Matthew Henry

1 Crônicas 5

Argumento

Este capítulo nos dá algum relato das duas tribos e meia que foram estabelecidas do outro lado do Jordão:

I. De Rúben, vv. 1-10.

II. De Gade, vv. 11-17.

III. Da meia tribo de Manassés, vv. 23-24.

IV. Sobre a atuação conjunta das três, somos informados de:

  1. Como venceram os hagarenos, vv. 18-22.

  2. Como, por fim, elas próprias foram vencidas e levadas cativas pelo rei da Assíria, porque haviam abandonado a Deus, vv. 25-26.

Versículos 1 a 17

Genealogias. (a.C. 715.)

Temos aqui um extrato das genealogias:

I. Da tribo de Rúben, na qual temos:

  1. O motivo pelo qual esta tribo é posta depois das outras. É reconhecido que Rúben era o primogênito de Israel e, por isso, podia reivindicar a precedência; mas perdeu o direito de primogenitura ao macular a concubina de seu pai e, por isso, recebeu a sentença de não sobressair, Gênesis 49:4.

O pecado diminui os homens e os derruba de sua excelência. Os pecados contra o sétimo mandamento, em especial, deixam uma mancha indelével nos nomes e nas famílias dos homens, um descrédito que o tempo não apagará. A descendência de Rúben carrega até o fim a desonra do pecado dele.

Contudo, embora aquela tribo tenha sido rebaixada, não foi rejeitada nem deserdada. Macular a honra de um israelita não é perder a sua felicidade. Rúben perde o direito de primogenitura, mas este não passa a Simeão, o seguinte na ordem; pois era tipológico e, portanto, devia seguir não o curso da natureza, mas a escolha da graça.

As vantagens do direito de primogenitura eram o domínio e uma porção dobrada. Como Rúben perdeu essas vantagens, julgou-se excessivo transferir ambas para uma só pessoa, e por isso foram divididas.

(1.) José recebeu a porção dobrada; pois dele descenderam duas tribos, Efraim e Manassés, cada uma com a parte de um filho (pois assim Jacó, pela fé, os abençoou, Hebreus 11:21; Gênesis 48:15, 22), e cada uma dessas tribos era tão importante e ocupava posição tão destacada quanto qualquer uma das doze, exceto Judá.

Mas (2.) Judá recebeu o domínio; a ele o patriarca moribundo vinculou o cetro, Gênesis 49:10. Dele veio o principal governante: primeiro Davi e, na plenitude do tempo, o Messias, o Príncipe, Miquéias 5:2. Essa honra foi assegurada a Judá, embora o direito de primogenitura pertencesse a José; e, tendo-a, não precisava invejar a porção dobrada de José.

  1. A genealogia dos príncipes desta tribo, sua família principal (muitos, sem dúvida, foram omitidos), até Beera, que era o chefe desse clã quando o rei da Assíria os levou cativos, vv. 4-6. Talvez ele seja mencionado como príncipe dos rubenitas naquela época porque não fez a sua parte para impedir o cativeiro.

  2. A ampliação das fronteiras desta tribo. À medida que cresciam e seus rebanhos se multiplicavam, foram afastando seus vizinhos hagarenos e estenderam suas conquistas; embora não chegassem ao rio Eufrates, ainda assim alcançaram o deserto que confinava com aquele rio, v. 9, 10.

Assim Deus agiu em favor de seu povo, como lhes havia prometido: expulsou o inimigo da frente deles pouco a pouco e lhes deu a terra à medida que precisavam dela, Êxodo 23:30.

II. Da tribo de Gade. Algumas famílias importantes dessa tribo são aqui nomeadas (v. 12): sete que eram filhos de Abiail, cuja genealogia é traçada de trás para a frente, do filho ao pai (v. 14, 15), ao passo que a dos v. 4, 5 é traçada do pai ao filho.

Essas genealogias foram completadas nos dias de Jotão, rei de Judá, mas iniciadas alguns anos antes, no reinado de Jeroboão II, rei de Israel. Não se sabe ao certo qual motivo específico levou a fazer esses registros naquela época; mas isso aconteceu pouco antes de serem levados cativos pelos assírios, como mostra 2 Reis 15:29, 31.

Quando os juízos de Deus estavam prestes a irromper contra eles por causa de sua deplorável degeneração e apostasia, eles, justamente então, se orgulhavam de suas genealogias, de serem filhos da aliança; tal como os judeus no tempo de nosso Salvador, que, quando estavam maduros para a ruína, gabavam-se: “Temos Abraão por pai”.

Ou talvez houvesse nisso uma providência especial e uma indicação favorável de que, embora por ora fossem expulsos, não seriam rejeitados para sempre. Mantemos inventário daquilo que pretendemos requisitar mais tarde.

Versículos 18 a 26

A Derrota dos Hagarenos. (a.C. 750.)

Os chefes da meia tribo de Manassés que estavam estabelecidos do outro lado do Jordão são aqui nomeados, v. 23, 24. Seu quinhão, a princípio, era apenas Basã; mas depois cresceram tanto em riqueza e poder que se estenderam muito para o norte, até o Hermom.

Somente duas coisas são registradas aqui a respeito dessas tribos do outro lado do Jordão, e todas elas estiveram envolvidas em ambas. Todas partilharam:

I. De uma vitória gloriosa sobre os hagarenos, como os ismaelitas agora eram chamados, para lembrá-los de que eram filhos da escrava que fora expulsa.

Não nos é dito quando essa vitória foi alcançada: se foi a mesma dos rubenitas (que, segundo o v. 10, ocorreu nos dias de Saul), ou se o êxito de uma dessas tribos animou e estimulou as outras duas a se juntarem a ela em outra expedição, não se sabe.

Ao que parece, embora nos dias de Saul os interesses comuns do reino estivessem fracos e em baixa, algumas tribos que agiram separadamente saíram-se bem por conta própria. Aqui nos é dito:

  1. Que exército valente essas tribos da fronteira levaram a campo contra os hagarenos: 44 mil homens ou mais, todos fortes, corajosos e hábeis na guerra, tantos homens aptos para o combate, que sabiam manejar suas armas, v. 18. Quanto mais poderoso Israel poderia ter sido do que foi no tempo dos juízes se todas as tribos tivessem agido em conjunto!

  2. O caminho que seguiram para ter Deus a seu favor:

Clamaram a Deus e puseram nele sua confiança, v. 20. Agora agiam como verdadeiros israelitas.

(1.) Como descendentes de Abraão, que cria, puseram sua confiança em Deus. Embora tivessem um exército poderoso, não se apoiaram nele, mas no poder divino.

Dependiam da autorização que haviam recebido de Deus para fazer guerra contra seus vizinhos a fim de ampliar suas fronteiras, se houvesse ocasião, até contra os que viviam muito longe, além das nações votadas à destruição. Veja Deuteronômio 20:15. Dependiam da providência de Deus para lhes dar êxito.

(2.) Como descendentes de Jacó, que orava, clamaram a Deus, sobretudo na batalha, quando talvez no início estivessem em perigo de ser sobrepujados. Veja o mesmo em 2 Crônicas 13:14.

Na aflição, Deus espera que clamemos a ele; ele nos impõe penhora para cobrar esse tributo, esse aluguel. Em nossos conflitos espirituais, devemos olhar para o céu em busca de força; e a oração feita com fé é a oração que prevalecerá.

  1. Somos informados do êxito que alcançaram: Deus atendeu às suas súplicas, embora a necessidade os tivesse levado a ele; tão pronto está para ouvir e responder à oração. Foram ajudados contra os inimigos; pois Deus jamais faltou com quem nele confiou.

E então derrotaram o exército inimigo, embora este fosse muito mais numeroso que o exército deles, mataram muitos (v. 22), fizeram 100 mil prisioneiros, enriqueceram muito com o despojo e se estabeleceram no território dos hagarenos (v. 21, 22), e tudo isso “porque a guerra era de Deus”, empreendida no temor dele e conduzida na dependência dele.

Se a batalha for do Senhor, há motivo para esperar que seja bem-sucedida. Então podemos esperar prosperar em qualquer empreendimento, e somente então, quando levamos Deus conosco.

II. Por fim, também partilharam de um cativeiro sem glória. Se tivessem permanecido próximos de Deus e fiéis ao seu dever, teriam continuado a desfrutar tanto de seu antigo quinhão quanto de suas novas conquistas; mas transgrediram contra o Deus de seus pais, v. 25.

Moravam nas fronteiras e conviviam sobretudo com as nações vizinhas; por esse meio aprenderam seus costumes idólatras e transmitiram a infecção às outras tribos; por isso Deus tinha uma causa contra eles.

Deus era marido deles, e não admira que seu zelo ardesse como fogo quando se prostituíram seguindo outros deuses. Com justiça se dá carta de divórcio à adúltera.

Deus despertou contra eles o espírito dos reis da Assíria, primeiro de um e depois de outro, cumpriu seus próprios propósitos mediante os desígnios daqueles monarcas ambiciosos, usou-os primeiro para castigar esses rebeldes e, quando isso não os humilhou, para arrancá-los de todo pela raiz, v. 26.

Essas tribos foram as primeiras a ser colocadas e as primeiras a ser deslocadas. Quiseram a melhor terra, sem considerar que ficava mais exposta. Mas aqueles que, em suas escolhas, se deixam governar mais pelos sentidos do que pela razão ou pela fé podem esperar as consequências disso.


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