1 Reis 7
Argumento
Assim como, na história de Davi, um capítulo após outro trata de guerras e vitórias, na história de Salomão, um capítulo após outro trata de suas construções.
Neste capítulo temos: I. A construção de vários edifícios para uso próprio (vv. 1-12). II. O mobiliário do templo que construíra para Deus:
- Duas colunas (vv. 13-22). 2. Um mar de metal fundido (vv. 23-26). 3. Dez suportes de bronze (vv. 27-37) e dez bacias sobre eles (v. 38, 39). 4. Todos os demais utensílios do templo (vv. 40-50). 5. As coisas que seu pai dedicara ao Senhor (v. 51).
A descrição detalhada dessas coisas não era desnecessária quando foi escrita, nem é inútil agora.
Versículos 1 a 12
A Construção do Templo. (a.C. 1004.)
Ninguém teve um impulso construtor tão forte como Salomão, nem o empregou com finalidade melhor. Ele começou pelo templo, construído primeiro para Deus; depois, todas as suas outras construções lhe trouxeram satisfação. Os alicerces mais seguros de uma prosperidade duradoura são lançados por uma piedade precoce (Mateus 6:33).
- Salomão construiu uma casa para si (v. 1), onde morava, v. 8. Seu pai havia construído uma boa casa; mas não era desrespeito ao pai construir uma melhor, proporcional aos bens com que Deus o abençoara. Grande parte do conforto desta vida está ligada a uma casa agradável.
Salomão levou treze anos para construir essa casa, mas pouco mais de sete para o templo. Não foi por ser mais meticuloso, mas por ter menos pressa e empenho na construção da própria casa do que na de Deus. Não tinha pressa para seu palácio; ansiava, porém, que o templo ficasse pronto e pudesse ser usado. Assim, devemos preferir a honra de Deus ao nosso próprio conforto e satisfação.
- Salomão construiu a Casa do Bosque do Líbano (v. 2), que se supõe ter sido uma residência de campo perto de Jerusalém, chamada assim pela beleza de sua localização e pelas árvores ao redor.
Prefiro pensar que era uma casa construída no próprio bosque do Líbano, para onde Salomão, embora longe de Jerusalém, podia retirar-se com facilidade e frequência. Ele tinha tantos carros e cavalos, distribuídos por cidades de carros que provavelmente serviam de estações em suas viagens.
Não parece que seu trono, mencionado no v. 7, ficava na Casa do Bosque do Líbano; e não era de modo algum impróprio guardar ali seus escudos, como num arsenal. Há menção específica de suas construções não só em Jerusalém, mas também no Líbano (1 Reis 9:19). Lemos sobre a torre do Líbano, voltada para Damasco (Cantares de Salomão 7:4), que provavelmente fazia parte dessa casa.
Há uma descrição detalhada dessa casa: como foi construída no Líbano, lugar famoso por seus cedros, as colunas, as vigas e o teto eram todos de cedro (v. 2, 3). Como ela fora projetada para oferecer belas paisagens, havia três fileiras de janelas de cada lado, uma janela diante da outra (v. 4, 5), ou, como se pode ler, uma vista diante da outra.
Aqueles a quem coube viver no campo podem se reconciliar com a vida rural ao saber que alguns dos maiores príncipes consideraram mais agradáveis os dias que passaram em seus retiros no campo.
- Salomão construiu galerias diante de uma de suas casas, talvez a de Jerusalém ou a do Líbano. Eram muito famosas: um pórtico sustentado por colunas (v. 6), talvez usado como mercado, guarita, passeio para os que o aguardavam por assuntos oficiais até serem recebidos, ou apenas para ostentar magnificência.
Ele mesmo fala da Sabedoria, que construiu sua casa e talhou suas sete colunas (Provérbios 9:1), para abrigar aqueles que, três versículos antes, são descritos como os que vigiavam diariamente às portas dela e esperavam junto aos umbrais (Provérbios 8:34).
- Na casa em que morava, em Jerusalém, Salomão construiu um grande salão, ou pórtico de julgamento, onde ficava o trono, ou tribunal do rei, para julgar as causas que lhe eram apresentadas (placita coram ipso rege tenenda — causas a serem decididas diante do próprio rei). O salão era revestido de cedro, do piso ao teto, v. 7.
Ele também tinha outro pátio dentro do pórtico, mais perto de sua casa, com acabamento semelhante, para seus assistentes passearem, v. 8.
- Salomão construiu uma casa para sua esposa, onde ela mantinha sua corte, v. 8. Diz-se que era semelhante ao pórtico por ser revestida de cedro como ele, embora não tivesse o mesmo formato. Sem dúvida, ficava mais perto do palácio dele. Contudo, talvez, se ficasse tão perto quanto deveria, Salomão não tivesse multiplicado as esposas como fez.
A magnífica beleza de todas essas construções é destacada, v. 9, etc. Todos os materiais eram os melhores de sua espécie. As pedras dos alicerces eram caras por causa de seu tamanho: eram quadradas, com lados de quatro ou cinco jardas, ou tinham pelo menos esse comprimento, v. 10.
As pedras da construção eram caras pelo trabalho empregado: foram talhadas e serradas, e primorosamente trabalhadas em todos os aspectos, v. 9, 11.
O pátio da casa de Salomão era semelhante ao do templo (v. 12; compare com 1 Reis 6:36). Ele gostou tanto do modelo dos pátios de Deus que fez o seu segundo esse modelo.
Versículos 13 a 47
Temos aqui um relato dos trabalhos em bronze feitos para o templo. Não havia ferro no templo, embora Davi tenha preparado ferro para os objetos de ferro (1 Crônicas 29:2). Não nos dizem quais eram esses objetos, mas alguns dos objetos de bronze são descritos aqui, e os demais, mencionados.
I. O fundidor que Salomão encarregou de dirigir essa parte da obra foi Hirão, ou Hurão (2 Crônicas 4:11). Pelo lado da mãe, ele era israelita, da tribo de Naftali; pelo lado do pai, era tírio, v. 14.
Se tinha a habilidade de um tírio e o afeto de um israelita pela casa de Deus — a cabeça de um tírio e o coração de um israelita —, foi bom que o sangue das duas nações se misturasse nele. Isso o capacitou para a obra a que fora designado.
Assim como o tabernáculo foi construído com a riqueza do Egito, o templo foi construído com a habilidade de Tiro. Deus usa para si os dons comuns dos seres humanos.
II. O bronze usado era o melhor que se podia obter. Todos os utensílios de bronze eram de bronze polido (v. 45), “bom bronze”, segundo a versão caldeia: o mais resistente e de melhor aparência. Deus, que é o melhor, deve ser servido e honrado com o melhor.
III. O lugar onde todos os utensílios de bronze foram fundidos era a planície do Jordão, pois o solo ali era firme e argiloso, próprio para fazer moldes para fundir o bronze, v. 46. Salomão não quis que esse trabalho sujo e enfumaçado fosse feito em Jerusalém ou perto dela.
IV. A quantidade não foi contabilizada. Os utensílios não foram contados — assim também se pode entender o v. 47, além de “não foram pesados” —, pois eram numerosos demais, e seria interminável fazer uma relação de todos. Tampouco se conferiu nem se verificou o peso do bronze entregue aos trabalhadores. Eles eram tão honestos, e havia tanto bronze, que não havia risco de faltar.
Devemos atribuir a Salomão o cuidado de ter providenciado tanto bronze, e não descuido por não o ter contabilizado.
V. Alguns detalhes dos trabalhos em bronze são descritos:
- Duas colunas de bronze, erguidas no pórtico do templo, v. 21. Não se sabe ao certo se ficavam sob a cobertura do pórtico ou ao ar livre; estavam entre o templo e o pátio dos sacerdotes. Não serviam para pendurar portões nem para sustentar qualquer construção, mas apenas como ornamento e símbolo.
(1.) Podemos imaginar o ornamento que eram pelo relato do trabalho primoroso que as cobria: relevos quadriculados, correntes, redes, flores de lírio e romãs em fileiras. Tudo era de bronze polido e, sem dúvida, feito segundo as melhores regras de proporção, para agradar aos olhos.
(2.) Seu significado é indicado pelos nomes que receberam, v. 21: Jaquim, “ele estabelecerá”, e Boaz, “nele está a força”. Alguns pensam que foram feitas para lembrar a coluna de nuvem e fogo que conduziu Israel pelo deserto. Prefiro pensar que eram um lembrete para os sacerdotes e outros que vinham adorar à porta de Deus:
[1.] De que deviam depender somente de Deus, e não de nenhuma capacidade própria, para obter força e firmeza em todos os exercícios religiosos. Quando nos apresentamos diante de Deus e percebemos que nosso coração está disperso e instável, pela fé devemos buscar auxílio do céu: Jaquim — Deus firmará esta mente errante.
É bom que o coração seja estabelecido pela graça. Descobrimos que somos fracos e incapazes para os deveres santos, mas temos este encorajamento: Boaz — nele está nossa força, pois Deus opera em nós tanto o querer como o realizar. “Irei na força do Senhor Deus.” A força e a estabilidade espirituais estão à porta do templo de Deus; ali devemos esperar os dons da graça, usando os meios da graça.
[2.] As colunas lembravam a força e a estabilidade do templo de Deus entre eles. Se permanecessem fiéis a Deus e ao dever, nunca perderiam suas dignidades e seus privilégios; a concessão seria confirmada e perpetuada a eles. Deus estabelecerá e fortalecerá a igreja do evangelho, contra a qual as portas do inferno nunca prevalecerão.
Mas, quando esse templo foi destruído, deu-se especial atenção à destruição dessas colunas (2 Reis 25:13, 17), que haviam sido sinais de sua estabilidade e assim teriam permanecido se o povo não tivesse abandonado a Deus.
- Um mar de bronze, um recipiente muito grande, com mais de cinco jardas de diâmetro e que continha mais de 500 barris de água para os sacerdotes se lavarem, lavarem os sacrifícios e manterem limpos os pátios do templo, v. 23, etc. Ele se apoiava sobre doze bois de bronze, tão alto que, ou se subia por escadas, ou havia torneiras embaixo para retirar a água.
Os gibeonitas, ou netineus, encarregados de tirar água para a casa de Deus, cuidavam de enchê-lo. Alguns pensam que Salomão fez figuras de bois para sustentar essa grande cisterna como desprezo pelo bezerro de ouro que Israel adorara.
Assim, como expressa o bispo Patrick, o povo veria que aquelas figuras não tinham nada digno de adoração: serviam melhor como postes do que como deuses. Ainda assim, isso não impediu Jeroboão de erguer bezerros como divindades.
No pátio do tabernáculo havia apenas uma bacia de bronze para lavar; no pátio do templo havia um mar de bronze. Isso indicava que, pelo evangelho de Cristo, há uma provisão muito mais abundante para nossa purificação do que havia pela lei de Moisés. Aquela tinha uma bacia; este tem um mar, uma fonte aberta (Zacarias 13:1).
- Dez bases, suportes ou pedestais de bronze, sobre os quais eram colocadas dez bacias, cheias de água para o serviço do templo, pois o mar de bronze não teria espaço para todos os que precisassem lavar-se. Os suportes aos quais as bacias eram fixadas são descritos detalhadamente aqui, v. 27, etc.
Eram ornados com primor e colocados sobre rodas, para que as bacias pudessem ser movidas quando necessário. Normalmente, ficavam em duas fileiras: cinco de um lado do pátio e cinco do outro, v. 39. Cada bacia comportava quarenta batos, cerca de dez barris, v. 38.
Quem carrega os utensílios do Senhor deve estar muito limpo. Sacerdotes espirituais e sacrifícios espirituais precisam ser lavados na bacia do sangue de Cristo e da regeneração. Devemos lavar-nos com frequência, pois diariamente contraímos impureza; precisamos limpar as mãos e purificar o coração.
Há ampla provisão para nossa purificação. Se permanecermos para sempre entre os impuros, a culpa será nossa.
- Além desses objetos, fizeram-se muitas panelas de bronze para cozer a carne das ofertas pacíficas, da qual os sacerdotes e os que ofereciam as ofertas comiam diante do Senhor (veja 1 Samuel 2:14). Fizeram-se também pás para retirar as cinzas do altar.
Alguns pensam que a palavra significa garfos para carne, usados para tirar a carne da panela. As bacias também eram de bronze, para receber o sangue dos sacrifícios. Esses objetos representam todos os utensílios do altar de bronze (Êxodo 38:3).
Enquanto trabalhavam, fizeram muitos deles, para ter um bom estoque quando os primeiros utensílios se desgastassem e se deteriorassem. Assim, como Salomão tinha recursos para isso, providenciou para a posteridade.
Versículos 48 a 51
Aqui temos: 1. A confecção dos objetos de ouro do templo, que parece ter sido feita por último, pois com ela terminou a obra da casa de Deus.
Todo o interior era de ouro, e tudo foi feito de novo — o altar de ouro, a mesa e o candelabro com todos os seus acessórios —, exceto a arca com seu propiciatório e os querubins. Os objetos antigos foram derretidos ou postos de lado.
O altar de incenso continuou sendo um só, pois Cristo e sua intercessão também são um só. Mas Salomão fez dez mesas de ouro (2 Crônicas 4:8), embora aqui se mencione apenas aquela sobre a qual ficava o pão da proposição, v. 48. Podemos supor que ela fosse maior que as demais, e que estas lhe servissem de mesas auxiliares.
Ele também fez dez candelabros de ouro, v. 49. Isso indicava a abundância muito maior de alimento espiritual e luz celestial que o evangelho nos concede, em comparação com o que a lei de Moisés podia proporcionar.
Até as dobradiças da porta eram de ouro, v. 50, para que tudo fosse igualmente magnífico e demonstrasse a generosidade de Salomão. Alguns sugerem que tudo foi feito tão esplêndido no templo de Deus para afastar o povo da idolatria, pois nenhum templo de ídolos era tão rico e belo. Mas o resultado mostrou quão pouco esse recurso adiantou.
- A entrada dos objetos consagrados por Davi à honra de Deus, v. 51. O que não foi gasto na construção e no mobiliário foi guardado no tesouro, para reparos, necessidades imprevistas e as despesas constantes do serviço do templo.
O que os pais consagraram a Deus os filhos de modo algum devem desviar para outro fim nem tomar de volta. Devem, antes, dedicar de bom grado o que foi destinado a usos piedosos e caritativos, para que herdem a bênção junto com os bens de seus pais.