Matthew Henry

1 João 2

Argumento

Aqui o apóstolo encoraja a resistir aos pecados de fraqueza (v. 1, 2), mostra o verdadeiro conhecimento e amor de Deus (vv. 3-6), renova o preceito do amor fraternal (vv. 7-11) e se dirige às diferentes idades dos cristãos (vv. 12-14).

Adverte contra o amor ao mundo (vv. 15-17) e contra os sedutores (v. 18, 19), mostra a segurança dos cristãos verdadeiros (vv. 20-27) e aconselha a permanecer em Cristo (v. 28, 29).

Versículos 1 a 2

Cristo, a Propiciação. (80 d.C.)

Estes versículos se relacionam ao assunto que encerra o capítulo anterior, no qual o apóstolo parte da suposição de que o cristão verdadeiro peca. Aqui, ele lhes oferece tanto dissuasão quanto apoio.

  1. Dissuasão. Ele não quer deixar espaço para o pecado: “Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis” (v. 1). O desígnio ou propósito desta carta, o desígnio do que acabei de dizer sobre a comunhão com Deus e sua ruína por uma conduta irreligiosa, é dissuadir e afastar vocês do pecado.

Reparem na forma familiar e afetuosa com que ele introduz sua admoestação: “Meus filhinhos”. Filhos talvez gerados pelo evangelho dele; filhinhos por estarem muito abaixo dele em idade e experiência; meus filhinhos por serem queridos a ele nos vínculos do evangelho. Certamente o evangelho prevaleceu mais onde e quando esse amor ministerial abundou mais.

Talvez o leitor criterioso encontre razão para pensar que o sentido desta dissuasão ou cautela do apóstolo seja este, ou equivalha a esta leitura: “Estas coisas escrevo a vocês, não para que pequem”. Assim, as palavras retomam o que ele havia dito antes a respeito do perdão seguro do pecado: “Deus é fiel e justo para nos perdoar os pecados”, etc. (1 João 1:9).

Desse modo, as palavras impedem todo abuso de tal favor e indulgência: “Embora os pecados sejam perdoados aos que os confessam com arrependimento, ainda assim escrevo isto não para encorajar vocês no pecado, mas por outro motivo”.

Ou esta cláusula pode antecipar o que o apóstolo está prestes a dizer sobre o Advogado dos pecadores. Seria, então, uma antecipação destinada a prevenir erro ou abuso semelhante: “Estas coisas escrevo a vocês, não para que pequem, mas para que conheçam o remédio para o pecado”.

Assim, a partícula seguinte, como sabem os estudiosos, pode ser traduzida em sentido adversativo: Mas, se alguém pecar, poderá conhecer seu auxílio e sua cura. E assim vemos:

II. O apoio e alívio do crente em caso de pecado: “E, ou mas, se alguém pecar” (qualquer um de nós, ou dos que desfrutam da comunhão mencionada), “temos um Advogado junto ao Pai” (v. 1). Os próprios crentes, aqueles que alcançaram o feliz estado do evangelho, ainda têm pecados.

Há, portanto, grande distinção entre os pecadores que estão no mundo. Alguns são cristianizados, isto é, estabelecidos nos privilégios sagrados e salvadores do corpo místico ou espiritual de Cristo; outros não são cristianizados. Há pecadores convertidos e não convertidos.

Há alguns que, embora de fato pequem, são considerados, em comparação com outros, como se não pecassem, conforme 1 João 3:9. Assim como os crentes recebem a aplicação da expiação quando entram num estado de perdão e justificação, também têm no céu um Advogado que mantém esse estado para eles e lhes obtém perdão contínuo.

Este deve ser o apoio, a satisfação e o refúgio dos crentes, ou cristãos verdadeiros, quando pecam ou diante de seus pecados: “Temos um Advogado”. O nome original às vezes é dado ao Espírito Santo e, então, traduzido como “Consolador”. Ele atua dentro de nós: põe argumentos e defesas em nosso coração e em nossa boca e, assim, é nosso advogado ao nos ensinar a interceder por nós mesmos.

Mas aqui se fala de um advogado fora de nós, no céu e junto ao Pai. O ofício e a função próprios de um advogado são exercidos junto ao juiz; é diante dele que o advogado defende a causa do cliente.

O Juiz diante de quem nosso Advogado defende nossa causa é o Pai, Pai dele e nosso. Aquele que era nosso Juiz no tribunal da lei, o tribunal da lei violada, é nosso Pai no tribunal do evangelho, o tribunal do céu e da graça. Seu trono, ou tribunal, é o propiciatório.

E aquele que é nosso Pai também é nosso Juiz, o árbitro supremo de nosso estado e de nossas circunstâncias, para a vida ou para a morte, para o tempo ou para a eternidade. “Vós chegastes [...] a Deus, o Juiz de todos” (Hebreus 12:23).

Para que os crentes sejam encorajados a esperar que sua causa tenha bom desfecho, assim como o Juiz lhes é apresentado na relação de Pai, também se recomenda o Advogado por estas considerações:

  1. Pela pessoa dele e por seus nomes pessoais. É Jesus Cristo, o Filho do Pai, ungido pelo Pai para todo o ofício de mediação, toda a obra de salvação e, consequentemente, a função de intercessor ou advogado.

  2. Pela qualificação dele para o ofício. É Jesus Cristo, o justo, justo no tribunal e à vista do Juiz. Isso não é tão necessário no caso de outro advogado. Um advogado diferente, ou um advogado em outro tribunal, pode ser injusto e, ainda assim, ter uma causa justa, a causa de uma pessoa justa, para defender, e pode conseguir vencer a causa.

Mas aqui os clientes são culpados; não se pode alegar sua inocência nem sua justiça legal; seu pecado deve ser confessado ou pressuposto. É a justiça do próprio Advogado que ele precisa alegar em favor dos criminosos. Ele foi justo até a morte, justo por eles; trouxe justiça eterna. O Juiz não negará isso. Com base nisso, ele argumenta para que os pecados dos clientes não lhes sejam imputados.

  1. Pela defesa que ele tem a apresentar, o fundamento e a base de sua advocacia: “E ele é a propiciação pelos nossos pecados” (v. 2). Ele é a vítima expiatória, o sacrifício propiciatório oferecido ao Juiz por todas as nossas ofensas contra sua majestade, sua lei e seu governo.

Em vão os que professam a religião de Roma distinguem entre um advogado da redenção e um advogado da intercessão, ou entre mediadores que prestariam serviços tão diferentes. O Mediador da intercessão, o Advogado por nós, é o Mediador da redenção, a propiciação pelos nossos pecados.

É sua propiciação que ele apresenta em sua defesa. Poderíamos supor que o sangue dele tivesse perdido seu valor e sua eficácia se nada se dissesse dele no céu desde que foi derramado. Mas agora vemos que ele é estimado ali, pois é continuamente representado na intercessão do grande Advogado, o procurador-geral, pela igreja de Deus.

Ele vive para sempre para interceder pelos que se aproximam de Deus por meio dele. 4. Pela extensão de sua defesa, pelo alcance de sua propiciação.

Ela não se limita a uma nação, nem especificamente ao Israel antigo de Deus: “Ele é a propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos” (não somente pelos pecados de nós, judeus, de nós, descendentes de Abraão segundo a carne), “mas também pelos pecados do mundo inteiro” (v. 2).

Ela não se destina somente aos pecados do passado nem aos de nós, crentes de agora, mas aos pecados de todos os que futuramente crerem nele ou se aproximarem de Deus por meio dele. O alcance e o propósito da morte do Mediador se estendem a todas as tribos, nações e países.

Assim como ele é a única expiação e propiciação, também é universal: por todos os que são salvos e trazidos de volta a Deus, ao seu favor e ao seu perdão.

Versículos 3 a 6

O Dever do Crente. (80 d.C.)

Estes versículos podem parecer relacionados ao versículo 7 do capítulo anterior. Entre aquele versículo e estes houve uma digressão sobre o dever do crente e o alívio em caso de pecado, motivada pela menção de um dos privilégios do crente: ser purificado do pecado pelo sangue do Mediador.

Naquele versículo, o apóstolo afirma a consequência benéfica de andar na luz: “Temos comunhão uns com os outros”, uma comunhão tão divina que é privilégio da igreja de Cristo. Agora vem a prova, ou teste, de nossa luz e de nosso amor.

I. A prova de nossa luz: “E nisto sabemos que o conhecemos: se guardarmos os seus mandamentos” (v. 3). A luz e o conhecimento divinos são a beleza e o desenvolvimento da mente; convém que os discípulos do Mediador sejam pessoas sábias e instruídas.

Os cristãos jovens tendem a exaltar sua nova luz e louvar o próprio conhecimento, sobretudo quando o receberam de repente ou em pouco tempo. Os mais velhos duvidam da suficiência e plenitude de seu conhecimento; lamentam conhecer tão pouco a Deus, a Cristo e o rico conteúdo do evangelho. Mas esta é a prova de que nosso conhecimento é genuíno: ele nos constrange a guardar os mandamentos de Deus.

Cada perfeição de sua natureza reforça sua autoridade; a sabedoria de seus desígnios, as riquezas de sua graça e a grandeza de suas obras recomendam sua lei e seu governo. Uma obediência cuidadosa e conscienciosa aos mandamentos dele mostra que a percepção e o conhecimento dessas coisas foram impressos pela graça na alma.

Portanto, deve-se concluir o contrário: “Aquele que diz: Eu o conheço e não guarda os seus mandamentos é mentiroso, e nele não está a verdade” (v. 4).

Os que professam a verdade muitas vezes se envergonham da própria ignorância, ou de reconhecê-la; com frequência alegam ter grande conhecimento dos mistérios divinos: Gloriam-se em Deus, conhecem a sua vontade e aprovam, segundo o juízo racional, as coisas mais excelentes; instruídos pela lei, confiam ser (ou estar aptos a ser) guias dos cegos, etc. (Romanos 2:17 em diante).

Mas que conhecimento de Deus pode ser esse, se não reconhece que ele merece a mais completa e intensa obediência? E, se isso é reconhecido e conhecido, quão vão e superficial é até mesmo esse conhecimento quando não move o coração à obediência! Uma vida desobediente desmente e envergonha a pretensa instrução religiosa; contradiz tais alegações e mostra que nelas não há religião nem honestidade.

II. A prova de nosso amor: “Mas aquele que guarda a sua palavra, nele verdadeiramente o amor de Deus está aperfeiçoado; nisto sabemos que estamos nele” (v. 5). Guardar a palavra de Deus, ou de Cristo, é observá-la reverentemente em toda a conduta e em cada movimento da vida. Naquele que assim procede, o amor de Deus está aperfeiçoado.

Talvez alguns entendam aqui que se trata do amor de Deus por nós; sem dúvida, o amor dele por nós não pode ser aperfeiçoado, ou alcançar seu propósito e fruto perfeitos, sem que pratiquemos sua palavra.

Somos escolhidos para ser santos e irrepreensíveis diante dele em amor; somos redimidos para ser um povo exclusivo, zeloso de boas obras; somos perdoados e justificados para participar de medidas maiores do Espírito divino, que nos santifica; somos santificados para andar em caminhos de santidade e obediência.

Nenhum ato de amor divino que se dirige a nós alcança sua tendência, seu resultado e seu efeito próprios sem que observemos com santidade a palavra de Deus. Mas a expressão aqui parece indicar antes nosso amor a Deus; assim também no versículo 15: “O amor do Pai não está nele”; e em 1 João 3:17: “Como permanece nele o amor de Deus?”

A luz deve acender o amor, e o amor deve guardar, e de fato guardará, a palavra de Deus. O amor pergunta como pode agradar e servir ao amado e, ao descobrir que isso se faz observando a vontade declarada dele, dedica-se a essa observância e nela se expressa. Ali o amor se demonstra; ali encontra seu exercício, sua atuação e seu deleite completos.

E nisto, por essa observância obediente da vontade de Deus ou de Cristo, sabemos que estamos nele (v. 5); sabemos que pertencemos a ele e estamos unidos a ele pelo Espírito que nos eleva e ajuda a obedecer.

Se reconhecemos nossa relação com ele e nossa união com ele, isso deve impor continuamente esta obrigação: “Aquele que diz que permanece nele deve também andar como ele andou” (v. 6). O Senhor Cristo habitou neste mundo e andou aqui embaixo; aqui deu um exemplo resplandecente de obediência absoluta a Deus.

Os que professam estar do lado dele e permanecer com ele devem andar com ele, seguindo seu padrão e exemplo. Os partidários das diversas escolas dos antigos filósofos davam grande atenção aos ensinamentos e à prática de seus respectivos mestres e chefes de escola.

Muito mais deve fazer o cristão, aquele que professa permanecer em Cristo e com Cristo: deve procurar imitar seu Mestre e Cabeça infalível e conformar-se à conduta e às prescrições dele. “Vós sois meus amigos, se fizerdes tudo o que vos mando” (João 15:14).

Versículos 7 a 11

A Lei do Amor. (80 d.C.)

Pode-se entender que o versículo 7 retoma o que acabou de ser dito, caso em que andar como Cristo andou é apresentado aqui como mandamento antigo, não novo: é algo que os apóstolos certamente ensinariam onde quer que anunciassem o evangelho de Cristo. Ou pode-se entender que o versículo antecipa o que o apóstolo está prestes a recomendar: a lei do amor fraternal.

Essa é a mensagem ouvida desde o princípio (1 João 3:11) e o mandamento antigo (2 João 5).

Ao começar a recomendar essa prática, o apóstolo está pronto a dar um exemplo dela na forma afetuosa com que se dirige aos leitores: “Irmãos, vocês que me são queridos no vínculo desse amor ao qual os exorto”. Assim, recomenda-se o preceito do amor fraternal:

I. Como antigo: “Não escrevo a vocês um mandamento novo, mas um mandamento antigo, que vocês tiveram desde o princípio” (v. 7). O preceito do amor deve ser tão antigo quanto a natureza humana, embora possa receber diferentes determinações, reforços e motivos.

No estado de inocência, se a natureza humana tivesse então se multiplicado, as pessoas deveriam amar umas às outras por serem do mesmo sangue, feitas para habitar a terra, descendentes de Deus e portadoras de sua imagem. No estado de pecado e de recuperação prometida, deveriam amar umas às outras por serem ligadas a Deus, seu Criador, unidas entre si pelo sangue e participantes da mesma esperança.

Quando os hebreus foram especialmente constituídos como povo, deveriam amar uns aos outros por serem o povo privilegiado, a quem pertenciam as alianças e a adoção e de cuja linhagem viriam o Messias e o Cabeça da igreja. A lei do amor deveria, então, ser imposta com novas obrigações ao novo Israel de Deus, a igreja do evangelho.

Assim, é o mandamento antigo, ou a palavra que os filhos do Israel do evangelho ouviram desde o princípio (v. 7).

II. Como novo: “Novamente, para constranger vocês ainda mais a esse dever, escrevo-lhes um mandamento novo”, a lei da nova sociedade, da comunidade cristã. “O que é verdadeiro nele”: a realidade dessa lei se manifestou primeiro no Cabeça da comunidade e a verdade dela esteve nele desde o princípio e em abundância. Ele amou a igreja e se entregou por ela.

“E é verdadeiro em vocês”: essa lei está escrita, em alguma medida, no coração de vocês. Deus os ensina a amar uns aos outros porque, ou visto que, “as trevas se foram”, as trevas das mentes preconceituosas e não convertidas de vocês, fossem judeus ou gentios, a deplorável ignorância de Deus e de Cristo, já passaram, “e a verdadeira luz agora brilha” (v. 8).

A luz da revelação evangélica brilhou com vida e eficácia em seu coração; por isso vocês viram a excelência do amor cristão e a obrigação fundamental de praticá-lo. Vemos, portanto, que os fundamentos, particularmente os preceitos fundamentais da religião cristã, podem ser apresentados tanto como novos quanto como antigos.

A doutrina reformada, ou a doutrina da religião ensinada nas igrejas reformadas, é nova e antiga: nova por ter sido ensinada depois de longa escuridão, pelas luzes da Reforma, e por ter sido purificada das corrupções de Roma; antiga por ter sido ensinada e ouvida desde o princípio.

Devemos cuidar para que a graça ou virtude que era verdadeira em Cristo também seja verdadeira em nós; devemos conformar-nos ao nosso Cabeça. Quanto mais nossas trevas se vão e a luz do evangelho brilha para nós, mais profunda deve ser nossa submissão aos mandamentos de nosso Senhor, considerados antigos ou novos. A luz deve produzir o calor correspondente.

Assim, temos aqui outra prova de nossa luz cristã: antes, ela devia ser aprovada pela obediência a Deus; aqui, pelo amor cristão. 1. Quem não tem esse amor alega sua luz em vão: “Aquele que diz estar na luz e odeia seu irmão está nas trevas até agora” (v. 9).

É próprio dos cristãos sinceros reconhecer o que Deus fez por sua alma. Mas na igreja visível há muitas vezes quem atribua a si mais do que é verdade; há quem diga estar na luz, como se a revelação divina tivesse marcado sua mente e seu espírito, mas ainda ande em ódio e hostilidade contra os irmãos cristãos.

Essas pessoas não se deixam mover pelo sentimento do amor de Cristo por seus irmãos e, por isso, permanecem em seu estado sombrio, apesar da conversão que alegam à religião cristã.

  1. Quem é governado por esse amor demonstra que sua luz é boa e verdadeira: “Aquele que ama seu irmão” como irmão em Cristo “permanece na luz” (v. 10). Vê o fundamento e a razão do amor cristão; percebe o peso e o valor da redenção cristã; vê como é apropriado amar aqueles a quem Cristo amou.

A consequência será que “nele não há tropeço” (v. 10): ele não será escândalo nem pedra de tropeço para seu irmão.

Com consciência, ele terá cuidado para não induzir seu irmão ao pecado nem desviá-lo do caminho da religião. O amor cristão nos ensina a dar grande valor à alma de nosso irmão e a temer tudo o que possa prejudicar sua inocência e sua paz.

  1. O ódio é sinal de escuridão espiritual: “Mas aquele que odeia seu irmão está nas trevas” (v. 11). A luz espiritual é implantada pelo Espírito da graça, e um dos primeiros frutos desse Espírito é o amor. Portanto, quem está tomado de maldade contra um irmão cristão necessariamente carece de luz espiritual.

Por consequência, anda nas trevas (v. 11); sua vida corresponde a uma mente e a uma consciência sombrias, e ele não sabe para onde vai. Não vê aonde esse espírito sombrio o conduz, sobretudo que o levará ao mundo de trevas absolutas, “porque as trevas lhe cegaram os olhos” (v. 11).

A escuridão da falta de regeneração, evidenciada por um espírito malévolo, é contrária à luz da vida. Onde essa escuridão habita, a mente, o juízo e a consciência ficam obscurecidos e se enganam quanto ao caminho para a vida celestial e eterna.

Podemos observar como nosso apóstolo foi completamente curado de seu espírito antes ardente e inflamado. Houve um tempo em que quis pedir que descesse fogo do céu sobre os samaritanos pobres e ignorantes que não os receberam (Lucas 9:54). Mas seu Senhor lhe mostrara que ele não conhecia o próprio espírito nem para onde este o levava.

Agora que absorveu mais do Espírito de Cristo, ele exala boa vontade para com as pessoas e amor por todos os irmãos. O Senhor Jesus é o grande Mestre do amor; sua escola, sua própria igreja, é a escola do amor. Seus discípulos são discípulos do amor, e sua família deve ser a família do amor.

Versículos 12 a 17

Contra o Amor ao Mundo. (80 d.C.)

Este novo mandamento de amor santo, com os motivos que o acompanham, talvez se dirija às diferentes categorias de discípulos aqui interpeladas. Os diversos graus da universidade cristã, a igreja universal, devem preservar o vínculo do amor sagrado.

Ou, como está para vir uma advertência importante contra o amor ao mundo, sem a qual não subsistem a religião vital nem o amor a Deus e aos irmãos, o apóstolo pode introduzi-la com uma solene exortação às classes da escola de Cristo: que crianças, adultos e idosos (ou adepti, os teleioi, os mais perfeitos) da instituição cristã saibam que não devem amar este mundo. E assim:

I. Temos aqui a exortação dirigida às diferentes classes e posições na igreja de Cristo. Nem todos os cristãos têm o mesmo tempo de caminhada e a mesma estatura: há crianças em Cristo, homens adultos e discípulos idosos.

Como cada grupo tem seu estado próprio, também tem seus deveres próprios; mas há preceitos e obediência correspondente comuns a todos, em especial o amor mútuo e o desprezo pelo mundo.

Vemos também que pastores sábios distribuirão com discernimento a palavra da vida e darão a cada membro da família de Cristo a porção apropriada: “Escrevo a vocês, filhos, pais e jovens”. Nessa distribuição, o apóstolo se dirige:

  1. Aos que ocupam a posição mais baixa na escola cristã: “Escrevo a vocês, filhinhos” (v. 12). Há noviços na religião, crianças em Cristo, pessoas que estão aprendendo os rudimentos da piedade cristã.

O apóstolo parece encorajá-las por dirigir-se a elas primeiro; e pode ser útil aos mais avançados ouvir o que se diz aos mais novos. Os elementos devem ser repetidos; os princípios iniciais são o fundamento de tudo.

Ele se dirige aos filhos na fé cristã por dois motivos: (1) Porque os pecados deles foram perdoados por causa do nome de Cristo (v. 12). O discípulo sincero mais jovem é perdoado; a comunhão dos santos é acompanhada pelo perdão dos pecados.

Os pecados são perdoados por causa do nome de Deus, para louvor de sua glória, isto é, de suas gloriosas perfeições manifestas no perdão, ou por causa do nome de Cristo, por consideração a ele e à redenção que nele há. Os que Deus perdoou têm forte obrigação de abandonar este mundo, que interfere tanto no amor a Deus.

(2) Por causa do conhecimento que têm de Deus: “Escrevo a vocês, filhinhos, porque conheceram o Pai” (v. 13). As crianças costumam conhecer primeiro o pai. Os filhos na fé cristã devem e de fato conhecem a Deus. “Todos me conhecerão, desde o menor até o maior” (Hebreus 8:11).

Os filhos em Cristo devem saber que Deus é seu Pai; isso é sabedoria para eles. Dizemos que sábia é a criança que conhece o pai. Estes filhos não podem deixar de conhecer o seu: podem ter plena certeza de por cujo poder foram regenerados e por cuja graça foram adotados. Os que conhecem o Pai bem podem ser afastados do amor a este mundo. Em seguida, o apóstolo prossegue:

  1. Àqueles que ocupam a posição mais elevada e têm maior estatura, os mais experientes na vida cristã, a quem dá um título honroso: “Escrevo a vocês, pais” (v. 13, 14), a vocês, Mnasons, discípulos idosos (Atos 21:16).

O apóstolo passa imediatamente da base ao topo da escola, da classe mais baixa à mais alta, para que os que estão no meio ouçam ambas as lições, se lembrem do que aprenderam e percebam aonde devem chegar: “Escrevo a vocês, pais”.

Os que há mais tempo frequentam a escola de Cristo precisam de mais conselhos e instrução; o discípulo mais velho deve ir para o céu, a universidade do alto, com seu livro, a Bíblia, na mão. É preciso escrever e pregar aos pais; ninguém é velho demais para aprender.

Ele lhes escreve por causa de seu conhecimento: “Escrevo a vocês, pais, porque conheceram aquele que é desde o princípio” (v. 13, 14). Os idosos têm conhecimento e experiência e esperam que lhes deem consideração. O apóstolo está pronto a reconhecer o conhecimento dos cristãos idosos e a felicitá-los por isso.

Eles conhecem o Senhor Cristo, especialmente aquele que era desde o princípio, como em 1 João 1:1. Assim como Cristo é o Alfa e o Ômega, também deve ser o princípio e o fim de nosso conhecimento cristão. “Considero tudo como perda, por causa da excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Filipenses 3:8).

Os que conhecem aquele que era desde o princípio, antes da criação deste mundo, bem podem ser levados por isso a abandonar o mundo. Então:

  1. Aos cristãos de meia-idade, aos que estão no vigor e no florescer da vida: “Escrevo a vocês, jovens” (v. 13, 14). Há adultos em Cristo Jesus, que alcançaram vigor de espírito e bom senso e conseguem discernir entre o bem e o mal.

O apóstolo se dirige a eles por estes motivos: (1) Por suas proezas na guerra. São soldados hábeis no acampamento de Cristo: “Porque venceram o Maligno” (v. 13). Há um Maligno que guerreia continuamente contra as almas, particularmente contra os discípulos. Mas os que foram bem ensinados na escola de Cristo sabem manejar as armas e vencer o Maligno.

E os que conseguem vencê-lo podem ser chamados a vencer também o mundo, que é instrumento tão importante do diabo. (2) Por causa da força que demonstraram nessa conquista: “Porque vocês são fortes e venceram o Maligno” (v. 14).

Os jovens costumam se gloriar da força. Será motivo de glória para os jovens serem fortes em Cristo e em sua graça; isso será sua glória e porá à prova sua força: vencer o diabo. Se não forem mais fortes que o diabo, ele será mais forte que eles.

Que os cristãos vigorosos mostrem sua força vencendo o mundo; para vencê-lo, devem exercer a mesma força que empregam para vencer o diabo. (3) Por causa da familiaridade que têm com a palavra de Deus: “E a palavra de Deus permanece em vocês” (v. 14).

A palavra de Deus deve permanecer nos discípulos adultos; ela os nutre e lhes fornece força. É a arma com que vencem o Maligno, a espada do Espírito com que apagam suas setas inflamadas. Os que têm a palavra de Deus habitando neles estão bem preparados para vencer o mundo.

II. Temos aqui a exortação para dissuadir do pecado, assim introduzida: uma advertência fundamental para a religião prática e vital: “Não ameis o mundo, nem as coisas que há no mundo” (v. 15). Estejam crucificados para o mundo; mortifiquem as coisas, os assuntos e as seduções dele.

Os cristãos de todos os graus devem unir-se nisso: em estar mortos para o mundo. Se estivessem assim unidos, logo também se uniriam por outros motivos. O amor de vocês deve ser reservado a Deus; não o desperdicem com o mundo.

Vemos aqui os motivos desta exortação e advertência. São vários, e precisam ser: é difícil discutir com os próprios discípulos para dissuadi-los do amor ao mundo. Os motivos são estes:

  1. Esse amor é incompatível com o amor a Deus: “Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (v. 15). O coração humano é estreito e não pode conter os dois amores. O mundo afasta de Deus o coração; assim, quanto mais prevalece o amor ao mundo, mais o amor a Deus diminui e enfraquece.

  2. O amor ou a cobiça mundana é proibido; não foi ordenado por Deus: “Não provém do Pai, mas do mundo” (v. 16). Esse amor ou cobiça não foi determinado por Deus, que nos chama a abandoná-lo; ele se intromete por meio do mundo, que usurpa nossas afeições.

Devemos considerar corretamente o mundo e entendê-lo de modo que possamos crucificá-lo e renunciar a ele. Considerado fisicamente, o mundo é bom e deve ser admirado como obra de Deus e espelho em que brilham suas perfeições. Mas devemos considerá-lo em sua relação conosco, agora em nosso estado corrompido, e conforme atua sobre nossa fraqueza e instiga e inflama nossas afeições vis.

Há grande afinidade e aliança entre este mundo e a carne. O mundo se intromete e invade o domínio da carne e, assim, forma uma facção contra Deus. Portanto, as coisas do mundo se dividem em três classes, conforme as três inclinações predominantes da natureza depravada:

(1) A cobiça da carne. Aqui, a carne, distinta dos olhos e da vida, significa o corpo. Em sentido subjetivo, a cobiça da carne é o humor e o apetite de ceder aos prazeres carnais; em sentido objetivo, são todas as coisas que despertam e inflamam esses prazeres. Essa cobiça costuma ser chamada de luxúria.

(2) A cobiça dos olhos. Os olhos se deleitam com tesouros; riquezas e propriedades valiosas são desejadas por um olhar extravagante. Essa é a cobiça.

  1. A soberba da vida. Uma mente vaidosa deseja toda a grandeza, o aparato e o esplendor de uma vida orgulhosa. Isso é ambição e sede de honra e aplauso. Em parte, é também a doença do ouvido: ele precisa ser bajulado com admiração e elogios.

Devemos abandonar e renunciar aos objetos desses apetites. Como envolvem e absorvem as afeições e os desejos, “não provêm do Pai, mas do mundo” (v. 16). O Pai os desaprova, e o mundo deve guardá-los para si. O desejo ou apetite por essas coisas deve ser mortificado e subjugado; ceder a ele, portanto, não foi ordenado pelo Pai, mas é uma sugestão do mundo que nos enreda.

  1. O estado vão e passageiro das coisas terrenas e do prazer que proporcionam: “O mundo passa, e também a sua cobiça” (v. 17). As coisas do mundo desaparecem depressa. A cobiça e seu prazer murcham; em breve o próprio desejo falhará e cessará (Eclesiastes 12:5). E o que restou de todo o esplendor e prazer daqueles que agora jazem se desfazendo na sepultura?

  2. A imortalidade de quem ama o divino, de quem ama a Deus: “Mas aquele que faz a vontade de Deus”, e deve ser assim caracterizado quem ama a Deus, em oposição a quem ama o mundo, “permanece para sempre” (v. 17).

O objeto de seu amor, em oposição ao mundo que passa, permanece para sempre; sua paixão ou afeição sagrada, em oposição à cobiça que passa, permanece para sempre. O amor jamais falhará. E ele próprio é herdeiro da imortalidade e da vida sem fim e, no tempo devido, será levado para lá.

De todo este trecho devemos observar a pureza e a espiritualidade da doutrina apostólica. A vida animal deve submeter-se à divina; o corpo e suas afeições devem ser governados pela religião, ou pelo amor vitorioso a Deus.

Versículos 18 a 19

A Respeito do Anticristo. (80 d.C.)

I. Temos aqui uma previsão moral daquele tempo: o fim está chegando. “Filhinhos, é a última hora” (v. 18). Alguns podem supor que o apóstolo se dirige novamente à primeira categoria de cristãos: os mais novos são os mais propensos a ser seduzidos e, por isso, “Filhinhos, vós que sois novos na religião, guardai-vos de ser corrompidos”.

Mas talvez, como em outros lugares, seja uma forma universal de tratamento, que introduz um alerta a todos os cristãos: “Filhinhos, é a última hora; nossa ordem judaica, na igreja e no Estado, está chegando ao fim; a instituição e a disciplina mosaicas estão prestes a desaparecer”.

“As semanas de Daniel estão expirando. Aproxima-se a destruição da cidade e do santuário hebreus, cujo fim virá como uma inundação, e até o fim da guerra estão determinadas desolações” (Daniel 9:26).

Convém que os discípulos sejam avisados de que o tempo está se abreviando e chegando ao fim e que, na medida do possível, sejam informados dos períodos proféticos.

II. O sinal desta última hora: “Já agora há muitos anticristos” (v. 18), muitos que se opõem à pessoa, à doutrina e ao reino de Cristo. É uma parte misteriosa da providência que se permita a existência de anticristos; mas, quando surgem, é bom e seguro que os discípulos sejam informados deles. Os ministros devem ser atalaias da casa de Israel.

A existência desses anticristos não deve causar grande ofensa nem prejuízo aos discípulos: 1. A vinda de um grande anticristo foi predita: “Como ouvistes que o anticristo virá” (v. 18). A igreja em geral foi informada por revelação divina de que haveria um adversário duradouro e fatal para Cristo e sua igreja (2 Tessalonicenses 2:8-10).

Não admira, então, que haja muitos arautos e precursores desse grande adversário: “Já agora há muitos anticristos”; o mistério da iniquidade já opera. 2. Eles também foram preditos como sinal desta última hora. “Surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios; de modo que, se fosse possível, enganariam até os escolhidos” (Mateus 24:24).

Estes eram precursores da dissolução do Estado, da nação e da religião judaicos. “Por isso sabemos que é a última hora” (v. 18). Que a predição que vemos cumprida, de sedutores surgindo no mundo cristão, nos fortaleça contra a sedução deles.

III. Um relato desses sedutores ou anticristos. 1. De modo mais afirmativo: eles já haviam acolhido ou professado a doutrina apostólica: “Saíram de nós” (v. 19), da nossa companhia e comunhão. Talvez viessem da igreja de Jerusalém ou de alguma igreja da Judeia, como em Atos 15:1: “Alguns homens desceram da Judeia e ensinaram os irmãos”, etc.

Até as igrejas mais puras podem ter apóstatas e revoltosos; a doutrina apostólica não converteu todos os que convenceu de sua verdade. 2. De modo mais reservado: “Interiormente não eram como nós; não eram dos nossos; não haviam obedecido de coração ao modelo de sã doutrina que lhes foi entregue; não estavam unidos a Cristo, o Cabeça”.

Então temos aqui: (1) O motivo pelo qual se conclui que não eram dos nossos, não eram o que alegavam ser nem o que nós somos: a apostasia efetiva deles. “Porque, se fossem dos nossos, sem dúvida teriam permanecido conosco” (v. 19).

Se a verdade sagrada tivesse criado raízes no coração deles, os teria mantido conosco; se tivessem recebido a unção do alto, pela qual se tornariam cristãos verdadeiros e genuínos, não teriam se transformado em anticristos.

Os que apostatam da religião indicam suficientemente que antes eram hipócritas nela; os que absorveram o espírito da verdade do evangelho têm boa proteção contra o erro destrutivo. (2) O motivo pelo qual se permite que abandonem a doutrina e a comunhão apostólicas: para que sua falta de sinceridade seja descoberta.

“Mas isso aconteceu, ou eles saíram, para que se manifestasse que nem todos eram dos nossos” (v. 19). A igreja não sabe bem quem são seus membros vitais e quem não são; por isso a igreja, considerada como internamente santificada, pode muito bem ser chamada invisível.

Alguns hipócritas precisam ser expostos aqui, para vergonha e benefício deles também, ao serem reconduzidos à verdade, se não pecaram para a morte, e para terror e cautela dos demais: “Vós, portanto, amados, já que sabeis de antemão estas coisas, guardai-vos de que também não sejais levados pelo erro dos perversos e caiais da vossa própria firmeza. Mas crescei na graça”, etc. (2 Pedro 3:17, 18).

Versículos 20 a 27

A Respeito do Anticristo. (80 d.C.)

I. O apóstolo encoraja os discípulos a quem escreve nestes tempos perigosos, nesta hora de sedutores. Encoraja-os com a certeza de que permanecerão firmes neste dia de apostasia: “Mas vós tendes uma unção da parte do Santo e sabeis todas as coisas”. Vemos aqui:

  1. A bênção com que foram enriquecidos, um unguento do céu: “Vocês têm uma unção”. Os cristãos verdadeiros são ungidos; o nome deles sugere isso. São ungidos com o óleo da graça, com dons e capacidades espirituais, pelo Espírito da graça. São ungidos para se parecerem com Cristo em seus ofícios, como profetas, sacerdotes e reis subordinados a Deus.

O Espírito Santo é comparado ao óleo, assim como ao fogo e à água; a comunicação de sua graça salvadora é nossa unção. 2. De quem vem essa bênção: “Da parte do Santo”, seja o Espírito Santo, seja o Senhor Cristo, como em Apocalipse 3:7: “Isto diz aquele que é santo”, o Santo.

O Senhor Cristo é glorioso em santidade. Ele distribui as graças do Espírito e unge os discípulos para torná-los semelhantes a si e firmá-los em sua causa. 3. Essa unção é colírio espiritual que ilumina e fortalece o entendimento: “Por meio dela, conhecem todas as coisas” (v. 20), tudo sobre Cristo e sua religião; foi prometida e dada para esse fim (João 14:26).

O Senhor Cristo não trata igualmente todos os que o professam seguir; alguns são mais ungidos do que outros. Há grande perigo de que os que não são assim ungidos, longe de serem fiéis a Cristo, se tornem anticristos e adversários da pessoa, do reino e da glória de Cristo.

II. O apóstolo lhes indica o propósito e a intenção com que lhes escreveu. 1. Por negação, não por suspeitar do conhecimento deles nem por supor que ignorassem as grandes verdades do evangelho: “Não vos escrevi porque não conheceis a verdade” (v. 21). Nesse caso, eu não poderia estar tão seguro de que permaneceriam firmes nela, nem felicitá-los por sua unção do alto.

É bom ter uma opinião favorável dos irmãos cristãos. Devemos mantê-la até que a evidência a derrube. Uma confiança justa nas pessoas religiosas pode tanto encorajá-las quanto contribuir para sua fidelidade.

  1. Por afirmação e reconhecimento, confiando no discernimento deles nessas coisas: “Mas porque a conheceis” (conhecem a verdade em Jesus) “e sabem que mentira alguma vem da verdade”. Os que conhecem a verdade em algum aspecto estão, por isso, preparados para discernir o que lhe é contrário e incompatível.

Rectum est index sui et obliqui: a linha que mostra ser reta também mostra qual linha é torta. A verdade e a falsidade não se misturam nem combinam bem. Os que conhecem bem a verdade cristã ficam, assim, bem protegidos contra o erro e o engano anticristãos.

Nenhuma mentira pertence à religião, natural ou revelada. Os apóstolos condenavam sobretudo as mentiras e mostravam sua incompatibilidade com a doutrina deles; teriam sido as pessoas mais prontas a se condenar se tivessem propagado a verdade por meio de mentiras.

A religião cristã merece elogio por concordar tão bem com a religião natural, que é seu fundamento, e com a religião judaica, que continha seus elementos e rudimentos. Mentira alguma vem da verdade; portanto, fraudes e imposturas são meios muito impróprios para apoiar e propagar a verdade.

Creio que o estado da religião teria sido melhor se nunca tivessem sido usadas. O resultado delas aparece na incredulidade de nossa época: a descoberta de antigas fraudes e artimanhas piedosas quase levou nossa época ao ateísmo e à irreligião. Mas os maiores protagonistas e sofredores em favor da revelação cristã nos assegurariam que mentira alguma vem da verdade.

III. O apóstolo também acusa e leva a julgamento esses sedutores que haviam surgido recentemente. 1. São mentirosos, opositores notórios da verdade sagrada: “Quem é mentiroso, ou o mentiroso, o notório mentiroso do tempo e da época em que vivemos, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?”

As grandes e perniciosas mentiras que o pai das mentiras, ou dos mentirosos, espalha pelo mundo desde os tempos antigos costumam ser falsidades e erros acerca da pessoa de Cristo. Não há verdade tão sagrada e plenamente atestada que alguém não contradiga ou negue.

Que Jesus de Nazaré era o Filho de Deus foi atestado pelo céu, pela terra e pelo inferno. Parece que alguns, por um juízo tremendo de Deus, são entregues a fortes enganos. 2. São inimigos diretos de Deus, assim como do Senhor Cristo: “É anticristo aquele que nega o Pai e o Filho” (v. 22).

Quem se opõe a Cristo nega o testemunho e o atestado do Pai, bem como o selo que ele deu ao Filho: “A este Deus, o Pai selou” (João 6:27).

Quem nega o testemunho do Pai a respeito de Jesus Cristo nega que Deus seja o Pai do Senhor Jesus Cristo e, consequentemente, abandona o conhecimento de Deus em Cristo e toda a revelação de Deus em Cristo, especialmente a de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo.

Por isso o apóstolo pode concluir com razão: “Todo aquele que nega o Filho também não tem o Pai” (v. 23). Não tem o verdadeiro conhecimento do Pai, pois o Filho foi quem melhor e mais o revelou; não tem participação no Pai, em seu favor, em sua graça e em sua salvação, pois ninguém chega ao Pai senão pelo Filho.

Mas, como acrescentam alguns manuscritos, “quem confessa o Filho tem também o Pai” (v. 23). Assim como há relação íntima entre o Pai e o Filho, há união inviolável na doutrina, no conhecimento e nos interesses de ambos. Portanto, quem conhece o Filho e tem direito a ele também conhece o Pai e tem direito a ele.

Os que se apegam à revelação cristã preservam também a luz e o benefício da religião natural.

IV. Por isso, o apóstolo aconselha e persuade os discípulos a permanecer na antiga doutrina que lhes foi comunicada no princípio: “Permaneça, pois, em vós aquilo que ouvistes desde o princípio” (v. 24). A verdade é mais antiga que o erro. A verdade a respeito de Cristo, entregue no princípio aos santos, não deve ser trocada por novidades.

Os apóstolos tinham tanta certeza da verdade do que haviam transmitido a respeito de Cristo e recebido dele que, depois de todo o trabalho e sofrimento, não estavam dispostos a abandoná-la. A verdade cristã pode alegar antiguidade e ser recomendada por isso. Esta exortação é reforçada pelas considerações seguintes:

  1. A vantagem sagrada que receberão por permanecer na verdade e na fé primitivas. (1) Assim permanecerão em santa união com Deus e Cristo: “Se permanecer em vós aquilo que ouvistes desde o princípio, também permanecereis no Filho e no Pai” (v. 24).

É a verdade de Cristo que permanece em nós que nos separa do pecado e nos une ao Filho de Deus (João 15:3, 4). O Filho é o meio, ou Mediador, pelo qual somos unidos ao Pai. Quanto valor, então, devemos dar à verdade do evangelho!

(2) Assim assegurarão a promessa da vida eterna: “E esta é a promessa que ele, isto é, Deus Pai (1 João 5:11), nos fez: a vida eterna” (v. 25). Grande é a promessa que Deus faz aos que permanecem fiéis a ele. Ela corresponde à própria grandeza, ao poder e à bondade dele. É a vida eterna, que só Deus pode dar.

O Deus bendito dá grande valor ao Filho e à verdade a respeito dele, pois se agrada em prometer vida eterna aos que permanecem nessa verdade, sob sua luz, poder e influência. A exortação acima é, então, reforçada:

  1. Pelo propósito da carta do apóstolo. A carta visa fortalecê-los contra os enganadores daquele tempo: “Estas coisas vos escrevi a respeito dos que vos seduzem” (v. 26). Portanto, se não permanecerem no que ouviram desde o princípio, meu trabalho e meu serviço terão sido em vão.

Devemos cuidar para que as cartas apostólicas, sim, para que toda a Escritura de Deus não se tornem insignificantes e infrutíferas para nós: “Escrevi para ele as grandezas da minha lei”, e também do meu evangelho, “mas foram consideradas coisa estranha” (Oseias 8:12).

  1. Pela bênção instrutiva que receberam do céu: “Mas a unção que vocês receberam dele permanece em vocês” (v. 27). Os cristãos verdadeiros têm uma confirmação interior da verdade divina que assimilaram: o Espírito Santo a imprimiu em sua mente e em seu coração.

Convém que o Senhor Jesus tenha uma testemunha constante no coração de seus discípulos. A unção, o derramamento dos dons da graça sobre os discípulos sinceros, é um selo da verdade e da doutrina de Cristo, pois ninguém além de Deus pode dar esse selo. “Aquele que nos estabelece convosco em Cristo e nos ungiu é Deus” (2 Coríntios 1:21).

Este sagrado crisma, ou unção divina, é recomendado por estes motivos: (1) É duradouro e permanente; o óleo, ou unguento, não seca tão depressa quanto a água: “Permanece em vocês” (v. 27). A iluminação divina, para que confirme a fé, deve ser contínua e constante. Surgem tentações, armadilhas e seduções; a unção deve permanecer.

(2) É melhor que a instrução humana: “E vocês não precisam que alguém os ensine” (v. 27). Isso não significa que essa unção ensinará sem o ministério instituído. Poderia fazê-lo, se Deus assim quisesse, mas não o fará; ainda assim, ensinará melhor do que nós: “E vocês não precisam que alguém os ensine” (v. 27).

Vocês foram instruídos por nós antes de ser ungidos; mas agora nosso ensino nada é em comparação com isso. “Quem ensina como ele?” (Jó 36:22). A unção divina não substitui o ensino ministerial, mas o supera.

(3) É prova segura da verdade, e tudo o que ensina é verdade infalível: “Mas, como a mesma unção ensina vocês a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira” (v. 27). O Espírito Santo necessariamente é o Espírito da verdade, como é chamado em João 14:17.

O ensino e a iluminação que ele concede necessariamente pertencem à verdade e procedem dela. O Espírito da verdade não mente; e ensina todas as coisas, isto é, tudo o que cabe à presente dispensação, tudo o que é necessário saber sobre Deus em Cristo e a glória deles no evangelho.

(4) Exerce influência preservadora: guardará contra os sedutores e sua sedução aqueles em quem permanece. “E, assim como ela os ensinou, vocês permanecerão nele” (v. 27). Ela os ensina a permanecer em Cristo e, conforme os ensina, os protege; impõe um freio à mente e ao coração para que não se revoltem contra ele.

E aquele que nos ungiu é Deus, que também nos selou para si e nos deu a garantia do Espírito em nosso coração (2 Coríntios 1:21, 22).

Versículo 28

A Segunda Vinda de Cristo. (80 d.C.)

Da bênção da unção sagrada, o apóstolo passa a aconselhar e exortar à constância em Cristo e com Cristo: “E agora, filhinhos, permanecei nele” (v. 28). O apóstolo repete o tratamento afetuoso, filhinhos, que, suponho, indica menos a pequenez deles do que o afeto dele; por isso, julgo que pode ser traduzido como queridos filhos.

Ele quer persuadir pelo amor e conquistar pelo carinho, além da razão: “Não só o amor de Cristo, mas também o amor que temos por vocês nos constrange a inculcar sua perseverança, para que permaneçam nele, na verdade a respeito de sua pessoa, em união com ele e em lealdade a ele”.

Os privilégios do evangelho obrigam aos deveres do evangelho; os que o Senhor Jesus ungiu têm forte obrigação de permanecer com ele contra quaisquer adversários.

Este dever de perseverança e constância em tempos difíceis é fortemente recomendado por duas considerações: 1. A volta de Cristo no grande dia do juízo: “Para que, quando ele se manifestar, tenhamos confiança e não sejamos envergonhados diante dele na sua vinda” (v. 28).

Aqui se dá por certo que o Senhor Jesus voltará. Isso fazia parte da verdade que ouviram desde o princípio. Quando vier outra vez, aparecerá publicamente e será manifesto a todos. Na primeira vez, veio de modo reservado, comparativamente: saiu do ventre e foi colocado numa estrebaria.

Mas, quando voltar, virá dos céus abertos, e todo olho o verá. Então, os que permaneceram com ele em todas as suas provações terão confiança, segurança e alegria ao vê-lo. Erguerão a cabeça com triunfo indizível, sabendo que a redenção completa virá com ele.

Em contrapartida, os que o abandonaram serão envergonhados diante dele. Terão vergonha de si mesmos, de sua incredulidade, covardia, ingratidão, temeridade e insensatez por terem abandonado um Redentor tão glorioso.

Terão vergonha de suas esperanças, expectativas e alegações, e de todo o salário da injustiça que os levou a abandoná-lo: “Para que tenhamos confiança e não sejamos envergonhados”. O apóstolo inclui a si mesmo nesse número: “Que não sejamos envergonhados por vocês”, assim como “vocês não serão envergonhados de si mesmos”.

Ou: hina mē aischunthōmen ap’ autou: para que não sejamos envergonhados, ou postos em vergonha, por ele na sua vinda. Em sua manifestação pública, ele envergonhará todos os que o abandonaram, negará conhecê-los, os cobrirá de vergonha e confusão e os entregará às trevas, aos demônios e ao desespero sem fim, declarando diante dos homens e dos anjos que se envergonha deles (Marcos 8:38).

O apóstolo prossegue com o mesmo conselho e exortação: 2. A dignidade dos que ainda se apegam a Cristo e à religião dele: “Se sabeis que ele é justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” (v. 29).

A partícula traduzida aqui como se não parece expressar dúvida, mas concessão; não é tanto condicional quanto supositiva, se posso chamá-la assim, uma nota de reconhecimento ou concessão. Parece ter o sentido de visto que, ou já que. Assim, o sentido fica mais claro: visto que sabem que ele é justo, sabem que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele.

É bastante apropriado considerar aqui aquele que pratica a justiça outro nome para aquele que permanece em Cristo. Pois quem permanece em Cristo permanece na lei e no amor de Cristo e, consequentemente, em lealdade e obediência a ele. Assim, deve praticar a justiça, ou os aspectos da santidade do evangelho.

Tal pessoa necessariamente nasceu dele. É renovada pelo Espírito de Cristo, segundo a imagem de Cristo, criada em Cristo Jesus para as boas obras, que Deus preparou de antemão para que andasse nelas (Efésios 2:10).

“Já que sabem que o Senhor Cristo é justo”, justo em suas qualidades e em sua posição, “o Senhor, justiça nossa” e “o Senhor, nossa santificação”, como em 1 Coríntios 1:30, vocês não podem deixar de saber, ou devem levar em conta, “que aquele que, pela prática contínua do cristianismo, permanece nele é nascido dele”.

A nova natureza espiritual procede do Senhor Cristo. Quem permanece na prática da religião em tempos difíceis dá boa prova de que nasceu do alto, do Senhor Cristo. O Senhor Cristo é Pai eterno. É grande privilégio e dignidade ser nascido dele; os que assim são nascidos são filhos de Deus.

“Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (João 1:12). Isso introduz o assunto do capítulo seguinte.


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