Matthew Henry

1 Samuel 18

Argumento

No capítulo anterior deixamos Davi triunfante; agora vemos como seus triunfos foram aproveitados. I. Ele logo se tornou: 1. alguém que estava constantemente ao lado de Saul (v. 2); 2. amigo de aliança de Jônatas (v. 1, 3, 4); 3. o favorito de seu país (v. 5, 7, 16).

II. Os reveses que acompanharam seus triunfos. A vaidade própria até das boas obras neste mundo é que “por causa dela o homem é invejado” (Eclesiastes 4:4). Foi o que aconteceu com Davi, invejado por Saul:

  1. Saul o odiou e tentou matá-lo com as próprias mãos (vv. 8-11).

  2. Teve medo dele e tramou para que lhe acontecesse algum mal (vv. 12-17). Propôs dar-lhe uma de suas filhas em casamento, mas: [1.] enganou-o, entregando a filha mais velha a outro, para provocá-lo (v. 19); [2.] deu-lhe a mais nova sob condições que poriam sua vida em perigo (vv. 20-25).

Davi, porém, cumpriu bravamente as condições (v. 26, 27) e passou a ser cada vez mais estimado (vv. 28-30). Davi continuava a progredir, mas, como todos os que almejam a coroa da vida devem esperar, tinha de enfrentar muitas dificuldades e oposição.

Versículos 1 a 5

O Amor de Jônatas por Davi. (a.C. 1060.)

Davi fora ungido para receber a coroa das mãos de Saul e ocupar o lugar de Jônatas; mesmo assim, vemos aqui:

I. Saul, que então estava de posse da coroa, depositou confiança em Davi. Deus assim ordenou, para que Davi se preparasse para o serviço futuro por meio de sua promoção na corte.

Saul levou Davi para sua casa e não permitiu que voltasse à vida retirada (v. 2). Como Davi se destacara dos soldados ao aceitar o desafio que recusaram, Saul o pôs à frente deles (v. 5). Não o fez general, pois Abner ocupava esse posto; talvez o tenha feito capitão da guarda pessoal. Ou, embora fosse o mais jovem, deu-lhe precedência em reconhecimento de seus grandes serviços.

Saul o empregou nos assuntos do governo, e Davi ia aonde quer que Saul o enviasse, mostrando-se tão obediente quanto ousado e corajoso. Os que esperam governar devem primeiro aprender a obedecer. Davi se mostrara filho obediente a seu pai Jessé e agora era servo obediente de Saul, seu senhor. Espera-se que quem é bom numa relação também o seja em outra.

II. Jônatas, herdeiro da coroa, fez uma aliança com Davi. Deus assim ordenou, para que o caminho de Davi ficasse mais livre, pois seu rival se tornara seu amigo:

  1. Jônatas sentiu por Davi extraordinária afeição e carinho (v. 1). Quando Davi terminou de falar com Saul, Jônatas se afeiçoou profundamente a ele. Não sabemos se isso se refere à conversa com Saul antes da batalha (1 Samuel 17:34, 37) ou depois dela (v. 51); provavelmente, houve muito mais nessa conversa do que está registrado.

Em ambas as ocasiões, Davi se expressou com tanta prudência, modéstia e piedade, com tamanha felicidade de expressão, tanta ousadia e, ao mesmo tempo, doçura — tudo tão natural e sem afetação, ainda mais admirável diante das limitações de sua formação e aparência — que a alma de Jônatas se ligou imediatamente à alma de Davi.

Jônatas já havia atacado um exército filisteu com a mesma fé e coragem com que Davi acabara de enfrentar o gigante filisteu. Havia entre os dois grande semelhança de sentimentos, disposições e planos; por isso, seus espíritos se uniram com tanta facilidade, rapidez e intimidade que pareciam uma só alma em dois corpos.

Ninguém tinha mais motivos para não gostar de Davi do que Jônatas, pois Davi tomaria seu lugar na sucessão à coroa; ainda assim, ninguém lhe tinha mais consideração. Os que deixam sua afeição ser governada pela sabedoria e pela graça não permitem que interesses ou considerações mundanas a afastem: os pensamentos mais elevados absorvem e dominam os menores.

  1. Jônatas demonstrou seu amor por Davi com um presente generoso (v. 4). Não suportava ver uma alma tão grande, ainda que alojada num corpo tão belo, disfarçada pela roupa pobre e desprezível de um pastor.

Por isso, cuidou de vesti-lo logo como homem da corte, dando-lhe uma túnica, e como soldado, dando-lhe uma espada e um arco em lugar do cajado e da funda, além de um cinto ou faixa em lugar do alforje de pastor.

O presente se tornou muito mais valioso porque aquelas eram as mesmas peças que o próprio Jônatas usava. Como sinal do que viria, ele as tirou de si para vestir Davi. As roupas de Saul não lhe serviriam, mas as de Jônatas serviam; os dois tinham o mesmo porte, o que combinava bem com a afinidade entre suas mentes.

Quando Saul pôs em Davi essas insígnias de honra, Davi tornou a tirá-las, pois primeiro queria merecê-las e só depois usá-las. Mas agora, tendo dado provas do espírito de um príncipe e de um soldado, não tinha vergonha de vestir as roupas de um príncipe e de um soldado.

Davi aparece vestido com as roupas de Jônatas para que todos percebam que é como um segundo eu de Jônatas. Nosso Senhor Jesus também nos mostrou seu amor: despiu-se para nos vestir e esvaziou-se para nos enriquecer. Fez mais do que Jônatas: revestiu-se de nossos trapos, enquanto Jônatas não vestiu os de Davi.

  1. Jônatas procurou perpetuar essa amizade. Desde o primeiro encontro, ficaram tão satisfeitos um com o outro que fizeram uma aliança entre si (v. 3). A afeição que sentiam era sincera, e quem tem um coração honesto não se assusta com compromissos. O amor verdadeiro deseja ser constante. Os que amam a Cristo como à própria alma estarão dispostos a unir-se a ele numa aliança eterna.

III. A corte e o povo concordaram em honrar Davi. Raramente concordam quanto aos seus favoritos; ainda assim, Davi era estimado por todo o povo e também — o que era surpreendente — pelos servos de Saul (v. 5). O povo o amava de coração; os servos, por vergonha, não podiam deixar de tratá-lo com afeto e cortesia.

Foi certamente uma grande demonstração do poder da graça de Deus em Davi que ele suportasse de repente todo esse respeito e honra sem se envaidecer além da medida. Os que sobem tão depressa precisam de boa cabeça e bom coração. É mais difícil saber viver na abundância do que na humilhação.

Davi é Honrado pelo Povo; Saul é Perturbado por um Espírito Mau. (a.C. 1060.)

Versículos 6 a 11

Agora começam as aflições de Davi. Elas não apenas vieram logo após seus triunfos, mas também tiveram neles sua origem. Tal é a vaidade daquilo que neste mundo parece grandioso.

I. O povo comum o exaltou demais. Algum tempo depois da vitória, Saul percorreu em triunfo as cidades de Israel mais próximas para receber as felicitações do povo. Quando fazia sua entrada pública em cada lugar, as mulheres eram as mais prontas em demonstrar-lhe respeito, como era costume nos triunfos públicos (v. 6).

Parece que tinham uma canção, composta por algum poeta admirador da bravura de Davi, que, ao dar às suas façanhas naquela batalha mais destaque do que às de Saul, foi mais justo do que sábio. As mulheres a cantavam enquanto dançavam; seu refrão dizia: “Saul matou os seus milhares, e Davi, as suas dezenas de milhares”.

Moisés fez distinção semelhante entre os números de Efraim e Manassés (Deuteronômio 33:17).

II. Isso desagradou muito a Saul e o fez invejar Davi (v. 8, 9). Saul deveria ter considerado que elas se referiam apenas àquela batalha e não pretendiam diminuir nenhuma de suas vitórias anteriores. Na batalha então celebrada, era inegável que Davi, ao matar Golias, na prática matara todos os filisteus mortos naquele dia e derrotara o exército inteiro; portanto, apenas lhe davam o que era devido.

Talvez o compositor da canção tivesse usado apenas uma liberdade poética e não pretendesse fazer uma comparação invejosa entre Saul e Davi. Ou, mesmo que pretendesse, não cabia a um príncipe de grandeza de espírito dar atenção a uma ofensa à sua honra pessoal, quando estava claro que a glória pública era o objetivo sincero.

Mas Saul se irou muito e logo suspeitou de algum plano de traição por trás da canção: “Que mais lhe falta, senão o reino?” Por isso, passou a olhar Davi com ciúme e a procurar ocasião para prejudicá-lo (v. 9): já não o via como antes. Os orgulhosos não suportam ouvir elogios a ninguém além deles e pensam que perdem toda a honra que não fica com eles.

É sinal de que o Espírito de Deus se afastou de alguém quando essa pessoa se irrita com ofensas, inveja e desconfia de todos ao redor e age com mau humor; a sabedoria do alto nos torna inteiramente diferentes.

III. Furioso, Saul tentou matar Davi (v. 10, 11). O ciúme é a fúria do homem. Tornou Saul violento contra Davi e impaciente por tirá-lo do caminho.

  1. Os ataques de delírio voltaram. No dia seguinte a ter concebido malícia contra Davi, o espírito mau da parte de Deus que antes o atormentara voltou a dominá-lo. Os que se entregam à inveja e à falta de caridade dão lugar ao diabo e se preparam para que o espírito imundo volte com outros sete ainda piores. Onde há inveja, há confusão.

Saul fingiu um êxtase religioso: “Profetizou no meio da casa”, isto é, fez gestos e movimentos de profeta, representando bem o papel para atrair Davi a uma armadilha e fazê-lo baixar a guarda, sem recear perigo. Talvez pretendesse, caso conseguisse matá-lo, atribuir o ato a um impulso divino e ao espírito de profecia que parecia animá-lo. Na realidade, quem o movia era uma fúria infernal.

  1. Embora tivesse sido elevado a uma posição muito mais honrosa, Davi não se considerou importante demais para, a serviço de seu senhor, voltar à harpa: tocava como de costume. Que os mais elevados não considerem abaixo de si nada que possa fazer o bem e servir àqueles a quem devem servir.

  2. Saul aproveitou aquela ocasião para tentar matar Davi. Uma espada nas mãos de um louco é algo perigoso, sobretudo nas mãos de alguém como Saul, enlouquecido pela malícia. Ele tinha uma lança ou dardo na mão e a arremessou, tentando matar Davi de propósito, não num acesso súbito de paixão: “Vou cravar Davi na parede com ela”. Lançou-a com força desesperada.

Com razão Davi se queixa de seus inimigos: “Eles me odeiam com ódio cruel” (Salmos 25:19). Nenhuma vida parece preciosa demais para ser sacrificada à malícia. Se a lembrança grata do grande serviço que Davi prestara ao povo não aplacava a fúria de Saul, seria de esperar que ele ao menos considerasse a bondade que Davi lhe fazia, aliviando-o, como ninguém mais conseguia, de seus piores tormentos.

Só quem está possuído por um espírito diabólico retribui o bem com o mal. Compare Davi, com a harpa na mão, procurando servir a Saul, e Saul, com o dardo na mão, procurando matar Davi. Observe a mansidão e a utilidade do povo de Deus perseguido e a brutalidade e barbárie de seus perseguidores. “Os sanguinários odeiam o íntegro, mas os justos procuram a sua alma” (Provérbios 29:10).

  1. Davi escapou do golpe duas vezes — naquela ocasião e depois (1 Samuel 19:10). Não arremessou o dardo de volta contra Saul; retirou-se, fugindo para salvar a vida em vez de lutar. Embora tivesse força, coragem e até uma aparência de razão para resistir e vingar-se da agressão, limitou-se a pôr-se a salvo, afastando-se do caminho do dardo.

Sem dúvida, Davi mantinha os olhos atentos à mão de Saul e ao dardo que ela segurava. Foi tão corajoso ao fugir dele quanto fora pouco antes ao avançar contra Golias. Ainda assim, sua segurança deve ser atribuída ao olhar vigilante da providência de Deus, que o salvou da espada destruidora. Essa fuga por pouco parecia indicar que Davi estava destinado a algo extraordinário.

Versículos 12 a 30

Davi se Casa com a Filha de Saul; Saul Inveja Davi. (a.C. 1059.)

Saul, na prática, declarou guerra a Davi. Começou com hostilidade aberta quando arremessou o dardo contra ele. Agora vemos como sua inimizade prosseguiu e como Davi recebeu esses ataques.

I. Vejamos como Saul expressou sua malícia contra Davi:

  1. Teve medo dele (v. 12). Talvez fingisse recear que Davi causasse algum mal para abrir caminho até a coroa. Os que planejam o mal contra os outros costumam querer que se pense que os outros planejam o mal contra eles. Mas o fato de Davi ter se retirado (v. 11) mostrava claramente que não tinha essa intenção.

Ainda assim, Saul realmente temia Davi, como Herodes temia João (Marcos 6:20). Saul sabia que perdera a presença favorável de Deus e que Davi a tinha; por isso, o temia. Os que têm Deus consigo são verdadeiramente grandes e dignos de respeito.

Quanto mais sabiamente Davi se comportava, mais Saul o temia (v. 15 e, novamente, v. 29). As pessoas pensam que se farão temer intimidando e ameaçando; assim, só os tolos as temem, enquanto os sábios e bons as desprezam. O caminho para ser temido por quem queremos aterrorizar e amado por quem queremos alegrar é agir com sabedoria. A sabedoria ilumina o rosto e impõe respeito.

  1. Saul tirou Davi da corte e lhe deu um comando militar no interior (v. 13). Fez dele capitão de mil, para que ficasse fora de sua vista, pois odiava vê-lo, e para que não conquistasse a lealdade dos membros da corte.

Mas nisso agiu sem prudência, pois deu a Davi oportunidade de conquistar a afeição do povo, que passou a amá-lo (v. 16), porque ele saía e voltava diante deles, isto é, dirigia os assuntos civis e militares de seu país e satisfazia a todos.

  1. Saul o incentivou a aproveitar todas as ocasiões para brigar com os filisteus e combatê-los (v. 17). Insinuou que assim Davi prestaria bom serviço ao rei — “Seja valente por mim” — e a Deus — “Lute as batalhas do Senhor” —, além de fazer um bem a si mesmo, pois assim se qualificaria para a honra que Saul lhe destinava: casar-se com sua filha mais velha.

Davi merecera isso ao matar Golias, pois a promessa fora proclamada a quem realizasse esse feito (1 Samuel 17:25). Mas era tão modesto que não o exigiu. Agora Saul lhe fazia a proposta com intenção de prejudicá-lo e lançá-lo em perigosas empreitadas, pensando consigo: “Que a mão dos filisteus o alcance”.

Esperava que, mais cedo ou mais tarde, Davi fosse morto por eles; mas como podia esperar isso, sabendo que Deus estava com Davi?

  1. Saul provocou Davi ao descontentamento e à revolta: quebrou a promessa e, no momento devido, deu a filha a outro (v. 19). Foi uma afronta que atingiu sua honra e seu amor. Saul pensou que Davi reagiria com alguma palavra ou ação imprópria, dando-lhe ocasião de eliminá-lo legalmente. É assim que os maus procuram causar dano.

  2. Frustrado nisso, Saul lhe ofereceu a outra filha, que, ao que parece, tinha uma afeição secreta por Davi (v. 20), mas com a intenção de que ela se tornasse uma armadilha para ele (v. 21).

(1.) Talvez esperasse que, mesmo depois de casar com Davi, ela tomasse o partido do pai contra o marido e lhe desse oportunidade de fazer mal a Davi.

(2.) Saul esperava que as condições do casamento causassem sua ruína. Fingindo tanto zelo contra os filisteus, exigiu que Davi matasse cem deles e trouxesse os prepúcios cortados como prova de que eram incircuncisos. Isso seria uma afronta justa contra os filisteus, que odiavam a circuncisão por ser uma ordenança de Deus.

Talvez, ao fazer isso, Davi os enfurecesse ainda mais e os levasse a buscar vingança contra ele. Era o que Saul desejava e planejava, muito mais do que vingar-se dos filisteus: pensava fazer Davi cair pelas mãos deles (v. 25).

Veja aqui:

[1.] Como os maus enganam a si mesmos. A consciência de Saul não lhe permitia, exceto quando o espírito mau o dominava, tirar ele próprio a vida de Davi, pois nem ele podia deixar de sentir horror diante da ideia de assassinar um homem tão inocente e excelente.

Mas pensava que expô-lo deliberadamente aos filisteus não tinha nada de errado: “Que a minha mão não o alcance, mas que a mão dos filisteus o alcance”. No entanto, esse plano malicioso contra Davi era tão homicida diante de Deus como se Saul o tivesse matado com as próprias mãos.

[2.] Como os maus enganam o mundo. Saul fingia extraordinária afeição por Davi mesmo quando planejava arruiná-lo e tramava contra ele: “Você será meu genro”, dizia (v. 21), embora o odiasse implacavelmente.

Talvez Davi se referisse a isso quando disse de seu inimigo: “Suas palavras eram mais suaves que a manteiga, mas havia guerra em seu coração” (Salmos 55:21).

É provável que Saul tenha mandado seus servos persuadirem Davi a aceitar o casamento com sua filha Mical (v. 22) por temer que Davi recusasse, seja porque Saul lhe dera a filha mais velha a outro (v. 19), seja pela dureza das condições que agora pretendia impor.

II. Vejamos como Davi se comportou quando a maré do desagrado de Saul se voltou contra ele:

  1. Davi se conduziu com sabedoria em tudo o que fazia. Percebeu o ciúme de Saul e, por isso, foi muito cauteloso e cuidadoso em tudo o que dizia e fazia, para não ofendê-lo.

Não se queixou do tratamento injusto nem se pôs à frente de um partido; administrou todos os assuntos que lhe confiaram como quem tinha por objetivo servir de verdade ao rei e ao país, considerando esse o propósito de sua promoção.

O Senhor então lhe dava êxito em todos os seus empreendimentos. Com isso, Davi conquistava a má vontade de Saul, mas obtinha o favor de Deus. Compare esse comportamento com a promessa de Davi em Salmos 101:2: “Procederei com sabedoria”. Foi o que fez aqui; e sua oração — “Ó, quando virás ao meu encontro?” — Deus também respondeu: o Senhor estava com ele.

Por mais que a sorte pareça favorecer os tolos, Deus reconhecerá e abençoará os que se conduzem com sabedoria.

  1. Quando lhe propuseram que se tornasse genro do rei, Davi recebeu a proposta repetidas vezes com toda a modéstia e humildade.

Quando Saul lhe ofereceu a filha mais velha (v. 18), Davi respondeu: “Quem sou eu, e o que é a minha vida?” Quando um homem da corte lhe propôs a mais nova, Davi não fez menção à afronta de Saul, que dera a outra a um homem diferente; continuou com a mesma atitude (v. 23): “Parece pouca coisa ser genro do rei, sendo eu um homem pobre e sem importância?”

Davi sabia que Mical o amava, mas não tentou usar a afeição dela para conquistá-la sem o consentimento do pai. Esperou até que a proposta lhe fosse feita. Observe:

(1.) Como falou com grande consideração da honra que lhe ofereciam: “ser genro do rei”. Embora seu rei fosse um homem de ascensão recente, de origem tão humilde quanto a sua e seu governo estivesse longe de ser exemplar, Davi, por ser Saul um rei coroado, falava dele e da família real com o devido respeito.

A religião não nos ensina a ser rudes nem mal-educados; pelo contrário, exige que tributemos honra a quem é devido.

(2.) Como falou com humildade de si mesmo: “Quem sou eu?” Isso não vinha de um espírito covarde, servil e desprezível; quando a ocasião exigia, Davi mostrava que tinha tanto senso de honra quanto qualquer outro.

Tampouco era por ciúme de Saul, embora tivesse motivos suficientes para temer que houvesse uma serpente escondida sob a grama verde, mas por sua verdadeira e profunda humildade: “Quem sou eu, um homem pobre e sem importância?”

Davi tinha tantos motivos quanto qualquer outro para reconhecer o próprio valor. Pertencia a uma família antiga e honrada de Judá; era belo, grande estadista e soldado. Seus feitos eram notáveis: conquistara a cabeça de Golias e o coração de Mical. Sabia que os planos divinos o destinavam ao trono de Israel; ainda assim, perguntava: “Quem sou eu, e o que é a minha vida?”

Devemos sempre ter pensamentos humildes a nosso respeito, por mais que Deus nos eleve. “Quem se humilha será exaltado.” Se Davi considerava tão grande honra ser genro do rei, quanto mais devemos considerar a honra de sermos filhos — não por casamento, mas pelo evangelho — do Rei dos reis! “Vejam que grande amor o Pai nos concedeu!” Quem somos nós para receber tamanha dignidade?

  1. Quando Saul estabeleceu como condição para o casamento que Davi matasse cem filisteus, Davi aceitou prontamente (v. 26). Agradou-lhe tornar-se genro do rei nessas condições. Antes de terminar o prazo que lhe deram para cumprir a tarefa, dobrou o que se exigia e matou duzentos (v. 27).

Davi não quis mostrar que suspeitava que Saul pretendesse prejudicá-lo, embora tivesse motivos de sobra para isso. Preferiu agir como se Saul quisesse honrá-lo e aceitou de bom grado a tarefa, como convinha a um soldado corajoso e a um verdadeiro apaixonado, embora possamos supor que ela fosse penosa para Mical.

Com isso, Davi também demonstrou:

(1.) Grande confiança na proteção divina. Sabia que Deus estava com ele e, por isso, não temia cair nas mãos dos filisteus, apesar de se expor muito numa empreitada assim, quaisquer que fossem as esperanças de Saul.

(2.) Grande zelo pelo bem de seu país. Davi não recusaria nenhuma oportunidade de servi-lo, ainda que arriscasse a vida.

(3.) Uma ideia correta da honra, que consiste menos em receber promoção do que em merecê-la. Davi só se agradou da ideia de se tornar genro do rei quando viu que a honra tinha um preço tão alto; preocupava-se mais em merecê-la do que em obtê-la. Não poderia desfrutá-la com satisfação antes de conquistá-la.

  1. Mesmo depois de se casar, Davi continuou prestando bons serviços a Israel. Quando os príncipes dos filisteus começaram a preparar outra guerra, Davi estava pronto para enfrentá-los e se conduziu com mais sabedoria do que todos os servos de Saul (v. 30).

A lei dispensava os homens da guerra no primeiro ano depois do casamento (Deuteronômio 24:5), mas Davi amava demais seu país para valer-se dessa dispensa. Muitos se mostram dispostos a servir ao bem público enquanto buscam promoção, mas deixam de fazê-lo depois que alcançam seu objetivo. Davi agia por princípios mais generosos.

III. Observe como Deus fez o plano de Saul contra Davi resultar em bem para Davi:

  1. Saul lhe deu a filha como armadilha; ainda assim, esse casamento lhe foi útil, pois ser genro de Saul tornava muito menos contestável sua sucessão, sobretudo quando tantos filhos de Saul morreram com ele (1 Samuel 31:2).

  2. Saul pensou em eliminá-lo expondo-o a serviços perigosos. Mas isso mesmo firmou a posição de Davi junto ao povo: quanto mais ele fazia contra os filisteus, mais o povo o amava e estimava (v. 30), facilitando sua chegada ao trono. Assim, Deus faz até a ira do homem louvá-lo e a usa para realizar seus desígnios bondosos em favor do próprio povo.


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