1 Crônicas 2
Argumento
Chegamos agora ao que se pretendia principalmente: o registro dos filhos de Israel, aquele povo distinto, que devia “habitar sozinho e não ser contado entre as nações”. Aqui temos:
I. Os nomes dos doze filhos de Israel, v. 1, 2.
II. Um relato da tribo de Judá, que tem a precedência, não tanto por causa de Davi quanto por causa do Filho de Davi, nosso Senhor, que brotou de Judá, Hebreus 7:14.
Os primeiros descendentes de Judá, até Jessé, vv. 3-12.
Os filhos de Jessé, vv. 13-17.
A descendência de Esrom, não só por meio de Rão, de quem veio Davi, mas também por meio de Calebe (vv. 18-20), Segube (vv. 21-24), Jerameel (vv. 25-33, e assim até o v. 41) e mais descendentes por meio de Calebe (vv. 42-49), com a família de Calebe, filho de Hur, vv. 50-55.
A melhor exposição que podemos ter deste capítulo e dos seguintes, e que nos dará a visão mais clara deles, encontra-se naquelas tabelas genealógicas publicadas em algumas das primeiras impressões da última Bíblia inglesa, há cerca de cem anos, e mantidas por algum tempo.
E é uma pena que não tenham sido retomadas em algumas de nossas edições mais recentes, pois são de grande utilidade para os que examinam diligentemente as Escrituras. Diz-se que foram elaboradas pelo grande mestre do conhecimento das Escrituras, o sr. Hugh Broughton. Às vezes as encontramos em Bíblias antigas.
Versículos 1 a 17
Genealogias. (a.C. 1751.)
Aqui está:
I. A família de Jacó. Seus doze filhos são aqui nomeados, aquele número ilustre tantas vezes celebrado em quase toda a Bíblia, desde o primeiro até o último livro. A cada passo encontramos as doze tribos que descenderam desses doze patriarcas.
O caráter pessoal de vários deles não era dos melhores (os quatro primeiros tinham graves manchas), e, contudo, a aliança foi vinculada à sua descendência; pois foi pela graça, pela graça gratuita, que se disse “A Jacó tenho amado” — não por obras, para que ninguém se glorie.
II. A família de Judá. Essa tribo foi a mais louvada, a que mais cresceu e a mais honrada de todas as tribos; por isso, sua genealogia é a primeira e a mais extensa. No relato aqui apresentado dos primeiros ramos dessa árvore ilustre, da qual Cristo seria o ramo mais alto, encontramos:
- Alguns que eram muito maus. Aqui está Er, o filho mais velho de Judá, que era mau aos olhos do Senhor e foi eliminado no começo de seus dias por um golpe da vingança divina: “O Senhor o matou”, v. 3. Seu irmão seguinte, Onã, não era melhor e não se saiu melhor.
Aqui está Tamar, com quem Judá, seu sogro, cometeu incesto, v. 4. E aqui está Acã, chamado Acar — um perturbador, que perturbou Israel ao tomar da coisa maldita, v. 7. Repare: as melhores e mais honradas famílias podem ter entre os seus aqueles que as maculam.
- Alguns que eram muito sábios e bons, como Hemã e Etã, Calcol e Dara. Talvez não fossem filhos diretos de Zerá, mas seus descendentes, e são nomeados porque eram a glória da casa de seu pai.
Isso porque, quando o Espírito Santo quis exaltar a sabedoria de Salomão, declarou-o mais sábio que esses quatro homens, os quais, embora filhos de Maol, são chamados ezraítas por descenderem de Zerá, 1 Reis 4:31. Que quatro irmãos se destacassem pela sabedoria e pela graça era coisa rara.
- Alguns que eram muito importantes, como Naassom, príncipe da tribo de Judá quando o arraial de Israel foi organizado no deserto, e que, assim, ia à frente naquela marcha gloriosa; e Salmã, ou Salmom, que ocupava esse posto de honra quando entraram em Canaã, v. 10, 11.
III. A família de Jessé, da qual se conserva um relato particular por causa de Davi e do Filho de Davi, que é uma vara do tronco de Jessé, Isaías 11:1. Daí se vê que Davi era o sétimo filho e que seus três grandes comandantes, Joabe, Abisai e Asael, eram filhos de uma de suas irmãs, e Amasa, de outra. Três dos quatro desceram mortos à cova, embora fossem o terror dos valentes.
Versículos 18 a 55
Genealogias. (a.C. 1450.)
A maioria das pessoas mencionadas no parágrafo anterior é daquelas de quem lemos em outras partes das Escrituras, e a maioria é daquelas de quem lemos muito; mas pouquíssimas das pessoas a que este parágrafo se refere são mencionadas em qualquer outro lugar.
Ao que parece, a tribo de Judá era mais completa e exata em suas genealogias do que qualquer outra tribo. Nisso devemos reconhecer uma providência especial para esclarecer a genealogia de Cristo.
Aqui encontramos Bezalel, que foi o principal artífice na construção do tabernáculo, Êxodo 31:2.
Esrom, filho de Perez (v. 5), foi o pai de toda esta descendência. Seus filhos, Calebe e Jerameel, foram muito fecundos, e ele próprio também, mesmo na velhice, pois, ao morrer, deixou a esposa grávida, v. 24.
Esse Esrom era um dos setenta que desceram com Jacó ao Egito, Gênesis 46:12. Ali sua família cresceu desse modo, assim como outras famílias oprimidas também cresceram. Não podemos deixar de supor que ele tenha morrido durante a servidão dos israelitas no Egito; contudo, diz-se aqui que morreu em Calebe-Efrata (isto é, Belém), na terra de Canaã, v. 24.
Talvez, embora o grosso do povo continuasse no Egito, alguns mais ativos do que os demais, ao menos antes de a servidão se tornar extrema, visitassem Canaã de vez em quando e ali firmassem presença, ainda que depois a perdessem.
Das realizações de Jair, aqui mencionadas (v. 22, 23), já recebemos um relato em Números 32:41; e supõe-se que tenham ocorrido muito depois da conquista de Canaã.
Os judeus dizem que Esrom se casou com sua terceira esposa quando tinha sessenta anos (v. 21), e com outra depois (v. 24), porque desejava muito ter descendência na família de Perez, de quem o Messias descenderia.
- Aqui se menciona alguém que morreu sem filhos (v. 30), outro (v. 32) e alguém que não teve filhos homens, mas filhas, v. 34. Os que são afligidos de qualquer dessas maneiras não julguem seu caso novo ou singular.
A Providência dispõe esses assuntos das famílias com soberania incontestável, conforme lhe agrada, dando filhos, deixando de dá-los ou dando apenas filhos de um sexo. Deus não é obrigado a nos agradar; nós, porém, somos obrigados a aceitar o que ele tem por bem.
Para aqueles que o amam, ele próprio será melhor do que dez filhos e lhes dará em sua casa um lugar e um nome melhores do que os de filhos e filhas. Portanto, os que estão registrados como sem filhos não invejem as famílias que são edificadas e povoadas de filhos. Será mau o nosso olho porque o de Deus é bom?
- Aqui se menciona alguém que tinha uma única filha e a deu em casamento ao seu servo egípcio, v. 34, 35. Se isso é mencionado em seu louvor, devemos supor que esse egípcio se convertera à religião judaica e se distinguia muito pela sabedoria e pela virtude.
Do contrário, não conviria a um israelita de nascimento dar-lhe a filha em casamento, sobretudo sendo ela filha única. Se egípcios se tornam convertidos e servos agem dignamente, nem a origem nem a condição servil devem impedir que recebam cargos.
Esse servo egípcio podia ser uma pessoa de tal valor que a mulher que se casou com ele vivesse tão feliz quanto se tivesse se casado com um dos governantes de sua tribo.
A linhagem de vários deles termina não em uma pessoa, mas num lugar ou região: diz-se que um é “pai de Quiriate-Jearim” (v. 50), outro “pai de Belém” (v. 51), que mais tarde foi a cidade de Davi, porque esses lugares lhes couberam na divisão da terra.
Alguns aqui são chamados de famílias de escribas (v. 55): preservavam o saber em sua família, especialmente o conhecimento das Escrituras, e ensinavam ao povo o bom conhecimento de Deus. Entre todas essas grandes famílias, alegra-nos encontrar algumas que eram famílias de escribas.
Quem dera a Deus que todo o povo do Senhor fosse profeta — que todas as famílias de Israel fossem famílias de escribas, bem instruídas para o reino dos céus e capazes de tirar de seu tesouro coisas novas e velhas!