Matthew Henry

1 Reis 15

Argumento

Neste capítulo temos um resumo da história: I. De dois reis de Judá, Abião, cujo reinado foi breve e mau (vv. 1-8), e Asa, que reinou bem e por muito tempo, vv. 9-24. II. De dois reis de Israel, Nadabe, filho de Jeroboão, e Baasa, que destruiu a casa de Jeroboão, vv. 25-34.

Versículos 1 a 8

O Reinado de Abião. (a.C. 958.)

Temos aqui um breve relato do breve reinado de Abião, filho de Roboão, rei de Judá. Ele aparece de modo mais favorável em 2 Crônicas 13, onde há o relato de sua guerra contra Jeroboão, do discurso que fez diante dos exércitos reunidos para a batalha e da maravilhosa vitória que obteve com a ajuda de Deus.

Ali ele é chamado Abias — “Meu pai é o Senhor” —, porque nenhuma maldade lhe é imputada naquele relato. Aqui, porém, onde somos informados de suas faltas, a partícula divina Jah é retirada de seu nome, em desonra para ele, e ele é chamado Abião. Veja Jeremias 22:24.

I. Poucos detalhes são relatados a respeito dele:

  1. Seu reinado começou no início do décimo oitavo ano de Jeroboão, pois Roboão reinou apenas dezessete anos, 1 Reis 14:21. Jeroboão de fato sobreviveu a Roboão, mas Abião, filho de Roboão, viveu para sucedê-lo e ser um terror para Jeroboão, enquanto Abias, filho de Jeroboão, de quem lemos em 1 Reis 14:1, morreu antes dele.

  2. Ele reinou por menos de três anos, pois morreu antes do fim do vigésimo ano de Jeroboão, v. 9. Orgulhoso e confiante por causa de sua grande vitória sobre Jeroboão (2 Crônicas 13:21), ele foi eliminado por Deus, abrindo caminho para seu filho Asa, que seria um homem melhor.

  3. Sua mãe se chamava Maaca, filha de Abisalom, isto é, Absalão, filho de Davi. Inclino-me ainda mais a pensar assim porque duas outras mulheres de Roboão eram parentes próximas dele (2 Crônicas 11:18): uma era filha de Jerimote, filho de Davi, e outra, filha de Eliabe, irmão de Davi.

Roboão aprendeu com o exemplo de seu pai Salomão e não se casou com estrangeiras; ainda assim, achava indigno casar-se com súditas, a menos que fossem da família real.

  1. Ele deu continuidade às guerras de seu pai contra Jeroboão. Assim como houve guerra contínua entre Roboão e Jeroboão — não batalhas campais, que eram proibidas, 1 Reis 12:24, mas confrontos frequentes, sobretudo nas fronteiras, com incursões e represálias de um lado contra o outro —, também houve guerra entre Abião e Jeroboão, v. 7.

Isso continuou até que Jeroboão o invadiu com um grande exército; então Abião, sem estar proibido de se defender, derrotou-o e o enfraqueceu, de modo que o obrigou a ficar quieto pelo restante de seu reinado, 2 Crônicas 13:20.

II. Em termos gerais, porém, somos informados:

  1. Que ele não era como Davi e não tinha afeição sincera pelas ordenanças de Deus, embora, para fazer valer sua causa contra Jeroboão, alegasse ter o templo e o sacerdócio, dos quais se orgulhava, 2 Crônicas 13:10-12. Muitos se vangloriam de professar piedade, embora desconheçam seu poder, e defendem a verdade de sua religião, mas não lhe são fiéis.

Seu coração não era perfeito para com o Senhor, seu Deus. Ele parecia ter zelo, mas lhe faltava sinceridade. Começou razoavelmente bem, mas se desviou e andou em todos os pecados de seu pai, seguindo seu mau exemplo, embora tivesse visto as más consequências dele.

Quem passou todos os seus dias em guerra deveria ter sido sábio o bastante para fazer e manter a paz com Deus, em vez de torná-lo seu inimigo — sobretudo depois de tê-lo encontrado tão bom amigo em sua guerra contra Jeroboão, 2 Crônicas 13:18. “Ainda que se mostre favor ao perverso, nem por isso aprende a justiça” (Isaías 26:10).

  1. Ainda assim, foi por causa de Davi que Abião foi elevado e permaneceu no trono. Foi por causa de Davi (v. 4, 5) que Deus estabeleceu no trono um filho de sua linhagem, não por causa do próprio Abião, nem de seu pai, cujos passos ele seguiu, mas por causa de Davi, cujo exemplo não quis seguir.

Repare: agrava o pecado de uma descendência degenerada o fato de ela se beneficiar da piedade dos antepassados, dever-lhe as bênçãos e, ainda assim, não imitar seu exemplo. Ela se mantém naquele fundamento, mas o despreza, pisa nele e, sem razão, ridiculariza e combate aquilo de que desfruta.

O reino de Judá foi sustentado:

(1.) Para que Davi tivesse uma lâmpada, conforme a determinação divina de manter acesa uma lâmpada para o seu ungido (Salmos 132:17).

(2.) Para que Jerusalém fosse estabelecida, não só para que se preservassem as honras que lhe foram conferidas nos dias de Davi e Salomão, mas também para que fosse reservada às honras que lhe estavam destinadas em tempos futuros.

O caráter atribuído aqui a Davi é grandioso: ele fez o que era reto aos olhos do Senhor. Mas a exceção é muito significativa: “exceto no caso de Urias, o heteu”, incluindo tanto o assassinato dele quanto o adultério com sua mulher. Foi um ato perverso, uma mancha que permaneceu em seu nome, uma mácula em seu brasão, cuja vergonha não foi apagada, embora sua culpa tenha sido.

Davi foi culpado de outras faltas, mas nenhuma se comparava a essa. Ainda assim, como se arrependeu dela, embora seja mencionada para advertir os outros, ela não o excluiu da aliança nem interrompeu a promessa feita à sua descendência.

Versículos 9 a 24

O Reinado de Asa. (a.C. 914.)

Temos aqui um breve relato do reinado de Asa; encontraremos um relato bem mais amplo em 2 Crônicas 14, 15 e 16. Eis:

I. A duração de seu reinado: ele reinou quarenta e um anos em Jerusalém, v. 10. No relato dos reis de Judá, vemos que o número de reis bons e maus foi quase igual. Para nosso consolo, porém, podemos observar que o reinado dos bons geralmente foi longo, enquanto o dos maus foi curto.

Isso torna o estado da igreja de Deus naquele período não tão ruim quanto parece à primeira vista. A longevidade está na mão direita da Sabedoria. Honre seu pai, e muito mais seu Pai celestial, para que seus dias se prolonguem.

II. Seu bom caráter em termos gerais (v. 11): “Asa fez o que era reto aos olhos do Senhor”, e reto de fato é aquilo que assim é aos olhos de Deus; são aprovados os que ele elogia. Asa agiu como Davi, seu pai: manteve-se fiel a Deus e à adoração que ele instituiu e foi sincero e zeloso nisso.

Daí recebeu a honrosa distinção de ser comparado a Davi, embora não fosse profeta nem salmista como ele. Se alcançarmos as virtudes dos que nos precederam, isso será nosso louvor diante de Deus, ainda que não tenhamos os dons deles.

Asa era como Davi, embora não fosse nem tão grande conquistador nem tão grande autor; seu coração foi perfeito para com o Senhor durante todos os seus dias (v. 14), isto é, ele foi sincero e constante em sua religião. O que fez para Deus, fez com sinceridade, firmeza e constância, guiado por um bom princípio e com os olhos voltados exclusivamente para a glória de Deus.

III. Exemplos específicos da piedade de Asa. Seus dias foram dias de reforma. Pois:

  1. Ele removeu o que era mau. É por aí que começa a reforma, e havia muito trabalho desse tipo para fazer. Embora Asa tenha começado a reinar apenas vinte anos depois da morte de Salomão, a corrupção grosseira já havia se espalhado amplamente e criado raízes profundas. Primeiro, atacou a imoralidade: expulsou da terra os prostitutos cultuais e suprimiu os bordéis.

Como o príncipe ou o povo poderiam prosperar enquanto permitissem que permanecessem aquelas jaulas de aves impuras e imundas, mais perigosas que casas de peste? Depois, combateu a idolatria: removeu todos os ídolos, até os que seu pai havia feito, v. 12.

Por seu pai tê-los feito, Asa tinha ainda mais motivo para removê-los, a fim de romper a continuidade da maldição e evitar que essa iniquidade fosse visitada sobre ele e os seus.

E, o que muito honra Asa e mostra que seu coração foi perfeito para com Deus, quando encontrou idolatria na corte, ele a extirpou dali, v. 13. Descobriu que Maaca, sua mãe — ou melhor, sua avó, chamada mãe porque o criara na infância — tinha um ídolo num bosque sagrado.

Embora fosse sua mãe, sua avó; embora, ao que parece, tivesse especial afeição por ele; embora estivesse velha e não pudesse viver muito para protegê-lo; embora o mantivesse apenas para uso pessoal, Asa não tolerou de modo algum a idolatria dela. A reforma precisa começar em casa. Más práticas nunca serão suprimidas no país enquanto forem sustentadas na corte.

Em tudo mais, Asa honrava e respeitava sua mãe; amava-a muito, mas amava mais a Deus e, como o levita (Deuteronômio 33:9), prontamente deixava de lado o parentesco quando este entrava em conflito com seu dever. Se ela fosse idólatra:

(1.) O ídolo dela seria destruído: exposto publicamente ao desprezo, despedaçado e queimado até virar cinzas junto ao ribeiro de Cedrom. É provável que Asa tenha espalhado ali as cinzas, à imitação de Moisés (Êxodo 32:20), como demonstração de sua repulsa à idolatria e indignação contra ela onde quer que a encontrasse. Nenhum vestígio de um ídolo da corte deveria permanecer.

(2.) Ela seria destituída. Asa a removeu da posição de rainha, ou da companhia da rainha, isto é, de conviver com sua mulher; expulsou-a da corte e a confinou a uma vida obscura e privada. Felizes os que têm poder quando também têm disposição para usá-lo bem.

  1. Ele restabeleceu o que era bom (v. 15): levou para a casa de Deus as coisas consagradas que ele próprio havia prometido, tiradas dos despojos dos etíopes que conquistara, e também as que seu pai havia prometido, mas não vivera para levar para lá, cumprindo seu voto. Não basta deixar de fazer o mal; é preciso aprender a fazer o bem.

Não basta abandonar os ídolos da nossa iniquidade; devemos consagrar a nós mesmos e tudo o que temos à honra e à glória de Deus.

Quando os que foram dedicados a Deus na infância pelo batismo fazem do compromisso seu próprio ato e se unem a ele, empenhando-se vigorosamente em seu serviço, trazem as coisas consagradas por eles e seus pais: é justiça devida, dar a Deus o que é dele.

IV. A política de seu reinado. Asa construiu cidades para incentivar o crescimento de seu povo (v. 23) e atrair outros com as comodidades de moradia. Também se empenhou em impedir que Baasa construísse Ramá, pois ele planejava cortar a comunicação entre o povo de Asa e Jerusalém e impedir os que, em obediência a Deus, fossem adorar ali.

De modo algum se deve permitir que um inimigo fortifique uma cidade fronteiriça.

V. As falhas de seu reinado. Nos dois aspectos pelos quais foi elogiado, ele mostrou alguma deficiência. Os caracteres mais admiráveis também têm uma ou outra ressalva:

  1. Ele removeu os ídolos? Isso foi bom; mas os lugares altos não foram removidos (v. 14), e nisso sua reforma ficou aquém do necessário. Ele removeu todas as imagens que rivalizavam com o Deus verdadeiro ou o representavam falsamente, mas deixou de pé os altares erguidos nos lugares altos, onde eram oferecidos sacrifícios que deveriam ter sido levados ao altar do templo.

Asa considerava que não havia grande mal neles, pois homens bons os haviam usado antes da construção do templo, e não queria contrariar o povo, que tinha afeição por esses lugares e se acostumara a eles por costume e conveniência.

Contudo, em Judá e Benjamim — as únicas tribos sob o governo de Asa, ambas próximas de Jerusalém e dos altares de lá — havia menos justificativa para esses lugares que nas tribos mais distantes.

Eles eram contrários à lei, que os obrigava a adorar num só lugar (Deuteronômio 12:11), diminuíam o apreço do povo pelo templo e seus altares e deixavam uma brecha aberta para a idolatria, pois o povo era muito inclinado a ela. Não foi bom que Asa, tendo começado a agir, não removesse também esses lugares. Apesar disso, seu coração foi perfeito para com o Senhor.

Temos aqui uma observação consoladora: podem ser encontradas pessoas sinceras e retas diante de Deus, aceitas por ele, que, em alguns casos, deixam de fazer o bem que poderiam e deveriam fazer. A perfeição exigida como condição indispensável da nova aliança não significa ausência de pecado — nesse caso, estaríamos todos perdidos —, mas sinceridade.

  1. Ele levou as coisas consagradas para o templo? Isso foi bom; porém, mais tarde, desviou o uso delas: tirou o ouro e a prata da casa de Deus e os enviou como suborno a Ben-Hadade, para contratá-lo a romper seu pacto com Baasa e, invadindo o território dele, afastá-lo da construção de Ramá, v. 18, 19. Nisso pecou:

(1.) Ao tentar Ben-Hadade a romper seu pacto e, assim, violar a fé pública. Se Ben-Hadade agiu mal ao fazê-lo, como certamente agiu, Asa também errou ao persuadi-lo.

(2.) Porque não confiou em Deus, que já fizera tanto por ele, para livrá-lo daquela dificuldade; recorreu a meios tão desonestos para se ajudar.

(3.) Porque tirou o ouro do tesouro do templo, que só deveria ser usado em ocasiões extraordinárias. O plano deu certo. Ben-Hadade invadiu o território de Israel, obrigando Baasa a retirar todas as suas forças de Ramá (v. 20, 21). Isso deu a Asa uma boa oportunidade de demolir as obras de Baasa; a madeira e as pedras serviram para construir algumas cidades suas, v. 22.

Mas, embora o plano tenha prosperado, sabemos que desagradou a Deus. Asa se orgulhava da esperteza do plano e esperava que ele garantisse sua paz, mas o profeta lhe disse que agira com insensatez e que dali em diante teria guerras. Veja 2 Crônicas 16:7-9.

VI. Os problemas de seu reinado. Em geral, ele prosperou, mas:

  1. Baasa, rei de Israel, foi um vizinho muito incômodo. Baasa reinou vinte e quatro anos e, durante todos eles, houve mais ou menos guerra com Asa, v. 16. Essa foi uma consequência da divisão dos reinos: eles se afligiam continuamente e, assim, enfraqueciam um ao outro, ficando ambos mais vulneráveis ao inimigo comum.

  2. Na velhice, Asa foi acometido de gota: tinha uma doença nos pés, que o tornou menos apto para os afazeres e irritadiço com os que estavam ao seu redor.

VII. A conclusão de seu reinado. Seus atos foram registrados mais amplamente na história comum, à qual se faz referência aqui, v. 23, do que neste relato sagrado. Asa reinou por muito tempo, mas terminou com honra e deixou o trono para um sucessor que em nada lhe era inferior.

Versículos 25 a 33

O Reinado de Nadabe e Baasa. (a.C. 954.)

Vamos agora examinar o estado miserável de Israel, enquanto o reino de Judá era feliz sob o bom governo de Asa. Foi anunciado que Israel seria como uma cana agitada na água (1 Reis 14:15), e assim aconteceu: durante o reinado de Asa, seis ou sete pessoas diferentes governaram o reino, como vemos neste capítulo e no seguinte.

Jeroboão estava no trono no início do reinado de Asa, e Acabe, no fim; entre eles vieram Nadabe, Baasa, Elá, Zinri, Tibni e Onri, que se enfraqueceram e destruíram uns aos outros. Foi esse o resultado de abandonarem tanto a casa de Deus quanto a casa de Davi. Aqui temos:

  1. A ruína e o extermínio da família de Jeroboão, conforme a palavra do Senhor transmitida por Aías. Seu filho Nadabe o sucedeu.

Se a morte de seu irmão Abias tivesse exercido sobre ele a influência devida, levando-o à piedade, e se a honra prestada ao irmão por ocasião de sua morte o tivesse incentivado a seguir seu bom exemplo, o reinado de Nadabe poderia ter sido longo e glorioso.

Mas ele andou no caminho de seu pai, v. 26, manteve a adoração dos bezerros e proibiu seus súditos de subir a Jerusalém para adorar. Pecou e fez Israel pecar; por isso, Deus o derrubou rapidamente, no segundo ano de seu reinado.

Nadabe sitiava Gibetom, cidade que os filisteus haviam tomado dos danitas, e tentava recuperá-la. Ali, no meio do exército, Baasa conspirou com outros contra ele e o matou (v. 27). Nadabe tinha tão pouco lugar nas afeições de seu povo que o exército não só deixou de vingar sua morte, como escolheu seu assassino para sucedê-lo.

Não sabemos se Baasa agiu por rancor pessoal contra Nadabe, se quis vingar alguma afronta que a família de Jeroboão lhe fizera, se alegou libertar seu país da tirania de um mau príncipe ou se agiu simplesmente por ambição, para abrir caminho ao trono. O fato é que o matou e reinou em seu lugar, v. 28.

A primeira coisa que Baasa fez ao subir ao trono foi exterminar toda a casa de Jeroboão, para garantir melhor a si mesmo e ao governo que usurpara. Não lhe bastou prender ou banir os integrantes da família; ele os destruiu e não deixou nenhum homem (como fora predito, 1 Reis 14:10), nem ninguém que respirasse. Baasa foi cruel, mas Deus foi justo.

O pecado de Jeroboão foi punido, v. 30; os que provocam a Deus provocam a própria ruína. Veja Jeremias 7:19. A profecia de Aías se cumpriu (v. 29), pois nenhuma palavra de Deus cairá por terra. As ameaças divinas não são espantalhos.

  1. A ascensão de Baasa. Ele seria provado por algum tempo, como Jeroboão. Reinou vinte e quatro anos (v. 33), mas mostrou que não foi por aversão ao pecado de Jeroboão que destruiu sua família; agiu por malícia e ambição. Depois de eliminar o pecador, ele próprio se apegou ao pecado e andou no caminho de Jeroboão (v. 34), embora tivesse visto o fim desse caminho.

O coração dele foi endurecido de modo surpreendente pelo engano do pecado.


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