Matthew Henry

1 Reis 5

Argumento

A grande obra para a qual Salomão foi suscitado era a construção do templo; sua riqueza e sabedoria lhe foram dadas para capacitá-lo a realizá-la. Nisso, sobretudo, ele seria um tipo de Cristo, pois “ele edificará o templo do Senhor” (Zacarias 6:12).

Neste capítulo temos o relato dos preparativos que Salomão fez para essa obra e para suas outras construções. Seu bom pai lhe deixara ouro e prata em abundância, mas ele precisava providenciar madeira e pedras; e, a respeito disso, negociou com Hirão, rei de Tiro.

I. Hirão o felicitou por sua ascensão ao trono, v. 1. II. Salomão lhe comunicou o plano de construir o templo e pediu que lhe fornecesse trabalhadores, vv. 2-6. III. Hirão concordou, vv. 7-9. IV. O trabalho de Salomão foi bem executado, e os trabalhadores de Hirão foram bem pagos, vv. 10-18.

Versículos 1 a 9

O Acordo de Salomão com Hirão. (a.C. 1014.)

Aqui temos o relato da correspondência amistosa entre Salomão e Hirão. Tiro era uma famosa cidade comercial, situada junto ao mar, na fronteira de Israel. Ao que parece, seus habitantes não eram das nações destinadas à destruição nem jamais estiveram em inimizade com Israel; por isso, Davi nunca se dispôs a destruí-los e viveu em amizade com eles.

Diz-se aqui que Hirão, rei deles, sempre fora amigo de Davi. Temos motivos para pensar que ele adorava o Deus verdadeiro e havia renunciado à idolatria de sua cidade, embora não pudesse reformá-la. O caráter de Davi conquista o afeto até mesmo dos que estão fora do povo de Deus. Aqui está:

I. A embaixada de cortesia que Hirão enviou a Salomão, v. 1. Como é comum entre príncipes, ele enviou mensageiros para manifestar pesar pela morte de Davi e renovar suas alianças com Salomão, agora que sucedera ao pai no governo. É bom manter a amizade e a comunhão com as famílias em que a religião ocupa o primeiro lugar.

II. A embaixada de negócios que Salomão enviou a Hirão, provavelmente por meio de seus próprios mensageiros. Em riqueza, honra e poder, Hirão era muito inferior a Salomão; ainda assim, Salomão precisava recorrer a ele e pedir seu favor. Nunca olhemos com desdém para quem está abaixo de nós, pois não sabemos quão cedo poderemos precisar dessas pessoas.

Em sua carta a Hirão, Salomão o informa:

  1. De seu propósito de construir um templo para a honra de Deus. Alguns pensam que os templos dos pagãos tiveram sua origem e seu modelo no tabernáculo que Moisés ergueu no deserto, e que antes dele não havia nenhum.

De todo modo, muitas casas já haviam sido construídas em honra dos falsos deuses antes que esta fosse erguida em honra do Deus de Israel. Isso mostra como o esplendor exterior é um fraco sinal da verdadeira igreja.

Salomão conta a Hirão, que não era alheio ao assunto, (1.) que as guerras de Davi o impediram de construir o templo, embora ele tivesse esse propósito, v. 3.

Elas tomavam muito de seu tempo, de seus pensamentos e de seus cuidados; eram uma despesa constante para ele e mantinham seus súditos continuamente ocupados. Assim, não poderia realizar a obra tão bem quanto ela precisava ser feita e, como ela não era essencial à religião, teve de deixá-la para seu sucessor.

Vejam como precisamos orar para que Deus nos dê paz em nossos dias, pois, em tempos de guerra, a construção do templo do evangelho costuma avançar lentamente.

(2.) A paz lhe deu a oportunidade de construir o templo; por isso, resolveu começar imediatamente: Deus me deu descanso tanto dentro quanto fora do país, e não há adversário (v. 4), nenhum Satanás — é esse o sentido da palavra —, nenhum instrumento de Satanás para se opor à obra ou nos desviar dela.

Satanás faz tudo o que pode para impedir a obra do templo (1 Tessalonicenses 2:18; Zacarias 3:1), mas, quando está preso (Apocalipse 20:2), devemos trabalhar. Quando nenhum mal sobrevém, sejamos vigorosos e zelosos na prática do bem e façamos a obra avançar.

Quando as igrejas têm descanso, devem ser edificadas (Atos 9:31). Os dias de paz e prosperidade nos trazem um vento favorável; teremos de prestar contas se não o aproveitarmos.

Assim como a providência de Deus levou Salomão a pensar na construção do templo, dando-lhe riqueza e tempo livre, a promessa divina também o encorajou. Deus dissera a Davi que seu filho construiria uma casa para ele, v. 5. Salomão teria prazer em se dedicar a essa obra e não perderia a honra que lhe fora destinada por aquela promessa.

A certeza de que teremos bom êxito pode nos estimular bastante a empreender boas obras. Que a promessa de Deus anime nossos esforços.

  1. Salomão expõe seu desejo de que Hirão o ajudasse nessa obra. A madeira viria do Líbano, uma nobre floresta ao norte de Canaã, mencionada expressamente na concessão daquela terra a Israel: todo o Líbano (Josué 13:5). Portanto, Salomão era dono de tudo o que ali se produzia.

Os cedros do Líbano são descritos como plantação especial do Senhor (Salmos 104:16), destinada ao uso de Israel e, em particular, ao serviço do templo. Salomão reconheceu que, embora as árvores fossem suas, os israelitas não tinham habilidade para cortar madeira como os sidônios, súditos de Hirão.

Canaã era uma terra de trigo e cevada (Deuteronômio 8:8), e os israelitas se ocupavam da agricultura; por isso, não tinham experiência em ofícios, nos quais os sidônios eram excelentes. Israel era sábio e entendido nas coisas de Deus; ainda assim, nas artes primorosas, ficava atrás de seus vizinhos.

A verdadeira piedade é uma dádiva do céu muito mais valiosa do que o mais alto grau de habilidade. É melhor ser israelita, hábil na lei, do que sidônio, hábil em cortar madeira.

Como era essa a situação, Salomão solicita a Hirão que lhe envie trabalhadores e promete, v. 6, ajudá-los, pondo seus servos para trabalhar com os de Hirão sob as ordens destes, e pagá-los, remunerando Hirão por seus servos.

O trabalhador merece seu pagamento, mesmo na obra da igreja, embora ela própria seja uma recompensa.

O profeta do evangelho, ao predizer a glória da igreja nos dias do Messias, parece fazer alusão a esta história em Isaías 60, onde anuncia (1.) que os filhos dos estrangeiros — como os tírios e sidônios — construirão o muro do templo do evangelho (Isaías 60:10). Ministros foram levantados entre os gentios para edificar o corpo de Cristo.

(2.) Que a glória do Líbano será trazida para embelezar o templo (Isaías 60:13). Todos os dons e as vantagens exteriores serão postos a serviço dos interesses do reino de Cristo.

  1. A resposta de Hirão à mensagem e o que ele enviou de volta:

(1.) Ele a recebeu com grande satisfação: alegrou-se muito, v. 7, porque Salomão seguia os passos do pai, levava adiante seus planos e provavelmente seria uma grande bênção para o reino. O espírito generoso de Hirão se alegrou com isso, e não apenas com a possibilidade de lucrar ao ser contratado por Salomão.

Pelo prazer que sentiu, deu graças a Deus: “Bendito seja o Senhor, que deu a Davi — que era sábio — um filho sábio para governar este grande povo.” Veja aqui:

[1.] Com que prazer Hirão fala da sabedoria de Salomão e da extensão de seu domínio. Aprendamos a não invejar as vantagens materiais nem os talentos da mente em que outros nos superam.

Que grande consolo para quem deseja o bem do Israel de Deus ver a religião e a sabedoria preservadas de uma geração para outra, especialmente em famílias importantes, que exercem grande influência sobre os outros! Quando isso acontece, Deus deve receber a glória.

Se pais piedosos recebem descendência piedosa (Malaquias 2:15), isso é um bom sinal e uma indicação feliz de que a transmissão da bênção aos descendentes não será interrompida.

(2.) Hirão respondeu a Salomão com grande satisfação, concedendo o que ele desejava e mostrando-se muito disposto a ajudá-lo nessa grande e boa obra que começava a empreender.

Temos aqui os termos do acordo entre Hirão e Salomão sobre esse assunto, nos quais podemos observar a prudência de Hirão.

[1.] Ele avaliou a proposta antes de responder, v. 8: “Considerei as coisas.” É comum que os que fazem negócios às pressas depois desejem desfazê-los. A mulher virtuosa considera um campo e depois o compra (Provérbios 31:16). Não perde tempo quem toma tempo para ponderar.

[2.] Ele especificou os detalhes do acordo, para que depois não houvesse mal-entendidos que provocassem uma desavença. Salomão falara em cortar as árvores, v. 6, e Hirão concordou com esse pedido, v. 8; mas não haviam tratado do transporte, e isso precisava ser resolvido.

O transporte por terra seria muito trabalhoso e caro. Por isso, Hirão se comprometeu a levar toda a madeira do Líbano por mar, numa viagem costeira. O transporte pela água é muito conveniente para o comércio. Louvemos a Deus por isso: ele ensinou ao ser humano essa habilidade.

Observe que acordo preciso Hirão fez: Salomão indicaria o lugar onde a madeira seria entregue, e Hirão se encarregaria de levá-la até lá e de garantir sua segurança.

Assim como os sidônios eram superiores aos israelitas no trabalho com madeira, também eram na navegação; pois Tiro e Sidom ficavam à entrada do mar (Ezequiel 27:3). Portanto, eram os mais aptos a cuidar do transporte marítimo. Tractant fabrilia fabri — cada artesão tem o ofício que lhe cabe.

[3.] Se Hirão assumisse o trabalho e atendesse a todos os pedidos de Salomão a respeito da madeira, v. 8, era justo esperar que Salomão assumisse o pagamento: “Tu cumprirás o meu desejo, dando alimento à minha casa” (v. 9), não só para os trabalhadores, mas também para a família do próprio Hirão.

Se Tiro fornece trabalhadores especializados a Israel, Israel fornecerá trigo a Tiro (Ezequiel 27:17). Assim, pela sábia disposição da providência, um país precisa de outro e se beneficia dele; dessa forma, há relações e dependência mútua, para a glória de Deus, nosso Pai comum.

Versículos 10 a 17

Aqui está: I. O cumprimento do acordo entre Salomão e Hirão. Cada parte honrou o compromisso. 1. Hirão entregou a madeira a Salomão, conforme o combinado, v. 10. As árvores eram de Salomão, mas talvez Materiam superabat opus: a obra valia mais do que o material. Por isso se diz que Hirão entregou as árvores.

  1. Salomão enviou a Hirão o trigo que lhe prometera, v. 11. Assim, pratique-se a justiça, como diz a expressão em Deuteronômio 16:20: justiça dos dois lados, em todo negócio.

II. A amizade entre eles foi confirmada por esse acordo. Deus deu sabedoria a Salomão, v. 12, algo superior a tudo o que Hirão lhe dera ou poderia lhe dar. Isso fez Hirão amá-lo e permitiu a Salomão aproveitar sua bondade; assim, ambos quiseram transformar o afeto mútuo num pacto duradouro.

É sábio fortalecer a amizade com pessoas que consideramos honestas e justas, para que novos amigos não se mostrem menos firmes e bondosos do que os antigos.

III. Os trabalhadores que Salomão empregou para preparar os materiais do templo. 1. Alguns eram israelitas e ficaram com a parte mais fácil e honrosa do trabalho: derrubar as árvores e ajudar a esquadrejá-las, junto com os servos de Hirão.

Para isso, Salomão designou trinta mil, mas empregava apenas dez mil por vez; assim, para cada mês de trabalho, tinham dois meses de descanso, tanto para repousar quanto para cuidar dos próprios assuntos em casa, v. 13, 14. Embora fosse serviço do templo, Salomão cuidou para que não trabalhassem em excesso. Os grandes devem considerar que seus servos também precisam descansar.

  1. Outros eram prisioneiros de outras nações, encarregados de carregar fardos e cortar pedras, v. 15. Não lemos que tivessem períodos de descanso como os israelitas, pois estavam condenados à servidão.

  2. Alguns foram empregados como diretores e supervisores: eram 3.300, que comandavam o povo, v. 16. Eram tão necessários e úteis em suas funções quanto os trabalhadores nas deles.

Muitas mãos e muitos olhos foram empregados, pois era preciso preparar materiais não só para o templo, mas também para todas as outras construções de Salomão, em Jerusalém, na floresta do Líbano e em outros lugares de seu domínio; veja 1 Reis 9:17-19.

Ele fala da grandeza de seus empreendimentos: “Fiz para mim grandes obras” (Eclesiastes 2:4). Elas exigiam um número enorme de trabalhadores.

IV. O lançamento dos alicerces do templo. Era essa construção que mais ocupava o coração de Salomão; por isso, começou por ela, v. 17, 18.

Parece que o próprio Salomão esteve presente e presidiu o lançamento dos alicerces, e que a primeira pedra, como costuma acontecer em edifícios famosos, foi assentada com certa solenidade.

Salomão deu ordens, e trouxeram pedras de alto preço para os alicerces. Ele faria tudo à altura de sua posição, com generosidade; por isso, mandou colocar — ou melhor, enterrar — algumas das pedras mais caras nos alicerces, embora, por ficarem fora de vista, pedras inferiores pudessem servir.

Cristo, posto como fundamento, é pedra eleita e preciosa (Isaías 28:16); e se diz que os fundamentos da igreja são de safiras (Isaías 54:11; compare com Apocalipse 21:19).

A sinceridade, que é a perfeição do evangelho, nos obriga a firmar bem os nossos alicerces e a dedicar o maior esforço à parte da nossa religião que fica fora da vista dos homens.


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