Matthew Henry

1 Samuel 12

Argumento

No fim do capítulo anterior, deixamos a assembleia geral dos representantes reunida. Neste capítulo, lemos o discurso de Samuel, quando entregou o governo a Saul.

I. Ele se defende de qualquer suspeita ou acusação de má administração durante o período em que governou (vv. 1-5).

II. Recorda as grandes coisas que Deus fez por eles e por seus pais (vv. 6-13).

III. Põe diante deles o bem e o mal, a bênção e a maldição (v. 14, 15).

IV. Desperta-os para que deem atenção ao que lhes diz, pedindo a Deus que envie trovões (vv. 16-19).

V. Encoraja-os com a esperança de que tudo acabará bem (vv. 20-25).

Esse é o sermão de despedida de Samuel àquela assembleia ilustre e o sermão de coroação de Saul.

Versículos 1 a 5

O Discurso de Samuel a Israel. (a.C. 1069.)

Aqui está: I. Samuel faz um breve relato da recente mudança e da situação atual do governo, como introdução ao que ainda tinha a lhes dizer (v. 1, 2).

  1. Quanto a si mesmo, passara a vida a serviço deles. Começara cedo a ser útil ao povo e continuara assim por muito tempo: “Tenho andado diante de vocês, como guia para orientá-los e como pastor que conduz o rebanho (Salmos 80:1), desde a minha infância até hoje”. Assim que, ainda jovem, recebeu a luz da profecia, começou a ser para Israel uma luz ardente e brilhante.

“Agora, porém, meus melhores dias passaram: estou velho e de cabelos grisalhos.” Por isso, era ainda maior a falta de bondade deles ao rejeitá-lo; ao mesmo tempo, estava mais disposto a renunciar, pois sentia o peso do governo sobre os ombros curvados.

Ele era velho e, portanto, mais capaz de aconselhá-los; eles deveriam ter prestado ainda mais atenção às suas palavras, pois os dias falam e a multidão de anos ensina sabedoria. Há reverência especial devida aos idosos, sobretudo a magistrados e ministros idosos.

“Estou velho e, portanto, talvez não viva muito; talvez nunca mais tenha ocasião de falar com vocês. Por isso, prestem atenção ao que digo.”

  1. Quanto aos filhos, Samuel disse: “Vejam, eles estão com vocês; se quiserem, podem pedir-lhes contas de qualquer falta que tenham cometido. Estão aqui e, com essa mudança, não fugiram do país. Estão em condição igual à de vocês, sujeitos ao novo rei como vocês; se puderem provar que fizeram algum mal, processem-nos agora segundo o devido processo legal, punam-nos e obriguem-nos a restituir”.

  2. Quanto ao novo rei, Samuel os atendera ao colocá-lo sobre eles (v. 1): “Dei ouvidos à voz de vocês em tudo o que me disseram; desejei agradá-los, se possível, e deixá-los satisfeitos, mesmo que isso significasse afastar a mim e à minha família. Agora vocês me darão ouvidos e aceitarão meu conselho?”

A mudança estava consumada: “Vejam, o rei anda diante de vocês” (v. 2); ele se apresenta em público, pronto para servi-los nos assuntos públicos.

Agora que vocês se fizeram semelhantes às nações no governo civil e rejeitaram nele o governo divino, tomem cuidado para não se fazerem também semelhantes às nações na religião, abandonando a adoração a Deus.

II. Samuel os convoca solenemente a testemunhar sobre sua integridade no exercício do governo (v. 3): “Testemunhem contra mim: de quem tomei o boi?” Observe:

  1. O propósito desse apelo. Com ele, pretendia: (1.) Convencê-los da injustiça que cometeram ao afastá-lo, sem terem algo de errado a lhe imputar — seu governo só tinha o defeito de ser barato, fácil e brando demais.

Também queria mostrar a injustiça que fizeram a si próprios ao dispensar quem não lhes tomara sequer um boi ou uma jumenta e se colocar sob o poder de alguém que lhes tomaria campos e vinhas, e até os próprios filhos e filhas (1 Samuel 8:11). O modo de governar do rei seria muito diferente do de Samuel.

(2.) Preservar a própria reputação. Quem soubesse que Samuel fora rejeitado como foi poderia suspeitar que ele fizera algo mau, pois ninguém seria tão maltratado sem motivo.

Por isso era necessário que fizesse esse desafio, para que ficasse registrado que não fora afastado por qualquer iniquidade em suas mãos, mas para satisfazer os caprichos de um povo instável, que reconhecia não poder encontrar homem melhor para governá-lo, apenas queria um homem maior.

Cada pessoa tem uma dívida justa para com seu bom nome, sobretudo quem ocupa cargo público: deve protegê-lo de calúnias e suspeitas injustas, para terminar a carreira com honra e alegria.

(3.) Assim como desejava deixar um bom nome, desejava deixar um bom exemplo ao sucessor. Que o sucessor escrevesse seguindo seu modelo, e escreveria bem.

(4.) No fim do discurso, Samuel pretendia repreender o povo; por isso começou defendendo a si mesmo. Quem deseja repreender outro com confiança deve primeiro cuidar para estar sem culpa.

  1. No próprio apelo, observe:

(1.) De que coisas Samuel se declara inocente:

[1.] Nunca tomou, sob pretexto algum, o que não lhe pertencia, fosse boi ou jumenta. Nunca apreendeu o gado deles como tributo, multa ou confisco, nem usou seus serviços sem pagar.

[2.] Nunca fraudou aqueles com quem negociava nem oprimiu quem estava sob seu poder.

[3.] Nunca aceitou suborno para perverter a justiça nem se deixou levar por favoritismo ou afeição ao julgar contra a própria consciência.

(2.) Como chama aqueles que o desprezaram a testemunhar sobre sua conduta: “Aqui estou; testemunhem contra mim. Se têm algo de que me acusar, façam-no diante do Senhor e do seu ungido, os juízes apropriados”. Samuel honra Saul ao reconhecer que, se fosse culpado de alguma injustiça, teria de responder a ele.

III. Samuel recebe deles uma absolvição honrosa. Não esperava que o honrassem ao se despedir, embora o merecesse; por isso, não mencionou os bons serviços que lhes prestara e pelos quais deveriam aplaudi-lo e agradecer-lhe em nome de toda a assembleia. Pediu apenas que lhe fizessem justiça, e foi o que fizeram (v. 4), reconhecendo prontamente: 1.

Que ele não tornara seu governo opressivo nem usara o poder para prejudicá-los. 2. Que não o tornara oneroso: “De ninguém tomaste coisa alguma para sustentar tua dignidade”. Como Neemias, não exigiu o pão do governador (Neemias 5:18); não só foi justo, mas generoso, sem cobiçar a prata, o ouro ou as roupas de ninguém (Atos 20:33).

IV. O testemunho honroso à integridade de Samuel fica registrado para sua honra (v. 5): “O Senhor é testemunha, ele que sonda o coração, e seu ungido é testemunha, ele que julga os atos visíveis”. O povo confirma: “Ele é testemunha”.

Repare: o testemunho dos nossos próximos e, sobretudo, o da própria consciência em nosso favor — de que vivemos com honestidade na posição que ocupamos — nos consola quando somos desprezados e tratados com desdém. Demétrio é feliz, pois “tem bom testemunho de todos e da própria verdade” (3 João 12).

Versículos 6 a 14

Depois de assegurar suficientemente a própria reputação, Samuel, em vez de repreender o povo pela falta de bondade para com ele, passa a instruí-lo e a mantê-lo no caminho do dever; assim, a mudança de governo lhes causaria menos dano.

I. Ele os recorda da grande bondade de Deus para com eles e seus pais e lhes resume a história da nação, para que, considerando as grandes coisas que Deus fizera, se sentissem para sempre comprometidos a amá-lo e servi-lo.

“Venham”, diz ele (v. 7), “fiquem parados”. Fiquem de pé em sinal de reverência enquanto Deus lhes fala; permaneçam parados com atenção e serenidade de espírito e permitam-me arrazoar com vocês.

A religião tem a razão a seu favor (Isaías 1:18). O trabalho dos ministros é arrazoar com o povo: não apenas exortar e orientar, mas persuadir, convencer o entendimento e, assim, conquistar a vontade e as afeições. Se a razão governar as pessoas, elas serão boas.

Samuel fala dos atos justos do Senhor, isto é, dos benefícios que lhes concedeu ao cumprir suas promessas e dos castigos que lhes infligiu por seus pecados. Seus favores são chamados atos justos (Juízes 5:11), pois neles Deus faz justiça à própria honra.

Ele os recorda não só do que Deus fizera por eles em seus dias, mas também do que fizera antigamente, nos dias de seus pais, pois a geração atual se beneficiara dos favores passados de Deus. Podemos supor que o discurso de Samuel foi muito mais amplo do que o relato que temos aqui.

  1. Ele os recorda do livramento do Egito. Jacó e sua família desceram pobres e poucos àquela casa de servidão. Quando foram oprimidos, clamaram a Deus, que elevou Moisés e Arão, apesar de suas origens humildes, para serem seus libertadores e fundadores de seu Estado e de sua fixação em Canaã (v. 6, 8).

  2. Ele os recorda das misérias e calamidades em que seus pais se meteram ao se esquecerem de Deus e servirem a outros deuses (v. 9). Eles próprios se escravizaram, pois foram vendidos como criminosos e cativos nas mãos dos opressores. Expuseram-se à devastação da guerra, e seus vizinhos lutaram contra eles.

  3. Ele os recorda do arrependimento e da humilhação de seus pais diante de Deus por causa da idolatria: “Disseram: Pecamos” (v. 10). Não imitem os pecados de seus pais, pois muitas vezes desejaram desfazer o mal que haviam praticado.

No dia da aflição, buscaram a Deus e prometeram servi-lo. Portanto, que os filhos reconheçam como bom em todos os tempos aquilo que seus pais descobriram ser bom nos tempos difíceis.

  1. Ele os recorda dos livramentos gloriosos que Deus realizou, das vitórias que lhes concedeu e das muitas vezes em que, depois de dias de aflição e angústia, lhes deu uma situação estável e feliz (v. 11).

Samuel menciona alguns dos juízes: Gideão e Jefté, grandes conquistadores em seu tempo; entre os demais, menciona Bedã, de quem não lemos em nenhum outro lugar. Talvez fosse um homem ilustre, instrumento de salvação para eles, ainda que não registrado no livro de Juízes, alguém como Sangar, de quem se diz que livrou Israel, mas não que o julgou (Juízes 3:31).

Talvez Bedã os tenha protegido e livrado de um lado, enquanto outro juiz se levantava e agia por eles do outro lado. Alguns pensam que Bedã era o mesmo que Jair, como sugere o erudito Matthew Poole; outros, que era Sansão, chamado “filho de Dã”, por pertencer à tribo de Dã, e sobre quem veio o Espírito do Senhor em Bedã, isto é, em Dã, no acampamento de Dã.

Samuel menciona a si mesmo não para sua própria honra, mas para a honra de Deus, que fizera dele um instrumento para subjugar os filisteus.

  1. Por fim, recorda-lhes o favor recente de Deus à geração atual, ao conceder-lhes um rei, quando queriam ditar a Deus que os salvasse por meio de um rei das mãos de Naás, rei dos amonitas (v. 12, 13).

Agora fica claro que essa foi a ocasião imediata do pedido de um rei: Naás os ameaçava, e eles pediram a Samuel que nomeasse um general. Samuel lhes disse que Deus era o comandante supremo em todas as guerras e que não precisavam de outro; o que lhes faltasse seria suprido pelo poder de Deus: “O Senhor é o rei de vocês”.

Mas eles insistiram: “Não; um rei reinará sobre nós”. “Agora vocês têm um rei que pediram; que isso seja dito para vergonha de vocês, mas um rei escolhido por Deus; que isso seja dito para honra dele e glória de sua graça.” Deus não os rejeitou, embora, na prática, eles o tivessem rejeitado.

II. Samuel lhes mostra que agora se exige boa conduta deles e do rei. Não pensem que se livraram de toda dependência de Deus, nem que, tendo agora um rei próprio, possam fazer a própria sorte — como os homens tolamente dizem — com as próprias mãos. Não: o julgamento deles ainda procede do Senhor. Samuel lhes diz claramente:

  1. A obediência a Deus certamente será a felicidade deles (v. 14). Se não se afastarem de Deus para seguir ídolos nem se rebelarem contra ele quebrando seus mandamentos, mas permanecerem leais a ele, temerem sua cólera, servirem aos seus interesses e obedecerem à sua vontade, então eles e seu rei certamente serão felizes.

Observe como a promessa é expressa: “Então vocês continuarão seguindo o Senhor, seu Deus”, isto é: (1.) “Continuarão no caminho do dever para com Deus, o que será sua honra e seu consolo.” Repare: Deus dá aos que são sinceros em sua religião a graça de perseverar nela; os que seguem a Deus fielmente recebem força divina para continuar a segui-lo.

Seguir a Deus é um trabalho que já traz sua própria recompensa: é objeto tanto de promessa quanto de mandamento.

(2.) “Continuarão sob a direção e a proteção divinas.” O original diz: “Vocês estarão depois do Senhor”; isto é, ele irá à frente para guiá-los, fazê-los prosperar e tornar plano o caminho. “O Senhor está com vocês enquanto vocês estão com ele.”

  1. A desobediência certamente será a ruína deles (v. 15): “Se vocês se rebelarem, não pensem que ter um rei os protegerá dos juízos de Deus, nem que, por terem se igualado às nações nesse aspecto, poderão pecar pelo mesmo preço que elas. Não: a mão do Senhor será contra vocês, como foi contra seus pais quando o ofenderam, nos dias dos juízes.”

Estamos enganados se pensamos que podemos escapar da justiça de Deus sacudindo de nós o seu domínio. Se Deus não nos governar, ainda assim nos julgará.

Versículos 16 a 25

Samuel Pede Trovões; Encoraja e Consola Israel. (a.C. 1069.)

Samuel tem aqui dois propósitos:

I. Convencer o povo do pecado que cometeu ao pedir um rei. Agora eles se alegravam diante de Deus pela chegada do rei e na companhia dele, e ofereciam sacrifícios de louvor, na esperança de que Deus os aceitasse (1 Samuel 11:15). Talvez isso os fizesse pensar que não havia mal algum em pedir um rei e que tinham agido bem.

Por isso Samuel agora lhes aponta esse pedido como pecado, como maldade, grande maldade aos olhos do Senhor.

Repare: embora encontremos prosperidade e êxito no caminho do pecado, não devemos por isso pensar melhor dele. Eles têm um rei, e, se agirem corretamente, esse rei pode ser uma grande bênção; ainda assim, Samuel quer que percebam e reconheçam que foi grande maldade pedir um rei.

Nunca devemos aprovar aquilo que a lei de Deus reprova, ainda que, em sua providência, ele pareça sorrir para isso. Observe:

  1. As expressões do desagrado de Deus contra eles por terem pedido um rei. À palavra de Samuel, Deus enviou trovões extraordinários e chuva numa época do ano em que, naquele país, algo assim nunca fora visto nem conhecido (vv. 16-18).

O trovão e a chuva têm causas naturais e, às vezes, efeitos terríveis. Mas Samuel mostrou que aquilo fora enviado pelo poder do Deus Todo-Poderoso para convencê-los de que tinham agido muito mal ao pedir um rei.

Isso ficou claro porque ocorreu numa época incomum, durante a colheita do trigo, num dia claro e sereno, sem sinal visível de tempestade, e também porque Samuel o anunciou antes. Se trovões e chuva tivessem surgido enquanto ele falava, Samuel poderia ter aproveitado o acontecimento para despertá-los e convencê-los, como também podemos fazer em caso semelhante.

Mas, para que fosse um verdadeiro milagre, antes que acontecesse:

(1.) Samuel falou-lhes disso (v. 16, 17): “Fiquem de pé e vejam esta grande coisa”. Antes lhes dissera que ficassem de pé e ouvissem (v. 7); mas, como percebeu que seus argumentos não os haviam comovido, tão insensatos e irrefletidos eram, agora lhes diz que fiquem de pé e vejam.

Se as palavras ditas em voz mansa não lhes alcançaram o coração, nem o ensino que caía como orvalho, ouvirão Deus falar em terríveis estrondos de trovão e na grande chuva de sua força.

Samuel lhes apresentou isso como sinal: “Clamarei ao Senhor, e ele enviará trovões; enviará trovões neste mesmo instante, para confirmar a palavra de seu servo e mostrar que falei a verdade ao dizer que Deus está irado com vocês por pedirem um rei”. O acontecimento provou que Samuel era verdadeiro profeta: o sinal e a maravilha se cumpriram.

(2.) Samuel pediu isso a Deus. Clamou ao Senhor e, em resposta à oração, enquanto ainda falava, o Senhor enviou trovões e chuva.

Com isso, Samuel mostrou não só o grande poder de Deus sobre a terra, capaz de produzir de repente, quando as causas naturais não o favoreciam, aquela chuva e aqueles trovões terríveis e de trazê-los de seus tesouros (Salmos 135:7), mas também o poder que Samuel tinha junto ao céu: Deus ouviu assim a voz de um homem (Josué 10:14) e lhe respondeu do lugar secreto do trovão (Salmos 81:7).

Samuel, filho da oração, ainda era famoso pelo êxito de suas orações.

Por meio dos trovões e da chuva extraordinários enviados nessa ocasião:

[1.] Deus testemunhou seu desagrado contra eles da mesma maneira que já o fizera antes — e também em resposta à oração de Samuel — contra os filisteus: o Senhor os derrotou com um grande trovão (1 Samuel 7:10).

Agora que Israel se rebelara e entristecera seu Santo Espírito, Deus se tornou inimigo deles e lutou contra eles com as mesmas armas que pouco antes haviam sido usadas contra seus adversários (Isaías 63:10).

[2.] Deus lhes mostrou como era insensato desejar um rei para salvá-los em vez de Deus ou Samuel, esperando mais de um braço de carne do que do braço de Deus ou do poder da oração. Poderia o rei deles trovejar com uma voz como a de Deus? (Jó 40:9). Poderia o príncipe ordenar forças como aquelas que o profeta comandara com suas orações?

[3.] Deus lhes deu a entender que, por mais serenas e prósperas que parecessem agora as suas condições, com um rei, como o tempo na época da colheita do trigo, se Deus quisesse, poderia logo mudar o aspecto do céu e persegui-los com sua tempestade, como diz o salmista.

  1. O efeito que isso produziu no povo:

(1.) Ficaram muito assustados, como era natural. Temeram muito ao Senhor e a Samuel. Embora, tendo um rei, estivessem prontos a pensar que só deviam temê-lo, Deus lhes mostrou que ele é digno de grande temor, assim como seus profetas, por causa dele. Agora que se alegravam com o rei, Deus lhes ensinou a alegrar-se com tremor.

(2.) Reconheceram o pecado e a insensatez de pedir um rei: “A todos os nossos pecados acrescentamos este mal” (v. 19). Algumas pessoas só chegam a reconhecer os próprios pecados por meios severos, como tempestades e trovões.

Samuel não arrancou deles essa confissão antes que o assunto estivesse resolvido e o rei confirmado, para que não parecesse querer usá-la a fim de se restabelecer no governo, em vez de levá-los ao arrependimento.

Agora que se lisonjeavam, a própria iniquidade se tornou odiosa aos seus olhos (Salmos 36:2).

(3.) Pediram com insistência as orações de Samuel (v. 19): “Roga por teus servos, para que não morramos”. Percebiam o perigo que corriam por causa da cólera de Deus e não podiam esperar que ele atendesse às orações deles por si mesmos; por isso suplicaram a Samuel que orasse por eles.

Agora reconheciam que precisavam daquele que pouco antes haviam desprezado. Assim também, muitos que não querem Cristo reinando sobre eles gostariam que ele intercedesse em seu favor e afastasse a cólera de Deus. Pode chegar o dia em que os que desprezaram e ridicularizaram o povo de oração valorizem suas orações e queiram participar delas.

“Roga”, dizem, “ao Senhor, teu Deus; não sabemos como chamá-lo de nosso, mas, se tens algum acesso a ele, usa-o em nosso favor”.

II. Samuel procura confirmar o povo em sua religião e levá-lo a se apegar para sempre ao Senhor. O propósito do discurso se parece muito com o de Josué (Josué 23; 24).

  1. Não queria que os terrores do Senhor os afastassem dele, pois serviam para levá-los a ele (v. 20): “Não temam. Embora tenham feito toda essa maldade e Deus esteja irado com vocês por isso, não abandonem o serviço dele nem deixem de segui-lo”.

“Não temam”, isto é, não desesperem nem se apavorem; o tempo clareará depois da tempestade. Não temam, pois, embora Deus mostre seu desagrado ao povo, não o abandonará por causa do seu grande nome (v. 22); portanto, não o abandonem.

Toda transgressão da aliança, embora desagrade ao Senhor, ainda assim não nos expulsa da aliança; por isso, as justas repreensões de Deus não devem afastar-nos da esperança em sua misericórdia.

A firmeza da escolha de Deus decorre de sua gratuidade; por isso podemos esperar que não abandone seu povo, pois teve por bem fazê-lo seu povo. Se o tivesse escolhido por seus bons méritos, poderíamos temer que o rejeitasse por seus maus méritos; mas, tendo-o escolhido por causa de seu nome, não o deixará por causa de seu nome.

  1. Samuel os adverte contra a idolatria: “Não se desviem de Deus nem da adoração a ele” (v. 20; e novamente v. 21). Se se afastarem de Deus, qualquer que seja o objeto para o qual se voltem, verão que é coisa vã, incapaz de corresponder às expectativas e que certamente os enganará se nela confiarem; é cana quebrada, cisterna rota.

Os ídolos não podiam beneficiar os que recorriam a eles em suas necessidades, nem livrar os que os buscavam nas aflições, pois eram vãos e não eram o que fingiam ser. “O ídolo nada é no mundo” (1 Coríntios 8:4).

  1. Samuel os consola com a certeza de que continuaria cuidando deles e se interessando por eles (v. 23). Eles lhe haviam pedido que orasse por eles (v. 19). Samuel poderia ter dito: “Vão a Saul, o rei que puseram em meu lugar, e peçam que ore por vocês”; mas, longe de repreendê-los por terem faltado com respeito a ele, prometeu muito mais do que pediram.

(1.) Pediram-lhe isso como favor; Samuel prometeu como dever e estremeceu só de pensar em negligenciá-lo: “Orar por vocês? Longe de mim pecar contra o Senhor, deixando de fazê-lo”. Repare: é pecado contra Deus não orar pelo Israel de Deus, sobretudo pelos que estão sob nossos cuidados; os homens bons temem a culpa das omissões.

(2.) Pediram que orasse por eles naquela ocasião; Samuel prometeu continuar orando por eles e não parar enquanto vivesse. Nossa regra é orar sem cessar; pecamos se, de modo geral, restringimos a oração e, em particular, se cessamos de orar pela igreja.

(3.) Pediram apenas que orasse; ele prometeu fazer mais: não só orar por eles, mas também ensiná-los. Embora não quisessem estar sob seu governo como juiz, ele não lhes negaria suas instruções como profeta. Podiam ter certeza de que lhes ensinaria apenas o caminho bom e reto. O caminho reto certamente é o caminho bom: o caminho do dever é o caminho do prazer e do proveito.

  1. Samuel conclui com uma exortação fervorosa à prática da religião e à piedade sincera (v. 24, 25). O grande dever que aqui nos recomenda é temer o Senhor. Dissera: “Não temam” (v. 20), isto é, não tenham um temor servil; agora diz: “Temam o Senhor”, com temor filial.

Como fruto e prova disso, sirvam-no nos deveres do culto religioso e numa conduta piedosa, com verdade e sinceridade, e não apenas com aparência e profissão de fé; sirvam-no com o coração, e com todo o coração, sem fingimento nem divisão.

Samuel apresenta duas razões:

(1.) Eles tinham uma dívida de gratidão com Deus e, considerando as grandes coisas que fizera por eles, deviam servi-lo para sempre.

(2.) Eram obrigados por interesse próprio a servi-lo, considerando as grandes coisas que faria contra eles se continuassem a agir mal: seriam destruídos pelos juízos de Deus, eles e o rei de quem tanto se orgulhavam e de quem tanto esperavam, embora esse rei fosse uma bênção para eles se permanecessem com Deus.

Assim, como sentinela fiel, Samuel os advertiu e livrou a própria alma.


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