Matthew Henry

1 Reis 12

Argumento

A glória do reino de Israel chegou ao auge e à perfeição durante o reinado de Salomão. Foi longo o caminho até esse ponto, mas logo houve declínio e, já no reinado seguinte, o reino começou a afundar e definhar.

É o que vemos neste capítulo: a divisão enfraqueceu o reino e o reduziu a uma condição muito menor em comparação com o que havia sido antes. Aqui está:

I. Roboão sobe ao trono, e Jeroboão volta do Egito, v. 1, 2. II. O povo pede a Roboão que alivie seus encargos, e ele responde com rudeza, aconselhado por seus jovens conselheiros, vv. 3-15.

III. As dez tribos se revoltam e proclamam Jeroboão rei, vv. 16-20. IV. Roboão tenta submetê-las, mas Deus o proíbe, vv. 21-24. V. Jeroboão estabelece seu governo sobre a idolatria, vv. 25-33.

Assim Judá ficou fraco, abandonado por seus irmãos, e Israel, ao abandonar a casa do Senhor.

Versículos 1 a 15

A Insensatez de Roboão. (a.C. 975.)

Salomão teve mil esposas e concubinas, mas lemos de apenas um filho que levasse adiante seu nome; e ele era tolo. Está escrito (Oseias 4:10): “Prostituir-se-ão e não se multiplicarão.” O pecado não é um bom caminho para construir uma família.

Roboão era filho do mais sábio dos homens, mas não herdou a sabedoria do pai; e de pouco lhe valeu herdar também o trono. Nem a sabedoria nem a graça passam pelo sangue.

Salomão chegou muito jovem ao trono, mas já era sábio. Roboão chegou aos quarenta anos, idade em que os homens já deveriam ser sábios, mas era tolo. A sabedoria não depende da idade, nem vem do grande número de anos ou das vantagens da educação.

A corte de Salomão era um centro de sabedoria e ponto de encontro de homens instruídos; Roboão era o favorito da corte. Ainda assim, nada disso bastou para torná-lo sábio. A corrida não é dos velozes, nem a batalha dos fortes.

Ninguém contestou a sucessão de Roboão: com a morte do pai, ele foi proclamado imediatamente. Mas:

I. O povo propôs encontrar-se com ele em Siquém para negociar, e ele aceitou ir até lá:

  1. Alegaram que queriam fazê-lo rei, mas o propósito era desfazê-lo. Dariam a ele uma inauguração pública numa cidade diferente da cidade de Davi, para que não parecesse rei apenas de Judá.

As dez tribos tinham dez partes nele e queriam tê-lo entre elas naquela ocasião para reconhecer seu direito ao trono.

  1. O lugar era de mau agouro: Siquém, onde Abimeleque se proclamara rei (Juízes 9). Ainda assim, a cidade era famosa por reunir as tribos (Josué 24:1).

Podemos supor que Roboão conhecesse a ameaça de que o reino lhe seria tirado. Talvez esperasse impedir isso indo a Siquém para negociar com as dez tribos; no entanto, essa foi a decisão mais imprudente que poderia tomar e apressou a ruptura.

II. Os representantes das tribos se dirigiram a ele, pedindo alívio dos impostos que os sobrecarregavam. Depois de marcar a reunião, mandaram buscar Jeroboão no Egito para que fosse seu porta-voz.

Não precisavam fazer isso. Jeroboão sabia para que Deus o destinara e teria vindo mesmo sem ser chamado, pois chegara o momento de esperar a posse do trono que lhe fora prometido.

  1. Em seu pedido, queixaram-se do reinado anterior: “Teu pai tornou pesado o nosso jugo”, v. 4. Não se queixaram da idolatria do pai nem de seu afastamento de Deus. O maior de todos os males não lhes parecia uma aflição; eram tão descuidados e indiferentes em matéria de religião que, para viverem com tranquilidade e não pagarem impostos, tanto fazia Deus como Moloque.

Mas a queixa era infundada e injusta. Nunca um povo viveu com tanta tranquilidade e em tanta abundância. Pagavam impostos? Era para aumentar a força e a magnificência do reino.

Se as construções de Salomão lhes custaram dinheiro, não lhes custaram sangue, como custaria uma guerra. Muitos trabalhadores servis foram empregados nelas? Não eram israelitas.

Os impostos eram um fardo? Como poderiam ser, se Salomão importava tanto metal precioso que a prata era quase tão comum quanto as pedras? Assim, apenas davam a Salomão o que era de Salomão.

Suponhamos que lhes tivessem imposto alguma dificuldade: não foram avisados de que esse seria o modo de agir do rei e, mesmo assim, quiseram ter um? Nem o melhor governo está livre de censura e críticas, nem mesmo o de Salomão. Os espíritos facciosos sempre encontram algo de que reclamar.

Não conheço nada na administração de Salomão que pudesse tornar pesado o jugo do povo, a menos que, talvez, as mulheres por quem ele se apaixonou nos últimos anos tivessem sido toleradas enquanto o oprimiam.

  1. Pediram alívio e, sob essa condição, continuariam leais à casa de Davi. Não pediram isenção total de impostos, mas que o peso fosse reduzido.

Só se preocupavam em poupar dinheiro, sem se importar se a religião fosse sustentada ou o governo protegido. Cada um busca os próprios interesses.

III. Roboão consultou seus conselheiros sobre a resposta que deveria dar ao pedido. Era prudente pedir conselho, sobretudo porque ele mesmo tinha pouco discernimento.

Mas, naquela ocasião, foi imprudente parar para pensar: assim deu aos insatisfeitos tempo para preparar a revolta. Sua demora num caso tão claro seria vista como sinal de que pouco se importava com o alívio do povo. Eles perceberam o que deviam esperar e se prepararam para isso.

  1. Os conselheiros mais velhos e experientes recomendaram que ele atendesse os que fizeram o pedido com bondade, lhes desse palavras gentis e fizesse boas promessas. Naquele dia, dia decisivo, deveria servi-los, isto é, dizer que era servo deles, que aliviaria todos os seus encargos e se dedicaria a agradá-los e deixá-los tranquilos.

“Negue a si mesmo”, disseram, “o bastante para fazer isso desta vez, e eles serão seus servos para sempre. Quando a tensão do momento passar com uma resposta branda e a assembleia se dispersar, a reflexão mais serena os reconciliará e os manterá ligados à família de Salomão.”

Repare: o caminho para governar é servir, fazer o bem e humilhar-se para fazê-lo; é tornar-se tudo para todos e, assim, conquistar-lhes o coração. Quem está no poder ocupa uma posição mais alta, confortável e segura quando segue esse caminho.

  1. Os jovens do conselho eram arrogantes e impetuosos e aconselharam Roboão a responder com severidade e ameaças. A insensatez de Roboão ficou evidente:

(1.) Ele não preferiu os conselheiros mais velhos; confiou mais nos jovens que cresceram com ele e eram seus amigos, v. 8. A idade deve falar. Foi tolice pensar que, por terem sido seus companheiros agradáveis nos jogos e prazeres da juventude, estavam aptos a cuidar dos assuntos do reino.

Os mais brilhantes nem sempre são os mais sábios. Não se deve confiar como melhores amigos naqueles que sabem nos divertir, pois isso não nos fará felizes.

É muito importante para os jovens que começam a vida escolher bem com quem convivem, a quem se adaptam e de quem aceitam conselhos. Se considerarem melhores amigos os que alimentam seu orgulho, satisfazem sua vaidade e os incentivam nos prazeres, já estão marcados para a ruína.

(2.) Ele não preferiu conselhos moderados; agradou-se dos que o levaram a medidas duras e rigorosas. Mandaram-no dobrar os impostos, houvesse necessidade ou não, e dizer isso claramente ao povo, v. 10, 11.

Os jovens conselheiros acharam que os mais velhos se expressavam de modo enfadonho, v. 7. Gostavam de demonstrar esperteza nos conselhos e se orgulhavam disso.

Os mais velhos não se propuseram a ditar as palavras de Roboão; apenas o aconselharam a falar com bondade. Já os jovens lhe forneceriam frases muito engenhosas e bonitas, com comparações incisivas e atrevidas: “Meu dedo mínimo será mais grosso que os lombos de meu pai”, etc. A melhor frase nem sempre expressa a melhor ideia.

IV. Roboão respondeu ao povo conforme o conselho dos jovens, v. 14, 15. Fez questão de ser arrogante e autoritário. Imaginou que poderia impor sua vontade com mão forte e preferiu arriscar-se a perder o povo a humilhar-se para lhe dirigir palavras bondosas.

Repare: muitos arruínam a si mesmos por consultarem mais o próprio temperamento do que o próprio interesse. Veja:

  1. Como Roboão ficou cego em seus conselhos. Não poderia ter agido com mais insensatez e imprudência.

(1.) Admitiu que as acusações contra o governo do pai eram verdadeiras: “Meu pai tornou pesado o jugo de vocês.” Assim, foi injusto com a memória do pai, que ele poderia facilmente ter defendido.

(2.) Imaginou que seria mais capaz que o pai de lidar com o povo e impor-lhe sua vontade, sem considerar que era muito inferior a ele em capacidade. Poderia corrigir as falhas do reinado do pai se não chegava nem perto de suas glórias?

(3.) Ameaçou não só extorquir impostos do povo, mas também castigá-lo com leis cruéis e sua aplicação rigorosa, como se fossem açoites com escorpiões, com pontas que fariam sangrar a cada golpe.

Em suma, trataria o povo como animais, carregando-o e golpeando-o à vontade. Não se importaria que o amassem; faria com que o temessem.

(4.) Provocou um povo que, após longa tranquilidade e prosperidade, se tornara rico, forte e orgulhoso, e não aceitaria ser pisoteado como talvez aceitasse um povo pobre, abatido e desanimado. O povo já estava disposto a se revoltar e tinha um líder pronto.

Certamente, nunca houve homem tão cegado pelo orgulho e pela pretensão ao poder absoluto, coisa mais fatal que isso não há.

  1. Como os desígnios de Deus se cumpriram por meio disso. Tudo vinha do Senhor, v. 15. Deus deixou Roboão entregue à própria insensatez e ocultou dele o que lhe traria paz, para que o reino lhe fosse tirado.

Repare: Deus realiza seus propósitos sábios e justos por meio das imprudências e iniquidades humanas e prende os pecadores nas obras de suas próprias mãos.

Os que perdem o reino dos céus o jogam fora, como Roboão fez com o seu, por sua obstinação e insensatez.

Versículos 16 a 24

A Revolta das Dez Tribos. (a.C. 975.)

Vemos aqui o rompimento das dez tribos com a casa de Davi. Para que isso acontecesse:

I. O povo se mostrou ousado e resoluto na revolta. Ficou profundamente ressentido com a provocação de Roboão e indignado com suas ameaças. Concluiu que um governo tão arrogante no início se tornaria intoleravelmente opressor com o tempo. Por isso, todos chegaram imediatamente a esta decisão: “Que parte temos nós com Davi?”, v. 16.

Falaram de modo muito impróprio de Davi, grande benfeitor da nação, chamando-o de filho de Jessé, como se fosse um homem sem importância, igual aos seus vizinhos. Como os homens bons e os serviços que prestaram ao povo são esquecidos depressa!

Também merecia censura a precipitação de sua decisão. Com tempo e uma administração prudente, poderiam ter ajustado o contrato original com Roboão, para satisfação mútua.

Se tivessem perguntado quem dera aquele conselho a Roboão e procurado afastar dele os maus conselheiros, talvez a ruptura pudesse ter sido evitada. Ainda assim, seu zelo pela liberdade e pelos bens era próprio daquele povo livre.

Israel não é servo, nem escravo nascido em casa; por que seria saqueado? (Jeremias 2:14). Aceitavam ser governados, mas não montados como animais. A proteção conquista lealdade; a destruição não consegue.

Não é de admirar que Israel se afastasse da casa de Davi, v. 19, se a casa de Davi abandonasse os grandes propósitos de sua elevação: ser ministra de Deus para o bem do povo.

Mas rebelar-se contra a descendência de Davi, a quem Deus dera o reino e o prometera também à sua descendência, e pôr outro rei no lugar dessa família era um grande pecado; veja 2 Crônicas 13:5-8. Deus se refere a isso em Oseias 8:4: “Estabeleceram reis, mas não por mim.”

A tribo de Judá é elogiada por ter seguido a casa de Davi, v. 17, 20. Pelo que parece, Roboão mostrou-se melhor do que suas palavras, e não governou com o rigor que ameaçara no início.

II. Roboão foi imprudente ao conduzir o restante desse conflito e ficou cada vez mais desorientado. Depois de se lançar tolamente na areia movediça, afundou ainda mais ao se debater para sair.

  1. Foi muito imprudente enviar Adorão, encarregado dos tributos, para negociar com eles, v. 18. O tributo era justamente o motivo da queixa, e Adorão era a pessoa de quem mais se queixavam.

A simples visão daquele homem, cujo nome lhes era odioso, enfureceu o povo. Ninguém conseguiu ouvi-lo com paciência; numa revolta popular, apedrejaram-no até a morte. Roboão teve ainda menos sorte ao escolher seu enviado do que tivera ao escolher seus conselheiros.

  1. Alguns acham que também foi imprudente abandonar sua posição e correr para Jerusalém. Assim, deixou seus amigos e deu vantagem aos inimigos. Embora o povo tivesse voltado para suas tendas indignado, v. 16, não tentou proclamar Jeroboão rei até Roboão partir, v. 20.

Vejam como esse príncipe tolo passou depressa de um extremo ao outro. Quando pensava que tudo lhe pertencia, fazia pose e falava com arrogância; quando se viu em perigo, encolheu-se e pareceu insignificante. É comum que os mais arrogantes na prosperidade sejam os mais abatidos na adversidade.

III. Deus proibiu Roboão de tentar recuperar pela espada o que havia perdido. O que aconteceu veio de Deus, que não permitiria que a situação fosse revertida: se Roboão vencesse, as dez tribos voltariam ao seu domínio; se Jeroboão vencesse, conquistaria as duas tribos e prejudicaria ainda mais a casa de Davi. A situação deveria permanecer como estava; por isso, Deus proibiu a batalha.

  1. Foi corajoso da parte de Roboão planejar submeter os revoltosos pela força. Sua coragem surgiu quando chegou a Jerusalém, v. 21. Ali se julgava entre amigos fiéis, que permaneceram generosamente ao seu lado e o apoiaram.

Judá e Benjamim — que temiam o Senhor e o rei e não se juntaram aos que queriam mudanças — reuniram depressa um exército de 180 mil homens para recuperar o direito do rei sobre as dez tribos. Resolveram apoiá-lo com a própria vida e seus bens, pois tinham menos motivos, ou menos disposição, para se queixar do que os outros.

  1. Foi ainda mais corajoso da parte de Roboão desistir quando Deus, por meio de um profeta, ordenou que depusesse as armas. Ele não aceitaria perder o reino sem lutar, pois isso o tornaria indigno do título de príncipe; ainda assim, não lutaria contra Deus, pois isso o tornaria indigno do nome de israelita.

Prosseguir com a guerra seria lutar não só contra seus irmãos, a quem devia amar, v. 24, mas também contra seu Deus, a quem devia obedecer: “Isto vem de mim.”

Essas duas considerações devem nos reconciliar com nossas perdas e aflições: Deus é o autor delas, e nossos irmãos são seus instrumentos. Portanto, não planejem vingança.

Roboão e seu povo obedeceram à palavra do Senhor, dispersaram o exército e aceitaram a situação. Humanamente, tinham boas perspectivas de sucesso: o exército era numeroso e resoluto, enquanto o grupo de Jeroboão era fraco e instável.

Também seria vergonhoso perder tanta força sem sequer tentar recuperá-la: fazer alarde e não agir. Apesar disso:

(1.) Respeitaram a ordem de Deus, embora ela lhes tivesse sido transmitida por um profeta pobre. Quando conhecemos a vontade de Deus, devemos nos submeter a ela, por mais que contrarie a nossa.

(2.) Consideraram o próprio interesse. Embora tivessem todas as vantagens, inclusive o direito, não poderiam prosperar se lutassem em desobediência a Deus. Era melhor ficar sentados do que se levantar para cair. No reinado seguinte, Deus lhes permitiu lutar e lhes deu a vitória (2 Crônicas 13), mas não agora.

Versículos 25 a 33

A Idolatria de Jeroboão. (a.C. 975.)

Vemos aqui o início do reinado de Jeroboão. Primeiro ele construiu Siquém e depois Penuel; embelezou e fortificou as duas cidades e provavelmente tinha um palácio em cada uma para si, v. 25. A primeira ficava em Efraim, e a outra em Gade, do outro lado do Jordão.

Isso podia ser apropriado; mas Jeroboão concebeu outro plano para firmar seu reino, fatal para os interesses da religião.

I. Ele pretendia usar algum meio eficaz para manter a seu lado aqueles que o haviam escolhido rei e impedir que voltassem à casa de Davi, v. 26, 27.

  1. Parece que desconfiava do povo e temia que, um dia, o matassem e voltassem para Roboão. Muitos que chegaram ao poder numa revolta foram derrubados por outra.

Jeroboão não podia confiar na lealdade do povo, embora naquele momento parecesse muito dedicado a ele. O que se conquista injustamente não pode ser desfrutado nem mantido com segurança ou satisfação.

  1. Ele também desconfiava da promessa de Deus. Não podia confiar que, se permanecesse fiel ao dever, Deus firmaria sua dinastia (1 Reis 11:38). Em vez disso, tramaria meios, até pecaminosos, para garantir a própria segurança.

A descrença prática na suficiência de Deus está na raiz de todo afastamento traiçoeiro dele.

II. O meio que escolheu foi impedir que o povo subisse a Jerusalém para adorar. Deus havia escolhido aquele lugar para ali pôr seu nome. O templo de Salomão ficava lá, e Deus tomara posse dele solenemente, diante de todo o Israel e ainda na memória de muitos que estavam vivos, por meio de uma nuvem de glória.

Ali o sacerdote do Senhor servia junto ao altar; ali todo Israel devia celebrar as festas e levar seus sacrifícios. Então:

  1. Jeroboão pensou que, se o povo continuasse a fazer isso, acabaria voltando para a casa de Davi, atraído pela magnificência da corte e do templo. Se permanecessem fiéis à antiga religião, voltariam ao antigo rei.

Podemos supor que, se ele tivesse negociado com Roboão uma passagem segura para si e para seu povo, de ida e volta a Jerusalém nas datas das festas solenes, Roboão não a teria negado.

Assim, Jeroboão não temia que o povo fosse forçado a voltar para Roboão, mas que voltasse por vontade própria.

  1. Por isso, dissuadiu o povo de subir a Jerusalém, alegando que queria poupar-lhe o esforço: “É demais para vocês subir tão longe para adorar a Deus”, v. 28.

“É um jugo pesado, e já está na hora de sacudi-lo. Vocês já foram a Jerusalém por tempo bastante”, como alguns entendem. “Agora que se acostumaram ao templo, ele já não parece tão glorioso e sagrado quanto no início.” As glórias visíveis perdem aos poucos o valor aos olhos das pessoas.

“Vocês se livraram de outros encargos; livrem-se também deste. Por que continuar presos a um só lugar, mais do que no tempo de Samuel?”

  1. Jeroboão providenciou em casa o que facilitaria a devoção do povo. Depois de consultar alguns de seus conselheiros políticos, decidiu fazer dois bezerros de ouro, como sinais da presença divina.

Queria convencer o povo de que podia ficar em casa e oferecer sacrifícios a eles, em vez de ir a Jerusalém para adorar diante da arca. Alguns, com boa vontade, pensam que os bezerros representavam o propiciatório e os querubins sobre a arca.

É mais provável, porém, que Jeroboão tenha adotado a idolatria dos egípcios, em cuja terra morara por algum tempo. Eles adoravam seu deus Ápis na forma de um touro ou bezerro.

(1.) Não quis gastar para construir um templo de ouro, como Salomão fizera; só podia pagar dois bezerros de ouro.

(2.) Sem dúvida, pretendia que representassem — ou, antes, tornassem presente — não um deus falso, como Moloque ou Camos, mas somente o Deus verdadeiro, o Deus de Israel, “que os fez subir da terra do Egito”, como declara, v. 28.

Assim, não violava o primeiro mandamento, mas o segundo. Escolheu esse modo de estimular a devoção porque sabia que muitos israelitas gostavam tanto de imagens que, por causa dos bezerros, abandonariam de bom grado o templo de Deus, onde todas as imagens eram proibidas.

(3.) Instalou dois bezerros para, aos poucos, afastar o povo da crença na unidade de Deus e abrir caminho ao politeísmo dos pagãos.

Pôs um em Dã, no extremo norte do país, e outro em Betel, ao sul, como se fossem guardiões e protetores do reino. Betel ficava perto de Judá.

Jeroboão pôs ali um bezerro para atrair os súditos de Roboão que gostavam de adorar imagens, em lugar dos súditos que continuariam indo a Jerusalém. Instalou o outro em Dã para facilitar o acesso dos que moravam mais longe.

As imagens de Mica já haviam sido instaladas em Dã, e por muitas gerações lhes prestaram grande veneração (Juízes 18:30, 31). Betel significa “casa de Deus”, o que dava alguma aparência de legitimidade à superstição; mas o profeta a chamou de Bete-Áven, “casa da vaidade” ou “da iniquidade”.

  1. O povo concordou com isso e gostou bastante da novidade: “Foram adorar diante de um deles, até Dã”, v. 30. Alguns entendem que foram até o bezerro de Dã porque foi o primeiro a ser instalado; outros, que foram até lá apesar da grande distância.

Quem achava difícil ir a Jerusalém para adorar a Deus conforme sua instituição não teve dificuldade em ir até Dã, duas vezes mais longe, para adorá-lo conforme suas próprias invenções.

Também se diz que foram ao bezerro de Dã porque Abias, rei de Judá, recuperou Betel em menos de vinte anos (2 Crônicas 13:19). É provável que tenha removido o bezerro de ouro ou proibido seu uso; então só restou o de Dã.

Isso se tornou um pecado, e um grave pecado contra a letra expressa do segundo mandamento. Deus às vezes dispensou a lei de que se adorasse num único lugar, mas nunca permitiu que o adorassem por meio de imagens.

Com isso, justificaram seus pais por terem feito o bezerro em Horebe, embora Deus tivesse mostrado tão claramente seu desagrado e ameaçado castigá-los no dia da visitação (Êxodo 32:34). Desprezaram tanto a ira de Deus quanto sua lei e, assim, acrescentaram pecado a pecado.

O bispo Patrick cita um ditado dos judeus: até o tempo de Jeroboão, os israelitas mamavam de um só bezerro; desde então, mamavam de dois.

  1. Depois de instalar os deuses, Jeroboão preparou acomodações para eles. Vemos aqui em que diferiu da instituição divina; em outras coisas, imitou o que se fazia em Judá tanto quanto pôde, v. 32. Um erro levou a muitos outros.

(1.) Construiu templos de lugares altos, ou de altares: supomos que um templo em Dã e outro em Betel, v. 31. Em cada um havia muitos altares; talvez Jeroboão alegasse ser inconveniente que houvesse apenas um no templo de Jerusalém.

Alguns consideravam a multiplicação de altares um ato de devoção, mas Deus, por meio do profeta, lhe deu outro sentido (Oseias 8:11): “Efraim multiplicou os altares para pecar.”

(2.) Escolheu sacerdotes entre as pessoas mais humildes; para servir a seus bezerros, até os mais humildes eram bons o bastante, e bons demais.

Escolheu sacerdotes de todos os extremos do povo, isto é, de todos os cantos do país, e mandou que morassem entre os vizinhos para lhes ensinar suas práticas e reconciliá-los com elas. Foram dispersos como os levitas, mas não pertenciam à tribo de Levi.

Já os sacerdotes dos lugares altos, ou dos altares, Jeroboão mandou morar em Betel, como os sacerdotes de Jerusalém, para servir no culto público, v. 32.

(3.) Transferiu a Festa dos Tabernáculos, que Deus havia marcado para o dia quinze do sétimo mês, para o dia quinze do oitavo mês, v. 32. Escolheu esse mês por vontade própria para mostrar seu poder sobre os assuntos religiosos, v. 33.

Quanto à Páscoa e ao Pentecostes, ou os observou nas datas certas, ou não os observou, ou os celebrou com muito menos solenidade.

(4.) Como se arrogou o poder de nomear sacerdotes, não admira que também tomasse para si o trabalho sacerdotal: “Ofereceu sobre o altar.” Isso é mencionado duas vezes, v. 32, 33, assim como a queima de incenso.

Isso lhe foi tolerado porque era coerente com suas outras irregularidades; no caso do rei Uzias, porém, o mesmo ato foi castigado de imediato com lepra.

Jeroboão fez isso para parecer importante diante do povo e ganhar fama de devoto. Quis também dar destaque à solenidade de sua nova festa, à qual provavelmente juntou a festa da dedicação de seu altar.

[1.] Jeroboão pecou, embora talvez se justificasse diante do mundo e da própria consciência dizendo que não fizera tanto mal quanto Salomão, que adorara outros deuses.

[2.] Levou Israel a pecar, afastou o povo da adoração a Deus e legou a idolatria a seus descendentes. Assim foram castigados por abandonarem o trono da casa de Davi.

O erudito sr. Whiston, em sua cronologia, para ajustar os anais dos reinos de Judá e Israel, supõe que Jeroboão mudou a contagem do ano e o reduziu a onze meses.

Segundo essa contagem, mediram-se os reinados dos reis de Israel até a revolução de Jeú, e não depois. Nesse intervalo, onze anos dos anais de Judá correspondem a doze nos de Israel.


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