Matthew Henry

1 Crônicas 7

Argumento

Neste capítulo temos um relato das genealogias:

I. De Issacar, vv. 1-5.

II. De Benjamim, vv. 6-12.

III. De Naftali, v. 13.

IV. De Manassés, vv. 14-19.

V. De Efraim, vv. 20-29.

VI. De Aser, vv. 30-40.

Não há aqui relato nem de Zebulom nem de Dã. Não podemos apontar razão para que somente eles tenham sido omitidos. Só podemos dizer que é uma desonra para a tribo de Dã que a idolatria tenha começado naquela colônia de danitas que se estabeleceu em Laís e deu ao lugar o nome de Dã, onde foi erguido por Jeroboão um dos bezerros de ouro. Dã é omitido em Apocalipse 7.

Versículos 1 a 19

Genealogias. (a.C. 1689.)

Recebemos aqui um breve panorama:

I. Da tribo de Issacar, que Jacó comparara a um jumento forte, deitado entre dois fardos (Gênesis 49:14). Era uma tribo trabalhadora, muito dedicada aos afazeres do campo, e se alegrava em suas tendas (Deuteronômio 33:18). Aqui se vê:

  1. Que era uma tribo numerosa, pois seus homens tinham muitas mulheres. Sua terra era tão fértil que não viam perigo de o pasto ficar sobrecarregado, e o povo era tão engenhoso que encontrava trabalho para todas as mãos. Nenhum povo deve se queixar de seu número, contanto que não permita que ninguém fique ocioso.

  2. Que era uma tribo valente, de “homens de força” (v. 2, 5) e “homens principais”, v. 3. Os que estavam habituados ao trabalho e aos afazeres eram, dentre todos, os mais aptos a servir ao país quando surgia a ocasião.

O número das respectivas famílias, contado nos dias de Davi, está registrado aqui e soma mais de 145 mil homens aptos para a guerra. Alguns pensam que essa contagem foi feita quando Joabe numerou o povo, 2 Samuel 24.

Eu, porém, creio que se refere a outra contagem, talvez feita entre eles mesmos, porque se diz (1 Crônicas 27:24) que aquela contagem não foi inserida nas crônicas do rei Davi, por ter desagradado a Deus.

II. Da tribo de Benjamim. Aqui se dá algum relato dela, mas o capítulo seguinte traz um muito mais extenso. A milícia dessa tribo mal chegava a 60 mil homens; contudo, eles são chamados de “homens poderosos em valor”, v. 7, 9, 11. “Benjamim arrebatará como um lobo”, Gênesis 49:27.

Foi honra dessa tribo ter produzido Saul, o primeiro rei, e honra maior ter permanecido fiel aos reis legítimos da casa de Davi quando as outras tribos se revoltaram. Aqui se mencionam (v. 12) “Husim, filhos de Aer”.

Diz-se que os filhos de Dã eram Husim (Gênesis 46:23). E por isso alguns leem Aer como nome comum: Husim, os filhos de outro, isto é, de outro filho de Jacó, ou os filhos de um estrangeiro. Israelitas não deveriam ser estrangeiros, mas os danitas se tornaram tais quando ergueram entre si a imagem esculpida e a imagem fundida de Mica.

III. Da tribo de Naftali, v. 13. Só são nomeados os primeiros pais dessa tribo, os mesmos que encontraremos em Gênesis 46:24, com a diferença de que Silem ali é Salum aqui. Nenhum dos seus descendentes é nomeado, talvez porque suas genealogias se tenham perdido.

IV. Da tribo de Manassés, a parte estabelecida aquém do Jordão, pois já tivemos algum relato da outra parte em 1 Crônicas 5:23, etc. Observe a respeito desta tribo:

  1. Que um dos seus homens se casou com uma arameia, isto é, uma síria, v. 14. Isso ocorreu durante a escravidão no Egito: tão cedo começaram a se misturar com as nações.

  2. Que, embora o pai tivesse se casado com uma síria, Maquir, filho desse casamento, talvez por ter visto na casa de seu pai os inconvenientes disso, tomou por esposa uma filha de Benjamim, v. 15. É bom que os filhos aprendam com os erros dos pais e não tropecem na mesma pedra.

  3. Menciona-se aqui Bedã (v. 17), talvez o mesmo Bedã citado entre os libertadores de Israel em 1 Samuel 12:11. Talvez esse homem fosse Jair, que pertencia a Manassés (Juízes 10:3).

Versículos 20 a 40

Genealogias. (a.C. 1630.)

Temos aqui um relato:

I. Da tribo de Efraim. Lemos grandes coisas a respeito dela quando chegou à maturidade. Aqui temos um relato dos desastres de sua infância, ao que parece ainda no Egito, pois o próprio Efraim estava vivo quando essas coisas aconteceram. É difícil, porém, imaginar isso se, como se calcula aqui, já se haviam passado sete gerações.

Por isso, inclino-me a pensar que se tratava de outro Efraim ou que os mortos eram filhos diretos daquele Efraim que era filho de José. Nesta passagem, relatada somente aqui, temos:

  1. A grande perda sofrida pela família de Efraim. Os homens de Gate, filisteus e gigantes, mataram muitos dos filhos dessa família, porque desceram para tomar o gado deles, v. 21. Não está claro quem foram os agressores.

Alguns consideram agressores os homens de Gate: homens nascidos na terra do Egito, mas então residentes em Gate. Supõem que eles desceram à terra de Gósen para levar o gado dos efraimitas e mataram os donos porque estes se levantaram em defesa dos animais.

A riqueza expôs e entregou a vida de muitos homens; está longe, portanto, de ser uma cidade forte. Outros pensam que os efraimitas atacaram os homens de Gate para saqueá-los, supondo que chegara o tempo de tomarem posse de Canaã. Pagaram, porém, caro por sua temeridade e precipitação.

Os que não esperam o tempo de Deus não podem esperar sua bênção. Inclino-me antes a pensar que os homens de Gate desceram contra os efraimitas, porque os israelitas no Egito eram pastores, não soldados, tinham abundância de gado próprio e, portanto, dificilmente arriscariam a vida pelo gado de seus vizinhos.

E as palavras podem ser lidas assim: Os homens de Gate os mataram, pois desceram para levar o gado deles. Zabade, filho de Efraim, e Sutela, Ezer e Eleade, seus netos, foram, segundo o dr. Lightfoot, os homens mortos.

Jacó havia predito que a descendência de Efraim se tornaria uma multidão de nações (Gênesis 48:19), e, no entanto, essa planta foi atingida ainda no botão. As providências de Deus muitas vezes parecem contradizer suas promessas. Quando isso acontece, porém, elas na verdade engrandecem a promessa e tornam seu cumprimento, apesar disso, tanto mais ilustre.

Os efraimitas eram descendentes de José e, contudo, o poder dele não conseguiu protegê-los, embora alguns pensem que ele ainda vivia. A espada devora tanto uns quanto outros.

  1. A grande dor que, por causa disso, oprimiu o pai da família: Efraim lamentou por muitos dias. Nada leva os idosos ao túmulo com mais tristeza do que seguir até o túmulo os jovens que deles descenderam, especialmente quando morreram de forma violenta.

Muitas vezes é um fardo para os que chegam à velhice ver partir antes deles aqueles de quem diziam: “Estes mesmos nos consolarão”. Foi um gesto fraterno e amigo o que seus irmãos fizeram ao vir consolá-lo nessa grande aflição: expressaram solidariedade e cuidado e lhe sugeriram o que poderia sustentá-lo e aquietá-lo diante dessa triste providência.

Provavelmente o lembraram da promessa de multiplicação com que Jacó o havia abençoado ao pôr a mão direita sobre sua cabeça. Embora sua casa não estivesse com Deus como ele esperava, mas fosse uma casa de luto, uma família destroçada, ainda assim aquela promessa era segura (2 Samuel 23:5).

  1. A reparação dessa perda, em certa medida, pelo acréscimo de outro filho à sua família na velhice (v. 23), assim como Sete foi outra descendência no lugar de Abel, morto por Caim (Gênesis 4:25).

Quando Deus assim devolve consolo aos que choram, alegrando-os conforme os dias em que os afligiu e contrapondo as misericórdias às adversidades, devemos perceber nisso a bondade e a ternura da Providência divina. É como se Deus se arrependesse com respeito a seus servos (Salmos 90:13, 15).

Ainda assim, a alegria por ter nascido um menino em sua família não pôde fazê-lo esquecer sua dor, pois deu ao filho um nome melancólico, Berias — em aflição. Pois ele nasceu quando a família estava de luto, quando as coisas iam mal para sua casa.

É bom conservar na lembrança a aflição e a miséria, o absinto e o fel, para que nossa alma se humilhe dentro de nós (Lamentações 3:19, 20). Que nome seria mais apropriado para o homem nascido de mulher do que Berias, já que nasce em um mundo cheio de aflições?

Acrescenta-se, como outra honra para a casa de Efraim:

(1.) Que uma filha dessa tribo, chamada Seerá, na época em que Israel se estabelecia em Canaã, edificou algumas cidades, seja às próprias custas, seja por seu próprio cuidado. Uma delas recebeu o nome dela, Uzém-Seerá, v. 24.

Uma mulher virtuosa pode ser tanta honra e bênção para uma família quanto um homem poderoso.

(2.) Que um filho dessa tribo foi empregado na conquista de Canaã: Josué, filho de Num, v. 27.

Nisso também a perda sofrida pela família de Efraim foi mais reparada. E talvez o ressentimento pela injúria anteriormente causada pelos cananeus aos efraimitas tenha tornado Josué mais vigoroso na guerra.

II. Da tribo de Aser. São nomeados aqui alguns homens notáveis dessa tribo. Sua milícia não era numerosa em comparação com a de outras tribos: apenas 26 mil homens ao todo. Mas seus príncipes eram “homens escolhidos e poderosos em valor, os principais dos príncipes” (v. 40).

E talvez tenham agido com sabedoria ao não desejar numerosas tropas treinadas, preferindo ter poucas, mas aptas para a guerra e úteis ao serviço.


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