1 Reis 8
Argumento
A construção e o mobiliário do templo eram muito gloriosos, mas sua consagração foi ainda mais gloriosa, assim como a oração e o louvor, obras dos santos, superam a fundição do metal e o entalhe das pedras, obras do artesão.
O templo foi planejado para manter a comunhão entre Deus e seu povo; aqui temos o relato da solenidade do primeiro encontro deles naquele lugar.
I. Os representantes de todo o Israel foram convocados (v. 1, 2) para celebrar uma festa em honra de Deus durante catorze dias, v. 65. II. Os sacerdotes levaram a arca para o lugar santíssimo e a instalaram ali, vv. 3-9.
III. Deus tomou posse do templo por meio de uma nuvem, v. 10, 11. IV. Salomão, com ações de graças a Deus, explicou ao povo o motivo daquela reunião, vv. 12-21.
V. Numa longa oração, recomendou à graciosa aceitação de Deus todas as orações que fossem feitas neste lugar ou voltadas para ele, vv. 22-53. VI. Despediu a assembleia com uma bênção e uma exortação, vv. 54-61.
VII. Ofereceu abundantes sacrifícios, dos quais ele e o povo participaram num banquete; então partiram muito satisfeitos, vv. 62-66. Foram os dias áureos de Israel, prefigurações dos dias do Filho do Homem.
Versículos 1 a 11
A Consagração do Templo. (a.C. 1003.)
Embora o templo fosse ricamente adornado, enquanto não tinha a arca era como um corpo sem alma, um castiçal sem vela ou, para falar com mais precisão, uma casa sem morador. Todo o custo e o trabalho empregados nessa estrutura majestosa seriam desperdiçados se Deus não a aceitasse; a menos que ele quisesse reconhecê-la como o lugar onde registraria seu nome, ela não passaria de um monte de ruínas.
Quando, portanto, toda a obra terminou (1 Reis 7:51), ainda faltava o único elemento indispensável: trazer a arca. Esse é o ato que deve coroar a obra, e aqui temos o relato de como foi realizado com grande solenidade.
I. Salomão preside esse serviço, assim como Davi presidiu a transferência da arca para Jerusalém. Nenhum dos dois julgou indigno seguir a arca nem conduzir o povo em seu acompanhamento. Salomão se orgulha do título de pregador (Eclesiastes 1:1) e de mestre das assembleias (Eclesiastes 12:11).
Ele convoca essa grande assembleia, v. 1, e é seu centro, pois todos se reuniram diante dele, v. 2, para a festa do sétimo mês, isto é, a Festa dos Tabernáculos, marcada para o dia quinze daquele mês (Levítico 23:34).
Davi, como homem muito bom, levou a arca para um lugar conveniente, perto de si; Salomão, como homem muito grande, levou-a para um lugar magnífico. Que cada um ministre conforme o dom que recebeu, e que os filhos continuem o serviço de Deus de onde seus pais o deixaram.
II. Todo o Israel participa do serviço: seus juízes, os chefes de suas tribos e famílias e todos os seus oficiais civis e militares — ou, como dizem no norte, os chefes de seus clãs. Uma reunião desses representantes podia muito bem ser chamada assembleia de todo o Israel.
Eles se reuniram nessa ocasião: 1. Para honrar Salomão e agradecer-lhe, em nome da nação, por todo o bem que lhes fizera com bondade. 2. Para honrar a arca, prestar-lhe respeito e expressar a alegria e a satisfação de todos por ela ter sido instalada.
O progresso da arca em esplendor exterior, embora muitas vezes tenha sido tentação forte demais para seus seguidores hipócritas, deve ser motivo de alegria — com temor — para todos os que desejam o bem dela, pois pode favorecer seus verdadeiros interesses. Misericórdias públicas pedem agradecimentos públicos.
Os que compareceram diante do Senhor não vieram de mãos vazias: todos ofereceram ovelhas e bois em número incontável, v. 5. No tempo de Salomão, o povo era muito rico, vivia com tranquilidade e estava muito alegre; por isso, naquela ocasião, era apropriado consagrar a Deus e à sua honra não só a alegria, mas também parte de sua riqueza.
III. Os sacerdotes cumprem sua parte do serviço. No deserto, os levitas carregavam a arca porque não havia sacerdotes suficientes para fazê-lo. Mas agora, como seria a última vez que a arca seria carregada, os próprios sacerdotes o fizeram, como haviam sido ordenados a fazer quando ela circundou Jericó.
Aqui nos dizem: 1. O que havia dentro da arca: nada além das duas tábuas de pedra (v. 9), um tesouro muito superior a todas as coisas consagradas por Davi e Salomão. O pote de maná e a vara de Arão ficavam junto à arca, mas não dentro dela.
- O que foi levado com a arca, v. 4: “O tabernáculo da congregação.” É provável que tenham levado ao templo tanto a tenda que Moisés ergueu no deserto, que ficava em Gibeão, como aquela que Davi armou em Sião. Foi como se ambas entregassem toda a sua santidade à do templo, que dali em diante seria o lugar onde se deveria buscar a Deus.
Assim também todas as coisas santas da igreja na terra, que são tanta alegria e glória para ela, serão absorvidas pela perfeição da santidade no alto.
- Onde a arca foi colocada: no lugar designado para seu repouso depois de todas as suas peregrinações, v. 6, no santuário da casa. Dali esperavam que Deus lhes falasse: era o lugar santíssimo, feito santo pela presença da arca, sob as asas dos grandes querubins que Salomão mandou instalar (1 Reis 6:27).
Isso representava a proteção especial dos anjos, sob a qual ficam as ordenanças de Deus e as assembleias de seu povo. As varas da arca foram puxadas para fora, de modo que podiam ser vistas por baixo das asas dos querubins. Assim, o sumo sacerdote podia localizar o propiciatório sobre a arca quando entrasse ali, uma vez por ano, para aspergir o sangue.
Portanto, as varas ainda tinham alguma utilidade, embora já não fosse necessário usá-las para transportar a arca.
IV. Deus aceita graciosamente o que foi feito e dá testemunho disso, v. 10, 11. Os sacerdotes podiam entrar no lugar santíssimo até Deus manifestar ali a sua glória; dali em diante, ninguém podia aproximar-se da arca sem correr perigo, exceto o sumo sacerdote, no Dia da Expiação.
Por isso, foi somente depois que os sacerdotes saíram do santuário que a Shechinah tomou posse dele numa nuvem. Ela encheu não só o lugar santíssimo, mas também o templo, de modo que os sacerdotes que queimavam incenso no altar de ouro não puderam permanecer ali.
Por essa manifestação visível da glória divina: 1. Deus honrou a arca e a reconheceu como sinal de sua presença. Sua glória havia diminuído e sido obscurecida por suas frequentes mudanças de lugar, por seus abrigos modestos e por ter ficado exposta demais à vista de todos.
Mas agora Deus mostraria que ela lhe era tão preciosa quanto antes e faria com que fosse reverenciada como quando Moisés a levou pela primeira vez ao tabernáculo.
- Deus deu testemunho de que aceitava a construção e o mobiliário do templo como um bom serviço prestado ao seu nome e ao seu reino entre os homens. 3. Ele inspirou temor naquela grande assembleia.
O que viram confirmou a crença no que haviam lido nos livros de Moisés sobre a glória da manifestação de Deus a seus antepassados. Assim, seriam mantidos fiéis ao serviço do Deus de Israel e fortalecidos contra as tentações da idolatria.
- Deus mostrou estar pronto a ouvir a oração que Salomão estava prestes a fazer. Mais do que isso, estabeleceu residência nessa casa para encorajar todo o seu povo a orar ali e apresentar-lhe seus pedidos.
Mas a glória de Deus apareceu numa nuvem escura para mostrar: (1.) Como aquela dispensação era obscura em comparação com a luz do evangelho, pela qual contemplamos, de rosto descoberto e como num espelho, a glória do Senhor. (2.) Como nosso estado presente é obscuro em comparação com a visão de Deus, que será a felicidade do céu, onde a glória divina estará sem véu.
Agora só podemos dizer o que ele não é; então o veremos como ele é.
Versículos 12 a 21
Aqui, I. Salomão anima os sacerdotes, que saíram do templo depois de ministrar, muito espantados com a nuvem escura que os encobria. Os discípulos de Cristo tiveram medo ao entrar na nuvem, embora fosse brilhante (Lucas 9:34); o mesmo aconteceu com os sacerdotes quando se viram envolvidos por uma nuvem espessa.
Para acalmar-lhes o temor, 1. Salomão os lembra de algo que eles não podiam ignorar: aquilo era um sinal da presença de Deus, v. 12: “O Senhor disse que habitaria na escuridão espessa.” Isso estava longe de ser sinal de desagrado; era indicação de seu favor, pois ele dissera: “Aparecerei numa nuvem” (Levítico 16:2). Repare:
Nada nos reconcilia mais eficazmente com as circunstâncias sombrias do que considerar o que Deus disse e comparar sua palavra com suas obras, como em Levítico 10:3: “Isto é o que o Senhor disse.”
Deus é luz (1 João 1:5) e habita na luz (1 Timóteo 6:16). Ele vive com os homens na escuridão espessa e faz dela seu pavilhão, pois eles não poderiam suportar o brilho deslumbrante de sua glória. “Na verdade, tu és um Deus que te ocultas.”
Assim se exercita nossa fé santa e se intensifica nosso temor santo. Onde Deus habita na luz, a fé é absorvida pela visão e o temor, pelo amor.
- Salomão acolhe a nuvem como algo digno de plena aceitação. Visto que Deus desceu nela para tomar posse do templo, em poucas palavras ele solenemente lhe entrega a casa, v. 13: “Certamente venho”, diz Deus. “Amém”, diz Salomão.
“Assim seja; vem, Senhor! A casa é tua, inteiramente tua. Certamente a construí e a equipei para ti; será tua para sempre, um lugar estabelecido para habitares para sempre.”
“Ela jamais será alienada nem destinada a outro uso; a arca jamais será retirada dela nem voltará a ficar sem lugar definido.”
Salomão se alegra porque Deus tomou posse do templo e deseja que permaneça nele. Portanto, os sacerdotes não devem temer aquilo que tanto o alegra.
II. Salomão instrui o povo e explica claramente a respeito daquela casa, que acabavam de ver Deus ocupar. Falou brevemente aos sacerdotes para tranquilizá-los — uma palavra basta aos que entendem —, mas voltou o rosto, v. 14, e se dirigiu longamente à congregação reunida no pátio externo.
- Ele os abençoou. Ao verem a nuvem escura entrar no templo, invocaram uma bênção sobre si mesmos, assombrados e temendo que aquela escuridão espessa se tornasse trevas completas para eles. A visão espantosa, que provavelmente ninguém jamais vira, levou todos a orar, e até as mentes mais levianas ficaram sérias.
Salomão, então, uniu-se às orações deles e abençoou a todos, com autoridade — pois o menor é abençoado pelo maior. Em nome de Deus, declarou-lhes paz e bênção, como o anjo abençoou Gideão quando ele se assustou numa ocasião semelhante: “Paz seja contigo. Não temas; não morrerás” (Juízes 6:22, 23).
Salomão os abençoou, isto é, acalmou-os e os livrou do espanto em que estavam. Todos se puseram de pé para receber a bênção, como sinal de reverência e disposição para ouvi-la e aceitá-la. Essa é uma postura apropriada enquanto se pronuncia uma bênção.
- Salomão os informou a respeito da casa que havia construído e agora consagrava.
(1.) Começou agradecendo pela boa mão de seu Deus sobre ele até aquele momento: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel”, v. 15. Deus deve receber o louvor por aquilo que nos dá alegria. Assim, Salomão levou a congregação a erguer o coração em ações de graças a Deus, o que ajudaria a acalmar a agitação interior que provavelmente sentiam.
“Venham”, disse ele, “que as manifestações temíveis de Deus não nos afastem dele; antes, nos aproximem. Bendigamos o Senhor, Deus de Israel.” Assim Jó, em meio a uma situação sombria, bendisse o nome do Senhor.
Aqui Salomão bendisse a Deus: [1.] Pela promessa que ele fizera a Davi com palavras. [2.] Pelo cumprimento dessa promessa, que agora realizara com suas mãos. Percebemos melhor as misericórdias de Deus, com maior satisfação para nós e gratidão a ele, quando remontamos esses cursos d'água à fonte da aliança e comparamos o que Deus faz com o que disse.
(2.) Salomão agora entrega solenemente esta casa a Deus, consagrando-a por seu próprio ato. Concessões e transferências costumam começar com um relato do que já aconteceu e conduzir ao ato presente. Por isso, Salomão recorda as razões especiais que o levaram a construir a casa.
[1.] Ele recorda que faltava um lugar assim. Era necessário estabelecer isso de início, pois, segundo a dispensação em que viviam, deveria haver apenas um lugar onde esperassem que Deus registrasse seu nome. Portanto, se outro lugar já tivesse sido escolhido, construir este seria usurpar seu lugar.
Mas Salomão mostra, com base no que Deus mesmo dissera, que não havia outro lugar escolhido, v. 16: “Não escolhi cidade alguma para construir uma casa para o meu nome.” Por isso, havia ocasião para construí-la.
[2.] Salomão recorda que Davi tivera o propósito de construir um lugar assim. Primeiro, Deus escolhera quem governaria seu povo: “Escolhi Davi” (v. 16); depois, colocou no coração dele o propósito de construir uma casa para o nome de Deus, v. 17.
A ideia não fora de Salomão, para engrandecer a si mesmo. Seu bom pai, cuja memória é bendita, lançara o primeiro plano, embora não tivesse vivido para assentar a primeira pedra.
[3.] Salomão recorda a promessa de Deus a respeito de si mesmo. Deus aprovara a intenção de seu pai, v. 18: “Fizeste bem em ter isso no coração.” Repare: intenções sinceras de fazer o bem são aprovadas e aceitas graciosamente por Deus, embora a providência impeça que as executemos. O desejo de fazer o bem revela a bondade de uma pessoa. Veja 2 Coríntios 8:12.
Deus aceitou a boa vontade de Davi, mas não permitiu que ele realizasse a boa obra; reservou essa honra para o filho, v. 19: “Ele construirá a casa para o meu nome.” Assim, a obra não partiu da iniciativa de Salomão nem visava à glória dele: a construção seguia o plano de seu pai, e Salomão a realizava por determinação de Deus.
[4.] Salomão recorda o que fez e com que intenção. Afirma que construiu uma casa, não para seu próprio nome, mas para o nome do Senhor, Deus de Israel, v. 20, e que instalou ali um lugar para a arca, v. 21.
Assim, todos os direitos, títulos, interesses, reivindicações e demandas, quaisquer que fossem, que ele ou os seus tivessem ou pudessem ter sobre essa casa ou qualquer de suas dependências, ele renuncia, cede e entrega a Deus para sempre. Ela é para o nome de Deus e para sua arca.
Nisso, disse ele, o Senhor cumpriu a palavra que pronunciara. Repare: devemos considerar qualquer bem que façamos como cumprimento da promessa de Deus a nós, e não como cumprimento das promessas que fizemos a ele. Quanto mais fazemos por Deus, mais lhe ficamos devendo, pois nossa suficiência vem dele, e não de nós mesmos.
Versículos 22 a 53
A Oração de Salomão. (a.C. 1003.)
Depois de entregar inteiramente o templo a Deus, que mostrou aceitá-lo ao tomar posse dele, Salomão ora. Nessa oração, declara com mais precisão para que servirá a casa que consagrou e, com humildade e reverência, pede que Deus concorde com esse propósito.
Em suma, ele pede que o templo seja considerado não apenas casa de sacrifício — disso nem se fala na oração, pois era algo pressuposto —, mas casa de oração para todos os povos. Nisso, o templo prefigurava a igreja do evangelho (Isaías 56:7, comparado com Mateus 21:13). Por isso, Salomão inaugurou a casa não só com um sacrifício extraordinário, mas também com uma oração extraordinária.
I. A pessoa que fez essa oração era importante. Salomão não encarregou um sacerdote nem um profeta de fazê-la; ele mesmo orou diante de toda a congregação de Israel, v. 22.
- Foi bom que ele fosse capaz de orar assim; isso mostrava que aproveitara bem a educação piedosa que seus pais lhe deram. Apesar de toda a sua erudição, aprendera a orar bem e sabia expressar-se diante de Deus como convinha à ocasião, pro re nata — de improviso, sem uma fórmula prescrita.
Em meio às suas investigações filosóficas, provérbios e canções, ele não se esqueceu de suas devoções. A oração lhe trouxera proveito (1 Reis 3:11, etc.) e, ao que podemos supor, ele se dedicava muito a ela; por isso, como vemos aqui, era especialmente dotado para orar.
- Também foi bom que ele estivesse disposto a fazer isso e não se acanhasse de dirigir o culto a Deus diante de uma congregação tão grande. Não considerava humilhante ser o capelão de si mesmo e a voz da assembleia diante de Deus. Será que alguém pode se considerar importante demais para cumprir esse serviço em favor da própria família?
Com toda a sua glória, até mesmo sentado em seu trono de marfim, Salomão não parecia tão grandioso quanto naquele momento. Os grandes devem assim defender a reputação dos exercícios religiosos e honrar a Deus com sua grandeza. Nisso, Salomão prefigurava Cristo, o grande intercessor por todos os que estão sob seu governo.
II. A postura em que orou era muito reverente e expressava humildade, seriedade e fervor. Ele ficou diante do altar do Senhor, indicando que esperava que a oração fosse atendida por causa daquele sacrifício que seria oferecido na plenitude dos tempos e que os sacrifícios daquele altar prefiguravam.
Quando começou a orar: 1. Ajoelhou-se, como se vê em v. 54, onde se diz que se levantou de seus joelhos; compare com 2 Crônicas 6:13. Ajoelhar-se é a postura mais apropriada para orar (Efésios 3:14). Os maiores homens não devem considerar indigno ajoelhar-se diante do Senhor, seu Criador. O sr. Herbert diz: “Ajoelhar-se nunca estragou uma meia de seda.”
- Estendeu as mãos para o céu e, ao que parece por v. 54, permaneceu assim até o fim da oração. Desse modo expressou seu desejo de Deus e sua expectativa nele, como Pai que está nos céus.
Estendeu as mãos como se oferecesse a oração com o coração aberto e expandido e a apresentasse ao céu; também parecia receber de lá, com ambos os braços, a misericórdia que pedia. Não devemos desprezar nem ridicularizar essas expressões exteriores de uma devoção firme e fervorosa.
III. A oração foi muito longa e talvez bem mais extensa do que o trecho registrado aqui. Podemos falar livremente diante do trono da graça e devemos usar essa liberdade. Cristo não condena as orações longas, mas as que são feitas como pretexto.
Nesta excelente oração, Salomão faz o que devemos fazer em toda oração:
- Dá glória a Deus. Começa por isso, o ato de adoração mais apropriado. Dirige-se a Deus como o Senhor, Deus de Israel, Deus que fez aliança com seu povo.
(1.) Louva o que Deus é em si: o melhor dos seres — “Não há Deus como tu; ninguém nos céus nem na terra se compara a ti” — e o melhor senhor para seu povo: “Tu guardas aliança e misericórdia com teus servos.” Deus é fiel à aliança e mais generoso em misericórdia: faz por eles o que não prometeu expressamente, contanto que andem diante dele de todo o coração, zelando por ele e com os olhos nele.
(2.) Agradece pelo que Deus fizera em particular por sua família, v. 24: “Cumpriste para com teu servo Davi o que lhe prometeste”, assim como fizeste com teus outros servos. A promessa fora um grande favor, seu apoio e alegria; agora o cumprimento era a coroa desse favor: “Cumpriste-a, como se vê hoje.”
As novas experiências da fidelidade de Deus às suas promessas pedem louvores ainda maiores.
- Suplica a Deus que lhe conceda graça e favor.
(1.) Pede que Deus cumpra para com ele e os seus a misericórdia prometida, v. 25, 26. Vejam como ele introduz o pedido.
Agradece pelo cumprimento parcial da promessa: até então, Deus fora fiel à sua palavra. “Cumpriste para com teu servo Davi o que lhe prometeste: seu filho ocupa o trono e construiu o templo que ele planejou.” “Por isso, cumpre agora também o que ainda prometeste ao teu servo Davi, o que resta realizar no tempo certo.”
As experiências que temos do cumprimento das promessas de Deus devem nos animar a confiar nelas e a apresentá-las diante dele; quem espera misericórdias futuras deve agradecer pelas anteriores. Deus nos ajudou até aqui (2 Coríntios 1:10).
Salomão repete a promessa, v. 25: “Não te faltará um homem que se assente no trono”, sem omitir a condição: que seus filhos cuidem de seus caminhos. Não podemos esperar que Deus cumpra a promessa sem cumprirmos a condição.
Em seguida, pede humildemente que essa sucessão seja mantida, v. 26: “Agora, ó Deus de Israel, confirma a tua palavra.” Como temos observado muitas vezes, as promessas de Deus devem guiar nossos desejos e ser a base de nossas esperanças e expectativas na oração.
Davi havia orado: “Senhor, faze como disseste” (2 Samuel 7:25). Os filhos devem aprender com seus pais piedosos a orar e a apresentar seus argumentos diante de Deus.
(2.) Pede que Deus olhe para o templo de que acabara de tomar posse e mantenha os olhos continuamente voltados para ele, v. 29, reconhecendo-o graciosamente e, assim, honrando-o. Para isso:
[1.] Primeiro, expressa humilde admiração pela condescendência graciosa de Deus, v. 27: “Mas será que Deus habitará mesmo na terra? Podemos imaginar que um Ser infinitamente elevado, santo e feliz se rebaixaria tanto a ponto de se dizer que habita na terra e abençoa os vermes que nela vivem — uma terra corrompida e coberta de pecado, amaldiçoada e reservada para o fogo? Senhor, como pode ser?”
Segundo, reconhece humildemente que a casa que construíra, embora muito espaçosa, era incapaz de conter Deus: “Os céus, até mesmo os céus dos céus, não te podem conter.” Nenhum lugar pode abranger aquele que está presente em toda parte; até esta casa é pequena e modesta demais para ser a morada de quem é infinito em ser e glória.
Quando fazemos o máximo que podemos por Deus, ainda devemos reconhecer a distância infinita e a desproporção entre ele e nós, entre nossos serviços e suas perfeições.
[2.] Feito esse preâmbulo, ele ora em termos gerais. Primeiro, pede que Deus ouça graciosamente e responda à oração que fazia naquele momento, v. 28. Era uma oração humilde — “a oração do teu servo” —, fervorosa — uma oração que é um clamor — e feita com fé — diante daquele que era o Senhor e o seu Deus.
“Senhor, escuta-a e olha para ela”, não por ser a oração do rei de Israel — a dignidade ou os títulos de honra deste mundo não recomendam ninguém a Deus —, mas por ser a oração de seu servo.
Segundo, pede que Deus também ouça e responda a todas as orações que, no futuro, fossem feitas neste templo ou na direção dele, cuja promessa era: “Meu nome estará ali” (v. 29). Pede por suas próprias orações: “Escuta as orações que teu servo fizer”, e pelas de todo o Israel e de cada israelita em particular, v. 30.
“Escuta-as nos céus, que são de fato a tua morada”, da qual esta casa é apenas uma figura.
“Quando as ouvires, perdoa o pecado que os separa de Deus, até mesmo a iniquidade das coisas santas.” a. Salomão supõe que o povo de Deus continuará sendo um povo de oração e decide perseverar pessoalmente nesse dever. b. Ele os orienta a voltar os olhos, ao orar, para o lugar em que Deus se agradara de manifestar sua glória como em nenhum outro lugar da terra.
Só os sacerdotes podiam entrar ali, mas, ao adorarem nos pátios do templo, deviam olhar naquela direção. Não para adorarem o próprio lugar, o que seria idolatria, mas porque fora instituído como meio de culto, para ajudar a fraqueza da fé e prefigurar a mediação de Jesus Cristo, o verdadeiro templo.
Os que estavam longe olhavam para Jerusalém por causa do templo, mesmo quando estava em ruínas (Daniel 6:10). Devemos olhar para Cristo em tudo o que fazemos diante de Deus.
c. Salomão pede que Deus ouça as orações e perdoe os pecados de todos os que orassem voltados para aquele lugar.
Não pensava que as orações devotas de quem desconhecesse esse templo ou não o levasse em conta fossem rejeitadas por isso. Queria que os sinais visíveis da presença divina que abençoavam aquela casa sempre dessem ânimo e consolo palpáveis aos que oravam com fé.
[3.] Mais especificamente, Salomão apresenta vários casos em que esperava que o povo recorresse a Deus em oração, dentro do templo ou voltado para ele.
Primeiro: se alguém apelasse a Deus por um juramento para decidir um direito disputado entre duas pessoas, e o juramento fosse feito diante deste altar, Salomão pedia que Deus, de algum modo, revelasse a verdade e julgasse as partes em conflito, v. 31, 32.
Ele pedia que, em questões difíceis, esse trono da graça se tornasse um trono de julgamento: que Deus fizesse justiça a quem apelasse a ele com fé e punisse quem o fizesse com presunção.
Era comum jurar pelo templo e pelo altar (Mateus 23:16, 18); talvez esse costume corrompido tenha surgido da suposição de que o juramento era feito não pelo templo ou pelo altar, mas diante deles ou perto deles, para aumentar a solenidade.
Segundo: se o povo de Israel sofresse alguma calamidade nacional, ou se um israelita passasse por uma aflição pessoal, Salomão desejava que as orações feitas neste templo ou voltadas para ele fossem ouvidas e atendidas. a. Ele considera os juízos públicos: guerra, v. 33; falta de chuva, v. 35; fome ou peste, v. 37.
Termina com um “etc.”: inclui qualquer praga ou doença, pois nenhuma calamidade que aconteça a outros povos deixa de poder atingir Israel, o povo de Deus.
Salomão supõe: (a.) que a causa do juízo seria o pecado, e nada mais. “Se forem derrotados pelo inimigo, se não chover, será porque pecaram contra ti.” É o pecado que provoca todo o dano.
(b.) Que o resultado do juízo seria clamarem a Deus e suplicarem a ele, neste templo ou voltados para ele. Os que antes o desprezavam então o procurariam. “Senhor, na angústia te buscaram.” “Em suas aflições, cedo e com fervor me procurarão.”
(c.) Que para o juízo ser removido era preciso mais do que apenas orar. Salomão não podia nem queria pedir que a oração deles fosse atendida sem que também abandonassem o pecado (v. 35) e voltassem para Deus (v. 33), isto é, sem que se arrependessem de verdade e mudassem de vida.
Não podemos esperar salvação nesta vida nem na outra em quaisquer outros termos. Se fizessem isso e se preparassem para receber misericórdia, Salomão pedia:
[a.] Que Deus ouvisse dos céus, seu templo santo lá no alto, para o qual deveriam olhar por meio deste templo.
[b.] Que perdoasse o pecado, pois o juízo só é removido com misericórdia quando o pecado é perdoado.
[c.] Que lhes ensinasse o bom caminho em que deveriam andar, por meio do Espírito, da palavra e dos profetas. Assim, poderiam tirar proveito da aflição — feliz aquele a quem Deus corrige e ensina — e se preparar para o livramento, que chega com amor quando nos encontra de volta ao bom caminho de Deus e do dever.
[d.] Que removesse o juízo e reparasse o dano, qualquer que fosse: que não apenas aceitasse a oração, mas concedesse a misericórdia pedida.
b. Salomão considera as aflições pessoais, vv. 38-40: deseja que cada israelita que leve uma questão a Deus encontre ali a presença e o favor dele. Ele não menciona casos específicos, pois as aflições humanas são numerosas e variadas.
(a.) Supõe que cada pessoa queixosa sentirá profundamente o próprio fardo e apresentará a Deus aquilo que guardava para si, sem contar a ninguém: “Cada um conhecerá a praga do próprio coração”, aquilo que o aflige, ou, como dizemos, onde o sapato aperta.
“E estenderá as mãos”, isto é, apresentará seu caso em oração, assim como Ezequias estendeu a carta, voltado para este templo. Seja o problema do corpo ou da mente, a pessoa o exporá diante de Deus. Salomão parece referir-se sobretudo aos fardos interiores.
O pecado é a praga do próprio coração; nossa corrupção interior é nossa doença espiritual. Todo israelita verdadeiro procura conhecê-la para mortificá-la e vigiar para que não volte a crescer. Ele se queixa dela; é esse o fardo sob o qual geme: “Miserável homem que sou!” Ela o leva de joelhos e o conduz ao santuário. Ao lamentá-la, estende as mãos em oração.
(b.) Salomão entrega a Deus todos os casos desse tipo que fossem apresentados ali. [a.] Apela à onisciência divina: “Tu, somente tu, conheces o coração de todos os seres humanos.”
Deus conhece não só as pragas de seus corações, suas várias carências e seus fardos — sabe disso, mas quer que o informemos —, mas também os desejos e as intenções do coração, sua sinceridade ou hipocrisia. Sabe qual oração vem do coração e qual vem apenas dos lábios. O coração dos reis não é insondável para Deus.
[b.] Apela à justiça divina: “Dá a cada um conforme os seus caminhos.” Deus não deixará de fazer isso segundo as regras da graça, não da lei, pois, nesse caso, todos estaríamos perdidos.
[c.] Apela à misericórdia divina: “Ouve, perdoa e age”, v. 39, para que o povo te tema durante todos os seus dias, v. 40. Devemos responder à misericórdia de Deus, que ouve nossas orações e perdoa nossos pecados, temendo-o enquanto vivemos. “Tema o Senhor e a sua bondade.” Há perdão junto dele para que seja temido.
c. Em seguida, Salomão menciona o estrangeiro que não era israelita: um prosélito que ia ao templo para orar ao Deus de Israel, convencido da tolice e da maldade de adorar os deuses de sua terra.
(a.) Salomão supõe que muitos viriam, v. 41, 42, pois a fama das grandes obras que Deus fizera por Israel, provando que estava acima de todos os deuses e era o único Deus, chegaria a países distantes.
“Os que vivem longe ouvirão falar da tua mão poderosa e do teu braço estendido.” Isso levaria todas as pessoas ponderadas a orar voltadas para este templo, buscando o favor de um Deus capaz de lhes fazer um bem verdadeiro.
(b.) Salomão pede que Deus aceite e responda à oração do prosélito, v. 43: “Faze tudo o que o estrangeiro te pedir.”
Desde cedo, desde a Antiguidade, havia sinais do favor de Deus para com os pecadores gentios. Assim como havia uma só lei para o natural da terra e para o estrangeiro (Êxodo 12:49), também havia um só evangelho para ambos.
(c.) Salomão tinha em vista a glória de Deus e a propagação do conhecimento dele: “Que o estrangeiro, de modo especial, seja bem-sucedido em seus pedidos, para que leve a seu país um bom testemunho do Deus de Israel e todos os povos te conheçam e te temam — pois, se te conhecerem de verdade, te temerão — como te teme o teu povo Israel.”
Salomão estava muito longe de querer monopolizar o conhecimento e o culto a Deus, restringindo-os apenas a Israel, como os judeus invejosos quiseram nos dias de Cristo e dos apóstolos.
Ele orou para que todos os povos temessem a Deus como Israel. Quem dera todos os seres humanos recebessem a adoção e se tornassem filhos de Deus! “Pai, glorifica assim o teu nome.”
d. Salomão também recomenda ao favor divino o exército que parte para a guerra. Supõe que o exército esteja acampado longe, enviado por ordem divina contra o inimigo, v. 44.
“Quando estiverem prestes a lutar, refletirem nos perigos e no resultado incerto da batalha e orarem a Deus por proteção e vitória, olhando para esta cidade e este templo, então ouve a oração deles, anima-lhes o coração, fortalece-lhes as mãos, protege-lhes a cabeça, defende a causa deles e concede-lhes a vitória.”
Os soldados em campanha não devem achar suficiente que os que ficaram em casa orem por eles; eles mesmos devem orar e podem esperar uma resposta graciosa. A oração deve sempre acompanhar a luta.
e. O último caso mencionado como objeto apropriado da compaixão divina é o dos pobres cativos:
(a.) Salomão supõe que Israel pecará. Conhecia bem o povo, a si mesmo e a natureza humana para considerar isso uma suposição descabida: não há ninguém que não peque e não faça o bastante para justificar as mais severas repreensões da providência. Todos correm o risco de cair em pecados graves, e cairão se Deus os deixar entregues a si mesmos.
(b.) Supõe o que se pode esperar: se Israel se rebelar contra Deus, Deus se irará e o entregará aos inimigos, para que seja levado cativo a uma terra estrangeira, v. 46.
(c.) Supõe que então o povo refletirá sobre sua conduta — pois as aflições levam as pessoas a pensar — e, ao refletir, se arrependerá e orará. Confessará os pecados e se humilhará: “Pecamos e procedemos perversamente” (v. 47). Na terra dos inimigos, voltará para Deus, a quem abandonou na própria terra.
(d.) Supõe que, nas orações, olharão para sua terra, a terra santa, para Jerusalém, a cidade santa, e para o templo, a casa santa. Salomão os orienta a fazer isso, v. 48, por causa daquele que lhes deu a terra, escolheu a cidade e em cuja honra a casa foi construída.
(e.) Pede que Deus então ouça as orações, perdoe os pecados, defenda a causa do povo e faça com que os inimigos tenham compaixão dele, v. 49, 50. Deus tem todos os corações em suas mãos e, quando quer, pode mudar o curso mais forte na direção contrária e levar os perseguidores mais cruéis a terem pena de seu povo.
Vejam essa oração atendida em Salmos 106:46: Deus fez com que aqueles que os levaram cativos tivessem compaixão deles. Isso talvez não os libertasse, mas aliviava seu cativeiro.
(f.) Salomão apela para a relação do povo com Deus e para o interesse divino nele: “Eles são o teu povo, que tomaste para tua aliança e para teu cuidado e direção; são tua herança, da qual — mais do que de qualquer outra nação — procedem e se elevam os tributos de glória que te cabem”, v. 51.
“O povo foi separado dentre todas as nações para ser teu e, por favores especiais, foi dedicado a ti” (v. 53).
Por fim, depois de apresentar todos esses casos, Salomão conclui com este pedido geral: que Deus ouça seu povo em oração em tudo aquilo por que clamar, v. 52.
Sob o evangelho, nenhum lugar pode ser considerado capaz de tornar mais aceitáveis as orações feitas nele ou em sua direção, como acontecia então com o templo. Aquilo era sombra; a realidade é Cristo. Tudo o que pedirmos em seu nome nos será concedido.
Versículos 54 a 61
Salomão Abençoa e Exorta o Povo. (a.C. 1003.)
Depois de seu sermão em Eclesiastes, Salomão nos apresenta a conclusão de todo o assunto; faz o mesmo aqui, depois desta longa oração. O ato é chamado de bênção ao povo, v. 55. Ele a pronunciou de pé, para ser ouvido melhor e porque abençoava com autoridade.
Nunca se disseram palavras tão apropriadas nem tão pertinentes. Nunca uma assembleia foi despedida com palavras mais capazes de tocá-la e permanecer com ela.
I. Salomão dá glória a Deus pelas grandes e bondosas coisas que fizera por Israel, v. 56. Ele se levantou para abençoar a congregação, v. 55, mas começou abençoando a Deus, pois devemos dar graças em tudo.
Esperamos que Deus faça o bem a nós e aos nossos? Aproveitemos todas as ocasiões para falar bem dele e dos seus. Salomão bendiz a Deus pelo descanso que dera a Israel; não menciona riqueza, honra, poder nem vitória, como se o descanso fosse uma bênção mais valiosa que qualquer uma dessas.
Que os que desfrutam de descanso não menosprezem essa bênção, ainda que lhes faltem outras. Salomão compara as bênçãos concedidas por Deus com as promessas que fizera, para que Deus receba a glória por sua fidelidade e pela veracidade de sua palavra, que ele exaltou acima de todo o seu nome.
- Ele se refere às promessas feitas por meio de Moisés, assim como, v. 15, 24, se referira às promessas feitas a Davi. Por meio de Moisés foram dadas promessas, além de preceitos.
Deus demorou a dar a Israel o descanso prometido, mas, depois de muitas provações, o povo enfim o recebeu. Chegará o dia em que o Israel espiritual de Deus descansará de todos os seus trabalhos.
- É como se Salomão escrevesse um recibo de quitação no verso dessas promessas: “Não falhou uma só palavra de todas as suas boas promessas.” Ele dá essa quitação em nome de todo o Israel, para a honra eterna da fidelidade divina e para o encorajamento eterno de todos os que confiam nas promessas de Deus.
II. Salomão abençoa a si mesmo e à congregação, expressando seu ardente desejo e esperança de quatro coisas:
- A presença de Deus com eles, essencial para a felicidade de uma igreja, de uma nação e de cada pessoa em particular. Aquela grande congregação logo se dispersaria, e provavelmente nunca mais se reuniria toda neste mundo.
Por isso, Salomão os despede com esta bênção: “Que o Senhor esteja conosco; isso bastará para nos consolar quando estivermos separados uns dos outros.” “O Senhor, nosso Deus, seja conosco, como esteve com nossos pais” (v. 57). Salomão pede que Deus não os abandone e continue sendo para eles e seus descendentes o que fora para os que vieram antes.
- O poder da graça de Deus sobre eles. Salomão pede que Deus permaneça com o povo, não para ampliar seu território e sua riqueza, mas para inclinar o coração deles para si, a fim de andarem em todos os seus caminhos e guardarem seus mandamentos, v. 58.
As bênçãos espirituais são as melhores; devemos desejá-las ardentemente. Nosso coração tende naturalmente a se afastar de nosso dever e de Deus; é a graça divina que o inclina, e ela deve ser obtida pela oração.
- Uma resposta à oração que acabara de fazer: “Que estas minhas palavras permaneçam diante do Senhor, nosso Deus, dia e noite” (v. 59). Salomão pede que toda oração feita ali receba uma resposta graciosa; isso será uma resposta contínua à sua própria oração.
O pedido de Salomão ainda é atendido pela intercessão de Cristo, da qual sua súplica era uma prefiguração. Essa intercessão poderosa e eficaz está dia e noite diante do Senhor, nosso Deus, pois nosso grande Advogado cuida continuamente disso.
Podemos depender dele para defender nossa causa — contra o adversário que nos acusa dia e noite (Apocalipse 12:10) — e a causa comum de seu povo Israel em todo tempo e ocasião, conforme a necessidade, falando por nós, como diz o texto original, a palavra de cada dia no seu dia.
Assim receberemos graça suficiente, adequada e oportuna em todo tempo de necessidade.
- A glorificação de Deus pela expansão de seu reino entre os povos. Que Israel seja abençoado e favorecido desse modo, não para que todos os povos se tornem nossos tributários — Salomão já via seu reino tão grande quanto desejava —, mas para que todos saibam que o Senhor é Deus e somente ele, e venham adorá-lo, v. 60.
Com esse pedido terminam as orações de Salomão, como as de seu pai Davi, filho de Jessé (Salmos 72:19, 20): “Encha-se toda a terra da sua glória.” Não podemos encerrar melhor nossas orações: “Pai, glorifica o teu nome.”
III. Salomão ordena solenemente ao povo que continue firme em seu dever para com Deus. Depois de falar com Deus em favor do povo, agora lhe fala da parte de Deus. Só seriam beneficiados por suas orações os que se tornassem melhores por meio de sua pregação.
Ao se despedir, ele os exorta: “Seja o vosso coração perfeito para com o Senhor, nosso Deus” (v. 61). A obediência deve ser completa, sem divisão; sincera, sem fingimento; constante, sem desvio. Essa é a perfeição do evangelho.
Versículos 62 a 66
Salomão Celebra uma Grande Festa. (a.C. 1003.)
Já lemos que Judá e Israel comiam, bebiam e estavam muito alegres, cada um debaixo de sua videira e de sua figueira; aqui os vemos assim nos pátios de Deus. Agora comprovaram a verdade das palavras de Salomão sobre os caminhos da Sabedoria: são caminhos agradáveis.
I. Enquanto estavam na casa de Deus, sentiram grande alegria e satisfação, pois ali:
- Salomão ofereceu um grande sacrifício: 22 mil bois e 120 mil ovelhas, o bastante para esvaziar o país de seus rebanhos, se a terra não fosse muito fértil.
Os pagãos se consideravam muito generosos quando ofereciam centenas de animais — chamavam essas ofertas de hecatombes —, mas Salomão os superou: ofereceu milhares.
Quando Moisés consagrou o altar, as ofertas pacíficas foram 24 novilhos e, de carneiros, bodes e cordeiros, 180 (Números 7:88). Naquele tempo, o povo era pobre; agora, que sua riqueza aumentara, esperava-se mais dele.
Quando Deus semeia em abundância, deve colher na mesma medida. Todos esses sacrifícios não podiam ser oferecidos num único dia, mas ao longo dos vários dias da festa.
Trinta bois por dia abasteciam a mesa de Salomão, mas milhares seriam oferecidos no altar de Deus. Poucos têm essa disposição: gastar mais com a alma do que com o corpo.
É provável que Salomão tenha oferecido ao povo a carne das ofertas pacíficas, que pertencia a quem as oferecia. Cristo alimentou os que o acompanhavam.
O altar de bronze não era grande o bastante para receber todos esses sacrifícios; por isso, para atender à ocasião, tiveram de oferecer muitos deles no meio do pátio, v. 64. Alguns pensam que usaram vários altares de terra ou pedra, erguidos para a ocasião e desmontados ao fim da solenidade; outros pensam que ofereceram os sacrifícios diretamente no chão.
Quem deseja servir a Deus com generosidade não precisa se limitar por falta de espaço ou de oportunidade. 2. Salomão celebrou uma festa, ao que parece a Festa dos Tabernáculos, depois da festa de dedicação; as duas juntas duraram catorze dias, v. 65. Apesar disso, ninguém disse: “Eis que isso é um tédio!”
II. O povo levou essa alegria e satisfação para casa. Ao serem despedidos, abençoaram o rei, v. 66: aplaudiram-no, admiraram-no e lhe agradeceram em nome da congregação. Depois voltaram às suas tendas alegres e de coração contente, satisfeitos com tudo.
A bondade de Deus era o motivo da alegria deles; deve ser também o nosso, em todo tempo. Alegraram-se pela bênção de Deus sobre a família real e o reino.
Também nós devemos voltar para casa alegres depois das cerimônias sagradas e seguir nosso caminho com alegria pela bondade de Deus para com o Senhor Jesus — de quem Davi, seu servo, foi uma prefiguração no avanço e no estabelecimento do trono, conforme a aliança da redenção — e para com todos os crentes, o Israel espiritual de Deus, em sua santificação e consolação, conforme a aliança da graça.
Se não nos alegrarmos sempre nisso, a culpa é nossa.