentos.

II. Davi consulta a Deus sobre como preservar a própria vida. Informado de que Saul tramava sua ruína (v. 9), recorreu ao seu grande protetor em busca de orientação. Assim que o éfode chegou, ele o usou: “Trazei-me o éfode”. Temos em mãos as Escrituras, esses oráculos vivos; consultemo-las nos casos difíceis. “Trazei-me a Bíblia.”

  1. A oração de Davi nessa ocasião foi: (1.) Muito solene e reverente. Duas vezes chama Deus de “Senhor Deus de Israel” e três vezes se chama “teu servo” (v. 10, 11). Quem se dirige a Deus deve reconhecer a própria posição e saber a quem está falando. (2.) Muito específica e clara.

Davi expõe a situação assim (v. 10): “Teu servo ouviu com certeza, por fonte confiável” — pois não pediria o éfode por causa de qualquer rumor sem fundamento — “que Saul tem planos contra Queila”. Davi não diz “para me destruir”, mas “para destruir a cidade” — como Saul havia feito recentemente com a cidade de Nobe — “por minha causa”.

Parece mais preocupado com a segurança deles do que com a própria e prefere expor-se em qualquer lugar a causar-lhes problemas por estar entre eles. É assim que pensam as pessoas generosas. Suas perguntas também são bem específicas. Deus permite que sejamos assim ao lhe pedir: “Senhor, dirige-me nesta questão, pois estou em dúvida”.

Davi de fato inverte a ordem correta de suas perguntas, mas Deus, na resposta, põe as coisas em ordem. A pergunta que deveria ter sido feita primeiro também foi respondida primeiro: “Saul descerá, conforme teu servo ouviu?” “Sim”, responde o oráculo: “Ele descerá. Já tomou a decisão, está se preparando e o fará, a menos que saiba que saíste da cidade”.

“Bem, mas, se ele descer, os homens de Queila me apoiarão para defender a cidade contra ele ou abrirão os portões e me entregarão nas mãos dele?” Se Davi tivesse perguntado aos próprios homens de Queila — aos magistrados ou anciãos — o que fariam nessa situação, eles não saberiam responder.

Não conheciam o próprio coração nem sabiam o que fariam quando fossem postos à prova, muito menos como votaria a maioria do conselho. Ou poderiam dizer que o protegeriam e depois traí-lo.

Mas Deus podia dizer-lhe com certeza: “Quando Saul sitiar a cidade e exigir que te entreguem nas mãos dele, por mais que agora pareçam gostar de ti como seu salvador, preferirão entregar-te a enfrentar a fúria de Saul”. Repare: [1.] Deus conhece todos melhor do que eles próprios se conhecem.

Conhece seus limites, sua força, o que há neles e o que farão em tais circunstâncias. [2.] Por isso, Deus conhece não só o que acontecerá, mas também o que aconteceria se não fosse impedido. Assim, sabe livrar os piedosos da tentação e retribuir a cada um conforme suas obras.

  1. Depois de ser avisado do perigo, Davi saiu de Queila (v. 13). Seus seguidores agora tinham aumentado para seiscentos. Davi partiu com eles sem saber para onde ia, mas decidido a seguir a Providência e colocar-se sob sua proteção. Isso desfez os planos de Saul.

Saul pensou que Deus havia entregado Davi em sua mão; no entanto, Deus o livrou da mão de Saul, como um pássaro da armadilha do caçador. Quando soube que Davi escapara de Queila, Saul desistiu de marchar com o grosso do exército, como pretendia (v. 8).

Decidiu levar apenas seus guardas e sair à procura dos inimigos de seu povo, para frustrar os planos deles.

Versículos 14 a 18

Davi no Deserto de Zife. (a.C. 1057.)

Aqui, I. Davi se esconde. Ficou num deserto, numa montanha (v. 14) e num bosque (v. 15). Devemos: 1. Elogiar suas grandes virtudes: humildade, modéstia, lealdade ao príncipe e espera paciente pela providência de Deus.

Davi não reuniu suas forças contra Saul, não o enfrentou em campo aberto nem tentou surpreendê-lo com alguma estratégia para vingar a própria causa e a dos sacerdotes do Senhor, acabar com seus problemas e pôr fim às calamidades do país sob o governo tirânico de Saul.

Não tentou nada disso; seguiu o caminho de Deus, esperou a hora de Deus e se contentou em proteger-se nos bosques e desertos, ainda que isso pudesse parecer uma desonra à coragem pela qual se tornara famoso.

  1. Também devemos lamentar seu destino difícil: um homem inocente vivia aterrorizado, temendo pela vida; um homem honrado era desonrado; um homem de mérito recebia esse pagamento por seus serviços; um homem que se dedicava ao serviço de Deus e do país era impedido de ambos e condenado à obscuridade. Que dizer disso?

Que nos faça pensar pior deste mundo, que tantas vezes trata tão mal seus melhores homens. Que reconcilie até homens importantes e ativos com uma vida reservada e limitada, se a Providência lhes der esse destino, pois foi o de Davi.

E que nos faça desejar o reino em que a bondade será para sempre gloriosa, a santidade será honrada e os justos brilharão como o sol, que não pode ser posto debaixo de um alqueire.

II. Saul o persegue como inimigo implacável. Procurava-o todos os dias: sua malícia não lhe dava descanso (v. 14). Procurava tirar-lhe a vida: sua malícia era cruel (v. 15). Desde o início era assim e assim continuará: aquele que nasce segundo a carne persegue o que nasce segundo o Espírito (Gálatas 4:29).

III. Deus o defende como poderoso protetor. Não entregou Davi nas mãos de Saul, como Saul esperava (v. 7); e, a menos que Deus o entregasse, Saul não poderia prevalecer contra ele (João 19:11).

IV. Jônatas o consola como amigo fiel e constante. Amigos verdadeiros encontram um meio de se reunir. É provável que Davi tenha marcado a hora e o lugar desse encontro, e Jônatas cumpriu o combinado, embora assim se expusesse à ira do pai e pudesse até perder a vida se fosse descoberto.

A amizade verdadeira não recua diante do perigo: arrisca-se com facilidade. Também não recua diante da humildade: sabe rebaixar-se e trocar um palácio por um bosque para servir a um amigo. A simples presença de Jônatas reanimou Davi; além disso, Jônatas lhe disse coisas muito encorajadoras.

  1. Como amigo piedoso, dirigiu-o a Deus, fundamento de sua confiança e fonte de seu consolo: fortaleceu-lhe a mão em Deus. Embora fosse um forte crente, Davi precisava da ajuda dos amigos para completar o que faltava à sua fé.

Jônatas o ajudou lembrando-lhe a promessa de Deus, o santo óleo com que fora ungido, a presença de Deus que até então estivera com ele e as muitas provas que tivera da bondade de Deus. Assim, fortaleceu suas mãos para agir, encorajando seu coração não na criatura, mas em Deus.

Jônatas não tinha como fazer algo para fortalecê-lo, mas lhe assegurou que Deus o faria.

  1. Como amigo disposto a renunciar a si mesmo, Jônatas se alegrou com a perspectiva de Davi alcançar a honra que era seu direito de nascimento (v. 17): “Viverás para ser rei, e considerarei suficiente o cargo de estar ao teu lado, perto de ti, embora abaixo de ti; jamais pretenderei rivalizar contigo”.

Essa renúncia de Jônatas ao direito que tinha daria grande satisfação a Davi e deixaria seu caminho muito mais livre. Jônatas lhe diz que Saul sabia muito bem disso, pois já o ouvira dizer algo semelhante.

Vemos, portanto, que Saul era perverso por perseguir aquele a quem Deus favorecia e tolo por tentar impedir o que Deus determinara e certamente aconteceria. Como poderia anular o propósito de Deus? 3. Como amigo constante, Jônatas renovou a aliança de amizade entre eles.

Pela terceira vez, fizeram uma aliança diante do Senhor, chamando-o para testemunhar (v. 18). O amor verdadeiro tem prazer em renovar seus compromissos e dar e receber novas garantias da firmeza da amizade. Também devemos renovar com frequência nossa aliança com Deus e manter assim a comunhão com ele. Então Davi e Jônatas se separaram.

Pelo que sabemos, nunca mais se encontraram neste mundo. Ao prometer que estaria ao lado de Davi em seu reino, Jônatas expressou o que desejava, não o que tinha motivos para esperar.

Versículos 19 a 29

Aqui temos: 1. Os zifeus se oferecem para trair Davi em favor de Saul (v. 19, 20). Davi se escondia no deserto de Zife (v. 14, 15) e confiava ainda mais nos habitantes daquela região por serem da mesma tribo que ele.

Eles tinham motivos para se considerar felizes por poderem servir a alguém que era o ornamento de sua tribo e provavelmente seria ainda mais ilustre. Davi estava tão longe de saquear a região ou perturbar seus habitantes com suas tropas que estava disposto a protegê-los e lhes fazer todo o bem que pudesse.

Mas, para cair nas boas graças de Saul, foram até ele e não só lhe informaram detalhadamente onde Davi estava acampado (v. 19), como também o convidaram a levar suas tropas à região para persegui-lo e prometeram entregá-lo nas mãos do rei (v. 20). Saul não os havia mandado interrogar nem ameaçar.

Por iniciativa própria e sem sequer pedir recompensa — como fez Judas: “Que me dareis?” —, ofereceram-se para trair Davi àquele que, sabiam, ansiava por seu sangue. 2. Saul recebe a informação com gratidão e aproveita alegremente a oportunidade para perseguir Davi naquele deserto, na esperança de finalmente capturá-lo.

Ele mostra quanto apreciou a notícia (v. 21): “Benditos sejais do Senhor”, tão perto está Deus de sua boca, embora tão longe de seu coração, “pois vos compadecestes de mim”. Ao que parece, Saul se considerava um homem miserável e digno de compaixão.

Sua inveja e seu mau caráter o tornavam assim; do contrário, poderia estar tranquilo e não precisaria da compaixão de ninguém. Ele também insinua que a maioria de seu povo não se preocupava muito com ele: “Vós vos compadecestes de mim, mas os outros não”.

Saul instrui os zifeus a procurar com mais cuidado os esconderijos de Davi (v. 22): “Pois”, diz ele, “ouvi dizer que ele age com muita astúcia”. Apresenta Davi como alguém que usava sua astúcia para fazer o mal, quando tudo o que fazia era tentar proteger-se. É estranho que Saul não tenha descido imediatamente com os zifeus.

Esperava que, com a ajuda deles, pudesse apanhar sua presa com maior certeza; assim, a Providência divina deu tempo a Davi para escapar. Os zifeus, porém, tinham colocado espiões em todos os lugares onde Davi provavelmente poderia ser encontrado. Por isso, Saul podia vir e capturá-lo, se ainda estivesse na região (v. 23).

Saul agora se julgava seguro da presa e já se agradava de devorá-la. 3. Davi corre então perigo iminente. Ao saber que os zifeus o haviam traído, retirou-se da colina de Haquila para o deserto de Maom (v. 24). Naquela ocasião, escreveu o Salmo 54, como indica o título.

Chama os zifeus de estrangeiros, embora fossem israelitas, por terem agido cruelmente com ele; mas se coloca sob a proteção divina: “Eis que Deus é o meu ajudador”; e então tudo estará bem. Saul, informado de onde Davi estava, perseguiu-o de perto (v. 25), até chegar tão próximo que havia apenas uma montanha entre eles (v. 26).

Davi e seus homens fugiam de um lado da montanha, enquanto Saul e seus homens os perseguiam do outro: Davi com medo, Saul cheio de esperança. Mas aquela montanha foi um símbolo da Providência divina, que se interpôs entre Davi e o destruidor, como a coluna de nuvem entre os israelitas e os egípcios. A montanha escondeu Davi e confundiu Saul.

Davi agora fugia como uma ave para o seu monte (Salmos 11:1) e encontrou Deus como a sombra de uma grande rocha. Saul esperava, com suas numerosas tropas, cercar Davi e seus homens por todos os lados. Mas o terreno não era propício a esse plano, e ele fracassou.

Um novo nome foi dado ao lugar para lembrar o ocorrido (v. 28): Selá-Hamalecote, “a rocha da divisão”, porque separou Saul de Davi. 4. Davi é livrado desse perigo. A Providência desviou Saul quando ele estava prestes a agarrar Davi.

Chegou-lhe a notícia de que os filisteus invadiam a terra (v. 27), provavelmente a região onde ficava sua própria propriedade, que seria tomada ou ao menos saqueada pelos invasores. No início deste capítulo, Saul quase não se preocupou com o sofrimento de Queila nem com o socorro que Davi lhe prestou.

Isso nos leva a suspeitar que agora não teria interrompido a perseguição para enfrentar os filisteus se seus próprios interesses não estivessem em jogo. Seja como for, Saul se viu obrigado a ir contra os filisteus (v. 28), e assim Davi foi livrado quando estava à beira da destruição.

Saul perdeu a presa, e Deus foi glorificado como maravilhoso protetor de Davi. Os filisteus invadiram a terra sem a menor intenção de ajudar Davi; ainda assim, a providência soberana de Deus, que ordena todos os acontecimentos e seus momentos, fez com que a invasão lhe fosse de grande proveito. A sabedoria de Deus sempre encontra meios de preservar seu povo.

Assim como um Saul foi desviado, outro Saul se converteu justamente quando respirava ameaças e matança contra os santos do Senhor (Atos 9:1). 5. Depois de escapar, Davi se abrigou em algumas fortalezas naturais que encontrou no deserto de En-Gedi (v. 29).

O Dr. Lightfoot pensa que esse era o deserto de Judá, onde Davi estava quando escreveu o Salmo 63, que respira afeição piedosa e devota tanto quanto quase qualquer outro de seus salmos. Em todos os lugares e situações, Davi mantinha sua comunhão com Deus.


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