1 Crônicas 16
Argumento
Este capítulo conclui a grande questão da instalação da arca na cidade real e, com ela, a organização do culto público a Deus durante o reinado de Davi. Temos aqui:
I. A solenidade com que a arca foi instalada, vv. 1-6.
II. O salmo que Davi entregou para ser cantado nessa ocasião, vv. 7-36.
III. A organização da prática regular do culto público a Deus dali em diante, vv. 37-43.
Versículos 1 a 6
A Instalação da Arca. (a.C. 1045.)
Foi um dia glorioso quando a arca de Deus foi colocada em segurança na tenda que Davi armara para ela. Aquele homem bom tinha o coração muito voltado para isso e não conseguia dormir satisfeito até que estivesse feito (Salmos 132:4, 5).
I. A situação da arca era agora:
- Melhor do que antes. Ela estivera sem destaque numa cidade do interior, nos campos do bosque; agora fora levada para um lugar público, a cidade real, onde todos podiam procurá-la.
Ela fora negligenciada, como um vaso quebrado e desprezado; agora era tratada com reverência, e Deus era consultado por meio dela.
Ela ocupara de favor um cômodo numa casa particular; agora tinha uma morada inteiramente sua, fora colocada no centro dela e não apertada num canto. Repare: embora a palavra e as ordenanças de Deus possam ficar encobertas e eclipsadas por algum tempo, por fim sairão da obscuridade e resplandecerão.
- Contudo, essa situação ainda estava muito aquém do que se pretendia para o reinado seguinte, quando o templo seria construído. Aquela era apenas uma tenda, uma habitação pobre e modesta; ainda assim, era o tabernáculo, o templo de que Davi tantas vezes fala em seus salmos com tanta afeição.
Davi, que armou uma tenda para a arca e permaneceu fiel a ela, agiu muito melhor do que Salomão, que lhe construiu um templo e, no entanto, no fim da vida lhe deu as costas. Os tempos mais pobres da igreja foram os mais puros.
II. Agora Davi estava tranquilo, pois a arca fora instalada, e instalada perto dele. Veja como ele cuida:
- Para que Deus receba a glória por isso. De duas maneiras o honra nessa ocasião:
(1.) Com sacrifícios (v. 1): holocaustos em adoração às suas perfeições e ofertas pacíficas em reconhecimento por seus favores.
(2.) Com cânticos: designou levitas para registrar essa história num cântico em benefício de outros, ou para celebrá-la eles próprios, dando graças e louvando o Deus de Israel, v. 4.
Todas as nossas alegrias devem expressar-se em ações de graças àquele de quem recebemos todos os nossos consolos.
- Para que o povo tenha a alegria disso. Todos sairão beneficiados pela solenidade desse dia, pois ele dá a todos algo que vale a pena vir buscar: não só um banquete real em honra do dia (v. 3), no qual Davi se mostrou generoso para com seus súditos, assim como Deus fora bondoso para com ele.
Os que têm o coração dilatado pela alegria santa devem demonstrá-la com mãos abertas. Mas, o que é muito melhor, ele também dá ao povo uma bênção em nome do Senhor, como pai e como profeta, v. 2. Orou a Deus por eles e os confiou à sua graça.
Em nome do Verbo do Senhor (assim diz o Targum), o Verbo essencial e eterno, que é Jeová e por meio de quem todas as bênçãos chegam até nós.
Versículos 7 a 36
O Salmo de Louvor de Davi. (a.C. 1045.)
Temos aqui o salmo de ação de graças que Davi compôs pelo Espírito e entregou ao Músico-Mor para ser cantado por ocasião da entrada pública da arca na tenda preparada para ela. Alguns pensam que ele ordenou que esse hino fosse usado diariamente no serviço do templo, sem falta a cada dia; quaisquer que fossem os outros salmos cantados, este não deveria ser omitido.
Davi já havia escrito muitos salmos antes desse, alguns durante suas aflições causadas por Saul. Este fora composto antes, mas só então foi entregue às mãos de Asafe para uso da igreja.
Foi reunido de vários salmos: do início até o v. 23, foi tomado de Salmos 105:1, etc.; dos vv. 23-34, reproduz todo o 96º salmo, com pequenas variações; o v. 34 foi tomado de Salmos 136:1 e de vários outros; e os dois últimos versículos, do fim do Salmo 106.
Alguns entendem que isso nos autoriza a fazer o mesmo e compor hinos com os salmos de Davi, juntando uma parte de um com uma parte de outro da maneira mais adequada para expressar e estimular a devoção dos cristãos.
Esses salmos serão melhor explicados em seus lugares próprios, se o Senhor quiser. Aqui os consideramos como foram reunidos, com o desígnio de dar graças ao Senhor (v. 7), um grande dever para o qual precisamos ser animados e no qual precisamos ser ajudados.
- Que Deus seja glorificado em nossos louvores; que sua honra seja o centro onde todas as linhas se encontram. Glorifiquemo-lo com nossas ações de graças (“Deem graças ao Senhor”), com nossas orações (“Invoquem o seu nome”, v. 8), com nossos cânticos (“Cantem salmos a ele”) e com nossa conversa: “Falem de todas as suas obras maravilhosas”, v. 9.
Glorifiquemo-lo como Deus grande e digno de grande louvor (v. 25), como Deus supremo (“acima de todos os deuses”), como o único Deus, pois todos os outros são ídolos, v. 26.
Glorifiquemo-lo como o mais resplandecente e bendito em si mesmo (“Glória e honra estão em sua presença”, v. 27), como criador (“O Senhor fez os céus”), como governante de toda a criação (“Seus juízos estão em toda a terra”, v. 14) e como nosso Deus: “Ele é o Senhor, nosso Deus”.
Assim devemos “dar ao Senhor a glória devida ao seu nome” (v. 28, 29) e reconhecer que isso, e muito mais, lhe é devido.
Que outros sejam edificados e instruídos: “Tornem conhecidos os seus feitos entre o povo” (v. 8), “anunciem a sua glória entre os gentios” (v. 24), para que os que lhe são estranhos possam ser conduzidos a conhecê-lo, a lhe prestar lealdade e a adorá-lo. Assim devemos servir aos interesses do seu reino entre os homens, para que toda a terra o tema, v. 30.
Que nós mesmos sejamos animados a triunfar e confiar em Deus. Aos que dão glória ao nome de Deus é permitido gloriar-se nele (v. 10), considerar-se valiosos por sua relação com Deus e arriscar-se confiando na promessa que ele lhes fez.
Que se alegre o coração dos que buscam o Senhor, e muito mais o dos que já o encontraram. Busquem-no, busquem sua força e sua face: isto é, busquem-no por meio da arca da sua força, na qual ele se manifesta.
- Que a aliança eterna seja o grande motivo da nossa alegria e do nosso louvor (v. 15): “Lembrem-se da sua aliança”. Na passagem paralela se diz que ele sempre se lembrará dela (Salmos 105:8). Visto que Deus nunca a esquecerá, nós também jamais devemos esquecê-la.
Diz-se que a aliança foi ordenada porque Deus nos obrigou a obedecer às suas condições e porque ele tem tanto a autoridade para fazer a promessa quanto a capacidade de cumpri-la. Essa aliança era antiga, mas nunca deveria ser esquecida.
Foi feita com Abraão, Isaque e Jacó, que haviam morrido muito tempo antes (vv. 16-18); ainda assim, continua segura para a descendência espiritual, e suas promessas podem ser invocadas.
- Que as misericórdias que Deus concedeu no passado ao seu povo, aos nossos antepassados e aos que nos precederam na profissão da fé, sejam agora lembradas por nós com gratidão, para seu louvor. Lembremos como Deus protegeu os patriarcas em sua condição instável.
Quando chegaram a Canaã como estrangeiros e nela viveram como peregrinos, quando eram poucos e poderiam facilmente ter sido engolidos, quando estavam sempre em movimento e, por isso, expostos, quando muitos lhes queriam mal e procuravam lhes causar dano, ainda assim ninguém recebeu permissão para lhes fazer mal: nem os cananeus, nem os filisteus, nem os egípcios.
Reis foram repreendidos e atingidos por pragas por causa deles, como Faraó e Abimeleque. Eram os ungidos do Senhor, santificados por sua graça, santificados por sua glória, e haviam recebido a unção do Espírito.
Eram seus profetas, eles próprios instruídos nas coisas de Deus e comissionados para instruir outros (e se diz que profetas são ungidos em 1 Reis 19:16; Isaías 61:1). Portanto, se alguém lhes toca, toca a menina dos olhos de Deus; se lhes faz mal, corre perigo, vv. 19-22.
Que a grande salvação do Senhor seja especialmente o tema dos nossos louvores (v. 23): “Anunciem dia após dia a sua salvação”, isto é, segundo o bispo Patrick, a salvação que ele prometeu por meio de Cristo. Temos motivo para celebrá-la dia após dia, pois recebemos diariamente seus benefícios, e esse é um tema que jamais se esgota.
Que Deus seja louvado pela participação devida e constante nas ordenanças que ele instituiu: “Tragam uma oferta”, naquela época o fruto da terra, agora o fruto dos lábios e do coração (Hebreus 13:15), e o adorem na beleza da santidade, nos lugares santos e de modo santo, v. 29.
A santidade é a beleza do Senhor, a beleza de todas as almas santificadas e de todas as práticas religiosas.
- Que a monarquia universal de Deus seja motivo de temor e alegria para todos os povos. Reverenciemo-la: “Tema diante dele toda a terra”.
E alegremo-nos nela: Que os céus estejam alegres e se regozijem, porque o Senhor reina e, por sua providência, estabelece o mundo de modo que, embora ele se mova, não pode ser removido, nem se podem frustrar as medidas que a Sabedoria Infinita tomou para governá-lo, v. 30, 31.
Que a perspectiva do juízo futuro nos inspire um prazer reverente: que a terra e o mar, os campos e os bosques, embora no grande dia do Senhor todos venham a ser consumidos, ainda assim se alegrem porque ele virá, já vem, para julgar a terra, v. 32, 33.
Em meio aos nossos louvores, não devemos nos esquecer de orar pelo socorro e alívio dos santos e servos de Deus que estão em aflição (v. 35): “Salva-nos, reúne-nos, livra-nos dos gentios”, isto é, aqueles de nós que estão dispersos e oprimidos.
Quando nos alegramos com os favores que Deus nos concede, devemos nos lembrar de nossos irmãos aflitos e orar pela salvação e libertação deles como se fossem as nossas. Somos membros uns dos outros; portanto, quando queremos dizer “Senhor, salva-os”, não é impróprio dizer “Senhor, salva-nos”.
Por fim, façamos de Deus o Alfa e o Ômega dos nossos louvores. Davi começa com “Deem graças ao Senhor” (v. 8) e conclui com “Bendito seja o Senhor” (v. 36).
Na passagem de onde foi tirada essa doxologia (Salmos 106:48), acrescenta-se que todo o povo diga amém, aleluia; aqui vemos que fizeram conforme essa orientação: “Todo o povo disse: Amém, e louvou o Senhor”.
Quando os levitas terminaram esse salmo, ou oração e louvor, então, e só então, o povo presente manifestou seu consentimento e sua concordância ao dizer “Amém”; e assim louvaram ao Senhor, sem dúvida profundamente tocados por essa forma de devoção recém-instituída, até então praticada apenas nas escolas dos profetas (1 Samuel 10:5).
E, se essa forma de louvar a Deus agrada mais ao Senhor do que um boi ou novilho com chifres e cascos, os humildes verão isso e se alegrarão (Salmos 69:31, 32).
Versículos 37 a 43
O Serviço da Arca. (a.C. 1045.)
O culto a Deus não deve ser apenas a atividade de um dia solene de vez em quando, introduzida para abrilhantar um triunfo; mas deve ser a atividade de todos os dias. Por isso Davi o estabelece aqui como prática constante e lhe dá uma ordem que obrigou os oficiantes a observar em seus respectivos postos.
No tabernáculo de Moisés e, depois, no templo de Salomão, a arca e o altar ficavam juntos; mas, desde o tempo de Eli, haviam sido separados e assim continuaram até a construção do templo.
Não consigo imaginar por que Davi, que conhecia a lei e era zeloso por ela, não levou a arca a Gibeão, onde estavam o tabernáculo e o altar, ou não os levou ao monte Sião, onde estava a arca.
Talvez as cortinas e os tecidos do tabernáculo de Moisés estivessem tão gastos pelo tempo e pelas intempéries que não servissem para ser transportados nem para abrigar a arca; ainda assim, ele não quis fazer tudo novo, mas apenas uma tenda para a arca, pois estava próximo o tempo de construir o templo.
Qualquer que fosse a razão, durante todo o reinado de Davi eles permaneceram separados; ele, porém, cuidou para que nenhum dos dois fosse negligenciado.
- Em Jerusalém, onde estava a arca, Asafe e seus irmãos foram designados para servir continuamente diante dela com cânticos de louvor, conforme exigia a tarefa de cada dia, v. 37. Ali não se ofereciam sacrifícios nem se queimava incenso, pois os altares não estavam ali.
Mas as orações de Davi eram dirigidas como incenso, e o levantar de suas mãos, como o sacrifício da tarde (Salmos 141:2). Tão cedo o culto espiritual tomou o lugar do cerimonial.
- Contudo, o culto cerimonial, por ter sido instituído por Deus, de modo algum podia ser omitido; por isso, em Gibeão ficavam os altares junto dos quais serviam os sacerdotes, pois seu trabalho era sacrificar e queimar incenso. Faziam isso continuamente, de manhã e à tarde, conforme a lei de Moisés, v. 39, 40.
Essas práticas deviam ser mantidas porque, embora por natureza fossem inferiores aos serviços morais de oração e louvor, ainda assim, como figuras da mediação de Cristo, recebiam grande honra, e sua observância era de grande importância.
Ali Zadoque servia, presidindo ao serviço do altar; do mesmo modo, ao que parece, Abiatar se estabeleceu em Jerusalém para cuidar da arca, pois tinha o peitoral do juízo, que precisava ser consultado diante dela. Por isso lemos que, no tempo de Davi, tanto Zadoque quanto Abiatar eram sacerdotes (2 Samuel 8:17; 20:25), um onde estava o altar, o outro onde estava a arca.
Em Gibeão, onde estavam os altares, Davi também designou cantores para dar graças ao Senhor, e o refrão de todos os seus cânticos devia ser: pois sua misericórdia dura para sempre, v. 41. Faziam isso com instrumentos musicais de Deus, instrumentos designados e reservados para esse serviço, não os que usavam em outras ocasiões.
Há uma grande diferença entre a alegria comum e a alegria santa; os limites e as distâncias entre elas devem ser cuidadosamente observados e mantidos.
Estando as coisas assim organizadas e os assuntos da religião encaminhados de maneira feliz, (1.) o povo ficou satisfeito e voltou para casa contente. (2.) Davi voltou para abençoar sua casa, decidido a continuar mantendo o culto doméstico, que o culto público não deve substituir.