1 Crônicas 15
Argumento
Trazer a arca para a cidade de Davi era uma obra muito boa; decidiu-se fazê-lo (1 Crônicas 13:4) e tentou-se realizá-lo, mas não se concluiu; a arca ficou pelo caminho, na casa de Obede-Edom. Agora este capítulo relata a conclusão dessa boa obra:
I. Como foi realizada de modo mais regular que antes:
O preparo de um lugar para a arca, v. 1.
A ordem dada aos sacerdotes para transportá-la, vv. 2-15.
A designação das funções dos levitas no acompanhamento da arca, vv. 16-24.
II. Como foi realizada com mais êxito que antes, v. 25:
Os levitas não cometeram erro no trabalho, v. 26.
Davi e o povo não sofreram abatimento em sua alegria, v. 27, 28.
Quanto ao desprezo de Mical por Davi, isso não teve importância, v. 29.
Versículos 1 a 24
A Transferência da Arca. (a.C. 1047.)
Fazem-se aqui os preparativos para trazer a arca da casa de Obede-Edom para a cidade de Davi. Reconhece-se que, na tentativa anterior, embora fosse uma obra muito boa e nela tivessem buscado a Deus, ainda assim não o buscaram segundo a ordem devida, v. 13. “Não realizamos nosso trabalho com a devida atenção; e por isso nos saímos tão mal.”
Repare: não basta que façamos o que é bom, mas devemos fazê-lo bem; não basta que busquemos a Deus numa ordenança devida, mas devemos buscá-lo na ordem devida. Repare também: quando sofremos por nossas irregularidades, devemos aprender com isso a agir de modo mais regular; assim atendemos ao propósito da correção. Vejamos como o assunto foi corrigido:
- Davi preparou agora um lugar para receber a arca antes de trazê-la para junto de si; assim buscou a Deus na ordem devida. Não teve tempo de construir uma casa, mas armou uma tenda para ela (v. 1), provavelmente segundo o modelo mostrado a Moisés no monte ou tão próximo dele quanto possível, com cortinas e tábuas.
Observe: quando construiu casas para si na cidade de Davi, preparou um lugar para a arca. Repare: onde quer que construamos para nós mesmos, devemos nos certificar de reservar espaço para a arca de Deus, para uma igreja dentro de casa.
- Davi ordenou agora que os levitas ou sacerdotes carregassem a arca sobre os ombros. Lembrou-se então do que sem dúvida já sabia: ninguém, exceto os levitas, devia carregar a arca, v. 2. Os coatitas a carregavam nas marchas comuns e, por isso, não receberam carros, pois sua tarefa era levá-la sobre os ombros, Números 7:9.
Mas, em ocasiões extraordinárias, como quando atravessaram o Jordão e rodearam Jericó, os sacerdotes a carregavam. Essa regra era expressa, e ainda assim o próprio Davi a esqueceu e colocou a arca sobre um carro.
Repare: mesmo aqueles que conhecem muito bem a palavra de Deus ainda assim nem sempre a têm tão pronta na memória quanto seria desejável quando precisam usá-la. Homens sábios e bons podem cometer um descuido que corrigirão assim que o perceberem.
Davi não tentou justificar o que fora feito de errado nem lançar a culpa sobre outros, mas se reconheceu culpado, com os demais, por não buscar a Deus na ordem devida. E agora cuidou não só de convocar os levitas para a solenidade, como fez com todo o Israel (v. 3) e já fizera antes (1 Crônicas 13:2), mas de garantir que se reunissem (v. 4), especialmente os filhos de Arão, v. 11.
A eles deu a solene incumbência (v. 12): vocês são os chefes das famílias dos levitas; portanto, tragam vocês a arca do Senhor. Espera-se que os elevados acima dos outros em dignidade precedam os demais no dever.
“Vocês são os chefes e, portanto, espera-se mais de vocês do que dos demais, tanto no serviço prestado por vocês mesmos quanto na influência exercida sobre os outros.”
“Vocês não o fizeram de início: nem cumpriram seu dever nem cuidaram de nos instruir, e sofremos por isso: O Senhor abriu uma brecha contra nós; todos sofremos por sua negligência; isso aconteceu por causa de vocês (veja Malaquias 1:9): portanto, santifiquem-se e cuidem de seu trabalho.”
Quando os que sofreram por agir mal assim aprendem a agir melhor, a correção foi bem aplicada.
- Os levitas e sacerdotes se santificaram (v. 14) e ficaram prontos para carregar a arca sobre os ombros, conforme a lei, v. 15. Repare: muitos que são bastante negligentes em seu dever, se ao menos fossem fielmente advertidos disso, se corrigiriam e agiriam melhor.
A brecha aberta contra Uzá levou os sacerdotes a santificar-se com mais cuidado, isto é, a purificar-se de toda impureza cerimonial e preparar-se para o serviço solene de Deus, de modo a inspirar reverência ao povo. Alguns são feitos exemplo para que outros se tornem exemplares e muito cautelosos.
- Foram designados oficiais para ficarem prontos a dar boas-vindas à arca com todas as expressões possíveis de alegria, v. 16. Davi ordenou aos chefes dos levitas que indicassem aqueles que sabiam ser hábeis nesse serviço. Hemã, Asafe e Etã foram nomeados pela primeira vez, v. 17.
Eles se encarregaram de tocar címbalos (v. 19), outros, saltérios (v. 20), e outros, harpas, na Seminite, ou oitava, oito notas acima ou abaixo das demais, conforme as regras do concerto, v. 21. Alguns sacerdotes tocavam trombeta (v. 24), como era costume na remoção da arca (Números 10:8) e nas festas solenes, Salmos 81:3.
Um homem foi designado para o canto (v. 22), pois era hábil nisso: sabia cantar bem e instruir outros. Repare: assim como cada um recebeu o dom, assim deve empregá-lo no serviço, 1 Pedro 4:10. E os que se destacam em algum dom devem não só empregá-lo por si mesmos para o bem comum, mas também ensinar outros, sem relutar em torná-los tão sábios quanto eles próprios.
Esse modo de louvar a Deus com instrumentos musicais não fora usado até então. Mas Davi, por ser profeta, o instituiu por orientação divina e o acrescentou às outras “ordenanças carnais” daquela dispensação, como as chama o apóstolo em Hebreus 9:10. O Novo Testamento mantém o canto de salmos, mas não instituiu música instrumental para a igreja.
Alguns foram designados porteiros (v. 18), outros, guardas da porta da arca (v. 23, 24); um destes era Obede-Edom, que sem dúvida considerou o posto uma honra e o aceitou como recompensa pela hospedagem que dera à arca. Por três meses fora o responsável por abrigá-la e, de fato, o dono da casa onde ela ficava.
Mas, quando já não pôde continuar nessa função, tamanho era seu afeto pela arca que se alegrou em ser guarda de sua porta.
Versículos 25 a 29
Estando tudo preparado para transportar a arca à cidade de Davi e recebê-la ali, temos aqui um relato da solenidade desse transporte desde a casa de Obede-Edom.
I. Deus ajudou os levitas que a carregavam. A arca não era carga tão pesada que seus portadores precisassem de alguma ajuda extraordinária. Contudo:
É bom reparar na ajuda da providência divina até nas coisas ao alcance de nossas forças naturais: se Deus não nos ajudasse, não poderíamos dar um passo.
Em todos os nossos exercícios religiosos, devemos receber ajuda especialmente do céu. Veja Atos 26:22. Toda a nossa capacidade para os deveres santos vem de Deus.
Os levitas, lembrando-se da brecha aberta contra Uzá, provavelmente estavam prestes a tremer ao erguer a arca; mas Deus os ajudou, isto é, animou-os a fazê-lo, acalmou seus temores e fortaleceu sua fé.
Deus os ajudou a fazê-lo com decoro e competência, sem cometer nenhum erro. Se cumprimos algum dever religioso sem que se abra uma brecha e saímos com vida, devemos reconhecer que é Deus quem nos ajuda; pois, se fôssemos deixados por nossa conta, cometeríamos algum erro fatal.
Os ministros de Deus que carregam os utensílios do Senhor precisam especialmente da ajuda divina em seu serviço, para que Deus seja glorificado neles e sua igreja seja edificada. E, se Deus ajuda os levitas, o povo se beneficia disso.
II. Quando experimentaram os sinais da presença de Deus com eles, ofereceram-lhe sacrifícios de louvor, v. 26. Deus também os ajudou a fazer isso. Ofereceram esses novilhos e carneiros talvez tanto para expiar o erro anterior, a fim de que agora não fosse lembrado contra eles, quanto para reconhecer a ajuda recém-recebida.
III. Houve grandes manifestações de alegria: tocou-se a música sagrada, Davi dançou, os cantores cantaram e o povo comum gritou, v. 27, 28. Já lemos isso em 2 Samuel 6:14, 15. Aprendamos daqui:
Servimos a um bom senhor, que se agrada de ter seus servos cantando enquanto trabalham.
As épocas de reforma pública são, e devem ser, épocas de alegria pública. Os que não se alegram com a arca não são dignos dela.
Não é demérito nem para os maiores homens mostrar zelo nos atos de devoção. Mical de fato desprezou Davi (v. 29); mas seu desprezo não o tornou de modo algum desprezível; ele próprio não se importou com isso, e nenhum homem sábio e bom o julgou pior por esse motivo (e por que desejaríamos a estima de outros além desses?).