1 Pedro 2
Argumento
Prossegue a exortação geral à santidade, reforçada por diversas razões extraídas do fundamento sobre o qual os cristãos são edificados, Jesus Cristo, e das suas bênçãos e dos seus privilégios espirituais nele.
Recomenda-se o meio para alcançá-la, a palavra de Deus, e condenam-se todas as qualidades contrárias, vv. 1-12. Dão-se instruções específicas sobre como os súditos devem obedecer às autoridades, e os servos, aos seus senhores, sofrendo com paciência enquanto praticam o bem, à imitação de Cristo, v. 13 até o fim.
Versículos 1 a 3
Contra a Malícia e a Hipocrisia. (66 d.C.)
O santo apóstolo tem recomendado a caridade mútua e expondo as excelências da palavra de Deus, chamando-a de semente incorruptível e dizendo que vive e permanece para sempre.
Ele prossegue em seu discurso e, com toda propriedade, acrescenta este conselho necessário: “Portanto, deixando de lado toda malícia, etc.” Esses pecados tanto destroem a caridade quanto impedem a eficácia da palavra e, por consequência, impedem a nossa regeneração.
I. Seu conselho é deixar de lado, ou despir-se, do que é mau, como alguém faria com uma roupa velha e apodrecida: “Lancem-na fora com indignação; nunca mais a vistam.”
- Os pecados a serem abandonados, ou postos de lado, são: (1.) A malícia, que pode ser entendida de modo mais amplo como toda espécie de maldade, como em Tiago 1:21; 1 Coríntios 5:8.
Mas, num sentido mais restrito, malícia é a ira que repousa no peito dos insensatos, uma ira arraigada e excessiva, guardada até inflamar alguém a planejar dano, causá-lo ou deleitar-se com qualquer dano que aconteça a outra pessoa. (2.) A astúcia, ou engano nas palavras.
Isso abrange a bajulação, a falsidade e a ilusão, que consiste em iludir astutamente outra pessoa por sua ignorância ou fraqueza, causando-lhe estrago.
(3.) As hipocrisias. Como a palavra está no plural, abrange toda espécie de hipocrisia. Nos assuntos religiosos, hipocrisia é piedade fingida. Na conduta civil, é amizade fingida, muito praticada pelos que fazem elogios grandiosos em que não acreditam, prometem o que nunca pretendem cumprir ou alegam amizade quando guardam o dano no coração.
(4.) Todas as invejas: tudo o que pode ser chamado de inveja, isto é, sentir dor pelo bem e o bem-estar de outra pessoa, com suas capacidades, prosperidade, fama ou trabalhos bem-sucedidos. (5.) A maledicência, que é difamar, falar contra outra pessoa ou caluniá-la; também é chamada de falar pelas costas, em 2 Coríntios 12:20; Romanos 1:30.
- Aprenda daqui: (1.) Os melhores cristãos precisam ser advertidos e alertados contra os piores pecados, como malícia, hipocrisia e inveja. São santificados apenas em parte e continuam sujeitos a tentações. (2.) Nossos melhores serviços a Deus não o agradarão nem nos serão proveitosos se não cumprirmos conscienciosamente nossos deveres para com as pessoas.
Os pecados aqui mencionados são transgressões da segunda tábua. É preciso abandoná-los; caso contrário, não poderemos receber a palavra de Deus como devemos.
(3.) Visto que se diz “toda malícia” e “toda astúcia”, aprenda que um só pecado não abandonado impedirá nosso proveito espiritual e bem-estar eterno. (4.) Malícia, inveja, ódio, hipocrisia e maledicência costumam andar juntos. A maledicência é sinal de que há malícia e astúcia no coração; todos esses pecados se unem para impedir nosso proveito por meio da palavra de Deus.
II. O apóstolo, como um médico sábio, depois de prescrever a purgação dos humores viciosos, passa a indicar um alimento saudável e regular, para que cresçam por meio dele. O dever recomendado é desejar com intensidade e constância a palavra de Deus.
Aqui ela é chamada de leite racional; como essa expressão não era própria do inglês, nossos tradutores verteram-na como “o leite da palavra”. Devemos entendê-la como alimento apropriado para a alma, ou para uma criatura racional, pelo qual a mente, e não o corpo, é nutrida e fortalecida.
Esse leite da palavra deve ser puro, não adulterado pelas misturas das pessoas, que frequentemente corrompem a palavra de Deus, 2 Coríntios 2:17. A maneira como devem desejar esse leite puro da palavra é indicada assim: “Como criancinhas recém-nascidas.” Ele os faz lembrar de sua regeneração. Uma vida nova requer alimento adequado. Como nasceram de novo, devem desejar o leite da palavra.
Os bebês desejam o leite comum, e seus desejos por ele são ardentes e frequentes, surgem de uma sensação impaciente de fome e são acompanhados dos melhores esforços de que o bebê é capaz. Assim devem ser os desejos dos cristãos pela palavra de Deus, e com este propósito: que cresçam por meio dela, para que progridamos “na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador”, 2 Pedro 3:18.
Aprenda: 1. Desejos e afetos intensos pela palavra de Deus são prova segura de que alguém nasceu de novo. Se forem como o desejo do bebê pelo leite, provam que a pessoa nasceu de novo. São a evidência mais básica, mas ainda assim são certas.
- Crescer e progredir em sabedoria e graça são o desígnio e o desejo de todo cristão; todos os meios espirituais servem para a edificação e o progresso. A palavra de Deus, quando usada corretamente, não deixa a pessoa como a encontra: ela a aperfeiçoa e a torna melhor.
III. Ele acrescenta uma razão tirada da experiência deles próprios: “Se é que”, ou visto que, ou uma vez que, “provastes que o Senhor é benigno”, v. 3. O apóstolo não expressa dúvida, mas afirma que esses bons cristãos provaram a bondade de Deus e argumenta com eles a partir disso.
“Vocês devem abandonar esses pecados vis (v. 1); vocês devem desejar a palavra de Deus; vocês devem crescer por meio dela, visto que não podem negar que provaram que o Senhor é benigno.”
O versículo seguinte nos assegura que o Senhor mencionado aqui é o Senhor Jesus Cristo. Aprenda daqui: 1. Nosso Senhor Jesus Cristo é muito benigno para com o seu povo. Ele é infinitamente bom em si mesmo; é muito bondoso, generoso e misericordioso para com pecadores miseráveis; é compassivo e bom para com os indignos; ele tem em si uma plenitude de graça.
- A benignidade de nosso Redentor é mais bem conhecida quando a provamos por experiência. É preciso uma aplicação direta do objeto ao órgão do paladar; não podemos provar à distância, como podemos ver, ouvir e cheirar. Provar experimentalmente a benignidade de Cristo pressupõe que estejamos unidos a ele pela fé.
Então podemos provar sua bondade em todas as suas providências, em todos os nossos assuntos espirituais, em todos os nossos temores e tentações, em sua palavra e em sua adoração, todos os dias.
- Nesta vida, os melhores servos de Deus têm apenas um sabor da graça de Cristo. Um sabor é apenas um pouco; não é um gole, nem satisfaz. Assim são as consolações de Deus nesta vida. 4. A palavra de Deus é o grande instrumento pelo qual ele revela e comunica sua graça às pessoas.
Os que se alimentam do leite puro da palavra provam e experimentam mais de sua graça. Em nossa comunhão com a sua palavra, devemos sempre procurar compreender e experimentar cada vez mais a sua graça.
Versículos 4 a 12
A Pedra Viva; Avisos contra a Sensualidade. (66 d.C.)
I. O apóstolo nos apresenta aqui uma descrição de Jesus Cristo como pedra viva. Embora a um espírito caprichoso ou a um infiel essa descrição possa parecer áspera e dura, ainda assim, para os judeus, que depositavam grande parte de sua religião no seu magnífico templo e entendiam a linguagem profética que chama o Messias de pedra (Isaías 8:14; 28:16), ela pareceria muito elegante e apropriada.
- Nesta descrição metafórica de Jesus Cristo, ele é chamado de pedra para indicar sua força invencível e duração eterna, e para ensinar aos seus servos que ele é a sua proteção e segurança, o fundamento sobre o qual são edificados e uma rocha de escândalo para todos os seus inimigos. Ele é a pedra viva, pois tem vida eterna em si mesmo e é o príncipe da vida para todo o seu povo.
A reputação e o respeito que tem diante de Deus e das pessoas são muito diferentes. É reprovado pelas pessoas, repudiado ou rejeitado por seus próprios compatriotas, os judeus, e pela generalidade da humanidade; mas escolhido por Deus, separado e predestinado para ser o fundamento da igreja, como em 1 Pedro 1:20.
É precioso, uma pessoa honradíssima, escolhida e digna em si mesma, na estima de Deus e no julgamento de todos os que creem nele.
Somos obrigados a nos achegar a essa pessoa assim descrita: “A quem, achegando-vos”. Não por movimento físico, impossível desde a sua exaltação, mas pela fé, pela qual nos unimos a ele no início e depois nos aproximamos dele. Aprenda: (1.) Jesus Cristo é a própria pedra fundamental de todas as nossas esperanças e felicidade.
Ele nos comunica o verdadeiro conhecimento de Deus, como em Mateus 11:27; por meio dele temos acesso ao Pai, como em João 14:6; e por meio dele somos feitos participantes de todas as bênçãos espirituais, como em Efésios 1:3.
(2.) Em geral, as pessoas reprovam e rejeitam Jesus Cristo; desprezam-no, desgostam dele, opõem-se a ele e o recusam, como declaram as Escrituras e a experiência, em Isaías 53:3. (3.) Por mais que Cristo seja reprovado por um mundo ingrato, ainda assim ele é escolhido por Deus e precioso aos seus olhos.
Foi escolhido e estabelecido como Senhor do universo, cabeça da igreja, Salvador do seu povo e Juiz do mundo. É precioso pela excelência de sua natureza, pela dignidade de seu ofício e pela glória de seus serviços.
(4.) Os que esperam receber misericórdia desse benigno Redentor devem achegar-se a ele. Esse ato é nosso, embora realizado pela graça de Deus; é um ato da alma, não do corpo; um esforço real, não um desejo inútil.
- Depois de descrever Cristo como o fundamento, o apóstolo passa a falar da construção erguida sobre ele, dos materiais edificados sobre ele: “Vós também, como pedras vivas, sois edificados”, v. 5. O apóstolo recomenda a esses judeus dispersos a igreja e a ordem cristãs.
Era natural que objetassem que a igreja cristã não tinha templo tão glorioso nem sacerdócio tão numeroso, mas que sua administração era humilde, pois seus serviços e sacrifícios nada tinham da pompa e grandeza que a administração judaica tinha.
O apóstolo responde que a igreja cristã é uma estrutura muito mais nobre do que o templo judaico: é um templo vivo, composto não de materiais mortos, mas de partes vivas. Cristo, o fundamento, é uma pedra viva; os cristãos são pedras vivas, e estes formam uma casa espiritual e são um sacerdócio santo.
Embora não tenham sacrifícios sangrentos de animais para oferecer, ainda assim têm sacrifícios muito melhores e mais aceitáveis, e também têm um altar no qual apresentar suas ofertas: oferecem sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo.
Aprenda: (1.) Todos os cristãos sinceros têm em si um princípio de vida espiritual, que lhes é comunicado por Cristo, sua cabeça. Por isso, assim como ele é chamado de pedra viva, eles são chamados de pedras viventes, ou vivas: não estão mortos em delitos e pecados, mas vivos para Deus pela regeneração e pela ação do Espírito divino.
(2.) A igreja de Deus é uma casa espiritual, cujo fundamento é Cristo, como em Efésios 2:22. É uma casa por sua força, beleza, variedade de partes e utilidade do todo.
É espiritual em seu fundamento, Cristo Jesus; em seus materiais, pessoas espirituais; em sua mobília, as graças do Espírito; em sua união, sendo mantida unida pelo Espírito de Deus e por uma fé comum; e em seu uso, que é obra espiritual: oferecer sacrifícios espirituais.
Essa casa é edificada diariamente: cada parte progride, e o todo é suprido em cada geração pela adição de novos membros individuais.
(3.) Todos os bons cristãos formam um sacerdócio santo. O apóstolo fala aqui da generalidade dos cristãos e lhes diz que são um sacerdócio santo: todos são pessoas escolhidas, consagradas a Deus, úteis aos outros, bem dotadas de dons e graças celestiais e bem ocupadas.
(4.) Esse sacerdócio santo deve oferecer e oferecerá sacrifícios espirituais a Deus. Os sacrifícios espirituais que os cristãos devem oferecer são seus corpos, almas, afetos, orações, louvores, esmolas e demais deveres. (5.) Nem os sacrifícios mais espirituais dos melhores homens são aceitáveis a Deus senão por Jesus Cristo.
Ele é o único grande sumo sacerdote por meio de quem nós e os nossos serviços podemos ser aceitos. Portanto, levem todas as suas ofertas a ele e, por meio dele, apresentem-nas a Deus.
II. Ele confirma o que afirmou sobre Cristo ser pedra viva, etc., com base em Isaías 28:16. Observe a maneira como o apóstolo cita as Escrituras, sem livro, capítulo e versículo, pois essas divisões ainda não existiam. Não se fazia mais que uma referência a Moisés, Davi ou aos profetas, salvo uma vez em que se menciona um salmo específico, em Atos 13:33.
Nas citações, eles se atinham mais ao sentido do que às palavras das Escrituras, como se vê no que o profeta é citado dizendo neste trecho. Ele não cita palavra por palavra, nem o hebraico nem a Septuaginta, mas faz uma citação justa e verdadeira. O verdadeiro sentido das Escrituras pode ser expresso de modo justo e completo com palavras diferentes das palavras das próprias Escrituras.
“Está contido.” O verbo está na voz ativa, mas nossos tradutores o vertem na passiva para evitar a dificuldade de encontrar um sujeito para ele, o que havia deixado perplexos muitos intérpretes antes deles. O conteúdo da citação é: “Eis que ponho em Sião”. Aprenda:
Nos assuntos importantes da religião, devemos depender inteiramente da prova das Escrituras; Cristo e seus apóstolos recorriam a Moisés, Davi e aos antigos profetas. A palavra de Deus é a única regra que ele nos deu. É uma regra perfeita e suficiente.
Os relatos que Deus nos deu nas Escrituras a respeito de seu Filho Jesus Cristo exigem a nossa mais rigorosa atenção: “Eis que ponho”, etc. João pede a mesma atenção, em João 1:29. Esses apelos para que prestemos atenção a Cristo nos mostram a excelência do assunto, sua importância e a nossa insensibilidade e lentidão.
Constituir Cristo Jesus como cabeça da igreja é uma obra eminente de Deus: “Ponho em Sião”. Estabelecer o papa como cabeça da igreja é um artifício humano e uma presunção arrogante; somente Cristo é o fundamento e a cabeça da igreja de Deus. 4. Jesus Cristo é a principal pedra angular que Deus colocou em sua construção espiritual.
A pedra angular permanece inseparavelmente unida à construção, sustenta-a, une-a e a adorna. Assim Cristo faz com sua santa igreja, sua casa espiritual.
- Jesus Cristo é pedra angular para sustentar e salvar somente os que são seu povo sincero: somente para Sião e os que pertencem a Sião, não para Babilônia nem para os seus inimigos. 6. A verdadeira fé em Jesus Cristo é a única maneira de impedir que alguém fique completamente confundido.
Três coisas causam grande confusão a uma pessoa, e a fé impede todas elas: a decepção, o pecado e o juízo. A fé oferece um remédio para cada uma.
III. Ele tira uma conclusão importante, v. 7. Diz-se que Jesus Cristo é a principal pedra angular. Por isso, o apóstolo conclui a respeito dos bons: “Para vós, portanto, que credes, ele é precioso”, ou ele é uma honra. Cristo é a coroa e a honra do cristão; vocês que creem estarão tão longe de se envergonhar dele que se orgulharão dele e se gloriarão nele para sempre.
Quanto aos ímpios, os desobedientes continuarão rejeitando Jesus Cristo; mas Deus decidiu que, apesar de toda oposição, ele será a pedra principal da esquina. Aprenda: 1. Podemos confiar com a mesma certeza em tudo o que se deduz das Escrituras por consequência justa e necessária como se estivesse expresso nas palavras delas.
O apóstolo extrai uma conclusão do testemunho do profeta. O profeta não a declarou expressamente, mas ainda assim disse aquilo de que a conclusão era inevitável.
Nosso Salvador lhes ordena que examinem as Escrituras porque elas dão testemunho dele; e, ainda assim, nenhuma passagem a que se referia ali dizia que Jesus de Nazaré era o Messias.
No entanto, essas Escrituras dizem que aquele que nasceria de uma virgem, antes de o cetro se apartar de Judá, durante o segundo templo e depois das setenta semanas de Daniel seria o Messias; mas assim era Jesus Cristo.
Para chegar a essa conclusão, é preciso usar a razão, a história, a visão e a experiência; ainda assim, ela é uma conclusão infalível das Escrituras.
- O dever de um ministro fiel é aplicar verdades gerais à condição e ao estado particulares de seus ouvintes. O apóstolo cita uma passagem do profeta (v. 6) e a aplica separadamente aos bons e aos maus. Isso exige sabedoria, coragem e fidelidade, mas é muito proveitoso para os ouvintes. 3. Jesus Cristo é extremamente precioso para todos os fiéis.
A majestade e a grandeza de sua pessoa, a dignidade de seu ofício, sua relação próxima, suas obras maravilhosas e seu imenso amor levam os fiéis a ter a mais alta estima e respeito por Jesus Cristo.
- As pessoas desobedientes não têm verdadeira fé. Por desobedientes, entendam-se os que não se deixam persuadir, são incrédulos e não se arrependem. Podem ter algumas noções corretas, mas não têm fé sólida. 5. Os que deveriam ser construtores da igreja de Cristo costumam ser os piores inimigos de Cristo no mundo.
No Antigo Testamento, os falsos profetas causaram o maior dano; no Novo Testamento, a maior oposição e crueldade que Cristo enfrentou vieram dos escribas, fariseus, principais sacerdotes e dos que alegavam construir e cuidar da igreja.
A hierarquia de Roma continua a ser a pior inimiga de Jesus Cristo e de seus interesses no mundo. 6. Deus levará adiante a sua própria obra e sustentará os interesses de Jesus Cristo no mundo, apesar da falsidade dos amigos alegados e da oposição dos seus piores inimigos.
IV. O apóstolo acrescenta outra descrição, continuando a preservar a metáfora da pedra, v. 8. As palavras vêm de Isaías 8:13-14: “Santificai ao próprio Senhor dos Exércitos”; e “ele será por pedra de tropeço e por rocha de escândalo”. Daí fica claro que Jesus Cristo é o Senhor dos Exércitos e, portanto, o Deus Altíssimo. Observe:
- Os construtores, os principais sacerdotes, recusaram-no, e o povo seguiu seus líderes. Assim Cristo se tornou para eles pedra de tropeço e rocha de escândalo; tropeçaram nele e se feriram. Em resposta, ele caiu sobre eles como uma pedra ou rocha poderosa e os puniu com destruição.
Mateus 21:44: “Todo aquele que cair sobre esta pedra será quebrado; mas sobre quem quer que ela caia, ela o triturará até reduzi-lo a pó.”
Aprenda: (1.) Todos os desobedientes se ofendem com a palavra de Deus: “Tropeçam na palavra, sendo desobedientes.” Eles se ofendem com o próprio Cristo, com sua doutrina e com a pureza de seus preceitos; mas os mestres judeus tropeçaram especialmente na humildade de sua aparência e na proposta de confiar somente nele para serem justificados diante de Deus.
Não conseguiam ser levados a buscar justificação pela fé, mas “como que pelas obras da lei; pois tropeçaram naquela pedra de tropeço”, Romanos 9:32. (2.) O mesmo bendito Jesus que é o autor da salvação para alguns é, para outros, ocasião de pecado e destruição. Ele está posto para o reerguimento e a queda de muitos em Israel.
Não é o autor do pecado deles, mas apenas a ocasião; a desobediência deles os faz tropeçar nele e rejeitá-lo, e ele os pune como juiz, destruindo-os.
Os que o rejeitam como Salvador se despedaçarão contra ele como Rocha. (3.) O próprio Deus destinou à destruição eterna todos os que tropeçam na palavra por serem desobedientes. Todos os que persistem resolutamente na incredulidade e no desprezo pelo evangelho estão destinados à destruição eterna, e Deus sabe desde a eternidade quem são.
(4.) Ver os judeus em geral rejeitando Cristo e multidões, em todas as épocas, desprezando-o não deve nos desanimar em nosso amor e dever para com ele; pois os profetas haviam predito isso muito antes, e isso confirma a nossa fé tanto nas Escrituras quanto no Messias.
- Os que o receberam foram grandemente privilegiados, v. 9. Os judeus tinham muito apreço por seus antigos privilégios: ser o único povo de Deus, acolhido numa aliança especial com ele e separado do resto do mundo. “Agora”, dizem eles, “se nos submetermos à ordem do evangelho, perderemos tudo isso e ficaremos no mesmo nível dos gentios.”
(1.) O apóstolo responde a essa objeção dizendo que, se não se submetessem, estariam arruinados (v. 7, 8); mas, se se submetessem, não perderiam nenhuma vantagem real e continuariam sendo aquilo que desejavam ser: geração eleita, sacerdócio real, etc. Aprenda: [1.] Todos os verdadeiros cristãos são uma geração eleita.
Todos formam uma família e uma categoria e espécie de pessoas distintas do mundo comum, com outro espírito, princípio e prática. Jamais seriam assim se não tivessem sido escolhidos em Cristo para serem assim e santificados pelo seu Espírito.
[2.] Todos os verdadeiros servos de Cristo são um sacerdócio real. São da realeza em sua relação com Deus e Cristo, em seu poder diante de Deus, sobre si mesmos e sobre todos os seus inimigos espirituais; são principescos no desenvolvimento e na excelência de seu próprio espírito, e em suas esperanças e expectativas.
São um sacerdócio real, separados do pecado e dos pecadores, consagrados a Deus e oferecendo-lhe serviços e oblações espirituais, aceitáveis a Deus por Jesus Cristo.
[3.] Todos os cristãos, onde quer que estejam, compõem uma nação santa. São uma só nação, reunida sob uma só cabeça, concordando nos mesmos costumes e práticas e governada pelas mesmas leis. É uma nação santa porque está consagrada e dedicada a Deus, renovada e santificada pelo seu Espírito Santo.
[4.] É honra dos servos de Cristo serem o povo peculiar de Deus. São o povo de sua aquisição, escolha, zelo e deleite.
Essas quatro dignidades de todos os cristãos genuínos não lhes são naturais. Seu estado inicial é de terrível escuridão, mas eles são efetivamente chamados da escuridão para um estado de luz maravilhosa, alegria, prazer e prosperidade, com este intento e objetivo: manifestarem, em palavras e ações, as virtudes e os louvores daquele que os chamou.
(2.) Para que esse povo se contente e seja grato pelas grandes misericórdias e dignidades que o evangelho lhe trouxe, o apóstolo recomenda que compare o estado anterior com o atual. Houve um tempo em que não eram povo e não haviam alcançado misericórdia, mas foram solenemente repudiados e divorciados, como em Jeremias 3:8; Oseias 1:6, 9.
Agora, porém, foram acolhidos novamente para serem o povo de Deus e alcançaram misericórdia.
Aprenda: [1.] As melhores pessoas devem olhar com frequência para o que foram no passado. [2.] O povo de Deus é o mais valioso do mundo; todos os demais não são povo e pouco valem. [3.] Ser incluído no povo de Deus é uma grande misericórdia, e isso pode ser alcançado.
V. Ele os adverte contra os desejos carnais, v. 11. Até os melhores homens, a geração eleita e o povo de Deus, precisam ser exortados a se abster dos piores pecados, contra os quais o apóstolo agora os adverte com grande fervor e afeto.
Sabendo da dificuldade e, ainda assim, da importância desse dever, ele usa ao máximo a influência que tem sobre eles: “Muito amados, eu vos rogo.” O dever consiste em se abster dos desejos carnais e reprimir sua primeira inclinação ou surgimento.
Muitos deles vêm da corrupção da natureza e, ao serem praticados, dependem do corpo, satisfazendo algum apetite sensual ou inclinação desordenada da carne. Esses cristãos devem evitá-los, considerando:
A estima que têm diante de Deus e das pessoas boas: são muito amados.
Sua condição no mundo: são estrangeiros e peregrinos, e não devem dificultar a própria passagem entregando-se à maldade e aos desejos do país por onde passam.
O dano e o perigo causados por esses pecados: “Eles fazem guerra contra a alma; por isso, a alma de vocês deve guerrear contra eles.”
Aprenda: (1.) O grande dano que o pecado causa às pessoas é este: faz guerra contra a alma; destrói sua liberdade moral, enfraquece-a e debilita-a ao prejudicar suas faculdades, rouba-lhe o consolo e a paz, rebaixa e destrói sua dignidade, impede sua prosperidade presente e a lança na miséria eterna.
(2.) De todas as espécies de pecado, nenhuma prejudica mais a alma que os desejos carnais. Os apetites carnais, a libertinagem e a sensualidade são muito odiosos a Deus e destrutivos para a alma humana. É um severo juízo ser entregue a eles.
VI. Ele os exorta ainda a adornar sua profissão de fé com uma conduta honesta. A conduta deles em cada passo, em cada situação e em cada ação da vida deve ser honesta, isto é, boa, agradável, decorosa, amável e irrepreensível.
Isso porque viviam entre os gentios, pessoas de outra religião e inimigos ferrenhos deles, que já os caluniavam e falavam continuamente mal deles, como se fossem malfeitores.
“Uma conduta limpa, justa e boa pode não só fazê-los calar, mas talvez levá-los a glorificar a Deus e voltar-se para vocês, quando virem que vocês superam todos os outros em boas obras. Agora os chamam de malfeitores; defendam-se com boas obras: esse é o caminho para convencê-los.”
“Aproxima-se um dia de visitação, em que Deus talvez os chame, por sua palavra e graça, ao arrependimento. Então glorificarão a Deus e os elogiarão por sua excelente conduta, Lucas 1:68. Quando o evangelho chegar até eles e produzir efeito, uma boa conduta os animará na conversão, mas uma má conduta a impedirá.”
Repare: 1. A profissão de fé cristã deve ser acompanhada de conduta honesta, como em Filipenses 4:8. 2. É destino comum dos melhores cristãos serem difamados por homens ímpios. 3. Os que recebem a visita graciosa de Deus imediatamente mudam de opinião a respeito das pessoas boas, glorificando a Deus e elogiando aqueles a quem antes insultavam como malfeitores.
A Submissão às Autoridades; Diversas Exortações; o Exemplo de Cristo no Sofrimento. (61 d.C.)
Versículos 13 a 25
A regra geral da conduta cristã é esta: ela deve ser honesta, o que não pode ser se não houver o cumprimento consciencioso de todos os deveres próprios de cada relação. O apóstolo trata aqui especificamente desses deveres, de modo distinto.
I. A condição dos súditos. Os cristãos não eram apenas considerados inovadores em religião, mas também perturbadores do Estado. Por isso, era muito necessário que o apóstolo estabelecesse as regras e medidas de obediência à autoridade civil, o que ele faz aqui, onde:
O dever exigido é a submissão, que inclui lealdade e reverência às pessoas dos governantes, obediência às suas leis e ordens justas e sujeição às penalidades legais.
As pessoas ou objetos a quem se deve essa submissão são descritas assim: (1.) De modo mais geral: “Toda ordenação humana.” A magistratura é certamente de direito divino; mas a forma específica de governo, o poder do magistrado e as pessoas que devem exercê-lo são de instituição humana e se regem pelas leis e constituições de cada país.
Esta é uma regra geral, obrigatória em todas as nações, qualquer que seja a forma de governo estabelecida. (2.) De modo específico: “Ao rei, como supremo”, o primeiro em dignidade e o mais eminente em posição.
O rei é uma pessoa legalmente investida, não um tirano; ou “aos governadores”, delegados, procônsules e governantes das províncias enviados por ele, isto é, comissionados por ele para governar.
- As razões para reforçar esse dever são:
(1.) “Por causa do Senhor”, que havia instituído a magistratura para o bem da humanidade, exige obediência e submissão, como em Romanos 13, e tem sua honra envolvida no comportamento obediente dos súditos para com seus soberanos.
(2.) Por causa do fim e da utilidade do ofício do magistrado, que consistem em punir os malfeitores e louvar e animar todos os que fazem o bem. Os magistrados foram designados para o bem das sociedades; quando esse fim não é buscado, a falha está em sua prática, não em sua instituição.
[1.] A verdadeira religião é o melhor apoio do governo civil: exige submissão “por causa do Senhor” e por causa da consciência. [2.] Todas as punições e todos os magistrados do mundo não podem impedir que haja malfeitores nele. [3.] A melhor maneira de o magistrado cumprir seu próprio dever e melhorar o mundo é punir bem e recompensar bem.
(3.) Outra razão pela qual os cristãos devem se submeter ao magistrado mau é que isso é a vontade de Deus e, consequentemente, seu dever; porque é o meio de calar as calúnias maliciosas de homens ignorantes e insensatos, v. 15. Aprenda: [1.] Para uma pessoa boa, a vontade de Deus é a razão mais forte para qualquer dever.
[2.] Obedecer aos magistrados é uma parte considerável do dever cristão. “Assim é a vontade de Deus.”
[3.] O cristão deve esforçar-se para se comportar em todas as suas relações de modo a calar os descréditos irracionais dos homens mais ignorantes e insensatos. [4.] Os que falam contra a religião e as pessoas religiosas são ignorantes e insensatos.
(4.) Ele os lembra da natureza espiritual da liberdade cristã. Com base em Deuteronômio 17:15, os judeus concluíam que não deviam obedecer a soberano algum, exceto a um escolhido entre seus próprios irmãos; e os judeus convertidos pensavam que sua relação com Cristo os libertava da sujeição.
Para evitar esses enganos, o apóstolo diz aos cristãos que são livres, mas livres de quê? Não do dever nem da obediência à lei de Deus, que exige sujeição à autoridade civil.
Eles eram espiritualmente livres da escravidão ao pecado e a Satanás, bem como da lei cerimonial; mas não deviam fazer da liberdade cristã um disfarce ou cobertura para qualquer maldade ou para negligenciar algum dever para com Deus ou para com seus superiores. Deviam sempre se lembrar de que eram servos de Deus.
Aprenda: [1.] Todos os servos de Cristo são pessoas livres, como em João 8:36; estão livres do domínio de Satanás, da condenação da lei, da cólera de Deus, do desconforto do dever e dos terrores da morte.
[2.] Os servos de Jesus Cristo devem ter muito cuidado para não abusar de sua liberdade cristã; não devem usá-la como disfarce ou cobertura para qualquer maldade contra Deus ou desobediência aos superiores.
- O apóstolo conclui seu discurso sobre o dever dos súditos com quatro preceitos admiráveis: (1.) “Honrai a todos.” Deve-se tratar todas as pessoas com o devido respeito; os pobres não devem ser desprezados, como em Provérbios 17:5.
Os ímpios devem ser honrados, não por sua maldade, mas por outras qualidades, como inteligência, prudência, coragem, distinção no trabalho ou cabelos brancos. Abraão, Jacó, Samuel, os profetas e os apóstolos nunca hesitaram em prestar a homens maus a honra devida.
(2.) “Amai a fraternidade.” Todos os cristãos formam uma fraternidade: estão unidos a Cristo, a cabeça; têm disposição e qualidades semelhantes; estão estreitamente ligados pelos mesmos interesses, mantêm comunhão uns com os outros e caminham para o mesmo lar. Portanto, devem amar uns aos outros com afeto especial.
(3.) “Temei a Deus”, com a mais alta reverência, dever e submissão. Se isso faltar, nenhum dos outros três deveres poderá ser cumprido como deve.
(4.) “Honrai ao rei”, com a mais alta honra que lhe é devida especificamente, acima dos demais homens.
II. A condição dos servos também precisava de uma determinação apostólica, assim como a dos súditos, pois imaginavam que sua liberdade cristã os livrava de seus senhores incrédulos e cruéis. A isso o apóstolo responde: “Servos, sede sujeitos”, v. 18.
Por servos ele entende os que eram propriamente servos, fossem contratados, comprados com dinheiro, capturados em guerras ou nascidos na casa; ou os que serviam por contrato durante um período determinado, como aprendizes. Observe:
- Ele lhes ordena que se sujeitem: que cumpram seu trabalho com fidelidade e honestidade, comportem-se com reverência e afeto, como convém a inferiores, e suportem com paciência agruras e inconveniências.
Devem essa submissão aos senhores, que têm direito ao serviço deles; não apenas aos bons e gentis, que os tratam bem e abrem mão de parte de seus direitos, mas também aos tortuosos e perversos, que quase nunca podem ser agradados.
Aprenda: (1.) Os servos devem comportar-se com submissão para com seus senhores e temer desagradá-los. (2.) A conduta pecaminosa de uma pessoa numa relação não justifica a conduta pecaminosa da outra; o servo tem o dever de fazer a sua parte, ainda que o senhor seja perverso e obstinado em seu pecado. (3.) As pessoas boas são mansas e gentis com seus servos e inferiores.
Nosso santo apóstolo mostra amor e preocupação pelas almas dos pobres servos, bem como pelas pessoas de posição mais elevada. Nisso, todos os ministros de posição inferior devem imitá-lo e dirigir seus conselhos especificamente aos ouvintes mais humildes, simples, jovens e pobres, assim como aos demais.
- Depois de lhes ordenar que se sujeitassem, ele se dispõe a argumentar com eles sobre isso.
(1.) Se fossem pacientes em suas agruras, sofrendo injustamente e continuando a cumprir seu dever para com senhores incrédulos e difíceis, isso seria agradável a Deus, que recompensaria tudo o que sofressem por consciência diante dele. Mas serem pacientes quando fossem castigados com justiça não mereceria elogio algum.
Só fazer o bem e sofrer com paciência por isso é aceitável a Deus, v. 19, 20. Aprenda: [1.] Não há condição tão humilde em que alguém não possa viver conscienciosamente nela e glorificar a Deus nela; o servo mais humilde pode fazê-lo.
[2.] As pessoas mais conscienciosas muitas vezes são as que mais sofrem. Por consciência diante de Deus, sofrem injustamente; fazem o bem e sofrem por isso. Mas esses sofredores são dignos de louvor: honram a Deus e a religião, e são aceitos por ele. Esse é o seu maior sustento e satisfação.
[3.] Os sofrimentos merecidos devem ser suportados com paciência: Se vocês são esbofeteados por suas faltas, devem suportá-lo com paciência. Os sofrimentos nesta vida nem sempre são sinais de nossa felicidade futura.
Se filhos ou servos forem duros e desobedientes e sofrerem por isso, isso não será agradável a Deus nem lhes trará o louvor das pessoas.
(2.) São dadas outras razões para animar os servos cristãos a ter paciência em sofrimentos injustos, v. 21. [1.] Por causa de seu chamado e profissão cristãos: “Para isto fostes chamados.” [2.] Por causa do exemplo de Cristo, que sofreu por nós e assim se tornou nosso exemplo, para que sigamos seus passos.
Daí aprendemos, primeiro, que os bons cristãos são um tipo de pessoas chamados a sofrer e, portanto, devem esperar isso. Pelas condições do cristianismo, são obrigados a negar a si mesmos e tomar a cruz; são chamados pelos mandamentos de Cristo, pelas administrações da Providência e pelos preparativos da graça divina. E, pela prática de Jesus Cristo, são obrigados a sofrer quando assim chamados.
Segundo, Jesus Cristo sofreu por vocês, ou por nós. Não foi o Pai quem sofreu, mas aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo para esse fim. Tanto o corpo quanto a alma de Cristo sofreram; e ele sofreu por nós, em nosso lugar e para o nosso bem, v. 24.
Terceiro, os sofrimentos de Cristo devem nos tranquilizar em meio aos sofrimentos mais injustos e cruéis que encontramos no mundo. Ele sofreu voluntariamente, não por si, mas por nós; com a maior prontidão, perfeita paciência e vindo de todas as partes. E tudo isso embora fosse Deus-homem.
Nós, pecadores, que merecemos o pior, não nos submeteremos às leves aflições desta vida, que depois produzem para nós vantagens indescritíveis?
- O exemplo de submissão e paciência de Cristo é aqui explicado e ampliado. Cristo sofreu: (1.) Injustamente e sem causa, pois “não cometeu pecado”, v. 22. Não praticou violência, injustiça nem mal contra ninguém; não praticou iniquidade de espécie alguma; “nem astúcia se achou na sua boca”, como em Isaías 53:9. Suas palavras, assim como suas ações, eram sinceras, justas e corretas.
(2.) Com paciência: “Quando o vituperavam, não vituperava em retorno”, v. 23. Quando o blasfemavam, zombavam dele e o insultavam, ele “ficava mudo e não abria a sua boca”.
Quando foram além, até injúrias reais, espancando-o, esbofeteando-o e coroando-o de espinhos, ele “não ameaçava”; mas entregou tanto a si mesmo quanto a sua causa a Deus, “que julga com justiça”, que, no tempo devido, esclareceria sua inocência e o vingaria de seus inimigos.
Aprenda: [1.] Nosso Bendito Redentor era perfeitamente santo e tão livre de pecado que tentação ou provocação alguma poderia arrancar dele sequer a menor palavra pecaminosa ou indecente. [2.] Provocações ao pecado nunca podem justificar a prática do pecado.
A dureza, a crueldade e a injustiça dos inimigos não justificam que os cristãos vituperem e se vinguem. As razões para pecar nunca podem ser tão fortes que não tenhamos razões ainda mais fortes para evitá-lo. [3.] O juízo de Deus decidirá com justiça a respeito de cada pessoa e de cada causa; devemos nos entregar a ele com paciência e resignação.
- Para que ninguém pense, pelo que foi dito nos vv. 21-23, que a morte de Cristo tinha sido destinada apenas como exemplo de paciência no sofrimento, o apóstolo acrescenta um desígnio e um efeito mais gloriosos: “O qual, ele próprio”, etc. Repare: (1.) A pessoa que sofreu: Jesus Cristo, “ele próprio”, “em seu próprio corpo”.
A expressão “ele próprio” é enfática e necessária para mostrar que cumpriu todas as antigas profecias, distingui-lo dos sacerdotes levíticos, que ofereciam o sangue de outras pessoas, mas ele, “por si mesmo, purificou os nossos pecados”, como em Hebreus 1:3, e excluir todos os demais de participação com ele na obra da redenção humana.
Acrescenta-se “em seu próprio corpo”. Isso não significa que não tenha sofrido em sua alma, como em Mateus 26:38; mas os sofrimentos da alma eram interiores e ocultos, enquanto os do corpo eram visíveis e mais fáceis de considerar para esses servos sofredores, em favor dos quais esse exemplo é apresentado.
(2.) Os sofrimentos que suportou foram pisaduras, feridas e morte, a morte de cruz: punições de escravos e vergonhosas!
(3.) A razão de seus sofrimentos: “Levou os nossos pecados.” Isso ensina: [1.] Que, em seus sofrimentos, Cristo foi responsabilizado por nossos pecados, como quem se encarregara de removê-los pelo sacrifício de si mesmo, em Isaías 53:6. [2.] Que suportou a punição por eles e, desse modo, satisfez a justiça divina. [3.] Que assim tira nossos pecados e os afasta de nós.
Assim como o bode emissário carregava simbolicamente na cabeça os pecados do povo e depois os levava para longe, como em Levítico 16:21-22, o Cordeiro de Deus primeiro leva os nossos pecados em seu próprio corpo e, desse modo, tira os pecados do mundo, como em João 1:29.
(4.) Os frutos dos sofrimentos de Cristo são: [1.] Nossa santificação, que consiste em a morte, a mortificação do pecado e uma nova vida santa de justiça. Para ambas, temos um exemplo, motivos poderosos e também capacidades por meio da morte e ressurreição de Cristo. [2.] Nossa justificação.
Cristo foi pisado e crucificado como sacrifício de expiação, e “pelas suas pisaduras somos sarados”.
Aprenda, primeiro, que Jesus Cristo levou os pecados de todo o seu povo e os expiou com sua morte na cruz. Segundo, ninguém pode confiar com segurança em Cristo, como aquele que levou seu pecado e expiou sua culpa, antes de morrer para o pecado e viver para a justiça.
- O apóstolo conclui seu conselho aos servos cristãos lembrando-lhes a diferença entre sua condição anterior e a atual, v. 25. Eram como ovelhas desgarradas, o que representa: (1.) O pecado humano: a pessoa se desvia; isso é ato dela própria, pois não é forçada, mas se desvia voluntariamente. (2.) Sua miséria: desvia-se do pasto, do pastor e do rebanho, expondo-se assim a perigos incontáveis.
(3.) Aqui está a recuperação dessas pessoas pela conversão: “Mas agora sois reconduzidos.” O verbo está na voz passiva e mostra que o retorno do pecador é efeito da graça divina. Esse retorno é de todos os seus erros e desvios para Cristo, o verdadeiro pastor zeloso, que ama suas ovelhas e deu a vida por elas; ele é o pastor mais vigilante e o bispo, ou supervisor, das almas.
Aprenda: [1.] Antes da conversão, os pecadores estão sempre se desviando; sua vida é um erro contínuo. [2.] Jesus Cristo é o supremo pastor e bispo das almas, sempre presente com seu rebanho e atento a ele. [3.] Os que esperam o amor e o zelo desse pastor universal devem voltar para ele, morrer para o pecado e viver para a justiça.