Matthew Henry

1 Samuel 10

Argumento

Deixamos Samuel e Saul caminhando juntos, provavelmente por algum caminho isolado através dos campos, descendo de Ramá, talvez pelas trilhas entre as vinhas, enquanto Saul esperava ouvir de Samuel a palavra de Deus. Aqui temos: I. A unção de Saul naquele lugar e naquele momento, v. 1; os sinais que Samuel lhe deu, vv. 2-6; e as instruções, v. 7, 8.

II. O cumprimento desses sinais, para satisfação de Saul, vv. 9-13. III. O retorno dele à casa do pai, vv. 14-16. IV. Sua eleição pública por sorteio e sua solene investidura, vv. 17-25. V. O retorno dele à própria cidade, v. 26, 27.

É uma grande obra que se realiza aqui: a instituição não só de um monarca, mas da própria monarquia em Israel. Por isso, em cada passo para alcançá-la, vemos muito da ação de Deus.

Versículos 1 a 8

Samuel Unge Saul; Samuel Fala a Saul. (a.C. 1070.)

Aqui Samuel exerce o ofício de profeta, dando a Saul plena certeza, da parte de Deus, de que ele seria rei, como de fato veio a ser, conforme as profecias que o precederam.

I. Samuel o ungiu e o beijou, v. 1. Isso não aconteceu numa assembleia solene, mas foi feito por determinação divina, que supriu a falta de toda solenidade externa. O ato não perdeu validade por ter sido realizado em particular, debaixo de uma sebe ou, como dizem os judeus, junto a uma fonte.

As instituições de Deus são grandes e honrosas, ainda que as circunstâncias de sua administração sejam as mais humildes e desprezíveis.

  1. Ao ungir Saul, Samuel lhe assegurou que fora Deus quem o fizera rei: “Não é porque o Senhor te ungiu?” Como sinal disso, o sumo sacerdote era ungido para o seu ofício, indicando que lhe eram conferidos os dons necessários para cumprir seus deveres; o mesmo era indicado pela unção dos reis. Pois a quem Deus chama, ele capacita, e as qualificações apropriadas são boa prova de uma comissão divina.

Essas unções sagradas, usadas naquele tempo, apontavam para o grande Messias, ou Ungido, o Rei da igreja e Sumo Sacerdote da nossa profissão de fé. Ele foi ungido com o óleo do Espírito, não por medida, mas sem medida, acima de todos os sacerdotes e príncipes da igreja judaica.

Sem dúvida, Samuel usou óleo comum; não lemos que o tenha abençoado ou orado sobre ele. Mas ungiu Saul com um pequeno frasco: o recipiente era frágil, pois seu reino logo seria abalado e despedaçado; a quantidade era pequena, pois recebeu pouco do Espírito, em comparação com Davi, ungido com um chifre de óleo, assim como Salomão e Jeú foram ungidos com uma botija de óleo.

  1. Ao beijá-lo, Samuel lhe assegurou que aprovava a escolha, não apenas consentindo com ela, mas alegrando-se com ela, embora isso reduzisse seu poder e diminuísse a glória dele e de sua família. “Deus te ungiu”, disse Samuel, “para seres rei; estou satisfeito e muito contente. Recebe este beijo como sinal disso”.

Foi também um beijo de homenagem e lealdade. Com ele, Samuel não só reconheceu Saul como rei, mas como seu próprio rei. Nesse sentido, somos exortados: “Beijai o Filho” (Salmos 2:12). Deus o ungiu; portanto, devemos reconhecê-lo e prestar-lhe homenagem.

Ao explicar a cerimônia, Samuel o lembrou:

(1.) Da natureza do governo para o qual fora chamado. Fora ungido para ser comandante, o que implica honra e poder, mas comandante em guerra, o que implica preocupação, trabalho e perigo.

(2.) Da origem desse governo: “O Senhor te ungiu”. O poder de governar vinha de Deus e, portanto, Saul deveria governar para ele, dependendo dele e buscando a sua glória.

(3.) Do propósito do governo: era sobre a herança de Deus, para cuidar dela, protegê-la e ordenar da melhor forma todos os seus assuntos, como um administrador que um grande senhor põe à frente de sua propriedade para servi-lo e prestar-lhe contas.

II. Para lhe dar mais certeza, Samuel lhe deu alguns sinais que se cumpririam imediatamente, naquele mesmo dia. Eles não só confirmariam em geral a palavra de Samuel e provariam que ele era um verdadeiro profeta, como também confirmariam especificamente a Saul que ele seria rei.

  1. Saul logo encontraria algumas pessoas que lhe trariam notícias de casa sobre a preocupação que havia na casa de seu pai a respeito dele (v. 2). Encontraria essas pessoas perto do túmulo de Raquel. O primeiro lugar para o qual Samuel o encaminhou foi um túmulo, o túmulo de uma de suas ancestrais, pois Raquel morreu ao dar à luz Benjamim.

Ali, Saul devia receber uma lição sobre sua própria mortalidade e, agora que tinha uma coroa em vista, pensar no túmulo, onde toda a sua honra seria reduzida a pó.

Dois homens o encontrariam, talvez enviados de propósito para procurá-lo, e lhe diriam que as jumentas tinham sido encontradas e que seu pai estava aflito por causa dele, dizendo: “Que farei pelo meu filho?” Saul consideraria feliz ter encontrado esses mensageiros.

É bom reconhecer a Providência nos encontros favoráveis, ainda que o assunto seja pequeno, e isso nos encoraja a confiar nela em questões maiores.

  1. Em seguida, Saul encontraria outros que estavam indo a Betel, onde, ao que parece, havia um lugar alto para o culto religioso, e levavam sacrifícios (v. 3, 4). Para alguém destinado a governar Israel, encontrar pessoas que iam adorar a Deus onde quer que fosse era um bom sinal.

Supõe-se que os cabritos, os pães e a garrafa de vinho que os três homens levavam fossem destinados ao sacrifício, junto com as ofertas de cereais e de bebida que o acompanhavam. Ainda assim, Samuel diz a Saul que eles lhe dariam dois pães, e que ele deveria aceitá-los.

Hoje, tal presente nos pareceria uma esmola dada a um mendigo. Saul deveria lembrar-se depois de quando recebera esmolas e, portanto, ser humilde e generoso com os pobres. Mas talvez, naquele tempo, isso fosse entendido como presente adequado para um príncipe; e, como tal, Saul deveria recebê-lo.

Seria o primeiro presente que lhe seria oferecido, por pessoas que não sabiam o que faziam nem por que o faziam. Deus, porém, pôs isso no coração delas, e assim o presente tornou-se um sinal ainda mais apropriado para Saul.

Esses dois pães, o primeiro tributo pago a esse rei recém-ungido, podiam servir de advertência para que não gastasse a riqueza da coroa em luxo, mas continuasse contente com alimento simples. O pão é o esteio da vida.

  1. O sinal mais notável de todos seria Saul juntar-se a um grupo de profetas que encontraria, sob a influência de um espírito de profecia que viria sobre ele naquela ocasião. O que Deus opera em nós pelo seu Espírito serve muito mais para confirmar a fé do que qualquer coisa que sua providência faça por nós.

Samuel lhe diz (v. 5, 6):

(1.) Onde isso aconteceria: no monte de Deus, onde havia uma guarnição dos filisteus, que se supõe ficava perto de Gibeá, a cidade de Saul, pois era ali que estava a guarnição dos filisteus (1 Samuel 13:3).

Talvez um dos termos do acordo de Samuel com eles lhes permitisse manter ali uma guarnição; ou, mais provavelmente, depois de serem subjugados no início do período de Samuel, ganharam terreno novamente e conseguiram estabelecer ali essa guarnição. Daquele lugar, Deus levantaria o homem que os castigaria.

O lugar era chamado monte de Deus por causa de uma das escolas de profetas ali construída. Os próprios filisteus respeitavam tanto a religião que seus soldados permitiam que uma escola de profetas de Deus vivesse em paz ao lado deles. Não os expulsavam nem restringiam ou perturbavam suas práticas públicas de devoção.

(2.) Em que ocasião isso aconteceria: Saul encontraria um grupo de profetas com músicos à sua frente, profetizando, e se juntaria a eles. Ao que parece, esses profetas não eram divinamente inspirados para predizer o futuro, nem Deus se revelava a eles por sonhos e visões.

Dedicavam-se ao estudo da lei, à instrução dos vizinhos e às práticas de piedade, especialmente ao louvor a Deus; nisso, o Espírito de Deus os auxiliava e fortalecia de modo extraordinário.

Foi bom para Israel que não tivesse apenas profetas, mas grupos de profetas, que lhes davam boas instruções e bons exemplos, ajudando muito a manter a religião entre eles. A palavra do Senhor já não era rara, como fora quando Samuel começara a ser levantado; ele contribuíra para fundar essas escolas, ou casas religiosas, das quais provavelmente surgiram as sinagogas.

Que pena que Israel se cansasse do governo de um homem assim! Como homem de guerra, ele não expulsara os filisteus; mas, como homem de Deus, fizera algo ainda mais benéfico para Israel: estabelecera as escolas de profetas. Naquele tempo, a música era usada como meio apropriado para dispor a mente a receber as impressões do bom Espírito, como aconteceu com Eliseu (2 Reis 3:15).

Mas não temos razão para esperar o mesmo benefício dela hoje, a menos que a víssemos tão eficaz quanto foi então no caso de Saul, expulsando o espírito maligno.

Esses profetas tinham estado no lugar alto, provavelmente oferecendo sacrifício, e agora voltavam cantando salmos. Devemos sair das ordenanças sagradas com o coração tomado de santa alegria e louvor. Veja Salmos 138:5. Saul sentiria forte impulso para se juntar a eles e, assim, seria transformado em outro homem, diferente do que fora quando vivia como cidadão comum.

O Espírito de Deus, por meio de suas ordenanças, transforma as pessoas de modo extraordinário. Ao louvar a Deus na comunhão dos santos, Saul tornou-se outro homem; mas é questionável se se tornou um novo homem.

III. Samuel o orienta a conduzir o governo conforme a Providência o guiasse e conforme Samuel o aconselhasse.

  1. Em situações comuns, deveria seguir a Providência (v. 7): Faça o que a ocasião exigir. Tome as medidas que a sua prudência indicar.

  2. Mas, numa situação extraordinária e difícil que surgiria depois em Gilgal, no momento mais crítico de todos, quando precisaria especialmente do auxílio divino, deveria esperar que Samuel viesse e aguardar por ele durante sete dias (v. 8). Mais tarde, veremos como o fracasso de Saul nesse assunto provocou sua queda (1 Samuel 13:11).

Isso era uma indicação clara de que sua conduta seria avaliada: embora fosse rei, deveria agir sob a orientação de Samuel e fazer o que ele ordenasse. Até os maiores homens devem reconhecer que estão sujeitos a Deus e à sua palavra.

Versículos 9 a 16

Saul entre os Profetas. (a.C. 1070.)

Saul agora se despediu de Samuel, muito espantado, podemos supor, com o que lhe acontecera, quase se perguntando se estava acordado ou se tudo não passava de um sonho. Aqui nos contam:

I. O que aconteceu pelo caminho, v. 9. Os sinais que Samuel lhe dera se cumpriram exatamente; mas o que mais o satisfez foi perceber de imediato que Deus lhe dera outro coração.

Acendeu-se em seu peito um fogo novo, algo que nunca conhecera antes. Ele já não pensava nas jumentas; só lhe vinham à mente combater os filisteus, corrigir os agravos de Israel, elaborar leis, administrar a justiça e cuidar da segurança pública. Descobriu-se elevado a um grau de ousadia e coragem que jamais imaginara possuir.

Já não tinha o coração de um lavrador, humilde, modesto, estreito e preocupado apenas com suas plantações e seu gado; tinha o coração de um estadista, de um general, de um príncipe. A quem Deus chama para um serviço, ele capacita. Se eleva alguém a outra posição, dá-lhe outro coração, quando essa pessoa deseja sinceramente servi-lo com o poder que recebeu.

II. O que aconteceu quando Saul chegou perto de casa. Ao chegarem ao monte (v. 10), isto é, a Gibeá ou Geba, cujo nome significa monte e que aqui o Targum toma como nome próprio, ele encontrou os profetas, como Samuel lhe dissera. O Espírito de Deus veio sobre ele com força e de repente — esse é o sentido da palavra —, mas não para permanecer nele. Veio e logo se retirou.

Ainda assim, naquele momento, produziu nele um efeito extraordinário: Saul se juntou imediatamente aos profetas em sua devoção, com tanta decência e tamanho ardor quanto qualquer um deles. “Profetizou entre eles.” Então:

  1. O fato de profetizar foi notado publicamente (v. 11, 12). Ele estava entre conhecidos, que, ao vê-lo entre os profetas, chamaram uns aos outros para contemplar uma cena extraordinária. Isso os prepararia para aceitá-lo como rei, embora fosse um deles, depois de verem Deus elevá-lo à honra de profeta. Os setenta anciãos profetizaram antes de serem feitos juízes (Números 11:25).

(1.) Todos se admiraram ao ver Saul entre os profetas: “O que aconteceu ao filho de Quis?” Embora essa escola de profetas ficasse perto da casa de seu pai, ele nunca convivera com eles nem lhes demonstrara respeito; talvez até falasse deles com desprezo.

Vê-lo agora profetizando entre eles foi uma surpresa, como ocorreu muito tempo depois com seu homônimo no Novo Testamento, que pregou o evangelho que antes perseguira (Atos 9:21). Quando Deus dá outro coração, isso logo se manifesta.

(2.) Um deles, mais sábio que os demais, perguntou: “Quem é o pai ou mestre deles? Não é Deus? Não são todos ensinados por ele? Não lhe devem todos os seus dons? E ele é limitado? Não pode fazer de Saul um profeta como qualquer um deles, se quiser?” Ou então: “Não é Samuel o pai deles?”

Debaixo de Deus, sim; e Saul estivera com Samuel havia pouco tempo, fato que aquele homem poderia saber por meio do servo de Saul. Não é de admirar que profetize quem passou a noite sob o teto de Samuel.

(3.) A pergunta tornou-se um provérbio muito usado em Israel para expressar espanto quando um homem mau se torna bom ou, pelo menos, é visto em boa companhia: “Está Saul entre os profetas?” Repare: Saul entre os profetas tornou-se um espanto proverbial.

Não se deve desesperar nem do pior; ainda assim, não se deve confiar demais numa demonstração externa de devoção nem numa mudança repentina e passageira: Saul continuava sendo Saul entre os profetas.

  1. A unção de Saul foi mantida em segredo. Depois de profetizar, ao que parece, ele proferiu todas as suas palavras diante do Senhor e confiou o assunto ao favor dele, pois foi diretamente ao lugar alto (v. 13), para agradecer a Deus pelas misericórdias recebidas e orar para que continuassem.

Mas ocultou cuidadosamente dos parentes o que acontecera. Seu tio o encontrou, no lugar alto ou assim que chegou em casa, e o interrogou (v. 14). Saul admitiu, pois o servo sabia, que tinham estado com Samuel e que este lhes dissera que as jumentas haviam sido encontradas; mas nada disse sobre o reino (v. 14, 15). Isso demonstrou:

[1.] Sua humildade. Muitos teriam ficado tão exaltados com uma elevação tão surpreendente que a proclamariam do alto da casa. Saul talvez se alegrasse com isso no íntimo, mas não se orgulhou perante os vizinhos. Aos herdeiros do reino da glória basta que o mundo não os conheça (1 João 3:1).

[2.] Sua prudência. Se tivesse se apressado a anunciar a notícia, teria despertado inveja; e não sabia que dificuldades isso poderia lhe causar. Samuel lhe comunicara o assunto em segredo, e Saul sabia guardar confidências. Assim se vê que recebera outro coração, apto a governar.

[3.] Sua dependência de Deus. Não procurou apoio para si; deixou que Deus levasse adiante a própria obra por meio de Samuel e, de sua parte, permaneceu quieto, aguardando o rumo que as coisas tomariam.

A Eleição de um Rei; Saul é Apresentado ao Povo. (a.C. 1070.)

Versículos 17 a 27

A escolha de Saul para o trono é agora anunciada publicamente, numa assembleia geral dos anciãos de Israel, representantes de suas respectivas tribos, em Mispa. É provável que essa assembleia representativa das tribos tenha sido convocada assim que possível depois da unção de Saul; se o governo teria de mudar, quanto antes, melhor, pois uma demora prolongada poderia trazer más consequências.

O povo se reuniu numa assembleia solene, na qual Deus estava presente de maneira especial; por isso se diz que foi convocado para comparecer diante do Senhor (v. 17). Samuel age ali em nome de Deus.

I. Samuel os repreende por rejeitarem o governo de um profeta e desejarem o de um comandante.

  1. Mostra-lhes (v. 18) como tinham sido felizes sob o governo divino. Quando Deus os governava, livrava-os das mãos dos opressores. O que mais desejariam? Poderia o mais valente fazer por eles o que o Deus Todo-Poderoso fizera?

  2. Também lhes mostra (v. 19) que afronta tinham feito a Deus, que os salvara de todas as tribulações pelo próprio poder e por meio daqueles que ele mesmo chamara e capacitara, ao desejarem um rei que os salvasse. Diz-lhes claramente que naquele dia rejeitaram o seu Deus; foi assim que Deus interpretou o ato e, por agirem desse modo, podia justamente rejeitá-los.

Os que vivem melhor guiados pelos sentidos do que pela fé, e se apoiam num braço de carne em vez de no braço do Todo-Poderoso, abandonam a fonte de águas vivas por cisternas rachadas. Alguns consideram que a obstinação deles nesse assunto pressagiava que rejeitariam Cristo: ao rejeitá-lo, rejeitariam a Deus para que não reinasse sobre eles.

II. Samuel os faz escolher o rei por sorteio. Sabia quem Deus escolhera e já ungira, mas também conhecia a teimosia daquele povo e sabia que alguns não aceitariam a escolha se ela dependesse apenas de seu testemunho. Por isso os convoca ao sorteio (v. 19), para que cada tribo e cada família da tribo escolhida se consolassem com a possibilidade de serem escolhidas.

Benjamim foi escolhido entre todas as tribos (v. 20), e, daquela tribo, Saul, filho de Quis (v. 21). Por esse método, o povo veria, como Samuel já sabia, que Saul fora designado por Deus para ser rei, pois a decisão do sorteio vem do Senhor. Isso também evitaria disputas e objeções: o sorteio faz cessar as contendas e decide entre os poderosos.

Quando a tribo de Benjamim foi escolhida, poderiam prever facilmente que estavam elevando uma família que logo seria rebaixada; pois o moribundo Jacó, pelo espírito de profecia, destinara o domínio a Judá. Judá deveria governar como um leão; Benjamim, apenas devorar como um lobo (Gênesis 49:10, 27).

Portanto, os que conheciam as Escrituras não poderiam estar muito satisfeitos em fazer aquilo que previam que em breve teria de ser desfeito.

III. Saul só é apresentado depois de muita dificuldade e de novas consultas ao Senhor. Quando o sorteio caiu sobre ele, todos esperavam que respondesse ao ouvir seu nome pela primeira vez. Em vez disso, nenhum de seus conhecidos conseguiu encontrá-lo (v. 21); ele se escondera entre a bagagem (v. 22).

Isso mostra como então tinha pouca vontade do poder que, depois de possuí-lo, não suportaria perder sem grande indignação.

  1. Ele se retirou, esperando que, se não aparecesse, escolhessem outra pessoa; ou fez isso para demonstrar humildade. Pelo que já acontecera, sabia que seria ele. Podemos supor que, naquele momento, estava de fato relutante em assumir o governo:

(1.) Tinha consciência de não estar preparado para uma responsabilidade tão grande. Não fora educado para os estudos, para as armas nem para a corte e temia cometer algum erro fatal.

(2.) O cargo o exporia à inveja dos vizinhos que lhe eram hostis.

(3.) Pelas palavras de Samuel, entendia que o povo pecara ao pedir um rei e que Deus atendera ao pedido em ira.

(4.) Os assuntos de Israel estavam em mau estado: os filisteus eram fortes e os amonitas ameaçavam o povo. Teria de ser muito corajoso quem se fizesse ao mar durante uma tempestade.

  1. Mas a congregação estava certa de que a escolha feita pelo próprio Deus era acertada e não pouparia esforços para encontrar aquele sobre quem caíra a sorte. Consultaram o Senhor, talvez por meio do sumo sacerdote e do peitoral do juízo, ou de Samuel e seu espírito de profecia. O Senhor indicou onde o encontrariam, escondido entre as bagagens; foram buscá-lo ali (v. 23).

Repare: no fim, ninguém perde por sua humildade e modéstia. A honra, como a sombra, segue os que fogem dela, mas foge dos que a perseguem.

IV. Samuel o apresenta ao povo, que o aceita. Saul não precisava subir a um banco ou a um estrado para ser visto; em terreno plano, ao lado dos outros, já se destacava: era mais alto que todos, uma cabeça e ombros acima deles (v. 23). “Vejam”, disse Samuel, “o rei que Deus escolheu para vocês, exatamente como desejaram; não há ninguém como ele entre todo o povo.

Ele tem tanta majestade no rosto e tanta elegância e imponência no porte; no meio da multidão é como um cedro entre arbustos. Julguem vocês mesmos: não é um homem valente e nobre?”

Então o povo aprovou a escolha e o aceitou: gritou: “Viva o rei!”, isto é, “Que reine muito tempo sobre nós, com saúde e prosperidade”. Os súditos costumavam demonstrar afeto e lealdade ao príncipe com votos de bem, transformados, como nesta tradução, em orações a Deus. “Oração se fará por ele continuamente” (Salmos 72:15). Veja também Salmos 20:1.

Samuel lhes dissera que logo se cansariam do rei, mas, no estado de espírito em que agora estavam, jamais se cansariam: “Viva o rei!”

V. Samuel estabelece o pacto original entre eles e o deixa registrado (v. 25). Antes, contara-lhes como o rei agiria (1 Samuel 8:11) e abusaria do poder; agora lhes explica o regime, ou melhor, a lei, a decisão ou a constituição do reino: que poder o príncipe poderia reivindicar e qual o limite dos direitos que o súdito poderia exigir.

Demarcou os limites entre eles para que nenhum invadisse o terreno do outro. Que se entendessem bem desde o início e que o acordo ficasse registrado por escrito, o que ajudaria a conservar entre eles uma boa relação dali em diante.

O erudito bispo Patrick pensa que Samuel repetiu e registrou o que lhes dissera (1 Samuel 8:11) sobre o poder arbitrário que os reis assumiriam, para que isso depois fosse testemunho contra eles: tinham sido avisados das consequências e, ainda assim, quiseram um rei.

VI. A assembleia se encerra quando termina a cerimônia: Samuel mandou cada um para sua casa. Não se votou nada nem, ao que parece, se propôs sequer arrecadar recursos para sustentar a dignidade do rei recém-eleito; se depois ele decidir tomar aquilo que o povo não quis dar, embora fosse necessário que o tivesse, devem culpar a si mesmos.

Cada um voltou para casa, satisfeito por ter um rei, e Saul também voltou para Gibeá, à casa de seu pai, sem se envaidecer com o título de rei. Em Gibeá não tinha palácio, trono nem corte; ainda assim, foi para lá.

Se teria de ser rei, lembrado da rocha da qual fora talhado, faria de sua própria cidade a cidade real e não se envergonharia, como tantos fazem quando são promovidos, de seus parentes humildes.

Um espírito humilde como esse dá beleza e brilho às grandes elevações. A condição pode subir sem que a mente se envaideça com ela: como isso é bom e agradável! Mas:

  1. Qual foi a disposição do povo para com o novo rei? A maioria, ao que parece, não demonstrou grande preocupação: “Cada um foi para sua casa”. Os assuntos domésticos estavam mais perto de seu coração do que qualquer interesse público; esse era o temperamento geral. Alguns, porém:

(1.) Foram fiéis o bastante para acompanhá-lo: “Um grupo de homens cujo coração Deus tocara” (v. 26). Não era o povo todo, mas um pequeno grupo que, talvez por gostar da escolha que fizera de ter um rei ou por ter mais juízo que os vizinhos e concluir que um rei devia ser respeitado, foi com ele a Gibeá, como sua guarda pessoal. Deus lhes tocara o coração para que cumprissem esse dever.

Repare: todo bem que há em nós, ou que fazemos em qualquer ocasião, deve ser atribuído à graça de Deus. Se o coração alguma vez se inclina para o lado certo, é porque ele o tocou. Um só toque basta quando é divino.

(2.) Outros foram maliciosos o bastante para afrontá-lo: filhos de Belial, homens que não aceitavam jugo e não se agradavam de nada que Deus ou Samuel fizessem. Desprezaram Saul (v. 27) por sua tribo e família humildes, seus poucos bens e por ter sido criado longe da vida pública, e disseram: “Como esse homem poderá nos salvar?”

Contudo, não indicaram ninguém mais capaz; e, fosse quem fosse, a salvação não viria do homem, mas de Deus.

Não quiseram unir-se aos vizinhos para demonstrar afeição por ele e por seu governo, levando-lhe presentes ou prestando homenagem por sua ascensão ao trono. Talvez os descontentes tivessem sido os mais fervorosos em pedir um rei; mas agora que o tinham, brigavam com ele porque não era inteiramente do tipo deles. Bastava não gostarem dele porque os outros gostavam.

Assim também as pessoas se dividem diante do nosso Redentor exaltado. Deus o estabeleceu como rei sobre o santo monte de Sião. Há um remanescente que se submete a ele, se alegra nele, lhe traz presentes e o segue por onde vai: são aqueles cujo coração Deus tocou e a quem tornou dispostos no dia do seu poder.

Outros, porém, o desprezam e perguntam: “Como esse homem poderá nos salvar?” Ofendem-se com ele, tropeçam em sua aparência exterior humilde e serão quebrados por isso.

  1. Como Saul reagiu à má conduta dos que se opunham ao seu governo? Ficou calado. A margem diz: “Fez como se fosse surdo”. Longe de se ressentir, pareceu não dar atenção ao caso, prova de sua humildade, modéstia e disposição misericordiosa, e também de que estava seguro de seu direito ao trono.

Os que obtêm poder por meios impróprios costumam ser os mais ciumentos de sua honra e os mais vingativos diante de afrontas. Cristo ficou calado quando o afrontaram, pois aquele era o dia de sua paciência; mas virá o dia da retribuição.


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