Matthew Henry

1 Reis 3

Argumento

O reinado de Salomão pareceu sangrento no capítulo anterior, mas os atos necessários de justiça não devem ser chamados de crueldade. Neste capítulo, ele se apresenta sob outro aspecto. Não devemos pensar pior da misericórdia de Deus para com seus súditos por causa dos juízos contra os rebeldes. Aqui temos:

I. O casamento de Salomão com a filha do faraó, v. 1.

II. Um panorama de sua religião, vv. 2-4.

III. Um relato particular de sua oração a Deus por sabedoria e da resposta a essa oração, vv. 5-15.

IV. Um exemplo particular de sua sabedoria ao decidir a disputa entre as duas prostitutas, vv. 16-28. E aqui Salomão se mostra grandioso no altar e no tribunal, e neste porque estava naquele.

Versículos 1 a 4

Salomão Se Casa com a Filha do Faraó. (a.C. 1014.)

Aqui nos contam a respeito de Salomão:

I. Algo indiscutivelmente bom, pelo qual deve ser louvado e imitado. 1. Ele amava o Senhor, v. 3. O amor de Deus por ele recebeu atenção especial (2 Samuel 12:24). Seu nome veio daí: Jedidias, amado pelo Senhor. E aqui vemos que ele retribuía esse amor, como João, o discípulo amado, era especialmente cheio de amor.

Salomão era sábio e rico; ainda assim, o elogio mais brilhante a seu respeito é aquele que caracteriza todos os santos, até os mais pobres: ele amava o Senhor, segundo a versão caldeia. Todos os que amam a Deus amam sua adoração, gostam de ouvi-lo e falar com ele, e assim ter comunhão com ele.

  1. Ele andava nos estatutos de Davi, seu pai, isto é, nos estatutos que Davi lhe dera (1 Reis 2:2, 3; 1 Crônicas 28:9, 10); a ordem de seu pai moribundo era sagrada para ele e tinha força de lei. Ou então, andava nos estatutos de Deus, nos quais seu pai Davi andara antes dele.

Mantinha-se fiel às ordenanças de Deus, observando-as com cuidado e cumprindo-as diligentemente. Os que amam de fato a Deus terão o cuidado de andar em seus estatutos.

  1. Ele agia com grande generosidade em tudo o que fazia para honrar a Deus. Quando oferecia sacrifícios, fazia-o como rei, em proporção à sua grande riqueza: mil holocaustos, v. 4.

Quando Deus semeia com abundância, espera colher na mesma medida; e os que amam de fato a Deus e sua adoração não se ressentem das despesas com a religião.

Podemos ser tentados a dizer: “Para que tamanho desperdício? Não poderiam ter dado esses animais aos pobres?” Mas nunca devemos considerar desperdício aquilo que se emprega no serviço de Deus. Parece estranho que tantos animais fossem queimados sobre um único altar durante uma só festa, embora ela durasse sete dias.

Supõe-se, porém, que o fogo do altar consumia as ofertas com mais rapidez que o fogo comum, pois representava a ira feroz e poderosa de Deus que caiu sobre os sacrifícios para que os ofertantes escapassem. Nosso Deus é fogo consumidor.

O bispo Patrick cita uma tradição dos judeus segundo a qual a fumaça dos sacrifícios subia diretamente, como uma coluna reta, sem se espalhar; caso contrário, teria sufocado os que assistiam quando se ofereciam tantos sacrifícios como estes.

II. Algo a respeito do qual se pode duvidar se foi bom ou não. 1. Seu casamento com a filha do faraó, v. 1. Vamos supor que ela tenha se convertido; caso contrário, o casamento não seria permitido. Ainda assim, mesmo que tenha se convertido, certamente não foi prudente.

Quem amava o Senhor deveria, por amor a ele, ter fixado sua afeição em alguém do povo do Senhor.

As uniões desiguais dos filhos de Deus com as filhas dos homens muitas vezes tiveram consequências perniciosas.

Ainda assim, alguns pensam que Salomão fez isso por conselho de seus amigos, que ela se converteu sinceramente — pois os deuses dos egípcios não são contados entre os deuses estranhos aos quais suas esposas estrangeiras o levaram a adorar (1 Reis 11:5, 6) —, e que o livro de Cantares e o Salmo 45 foram escritos nessa ocasião.

Assim, essas núpcias se tornaram um tipo da união mística da igreja com Cristo, sobretudo da igreja gentia.

  1. Ele adorava nos lugares altos e, com isso, tentava o povo a fazer o mesmo, v. 2, 3. Abraão construiu altares sobre montanhas (Gênesis 12:8; 22:2) e adorou num bosque (Gênesis 21:33). Daí veio esse costume, que era apropriado até a lei divina determinar que adorassem num só lugar (Deuteronômio 12:5, 6).

Davi se apegou à arca e não se interessava pelos lugares altos, mas Salomão, embora em outras coisas andasse nos estatutos do pai, nisso ficou aquém dele. Demonstrou grande zelo por oferecer sacrifícios, mas teria sido melhor obedecer. Isso era uma irregularidade.

Embora ainda não houvesse uma casa construída, havia uma tenda erguida para o nome do Senhor, e a arca deveria ser o centro da unidade do povo. Assim fora determinado por Deus, e os lugares altos os separavam dela.

Contudo, enquanto adoravam somente a Deus e seguiam a regra nas outras coisas, ele graciosamente relevava essa fraqueza e aceitava o serviço deles. Reconhece-se que Salomão amava o Senhor, embora queimasse incenso nos lugares altos. Que ninguém seja mais severo do que Deus.

Versículos 5 a 15

A Aparição de Deus a Salomão. (a.C. 1014.)

Aqui temos o relato de uma visita graciosa que Deus fez a Salomão e da comunhão que tiveram nela. Isso lhe deu uma honra maior do que toda a riqueza e o poder de seu reino.

I. As circunstâncias dessa visita, v. 5. 1. O lugar: Gibeão. Ali ficava o grande lugar alto, que deveria ter sido o único, pois ali estavam o tabernáculo e o altar de bronze (2 Crônicas 1:3). Foi ali que Salomão ofereceu seus grandes sacrifícios, e ali Deus se manifestou a ele mais do que em qualquer outro lugar alto.

Quanto mais nos aproximamos da regra em nossa adoração, mais razão temos para esperar os sinais da presença de Deus. Onde Deus registra seu nome, ali virá ao nosso encontro e nos abençoará.

  1. O momento: à noite, depois de ter oferecido aquele generoso sacrifício, v. 4. Quanto mais abundarmos na obra de Deus, mais consolo podemos esperar dele. Se o dia foi dedicado ao serviço de Deus, a noite será tranquila nele. O silêncio e o recolhimento favorecem nossa comunhão com Deus. Suas visitas mais bondosas acontecem muitas vezes à noite (Salmos 17:3).

  2. O modo: por meio de um sonho, quando Salomão dormia e seus sentidos estavam fechados, para que Deus tivesse acesso mais livre e imediato à sua mente. Era assim que Deus costumava falar aos profetas (Números 12:6) e a pessoas particulares, para benefício delas (Jó 33:15, 16).

Sem dúvida, esses sonhos divinos podiam ser claramente distinguidos daqueles em que há muitas vaidades (Eclesiastes 5:7).

II. A oferta graciosa que Deus lhe fez: escolher o favor que quisesse, qualquer que fosse, v. 5. Salomão viu a glória de Deus brilhar ao seu redor e ouviu uma voz que dizia: “Pede o que eu te darei.”

Deus não lhe devia nada por causa dos sacrifícios; assim, porém, mostrava que os aceitara e lhe indicava as grandes misericórdias que reservara para ele, se Salomão não deixasse de fazer a sua parte.

Desse modo, Deus provava suas inclinações e honrava a oração da fé. De modo semelhante, Deus se condescende conosco e nos põe no caminho da felicidade, assegurando que receberemos o que quisermos se pedirmos (João 16:23; 1 João 5:14). O que mais poderíamos desejar? “Peçam, e lhes será dado.”

III. O pedido piedoso que Salomão fez a Deus em resposta. Ele aceitou prontamente essa oferta. Por que negligenciamos uma oferta semelhante que nos é feita, como Acaz, que disse: “Não pedirei” (Isaías 7:12)? Salomão orou enquanto dormia, assistido pela graça de Deus; ainda assim, sua oração foi viva.

Aquilo com que mais nos preocupamos e que mais nos impressiona quando estamos acordados costuma nos afetar também durante o sono. Às vezes, nossos sonhos revelam em que se ocupa o coração e como bate nosso pulso.

Plutarco considera os sonhos virtuosos uma evidência de crescimento na virtude. Isso, porém, deve ser atribuído a uma fonte superior.

Salomão ter feito essa escolha tão sensata enquanto dormia, quando as faculdades racionais estavam menos ativas, mostra que ela vinha inteiramente da graça de Deus, que operava nele esses desejos graciosos. Se os seus rins o instruíam durante a noite, devia bendizer o Senhor, que o aconselhara (Salmos 16:7). Nesta oração:

  1. Salomão reconhece a grande bondade de Deus para com seu pai Davi, v. 6. Fala com honra da piedade do pai, que andara diante de Deus com integridade de coração, lançando um véu sobre suas faltas. Espera-se que os que louvam os pais piedosos os imitem.

Mas Salomão fala com honra ainda maior da bondade de Deus para com seu pai: da misericórdia que lhe mostrou em vida, tornando-o sinceramente religioso e recompensando sua sinceridade; e da grande bondade que reservara para a família depois de sua morte, dando-lhe um filho para sentar-se em seu trono.

Os filhos devem agradecer a Deus pelas misericórdias concedidas a seus pais, pelas misericórdias firmes de Davi. Os favores de Deus são duplamente doces quando vemos que nos chegam pelas mãos dos que vieram antes de nós. Para perpetuar essa herança, devemos bendizer a Deus porque até agora a preservou.

  1. Salomão reconhece sua própria incapacidade para cumprir a grande responsabilidade a que foi chamado, v. 7, 8. Aqui apresenta duas razões para reforçar seu pedido de sabedoria:

(1.) O cargo a exigia, pois ele sucedera a Davi, homem muito sábio e bom. Deus o fizera rei em lugar dele, e Salomão pedia sabedoria para conservar o que Davi realizara e levar adiante o que começara.

E também porque governava Israel: pedia sabedoria para governar bem, pois o povo era numeroso e não podia ser governado sem muito cuidado. Era o povo que Deus escolhera, portanto devia ser governado para ele; quanto mais sabiamente fosse governado, mais glória Deus receberia dele.

(2.) Salomão precisava dela. Com humildade e consciência de sua própria insuficiência, dizia que era apenas uma criança — criança em entendimento, embora seu pai o tivesse chamado de sábio (1 Reis 2:9).

Não sabia como sair nem entrar como devia, nem sequer cuidar dos afazeres cotidianos do governo, muito menos o que fazer numa situação crítica. Repare:

Os que ocupam cargos públicos devem sentir profundamente o peso e a importância de seu trabalho e reconhecer a própria incapacidade para cumpri-lo. Assim estarão preparados para receber instrução divina.

A pergunta de Paulo — “Quem é suficiente para estas coisas?” — se parece com a de Salomão: “Quem é capaz de julgar este teu povo tão grande?”, v. 9. Salomão, que era sábio, tremia diante da tarefa e duvidava de sua capacidade.

Quanto mais conhecedores e ponderados são os homens, mais conhecem sua fraqueza e desconfiam de si mesmos.

  1. Salomão pede que Deus lhe dê sabedoria, v. 9: “Dá, pois, ao teu servo um coração entendido.” Chama-se servo de Deus e se alegra nessa relação (Salmos 116:16). Apresenta isso como argumento: era dedicado a Deus e trabalhava para ele, por isso pedia o que era necessário aos serviços que lhe haviam sido confiados.

Seu bom pai orava e argumentava do mesmo modo: “Sou teu servo; dá-me entendimento” (Salmos 119:125).

Um coração entendido é dádiva de Deus (Provérbios 2:6). Devemos pedi-lo (Tiago 1:5), relacionando a oração ao nosso chamado particular e às várias ocasiões em que precisamos dele. Salomão pediu entendimento, não para satisfazer a própria curiosidade nem confundir os vizinhos, mas para julgar o povo de Deus.

O melhor conhecimento é o que nos serve para cumprir nosso dever; é esse conhecimento que nos permite discernir entre o bem e o mal, o certo e o errado, o pecado e o dever, a verdade e a falsidade, para que falsas aparências não nos enganem ao julgarmos as ações alheias ou as nossas.

  1. A resposta favorável que Deus deu ao pedido. “A fala agradou ao Senhor”, v. 10. Deus se agrada de sua própria obra em seu povo, dos desejos que ele mesmo desperta e das orações que seu Espírito inspira.

Com essa escolha, Salomão mostrou que desejava ser bom mais do que ser grande e honrar a Deus mais do que promover a si mesmo. Deus aceita os que preferem bênçãos espirituais às temporais e se preocupam mais em ser encontrados no caminho do dever do que no caminho da promoção. Mas isso não foi tudo: aquela oração prevaleceu e lhe trouxe mais do que pedira. (1.) Deus lhe deu sabedoria, v. 12.

Preparou-o para toda a grande obra a que o chamara e lhe deu tal entendimento da lei pela qual deveria julgar e dos casos que deveria decidir que ninguém o igualava em clareza de pensamento, solidez de julgamento e discernimento. Nenhum príncipe fora tão favorecido com tamanha percepção e previsão.

(2.) Além disso, deu-lhe riqueza e honra, v. 13, e prometeu que ele excederia nisso seus predecessores, sucessores e todos os vizinhos tanto quanto os excedia em sabedoria.

Essas também são dádivas de Deus e, na medida em que isso lhes faça bem, são prometidas aos que buscam primeiro o reino de Deus e a sua justiça (Mateus 6:33).

Que os jovens aprendam a preferir a graça ao ouro em todas as suas escolhas, pois a piedade tem promessa para a vida presente, mas a vida presente não tem promessa de piedade. Como Salomão foi plenamente abençoado por ter sabedoria e riqueza!

Quem tem riqueza e poder sem sabedoria e graça corre o risco de fazer mal com eles. Quem tem sabedoria e graça sem riqueza e poder não pode fazer tanto bem quanto quem tem ambos. A sabedoria é boa, e tanto melhor com uma herança (Eclesiastes 7:11).

Mas, se garantirmos sabedoria e graça, elas trarão prosperidade exterior ou adoçarão a falta dela.

Deus prometeu a Salomão riquezas e honra sem condição, mas vida longa sob condição, v. 14: se Salomão andasse nos caminhos de Deus como Davi andara, Deus prolongaria os dias dele.

Salomão não cumpriu a condição; por isso, embora tivesse riqueza e honra, não viveu tanto quanto poderia ter vivido no curso natural da vida para desfrutá-las.

A longevidade é a bênção que a sabedoria tem na mão direita, um tipo da vida eterna; na mão esquerda estão a riqueza e a honra (Provérbios 3:16).

Vejamos aqui: [1.] O caminho para obter bênçãos espirituais é pedi-las com insistência, lutando com Deus em oração, como Salomão fez ao pedir sabedoria, e pedindo somente isso, como a única coisa necessária.

[2.] O caminho para obter bênçãos temporais é não se apegar a elas e confiar a Deus o que nos diz respeito. Salomão recebeu sabedoria porque a pediu e riqueza porque não a pediu.

  1. A resposta agradecida de Salomão à visita graciosa que Deus lhe fez, v. 15. Ele acordou, podemos supor, tomado de alegria; acordou, e seu sono lhe foi agradável, como diz o profeta (Jeremias 31:26). Satisfeito por ter o favor de Deus, contentou-se com ele e começou a pensar no que ofereceria ao Senhor.

Salomão orara no lugar alto de Gibeão, e ali Deus o encontrara com graça. Mas foi a Jerusalém para agradecer diante da arca da aliança, censurando a si mesmo, por assim dizer, por não ter orado ali, pois a arca era o sinal da presença de Deus. Admirou-se de que Deus o tivesse encontrado em qualquer outro lugar. Que Deus releve nossos erros deve nos levar a corrigi-los.

Ali, (1.) ofereceu a Deus um grande sacrifício. Devemos louvar a Deus por suas dádivas prometidas, mesmo que ainda não tenham se cumprido plenamente. Davi costumava louvar a palavra de Deus, assim como suas obras (Salmos 56:10; 2 Samuel 7:18), e Salomão seguiu seus passos.

(2.) Fez um grande banquete com o sacrifício, para que os que estavam ao seu redor se alegrassem com ele na graça de Deus.

Versículos 16 a 28

A Sabedoria de Salomão. (a.C. 1014.)

Aqui se apresenta um exemplo da sabedoria de Salomão para mostrar que a dádiva que recebera pouco antes produziu efeito real nele. A prova não vem dos segredos de Estado nem das deliberações do conselho, embora sem dúvida se destacasse também nisso, mas do julgamento de uma causa entre duas partes.

Os príncipes não devem considerar indigno de sua atenção esse tipo de caso, mesmo quando o deixam a cargo dos juízes. Observe:

I. O caso é apresentado não por advogados, mas pelas próprias partes, embora fossem mulheres. Assim, para o olhar perspicaz de Salomão, era mais fácil discernir o certo e o errado pelo relato delas. As duas mulheres eram prostitutas e mantinham uma taverna.

Alguns pensam que seus filhos nasceram de relações ilícitas, pois não se fala de maridos. É provável que o caso tenha sido ouvido nos tribunais inferiores antes de chegar a Salomão e considerado excepcional, pois os juízes não conseguiam decidir; assim, a sabedoria de Salomão ao resolvê-lo seria ainda mais notada.

As duas mulheres moravam juntas e cada uma deu à luz um filho num intervalo de até três dias, v. 17, 18. Eram tão pobres que não tinham serva nem ama para acompanhá-las; e, por serem prostitutas, eram tão desprezadas que não tinham amiga ou parente que lhes fizesse companhia.

Uma delas sufocou o próprio filho ao deitar-se sobre ele e, durante a noite, trocou-o pelo filho da outra, v. 19, 20. A outra logo percebeu o engano e recorreu à justiça pública para que seu direito fosse reconhecido, v. 21. Veja:

  1. O quanto as crianças pequenas causam preocupação, como suas vidas são incertas e a quantos perigos estão continuamente expostas. A infância é o vale da sombra da morte; a lâmpada da vida, quando acaba de ser acesa, apaga-se com facilidade.

É uma grande misericórdia que tão poucas crianças morram nos perigos dos primeiros cuidados.

  1. Naqueles tempos, as crianças nascidas fora do casamento eram tratadas muito melhor do que costumam ser hoje. As prostitutas amavam seus filhos, amamentavam-nos e relutavam em separar-se deles; hoje, muitas vezes, eles são enviados para longe, abandonados ou mortos.

Mas foi predito que nos últimos dias viriam tempos difíceis, quando as pessoas ficariam sem afeto natural (2 Timóteo 3:1, 3).

II. A dificuldade do caso. A questão era: quem era a mãe daquela criança viva, levada ao tribunal para ser definitivamente entregue a uma ou à outra? As duas mães insistiam com veemência em sua reivindicação e demonstravam profunda preocupação. Ambas afirmavam categoricamente: “É minha”, dizia uma. “Não, é minha”, dizia a outra.

Nenhuma queria assumir a criança morta, embora fosse mais barato enterrá-la do que sustentar a viva; elas disputavam a criança viva. A criança viva é a alegria dos pais por ser sua esperança; e as crianças mortas não poderiam ser também? Veja Jeremias 31:17. A dificuldade era não haver provas de nenhum dos lados.

Embora seja provável que alguns vizinhos estivessem presentes no nascimento e na circuncisão das crianças, não prestaram atenção suficiente para distingui-las.

Submeter as mulheres à tortura seria bárbaro. O julgamento favoreceria não a que tinha razão, mas a mais resistente. Pouco valor se deve dar a provas extorquidas. Juízes e jurados precisam de sabedoria para descobrir a verdade quando ela está escondida assim.

III. A decisão. Depois de ouvir pacientemente o que os dois lados tinham a dizer, Salomão resumiu as provas, v. 23. O tribunal inteiro aguardava o que sua sabedoria faria para descobrir a verdade. Alguns não sabiam o que dizer; talvez outros decidissem por sorteio.

Salomão pediu uma espada e ordenou que a criança viva fosse dividida entre as duas mulheres.

  1. A decisão pareceu ridícula, um modo brutal de cortar o nó que ele não conseguia desatar. “Será esta a sabedoria de Salomão?”, pensaram os sábios da lei, sem imaginar o que ele pretendia. O coração dos reis, de reis como esse, é insondável (Provérbios 25:3).

Havia uma lei sobre dividir um boi vivo e um morto (Êxodo 21:35), mas ela não se aplicava a esse caso.

  1. A decisão revelou a verdade com eficácia. Alguns pensam que Salomão já a discernira pela expressão e pelo modo de falar das mulheres; mas, com essa prova, satisfez todos os presentes e silenciou a impostora.

Para descobrir a mãe verdadeira, não podia testar qual das mulheres a criança amava mais; precisava testar qual delas amava mais a criança. Ambas alegavam ter afeição materna, mas sua sinceridade seria provada quando a criança estivesse em perigo.

(1.) A mulher que sabia que a criança não era sua, mas que a disputava por uma questão de honra, aceitou de bom grado que fosse dividida.

A que sufocara o próprio filho não se importava com o que acontecesse àquela criança, contanto que a mãe verdadeira não ficasse com ela: “Que não seja nem minha nem tua, mas que a dividam.”

Assim ficou claro que ela sabia que seu direito era falso e temia que Salomão descobrisse isso, embora não suspeitasse que estava se traindo e pensasse que ele falava sério.

Se fosse a mãe verdadeira, não teria aberto mão de seu direito à criança ao concordar tão prontamente com aquela decisão sangrenta. (2.) A mulher que sabia que a criança era sua preferiu entregá-la à adversária a vê-la ser esquartejada. Com que sentimento ela clamou: “Ó meu senhor! Dá-lhe a criança viva!”, v. 26. “Prefiro vê-la como filha dela a não vê-la de modo algum.”

Por essa ternura para com a criança, ficou claro que ela não era a mãe descuidada que sufocara o filho morto, mas a verdadeira mãe da criança viva, incapaz de suportar sua morte, pois se compadecia do filho de seu ventre. Salomão declarou que o caso estava claro e perguntou para que seriam necessárias testemunhas.

Então ordenou: “Dê a ela a criança viva”, pois todos podiam ver, por aquela compaixão sincera, que ela era a mãe.

Que os pais mostrem seu amor aos filhos cuidando deles, sobretudo de suas almas e, com violência santa, arrebatando-os como tições do fogo. Os que cumprem seu dever para com os filhos têm maior probabilidade de encontrar neles consolo.

Satanás alega ter direito ao coração humano, mas fica claro que é apenas um pretendente, pois aceitaria dividi-lo com Deus; o soberano legítimo do coração o terá por inteiro ou não o terá.

IV. Conta-se a grande reputação que Salomão conquistou entre seu povo por esse e outros exemplos de sabedoria, o que influenciou muito a tranquilidade de seu governo: “O povo temia o rei”, v. 28.

Reverenciava-o muito, não ousava opor-se a ele em coisa alguma e tinha medo de praticar injustiça, pois sabia que, se o caso chegasse a ele, Salomão certamente descobriria a verdade. O povo viu que nele estava a sabedoria de Deus, isto é, a sabedoria com que Deus prometera dotá-lo.

Isso fazia seu rosto resplandecer (Eclesiastes 8:1), fortalecia-o (Eclesiastes 7:19) e lhe era melhor que armas de guerra (Eclesiastes 9:18). Por isso era temido e amado.


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