1 Crônicas 4
Argumento
Neste capítulo temos: I. Um relato adicional das genealogias da tribo de Judá, a mais numerosa e mais famosa de todas as tribos. A posteridade de Sobal, filho de Hur (vv. 1-4), de Asur, filho póstumo de Esrom (mencionado em 1 Crônicas 2:24), com algo particular a respeito de Jabez (vv. 5-10), de Quelube e outros (vv. 11-20), e de Selá, vv. 21-23.
II. Um relato da posteridade e das cidades de Simeão, da conquista de Gedor e dos amalequitas no monte Seir, vv. 24-43.
Versículos 1 a 10
Os Filhos de Judá; a Oração de Jabez. (a.C. 1720.)
Uma razão, sem dúvida, para Esdras ser aqui tão minucioso no registro da tribo de Judá é que essa tribo, com as que lhe eram anexas — Simeão, Benjamim e Levi —, compunha o reino de Judá.
Esse reino não apenas sobreviveu por muito tempo às outras tribos em Canaã, mas, com o passar do tempo, quando isto foi escrito, voltou do cativeiro, enquanto a maioria das outras tribos se perdeu no reino da Assíria.
A pessoa mais notável neste trecho é Jabez. Não se diz de quem ele era filho, nem parece em que época viveu; mas, ao que parece, foi o fundador de uma das famílias de Aharhel, mencionadas no v. 8. Aqui está:
I. O motivo de seu nome: sua mãe lhe deu esse nome por este motivo: “Porque o dei à luz com dor”, v. 9. Todas as crianças nascem com dor (pois a sentença imposta à mulher diz: “Em dor darás à luz filhos”), mas algumas com muito mais dor do que outras.
Geralmente a dor do parto é depois esquecida pela alegria de ter nascido a criança; mas aqui parece que foi tão extraordinária que se lembraram dela quando a criança veio a ser circuncidada, e cuidaram de perpetuar sua lembrança enquanto ele vivesse.
Talvez a mãe o tenha chamado de Jabez, como Raquel chamou seu filho de Benoni, quando morria de dor. Ou, se ela se recuperou da dor, ainda assim a registrou desta maneira:
- Para que fosse um lembrete constante para si mesma de agradecer a Deus enquanto vivesse, por tê-la sustentado durante aquela dor e conduzido através dela.
Pode ser útil sermos lembrados muitas vezes de nossas dores, para que conservemos sempre acerca das coisas pensamentos como os que tínhamos no dia da nossa aflição e aprendamos a alegrar-nos com tremor.
- Para que fosse igualmente um lembrete para ele de como é este mundo ao qual ela o trouxe, um vale de lágrimas, no qual deveria esperar poucos dias cheios de aflições. A dor que levava no nome poderia ajudar a incutir seriedade em seu espírito.
Poderia também lembrá-lo de amar e honrar sua mãe e de se esforçar, em tudo, para ser um consolo para aquela que o trouxe ao mundo com tanta dor. É piedade dos filhos retribuírem assim a seus pais, 1 Timóteo 5:4.
II. A eminência de seu caráter: ele foi mais honrado que seus irmãos, mais qualificado que eles pela graça divina e mais dignificado pela providência divina; eles agiram virtuosamente, mas ele superou a todos. Agora a dor com que sua mãe o deu à luz foi abundantemente recompensada.
Aquele filho que, dentre todos os seus filhos, lhe custara mais caro foi aquele em quem ela encontrou a maior felicidade, e ela foi alegrada na proporção da aflição, Salmos 90:15.
Não se nos diz por que ele foi mais honrado que seus irmãos: se por ter acumulado patrimônio maior, ou ter sido elevado à magistratura, ou ter-se distinguido na guerra.
Temos mais razões para pensar que tenha sido por causa de seu conhecimento e de sua piedade, não apenas porque estes, mais do que qualquer outra coisa, conferem honra a um homem, mas também porque temos motivos para pensar que Jabez se destacou neles.
- No conhecimento, porque descobrimos que as famílias dos escribas moravam em Jabez (1 Crônicas 2:55), cidade que, ao que parece, recebeu dele o nome. Os judeus dizem que ele foi um doutor da lei famoso e deixou muitos discípulos.
E, pela menção tão repentina dele aqui, parece que seu nome era bem conhecido quando Esdras escreveu isto.
- Na piedade, porque vemos aqui que era um homem de oração. Sua inclinação à devoção o tornou verdadeiramente honrado e, pela oração, obteve de Deus as bênçãos que muito acrescentaram à sua honra. O caminho para ser verdadeiramente grande é ser verdadeiramente bom e orar muito.
III. A oração que fez, provavelmente como a oração de Salomão por sabedoria, justamente quando começava sua vida no mundo. Dispôs-se a reconhecer Deus em todos os seus caminhos, colocou-se sob a bênção e a proteção divinas e prosperou de acordo.
Talvez esses fossem os temas que desenvolvia em suas orações diárias; para esse fim, era sua prática constante orar sozinho e com sua família, como Daniel. Alguns pensam que ele fez essa oração numa ocasião específica, quando estava em aperto e ameaçado por seus inimigos. Observe:
A quem orou: não a nenhum dos deuses dos gentios; não: ele invocou o Deus de Israel, o Deus vivo e verdadeiro, que é o único capaz de ouvir e responder à oração. E, ao orar, tinha-o em vista como o Deus de Israel, um Deus em aliança com seu povo, o Deus com quem Jacó lutou e prevaleceu e por isso recebeu o nome de Israel.
Qual era a natureza de sua oração:
(1.) Conforme se lê à margem, era um voto solene: “Se de fato me abençoares”, etc. E então o sentido fica incompleto, mas pode ser facilmente preenchido com o voto de Jacó, ou algo semelhante: “Então tu serás meu Deus”.
Ele não expressou sua promessa, mas a deixou implícita, ou porque temia prometer em suas próprias forças ou porque resolveu dedicar-se inteiramente a Deus. Ele, por assim dizer, entrega a Deus uma folha em branco para que nela escreva o que quiser:
“Senhor, se tu me abençoares e me guardares, faze comigo o que quiseres; estarei sob tuas ordens e à tua disposição para sempre.”
(2.) Conforme se lê no texto, era a linguagem de um desejo dos mais ardentes e afetuosos: “Ó, se tu me abençoasses!”
- Qual era o conteúdo de sua oração. Quatro coisas pediu:
(1.) Que Deus o abençoasse de fato: “Que, abençoando, tu me abençoes; abençoa-me grandemente com bênçãos múltiplas e abundantes.”
Talvez tivesse em vista a promessa que Deus fez a Abraão (Gênesis 22:17): “Abençoando, eu te abençoarei.” “Que essa bênção de Abraão venha sobre mim.”
As bênçãos espirituais são as melhores bênçãos, e verdadeiramente benditos são os que com elas são abençoados. As bênçãos de Deus são coisas reais e produzem efeitos reais. Nós só podemos desejar uma bênção: ele a ordena. Aqueles que ele abençoa são de fato abençoados.
(2.) Que ele ampliasse seus limites, que fizesse prosperar seus esforços para aumentar aquilo que lhe coube em sorte, fosse por trabalho ou por guerra. Nosso desejo e nossa oração devem ser que Deus amplie nosso coração e, assim, amplie nossa porção nele mesmo e na Canaã celestial.
(3.) Que a mão de Deus estivesse com ele. A oração de Moisés por essa tribo de Judá foi que suas próprias mãos lhe bastassem, Deuteronômio 33:7; mas Jabez não espera que isso possa acontecer sem ter consigo a mão de Deus e a presença do seu poder.
A mão de Deus conosco, para nos guiar, proteger, fortalecer e realizar todas as nossas obras em nós e por nós, é de fato uma mão suficiente para nós, suficiente em tudo.
(4.) Que ele o guardasse do mal: do mal do pecado, do mal das aflições, de todos os maus desígnios de seus inimigos, para que não o ferissem, não o entristecessem nem fizessem dele um Jabez de fato, um homem de dor; no original há uma alusão a seu nome. Pai no céu, livre-me do mal.
- Qual foi o êxito de sua oração: Deus lhe concedeu aquilo que pedira, fez que prosperasse de modo notável e lhe deu sucesso em seus empreendimentos, em seus estudos, em seus negócios neste mundo e em seus conflitos com os cananeus; assim ele se tornou mais honrado que seus irmãos.
Desde os tempos antigos Deus estava sempre pronto a ouvir a oração, e seu ouvido ainda não se tornou pesado.
Versículos 11 a 23
Genealogias. (a.C. 1420.)
Podemos observar nestes versículos:
- Que aqui há uma família inteira de artífices, trabalhadores de ofícios manuais, que se dedicavam a toda sorte de manufaturas, nas quais eram mais engenhosos e diligentes do que seus vizinhos, v. 14.
Havia um vale onde moravam que, por causa deles, era chamado vale dos artífices. Não se deve, portanto, considerar os artífices homens de pouca importância. Esses artífices, embora dois do mesmo ofício muitas vezes discordem, ainda assim escolheram viver juntos para aperfeiçoar as artes trocando conhecimentos e para sustentar a reputação uns dos outros.
Que um deles se casou com a filha de Faraó (v. 18), nome comum dos reis do Egito. Se um israelita no Egito, antes de começar a servidão, quando os méritos de José ainda estavam frescos na memória, foi escolhido para ser genro do rei, isso não deve parecer estranho: poucos israelitas poderiam, como Moisés, recusar uma aliança com a corte.
Que outro é chamado de pai da casa dos que trabalhavam com linho fino, v. 21. Consta em sua genealogia, para honra deles, que eram os melhores tecelões do reino e criavam seus filhos, de geração em geração, para o mesmo ofício, sem pretender torná-los fidalgos.
Diz-se que esse Laadá era o pai dos que trabalhavam com linho fino, assim como antes do dilúvio se diz que Jubal era o pai dos músicos e Jabal, dos pastores, etc. Sua posteridade habitava a cidade de Maresa, cuja manufatura ou mercadoria principal era o tecido de linho, com o qual seus reis e sacerdotes se vestiam.
- Que outra família tivera domínio em Moabe, mas agora estava em servidão na Babilônia, v. 22, 23:
(1.) Encontrou-se entre os registros antigos que eles tinham domínio em Moabe.
Provavelmente no tempo de Davi, quando aquela terra foi conquistada, mudaram-se para lá e foram postos em posições de poder, que mantiveram por várias gerações; mas isso aconteceu há muito tempo, desde tempos imemoriais.
(2.) Sua posteridade era agora composta de oleiros e jardineiros, ao que se supõe na Babilônia, onde moravam junto do rei para trabalhar para ele. Ganhavam bem a vida por sua diligência e, por isso, não se importaram em voltar com seus irmãos à própria terra depois que se completaram os anos do cativeiro.
Os que agora têm domínio não sabem a que condição sua posteridade poderá ser reduzida, nem quais ocupações humildes ela poderá ter de aceitar com satisfação. Mas eram indignos do nome de israelitas aqueles que preferiam morar entre plantas e cercas vivas a se dar ao trabalho de voltar para Canaã.
Versículos 24 a 43
Genealogias. (a.C. 715.)
Temos aqui algumas genealogias da tribo de Simeão (embora não fosse uma tribo de grande destaque), especialmente os príncipes dessa tribo, v. 38. Diz-se dela que se multiplicou muito, mas não tanto quanto os filhos de Judá, v. 27. Aqueles a quem Deus multiplica devem ser gratos, embora vejam outros ainda mais multiplicados. Observe aqui:
As cidades que lhes foram atribuídas (v. 28), sobre as quais veja Josué 19:1, etc. Quando se diz que lhes pertenceram até o reinado de Davi (v. 31), dá-se a entender que, quando as dez tribos se revoltaram contra a casa de Davi, muitos simeonitas deixaram essas cidades, porque ficavam dentro de Judá, e se estabeleceram em outro lugar.
A terra que obtiveram em outro lugar. Quando os membros dessa tribo que se revoltaram contra a casa de Davi foram levados cativos com os demais para a Assíria, aqueles que permaneceram fiéis a Judá foram reconhecidos por Deus como seus de modo notável e prosperaram em seus esforços para ampliar suas fronteiras.
Foi nos dias de Ezequias que uma geração de simeonitas, cuja tribo havia muito se encolhia e se curvava, foi animada a empreender esses esforços ousados.
(1.) Alguns deles atacaram, ao que parece, um lugar na Arábia chamado entrada de Gedor, habitado pela posteridade do amaldiçoado Cam (v. 40), tomaram posse dele e ali moraram.
Isto aumenta a glória do piedoso reinado de Ezequias: assim como seu reino prosperou em geral, também prosperaram famílias particulares. Diz-se que encontraram pastagens fartas e, ainda assim, a terra era tranquila; até quando os reis da Assíria perturbavam todos os seus vizinhos, essa terra escapou aos alarmes que eles provocavam.
Como os habitantes eram pastores e não molestavam ninguém, tampouco eram molestados, até que os simeonitas vieram, expulsaram-nos e lhes sucederam, não só na fartura, mas também na paz de sua terra.
Os que moram, como nós, numa terra fértil, ampla, tranquila e pacífica têm motivo para se reconhecerem devedores daquele Deus que estabelece os limites de nossa habitação.
(2.) Outros deles, em número de quinhentos, sob o comando de quatro irmãos aqui nomeados, fizeram uma incursão ao monte Seir, abateram o restante dos amalequitas condenados à destruição e tomaram posse da terra deles, vv. 42-43.
Agora as maldições sobre Cam e Amaleque tiveram um cumprimento ulterior quando pareciam adormecidas, se não mortas. O mesmo ocorreu com a maldição sobre Simeão, de que seria dividido e espalhado (Gênesis 49:7).
Contudo, para ele ela se transformou em bênção, pois se diz que as famílias de Simeão que assim se mudaram para aquelas regiões distantes habitam ali até hoje (v. 43); por isso, ao que parece, escaparam às calamidades do cativeiro. A Providência às vezes afasta da aflição aqueles que estão destinados à preservação.