1 Reis 19
Argumento
Deixamos Elias à entrada de Jezreel, ainda aparecendo em público e sob os olhares de todo o povo. Neste capítulo, ele volta a se esconder e é levado à obscuridade, justamente quando Israel menos podia ficar sem ele. Devemos, porém, entender isso como castigo a Israel pela falta de sinceridade e pela inconstância de sua reforma.
Quando as pessoas não querem aprender, é justo que Deus retire seus mestres para lugares afastados. Observe agora:
I. Como a maldade de Jezabel, sua inimiga jurada, o levou ao exílio (vv. 1-3). II. Como, durante o exílio, ele recebeu o favor de Deus, seu amigo da aliança.
- Deus o alimentou (vv. 4-8); 2. Deus conversou com ele e se revelou a ele (v. 9, vv. 11-13), ouviu sua queixa (vv. 10-14), orientou-o sobre o que fazer (vv. 15-17) e o encorajou (v. 18). III. Como, ao voltar do exílio, Elias recebeu novo ânimo com a companhia de Eliseu (vv. 19-21).
Versículos 1 a 8
A fuga de Elias de Jezabel. (a.C. 906.)
Depois de uma manifestação tão pública e evidente da glória de Deus e de uma resolução tão clara da controvérsia entre ele e Baal — para honra de Elias, confusão dos profetas de Baal e satisfação geral do povo —, poderíamos esperar que todos voltassem, como um só homem, à adoração do Deus de Israel e tomassem Elias por guia e conselheiro.
Afinal, tinham visto fogo e água descerem do céu em resposta à oração de Elias, ambos para seu benefício: o fogo mostrara que a oferta fora aceita, e a água refrescara a terra ressequida. Poderíamos esperar que Elias se tornasse primeiro-ministro e que suas orientações fossem lei para o rei e para o reino.
Mas aconteceu o contrário: Elias, a quem Deus honrou, foi desprezado. Ninguém lhe mostrou respeito nem cuidou dele, e não aproveitaram seus serviços. Pelo contrário, a terra de Israel, à qual ele fora e ainda poderia ser uma grande bênção, tornou-se insuportável para ele.
- Acabe enfureceu Jezabel contra Elias. Ao que parece, a rainha consorte era, na prática, regente, assim como seria mais tarde, quando viúva: mulher autoritária, governava o rei e o reino e fazia o que queria.
A consciência de Acabe não lhe permitia perseguir Elias — ainda restava nele algo do sangue e do espírito de israelita, que lhe prendia as mãos —, mas contou a Jezabel tudo o que Elias havia feito (v. 1), não para convencê-la, mas para enfurecê-la.
O texto não diz que contou o que Deus havia feito, mas o que Elias fizera, como se ele tivesse trazido fogo do céu por algum feitiço, e não pela mão do Senhor. Acabe destacou especialmente, para deixá-la furiosa, que Elias matara os profetas. Chamou de “os profetas” os profetas de Baal, como se só eles merecessem esse nome.
Acabe era dedicado a eles e apresentou a matança como um grave crime de Elias, sem mencionar que fora uma justa retribuição a Jezabel por matar os profetas de Deus (1 Reis 18:4). Quem não ousa fazer o mal por vergonha ou medo, mas incita outros a fazê-lo, será responsabilizado como se o tivesse feito pessoalmente.
- Jezabel lhe enviou uma ameaça (v. 2): jurou que o mataria dentro de vinte e quatro horas. Algo a impedia de fazê-lo naquele instante, mas ela decidiu que não demoraria. Observe: os corações carnais se endurecem e se enfurecem contra Deus justamente por aquilo que deveria convencê-los, vencê-los e sujeitá-los a ele.
Ela jurou por seus deuses e, enfurecida como uma desvairada, invocou uma maldição sobre si caso não o matasse, sem ressalvar que isso dependeria da permissão divina. Crueldade e confiança costumam andar juntas nos perseguidores: “Perseguirei, alcançarei” (Êxodo 15:9).
Por que ela o avisou de seu plano e lhe deu oportunidade de escapar? Pensava que Elias era tão destemido que não fugiria, ou que ela era tão temível que poderia impedi-lo? Ou sua própria fúria a deixou confusa por uma providência especial?
Inclino-me a pensar que, embora desejasse mais do que tudo o sangue dele, naquele momento não ousava tocá-lo, com medo do povo, que o considerava profeta, e grande profeta. Enviou a ameaça apenas para assustá-lo e afastá-lo por enquanto, impedindo-o de continuar o que começara.
O juramento e a imprecação não provam que ela realmente pretendesse matá-lo; mostram apenas que queria fazê-lo acreditar nisso. Os deuses pelos quais jurou não podiam lhe causar mal algum.
- Diante disso, Elias, muito assustado, fugiu para salvar a vida; provavelmente viajou à noite e chegou a Berseba (v. 3). Devemos elogiá-lo por isso? Não. Onde estava a coragem com que pouco antes enfrentara Acabe e todos os profetas de Baal? E aquela coragem que o mantivera junto à sua oferta quando o fogo de Deus caiu sobre ela?
O homem que permanecera intrépido diante dos terrores do céu e da terra treme diante das ameaças impotentes de uma mulher orgulhosa e irada. Senhor, que é o ser humano! A grande fé nem sempre conserva a mesma força.
Elias não podia deixar de saber que naquele momento poderia ser muito útil a Israel e tinha todos os motivos para confiar na proteção de Deus enquanto fazia a obra dele; mesmo assim, fugiu. No perigo anterior, Deus lhe ordenara que se escondesse (1 Reis 17:3); por isso, supôs que podia fazê-lo agora.
- De Berseba, prosseguiu pelo deserto, aquele vasto deserto assustador em que os israelitas peregrinaram. Berseba ficava tão longe de Jezreel e dentro do território de um rei tão bom como Josafá que Elias certamente estaria seguro ali.
Ainda assim, como se o medo o perseguisse mesmo fora do alcance do perigo, não conseguiu descansar e avançou um dia pelo deserto. Talvez não tenha se retirado tanto para se proteger, mas para ficar completamente só e ter comunhão mais livre e íntima com Deus.
Deixou seu servo em Berseba para ficar sozinho no deserto, como Abraão deixou os servos ao pé do monte quando subiu para adorar a Deus e como Cristo se afastou dos discípulos no jardim. Ou talvez tenha feito isso para não expor o servo, jovem e delicado, às dificuldades do deserto — seria como pôr vinho novo em odres velhos.
Devemos levar em conta a condição dos que estão sob nossos cuidados, pois Deus leva em conta a nossa.
- Cansado da viagem, Elias ficou irritadiço, como crianças quando estão com sono, e desejou morrer (v. 4). “Pediu por sua vida” — assim diz a margem —, mas pediu que pudesse morrer; pois, para uma pessoa boa, a morte é vida: a morte do corpo é vida para a alma. Mas não foi essa a razão de Elias querer morrer.
Não era o desejo deliberado da graça, como o de Paulo, de partir e estar com Cristo; era o desejo impetuoso de sua natureza pecaminosa, como o de Jó. Quem deseja morrer dessa maneira não está no estado mais apropriado para enfrentar a morte.
Jezabel jurara que o mataria; irritado, Elias pediu a própria morte, fugindo de uma morte para outra. Havia, porém, uma diferença: ele preferia morrer pelas mãos do Senhor, cujas misericórdias são grandes, a cair nas mãos dos homens, cujas misericórdias são cruéis.
Preferia morrer no deserto a morrer como os profetas de Baal, segundo a ameaça de Jezabel (v. 2), para que os adoradores de Baal não triunfassem e blasfemassem contra o Deus de Israel, pensando que eram mais poderosos do que ele por conseguirem derrotar seu defensor. Elias alega: “Basta. Já fiz e sofri o bastante. Estou cansado de viver”.
Quem garantiu a felicidade no outro mundo logo se cansa deste. Também alega: “Não sou melhor que meus pais, nem mais capaz de suportar essas fadigas; por que, então, deveria continuar sobrecarregado por mais tempo que eles?”. Mas será que esse é o meu senhor Elias? Um espírito tão grande e valente pode recuar assim?
Deus o deixou entregue a si mesmo para mostrar que, quando foi corajoso e forte, foi no Senhor e no poder da força dele; por si só, Elias não era melhor que seus pais ou irmãos.
- Deus enviou um anjo para alimentá-lo naquele deserto, para onde Elias se lançara voluntariamente, expondo-se à necessidade e ao perigo. Sem o socorro bondoso de Deus, teria perecido ali. Como Deus trata seus filhos teimosos muito melhor do que merecem! Elias, irritado, desejou morrer.
Deus não precisava dele, mas pretendia empregá-lo e honrá-lo ainda mais; por isso, enviou um anjo para mantê-lo vivo. Às vezes, nossa situação seria péssima se Deus nos concedesse nossos pedidos tolos e impetuosos.
Depois de pedir que pudesse morrer, Elias se deitou e dormiu (v. 5), talvez desejando morrer enquanto dormia e não acordar. Mas foi despertado e encontrou-se não apenas bem provido de pão e água (v. 6), como também acompanhado por um anjo que o protegeu enquanto dormia e o chamou duas vezes para comer, quando a refeição estava pronta (v. 5, 7).
Não precisava reclamar da falta de bondade dos homens, pois o serviço dos anjos compensava isso. Assim cuidado, Elias tinha motivos para pensar que fora tratado melhor que os profetas dos postes-ídolos, que comiam à mesa de Jezabel. Onde quer que estejam os filhos de Deus, estão no terreno de seu Pai e sob o olhar e o cuidado dele.
Eles podem se perder no deserto, mas Deus não os perdeu; ali podem olhar para aquele que vive e os vê, como Hagar (Gênesis 16:13).
- Fortalecido por aquele alimento, Elias foi levado a Horebe, o monte de Deus (v. 8). O Espírito do Senhor o conduziu para lá, talvez além do que ele próprio pretendia, a fim de que tivesse comunhão com Deus no mesmo lugar em que Moisés tivera, renovando por meio dele a lei dada por Moisés.
O anjo lhe ordenou que comesse pela segunda vez por causa da longa viagem que tinha diante de si (v. 7). Deus sabe para que nos prepara, mesmo quando nós não sabemos: que serviço e que provações enfrentaremos. Ele cuidará de nós quando, por falta de previsão, não pudermos cuidar de nós mesmos, para que tenhamos graça suficiente. Aquele que determina a viagem abastece o navio para ela.
Veja quantos meios diferentes Deus usou para manter Elias vivo: alimentou-o por meio dos corvos, com refeições multiplicadas, depois por meio de um anjo e, agora, para mostrar que o ser humano não vive só de pão, sustentou-o por quarenta dias sem comida.
Elias não ficou parado nem dormindo, o que poderia diminuir sua necessidade de alimento; atravessou continuamente os caminhos tortuosos do deserto, um dia para cada ano da peregrinação de Israel. Mesmo assim, não precisava de comida nem a desejava.
Sem dúvida, o lugar o fazia lembrar do maná e o animava a esperar que Deus o sustentaria ali e, no tempo certo, o levaria de volta, como fez com Israel, embora ele, como o povo, estivesse irritado e desconfiado.
Versículos 9 a 18
A Comunhão de Elias com Deus. (a.C. 906.)
I. Elias se abrigou numa caverna do monte Horebe, chamado monte de Deus porque ali Deus manifestara sua glória anteriormente. Talvez fosse a mesma caverna, ou fenda da rocha, em que Moisés se escondera quando o Senhor passou diante dele e proclamou seu nome (Êxodo 33:22).
Não consigo imaginar o que Elias pretendia ao ir para lá hospedar-se, a não ser que quisesse alimentar sua melancolia, satisfazer a curiosidade e fortalecer a fé e a devoção contemplando aquele lugar famoso onde a lei foi dada e tantas coisas grandiosas aconteceram, na esperança de encontrar ali o próprio Deus, como Moisés o encontrou.
Talvez também quisesse demonstrar que abandonava o povo de Israel, que não aceitava ser reformado.
Nesse caso, sua atitude concordaria com o desejo de Jeremias: “Quem dera eu tivesse no deserto um alojamento de viajantes, para deixar o meu povo e me afastar dele, pois todos são adúlteros” (Jeremias 9:2); seria, assim, um mau presságio de que Deus os abandonaria. Ou talvez Elias pensasse que não estaria seguro em nenhum outro lugar.
É a essa situação difícil a que o apóstolo se refere: “Andaram errantes pelos desertos e pelos montes, pelas covas e cavernas da terra” (Hebreus 11:38).
II. A visita que Deus lhe fez ali e a pergunta que lhe dirigiu: a palavra do Senhor veio a Elias. Não há lugar aonde possamos ir para escapar do olhar, do braço e da palavra de Deus. “Para onde me ausentarei do teu Espírito?” (Salmos 139:7, etc.).
Deus cuida dos seus exilados; os que, por causa dele, são expulsos do convívio humano serão encontrados, reconhecidos e reunidos por ele com amor eterno. João teve as visões do Todo-Poderoso quando estava exilado na ilha de Patmos (Apocalipse 1:9).
A pergunta que Deus faz ao profeta é: “O que você está fazendo aqui, Elias?” (v. 9, 13). É uma repreensão:
- Por ter fugido para lá: “O que o trouxe tão longe de casa? Está fugindo de Jezabel? Não podia depender do poder do Deus Todo-Poderoso para protegê-lo?”. Dê ênfase ao pronome “você”: “O quê? Você, um homem tão importante, um profeta tão grande e conhecido pela coragem, foge do seu país e abandona assim a sua bandeira?”.
A covardia seria mais desculpável em outra pessoa e não seria exemplo tão ruim. “Homem como eu fugiria?” (Neemias 6:11). “Chorem, ciprestes, se os cedros foram abalados assim!”
- Por ter ficado ali: “O que você está fazendo nesta caverna? Este é um lugar para um profeta do Senhor morar? É hora de homens assim se retirarem, quando o povo tanto precisa deles?”. No retiro para o qual Deus enviou Elias (cap. 17), ele foi uma bênção para a pobre viúva de Sarepta; aqui, porém, não tinha oportunidade de fazer o bem.
Devemos perguntar com frequência se estamos no lugar certo e no caminho do dever: “Estou onde devo estar, onde Deus me chama, onde está minha tarefa e onde posso ser útil?”.
III. Elias explica a si mesmo ao responder à pergunta de Deus (v. 10), repetindo a resposta quando a pergunta lhe é feita de novo (v. 14).
- Ele justifica seu retiro e pede que não o atribuam à falta de zelo pela reforma, mas ao desespero de obter resultados. Deus sabia, e a consciência de Elias podia testemunhar, que, enquanto havia esperança de fazer o bem, ele fora muito zeloso pelo Senhor, Deus dos Exércitos.
Mas agora que trabalhara em vão e seus esforços não tinham produzido resultado, pensava ser hora de desistir da causa e lamentar aquilo que não podia corrigir. Abi in cellam, et dic, Miserere mei — “Vá para sua cela e diga: ‘Tem misericórdia de mim’”.
- Ele se queixa do povo, de sua obstinação no pecado e do grau extremo de impiedade a que chegara: “Os israelitas abandonaram a tua aliança, e por isso eu os abandonei. Quem conseguiria ficar no meio deles, vendo tudo o que é sagrado arruinado e desprezado?”. O apóstolo chama isso de intercessão de Elias contra Israel (Romanos 11:2-3).
Muitas vezes ele fora, por escolha própria, defensor do povo; agora se via obrigado a acusá-lo diante de Deus. Assim também em João 5:45: “Há um que vos acusa: Moisés, em quem tendes firmado a vossa esperança”. São verdadeiramente miseráveis os que têm contra si o testemunho e as orações dos profetas de Deus.
(1.) Elias os acusa de terem abandonado a aliança de Deus. Embora mantivessem a circuncisão, sinal e selo da aliança, haviam abandonado a adoração e o serviço de Deus, que eram o propósito dela. Quem negligencia as ordenanças de Deus e deixa de ter comunhão com ele de fato abandona sua aliança e rompe o pacto com ele.
(2.) Acusa-os de terem derrubado os altares de Deus. Não apenas os haviam abandonado e deixado cair em ruínas, mas os demoliram deliberadamente por zelo pela adoração de Baal. Elias se refere aos altares particulares que os profetas do Senhor tinham e que pessoas fiéis frequentavam, sem poder ir a Jerusalém e sem querer adorar os bezerros ou Baal.
Esses altares separados contrariavam a unidade da igreja; mesmo assim, Deus desculpou essa aparente divisão, pois tinham sido levantados e frequentados por pessoas sinceramente comprometidas com sua glória e que o serviam fielmente. Deus os reconhecia como seus altares, assim como o de Jerusalém, e acusa Israel de um pecado clamoroso por tê-los destruído.
(3.) Acusa-os de terem matado à espada os profetas de Deus, que provavelmente ministravam nesses altares. Jezabel, estrangeira, os matou (1 Reis 18:4), mas o crime é atribuído ao povo em geral, porque a maioria consentiu na morte deles e se agradou dela.
- Elias explica por que se retirou para aquele deserto e passou a morar naquela caverna.
(1.) Não podia aparecer com proveito: “Só eu fiquei; não tenho ninguém que me apoie ou me ajude em nenhum bom propósito. Todos disseram: ‘O Senhor é Deus’, mas ninguém ficou ao meu lado nem me ofereceu abrigo. A questão que parecia resolvida logo voltou ao estado anterior. Jezabel consegue corrompê-los mais do que eu consigo reformá-los.
O que uma pessoa pode fazer contra milhares?”. O desespero de alcançar resultados impede muitos bons empreendimentos. Ninguém quer arriscar-se sozinho, esquecendo-se de que não está só quem tem Deus consigo.
(2.) Não podia aparecer em segurança: “Procuram tirar-me a vida; é melhor passar a vida numa solidão inútil do que perdê-la numa tentativa infrutífera de reformar pessoas que não querem ser reformadas”.
IV. Deus se revelou a Elias. Ele viera encontrar-se com Deus? Veria que Deus não deixaria de se encontrar com ele. Moisés foi colocado na caverna quando a glória de Deus passou diante dele; Elias, porém, foi chamado para fora: “Saia e fique no monte, na presença do Senhor” (v. 11). Não viu forma alguma, assim como Israel não viu quando Deus lhe falou em Horebe. Mas:
Ouviu um vento forte e viu seus efeitos terríveis: o vento fendia os montes e despedaçava as rochas. Era como se os anjos, a quem Deus faz ventos ou espíritos (Salmos 104:4), tocassem a trombeta diante do Juiz do céu e da terra com tamanha força que a terra não apenas estremecia, mas se fendia.
Sentiu o abalo de um terremoto.
Viu uma erupção de fogo (v. 12). Esses acontecimentos preparavam a manifestação planejada da glória divina. Os anjos participavam deles: Deus os faz chama de fogo, e eles, como seus ministros, marcham diante dele para preparar um caminho para nosso Deus naquele deserto.
Por fim, percebeu uma voz mansa e delicada; nela estava o Senhor, isto é, por meio dela falou com Elias, não por meio do vento, do terremoto ou do fogo. Esses fenômenos o encheram de temor, despertaram sua atenção e inspiraram humildade e reverência; mas Deus escolheu revelar-lhe sua vontade num sussurro suave, não por aqueles sons terríveis.
Quando Elias percebeu isso, (1.) cobriu o rosto com o manto, como quem temia olhar a glória de Deus, receando que ela lhe ofuscasse os olhos e o dominasse. Os anjos cobrem o rosto diante de Deus em sinal de reverência (Isaías 6:2).
Elias cobriu o rosto como sinal de vergonha por ter sido covarde e fugido do dever, embora tivesse ao seu lado um Deus tão poderoso. O vento, o terremoto e o fogo não o fizeram cobrir o rosto; a voz suave, sim. As almas piedosas são mais tocadas pelas ternas misericórdias do Senhor do que por seus terrores.
(2.) Pôs-se à entrada da caverna, pronto para ouvir o que Deus tinha a lhe dizer. A maneira como Deus se revelou no monte Horebe parece remeter às revelações que fizera anteriormente a Moisés naquele lugar.
[1.] Naquela ocasião houve tempestade, terremoto e fogo (Hebreus 12:18); mas, quando Deus quis mostrar sua glória a Moisés, proclamou sua bondade. Assim também agora: o Senhor, a Palavra, estava na voz mansa e delicada.
[2.] Naquela ocasião, a lei foi dada a Israel primeiro com aparições aterradoras e depois com uma voz. Elias estava agora sendo chamado para reavivar aquela lei, especialmente seus dois primeiros mandamentos, e aqui aprendeu como fazê-lo.
Não deveria apenas despertar e aterrorizar o povo com sinais impressionantes, como o terremoto e o fogo; precisava também se esforçar, com uma voz mansa e delicada, para convencê-los e persuadi-los, sem abandoná-los quando se dirigisse a eles. A fé vem pelo ouvir a palavra de Deus; os milagres apenas preparam o caminho.
[3.] Naquela época, Deus falou ao povo com terror; mas, no evangelho de Cristo, que seria introduzido pelo espírito e pelo poder de Elias, falaria por meio de uma voz mansa e delicada, cujo temor não deveria nos assustar. Veja Hebreus 12:18, etc.
V. Deus lhe deu ordens para cumprir. Repetiu a pergunta feita antes: “O que você está fazendo aqui? Este não é mais o seu lugar”. Elias deu a mesma resposta (v. 14), queixando-se da apostasia de Israel e da ruína da religião entre o povo. Deus lhe respondeu.
Quando Elias desejou morrer (v. 4), Deus não lhe atendeu conforme sua insensatez; longe de deixá-lo morrer, preservou sua vida e providenciou para que nunca morresse, mas fosse trasladado. Quando Elias se queixou de seu desânimo — e a quem os profetas de Deus deveriam levar queixas desse tipo senão ao seu Senhor? —, Deus lhe respondeu.
Enviou-o de volta com instruções para designar Hazael rei da Síria (v. 15), Jeú rei de Israel e Eliseu seu sucessor na eminência do ofício profético (v. 16). Isso predizia que Deus os usaria para castigar os israelitas degenerados, defender sua causa no meio deles e vingar a quebra de sua aliança (v. 17).
Elias reclamara que a maldade de Israel não era punida. O juízo da fome fora brando e não os corrigira; a fome foi removida antes que se reformassem. “Fui zeloso pelo nome de Deus”, dizia Elias, “mas ele próprio não se mostrou zeloso por seu nome”. “Tenha paciência”, respondeu Deus; “tudo virá no tempo certo.
Os juízos estão preparados para os zombadores, embora ainda não tenham sido executados. As pessoas que realizarão essa obra já estão vivas e agora serão designadas.”
“Quando Hazael se tornar rei da Síria, fará grande matança entre o povo (2 Reis 8:12) e assim o castigará por sua idolatria.”
“Quando Jeú se tornar rei de Israel, fará grande matança na família real e destruirá completamente a casa de Acabe, que estabeleceu e sustentou a idolatria.”
“Enquanto você estiver na terra, Eliseu lhe dará apoio; quando você partir, continuará sua obra e permanecerá como testemunha contra a apostasia de Israel. Até ele matará os filhos de Betel, aquela cidade idólatra.”
Observe: os ímpios estão reservados para o juízo. O mal persegue os pecadores, e não há como escapar dele; tentar fugir é apenas correr de uma espada para outra. Veja Jeremias 48:44: “Aquele que fugir do medo cairá numa cova; e o que sair da cova será apanhado numa armadilha”.
Com a espada do Espírito, Eliseu aterrorizará e ferirá a consciência dos que escaparem da espada de guerra de Hazael e da espada da justiça de Jeú. “Com o sopro de sua boca matará o ímpio” (Isaías 11:4; 2 Tessalonicenses 2:8; Oseias 6:5).
É grande consolo para as pessoas boas e os bons ministros saber que Deus nunca ficará sem instrumentos para realizar sua obra no tempo certo; quando uns partirem, outros serão levantados para continuá-la.
VI. Deus lhe deu a consoladora informação de que muitos israelitas mantinham sua integridade, embora Elias pensasse que ficara sozinho (v. 18): “Reservei para mim sete mil em Israel — além de Judá —, todos os que não se ajoelharam diante de Baal”. Observe:
Nos tempos de maior decadência e apostasia, Deus sempre teve e terá um remanescente fiel: alguns que preservam sua integridade e não seguem a correnteza. O apóstolo menciona essa resposta de Deus a Elias (Romanos 11:4) e a aplica à própria época, quando os judeus em geral rejeitavam o evangelho. “Assim, pois, também agora”, diz ele, “há um remanescente” (v. 5).
É obra de Deus preservar esse remanescente e distingui-lo dos demais, pois, sem sua graça, seus integrantes não teriam conseguido se distinguir. Deus diz: “Reservei para mim”; por isso se fala de um remanescente segundo a eleição da graça.
É um remanescente pequeno em comparação com a raça degenerada. O que são sete mil diante dos milhares de Israel? Mesmo assim, quando se reunirem os fiéis de todas as épocas, serão muito mais numerosos: há doze mil selados de cada tribo (Apocalipse 7:4).
Os fiéis de Deus muitas vezes são pessoas escondidas (Salmos 83:3). A igreja visível quase não se deixa ver; o trigo se perde na palha e o ouro na escória até chegar o dia da peneira, do refinamento e da separação.
O Senhor conhece os que lhe pertencem, embora nós não os conheçamos; ele vê em secreto.
Há no mundo mais pessoas boas do que alguns homens sábios e piedosos pensam. O zelo que sentem por Deus e a vigilância sobre si mesmos os levam a pensar que a corrupção é universal; Deus, porém, não vê como eles.
Quando chegarmos ao céu, sentiremos falta de muitos que pensávamos encontrar ali, mas também encontraremos muitos que mal imaginávamos que estariam lá. O amor de Deus muitas vezes se mostra maior e mais amplo que a caridade humana.
Versículos 19 a 21
O chamado de Eliseu. (a.C. 901.)
Eliseu foi mencionado por último nas ordens que Deus deu a Elias, mas foi chamado primeiro, pois seria por meio dele que os outros dois seriam chamados. Eliseu deveria ocupar o lugar de Elias; mesmo assim, Elias se apressou em prepará-lo e não teve ciúmes de seu sucessor. Pelo contrário, alegrou-se ao pensar que deixaria a obra de Deus em boas mãos. Observe o chamado de Eliseu:
- Foi um chamado inesperado e surpreendente. Elias o encontrou por orientação divina ou talvez já o conhecesse e soubesse onde procurá-lo. Não o encontrou nas escolas dos profetas, mas no campo; não estava lendo, orando ou oferecendo sacrifícios, mas arando (v. 19).
Embora fosse um homem importante — como mostra a refeição que ofereceu (v. 21) —, dono do campo, dos bois e dos servos, não considerava indigno ocupar-se de seu trabalho, não apenas supervisionando os servos, mas pondo ele mesmo a mão no arado. A ociosidade não honra ninguém, e o trabalho agrícola não desonra ninguém.
Ter uma profissão honesta neste mundo não nos afasta do chamado celestial, como não afastou Eliseu: ele foi tirado de junto do arado para alimentar Israel e semear a palavra, assim como os apóstolos foram tirados da pesca para pescar pessoas. Eliseu não procurou Elias; o chamado o surpreendeu. Amamos e escolhemos a Deus porque ele nos escolheu e nos amou primeiro.
- Foi um chamado poderoso. Elias apenas lançou seu manto sobre Eliseu (v. 19), como sinal de amizade, mostrando que o tomaria sob seu cuidado e instrução, como que sob o próprio manto, e que os dois seriam um, vestidos com as mesmas roupas.
Também era sinal de que Eliseu seria revestido do espírito de Elias, que já lhe concedia parte de sua honra, como Moisés fez com Josué (Números 27:20). Quando Elias subiu ao céu, porém, Eliseu recebeu o manto por inteiro (2 Reis 2:13).
Eliseu deixou imediatamente os bois seguirem sozinhos, correu atrás de Elias e garantiu que logo o seguiria (v. 20). Uma mão invisível tocou seu coração e, por um poder secreto e inexplicável, levou-o a abandonar a lavoura e dedicar-se ao ministério, sem qualquer persuasão externa.
É no dia do poder de Deus que os súditos de Cristo se oferecem voluntariamente (Salmos 110:3); ninguém iria a Cristo se não fosse atraído desse modo. Eliseu decidiu-se prontamente, mas pediu algum tempo, não para pedir licença, mas apenas para se despedir dos pais.
Não estava dando uma desculpa para adiar, como o homem de Lucas 9:61, que pediu para se despedir dos que estavam em casa; queria apenas cumprir o respeito e o dever que devia ao pai e à mãe.
Elias lhe disse que voltasse e fizesse isso; não o impediria. Eliseu podia até voltar e não retornar, pois Elias nada fizera para obrigá-lo. Não o forçaria nem o levaria contra a vontade. Deixou-o sentar-se e calcular o custo, para que a decisão fosse dele.
A eficácia da graça de Deus preserva a liberdade natural da vontade humana: os que são bons o são por escolha, não por coerção; não são recrutados à força, mas voluntários.
- Foi um chamado agradável e bem recebido por Eliseu, como se vê na refeição de despedida que ofereceu à família (v. 21), embora abandonasse todos os confortos da casa paterna e se expusesse à maldade de Jezabel e de seus partidários. Era uma época desanimadora para quem começava a ser profeta.
Quem consultasse a carne e o sangue não desejaria o manto de Elias nem estaria disposto a vesti-lo; Eliseu, porém, deixou tudo alegremente e com grande satisfação para acompanhá-lo. Assim também Mateus ofereceu um grande banquete quando deixou a coletoria para seguir Cristo.
- Foi um chamado eficaz. Elias não esperou por Eliseu, para não parecer que o obrigava; deixou-o escolher. Eliseu logo se levantou, foi atrás dele e não apenas passou a acompanhá-lo, mas também o serviu como ajudante, derramando água em suas mãos (2 Reis 3:11).
É muito vantajoso para os jovens ministros passar algum tempo sob a orientação de pessoas mais velhas e experientes, cujos anos lhes ensinaram sabedoria, e não considerar humilhante servi-las quando houver ocasião.
Quem deseja estar apto para ensinar precisa de tempo para aprender; quem espera um dia se levantar e governar deve estar disposto, no começo, a se abaixar e servir.