1 Coríntios 4
Argumento
Neste capítulo, o apóstolo, I. Orienta-os sobre como devem considerar a ele e aos seus cooperadores no ministério e, nisso, ao menos tacitamente, censura a conduta indigna deles para com ele, vv. 1-6.
II. Adverte-os contra o orgulho e a exaltação própria, e indica as muitas tentações que tinham para se julgarem importantes demais e desprezarem a ele e aos outros apóstolos, por causa da grande diferença entre suas circunstâncias e condições, vv. 7-13.
III. Reivindica que o considerem como pai deles em Cristo, vv. 14-16.
IV. Conta que lhes enviara Timóteo e que pretendia ir até eles em breve, apesar de alguns entre eles terem se agradado e se ensoberbecido com a expectativa inteiramente contrária, v. 17 até o fim.
Versículos 1 a 5
A Mordomia dos Apóstolos. (d.C. 57.)
Aqui, I. O apóstolo reivindica o respeito que lhe é devido por seu caráter e ofício, quanto aos quais muitos entre eles haviam, ao menos, falhado muito: “Que o homem nos considere assim: como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (v. 1), embora talvez outros os tivessem valorizado demais, fazendo dele o cabeça de um partido e professando ser seus discípulos.
Em nossa opinião acerca dos ministros, assim como em todas as outras coisas, devemos ter cuidado para evitar os extremos.
Os próprios apóstolos: 1. Não deveriam ser supervalorizados, pois eram ministros, não mestres; despenseiros, não senhores. Eram servos de Cristo, e nada mais, embora fossem servos da mais alta posição, encarregados de cuidar da sua casa, providenciar alimento para os demais e designar e dirigir o trabalho deles.
Repare: é enorme abuso do poder deles, e muito condenável nos ministros comuns, dominar os conservos e reivindicar autoridade sobre a fé ou a conduta deles. Pois até os apóstolos eram apenas servos de Cristo, empregados em sua obra e enviados em sua missão, além de despenseiros dos mistérios de Deus, isto é, verdades que haviam ficado ocultas do mundo em eras e gerações passadas.
Não tinham autoridade para propagar as próprias fantasias, mas para difundir a fé cristã. 2. Os apóstolos não deveriam ser desvalorizados, pois, embora fossem ministros, eram ministros de Cristo. O caráter e a dignidade do seu mestre lhes conferiam honra.
Embora fossem apenas despenseiros, não administravam as coisas comuns do mundo, mas os mistérios divinos. Tinham uma grande responsabilidade e, por isso, um ofício honroso. Eram despenseiros da casa de Deus, altos despenseiros em seu reino de graça. Não se apresentavam como mestres, mas mereciam respeito e estima nesse serviço honroso.
II. Sobretudo quando cumpriam nele o seu dever e se mostravam fiéis: “Requer-se dos despenseiros que cada um seja achado fiel” (v. 2), digno de confiança. Os despenseiros da família de Cristo devem designar o que ele designou. Não devem pôr os seus conservos a trabalhar para si mesmos.
Não devem exigir deles coisa alguma sem autorização do seu Mestre. Não devem alimentá-los com a palha das próprias invenções, em vez do alimento saudável da doutrina e da verdade cristãs. Devem ensinar o que ele ordenou, e não as doutrinas e os mandamentos dos homens. Devem ser leais aos interesses do seu Senhor e olhar pela honra dele.
Repare: os ministros de Cristo devem empenhar-se de coração e continuamente em se mostrarem dignos de confiança. Quando têm o testemunho de uma boa consciência e a aprovação do seu Mestre, devem desprezar as opiniões e censuras dos seus conservos: “Mas, para mim, é coisa de muito pouca importância ser julgado por vós ou por juízo humano”, diz o apóstolo (v. 3).
De fato, a reputação e a estima entre os homens são um bom passo para ser útil no ministério, e toda a razão de Paulo sobre esse assunto mostra que ele tinha justa preocupação com a própria reputação. Mas quem fizesse do agrado dos homens o seu principal empenho dificilmente se mostraria servo fiel de Cristo (Gálatas 1:10).
Quem quiser ser fiel a Cristo deve desprezar as censuras dos homens por causa dele. Deve considerar coisa muito pequena — se o seu Senhor o aprova — o juízo que os homens fazem dele. Podem pensar muito pouco dele ou julgá-lo com severidade enquanto cumpre o seu dever, mas não é pelo juízo deles que ele deve permanecer de pé ou cair.
E é uma felicidade para os ministros fiéis terem um juiz mais justo e benevolente que os seus conservos: alguém que conhece as imperfeições deles e se compadece delas, embora não tenha nenhuma própria. É melhor cair nas mãos de Deus do que nas mãos dos homens (2 Samuel 24:14).
Os melhores homens são muito propensos a julgar precipitadamente, com severidade e injustiça; mas o juízo de Deus é sempre conforme à verdade. É consolador saber que os homens não serão os nossos juízes finais.
Ou melhor, não devemos julgar assim nem a nós mesmos: “Sim, e ainda, não julgo a mim mesmo. Pois, embora nada saiba contra mim, nem possa acusar-me de infidelidade, nem por isso estou justificado; isso não me livra da acusação. Quem me julga é o Senhor. É o juízo dele que deve decidir o meu caso. Devo aceitar a sentença dele. Sou o que ele encontrar e julgar que sou.”
Repare: julgar bem a nós mesmos e justificar-nos não provará que estamos seguros e felizes. Nada fará isso senão a aceitação e a aprovação do nosso soberano Juiz. “Não é aprovado quem elogia a si mesmo, mas aquele a quem o Senhor elogia” (2 Coríntios 10:18).
III. O apóstolo aproveita a ocasião para advertir os coríntios contra a censura precipitada: o julgamento apressado e severo dos outros. “Portanto, não julguem nada antes do tempo, até que venha o Senhor” (v. 5). É julgar fora de hora, sem critério.
Ele não está falando do julgamento feito por pessoas em posição de autoridade, dentro dos limites do seu ofício, nem do julgamento particular de fatos notórios. Fala de julgar o estado futuro das pessoas, as causas secretas e os princípios das ações delas, ou fatos que sejam duvidosos em si mesmos.
Julgar nesses casos e dar uma sentença definitiva é tomar o lugar de Deus e reivindicar a prerrogativa dele.
Repare: quão ousado é o pecador que censura os outros de modo apressado e severo! Quão inoportunas e arrogantes são as suas censuras! Mas há alguém que julgará tanto o censor quanto aqueles que ele censura, sem preconceito, paixão ou parcialidade.
Virá o tempo em que os homens não poderão deixar de julgar corretamente a si mesmos e aos outros, seguindo o juízo do Senhor. Isso deve torná-los cautelosos agora ao julgar os outros e cuidadosos ao julgar a si mesmos.
Virá o tempo em que o Senhor trará à luz as coisas ocultas das trevas e manifestará os conselhos dos corações: as obras das trevas, agora praticadas em segredo, e todas as inclinações, os propósitos e as intenções secretos do homem interior.
Repare: vem o dia que dissipará as trevas e exporá o fundo do abismo; trará à plena luz os pecados secretos dos homens e revelará os segredos dos seus corações: “O dia o declarará.” O Juiz trará essas coisas à luz.
O Senhor Jesus Cristo manifestará os conselhos do coração, de todos os corações. Repare: o Senhor Jesus Cristo precisa conhecer os conselhos do coração; caso contrário, não poderia manifestá-los.
Essa é uma prerrogativa divina (Jeremias 17:10) e, no entanto, é algo que o nosso Salvador reivindica para si de maneira muito especial (Apocalipse 2:23): “Todas as igrejas saberão que eu sou AQUELE que sonda os rins e os corações, e darei a cada um de vocês segundo as suas obras.”
Repare: devemos ter muito cuidado ao censurar os outros, pois lidamos com um Juiz de quem não podemos nos esconder. Os outros não estão inteiramente expostos ao nosso olhar, mas nós estamos inteiramente expostos ao dele; e, quando ele vier julgar, cada pessoa receberá louvor de Deus. Cada pessoa, isto é, cada uma que estiver qualificada para isso, cada uma que tiver feito o bem.
Embora nenhum servo de Deus possa merecer coisa alguma dele, embora haja muito que censurar até nos seus melhores serviços, ainda assim a fidelidade deles será elogiada e coroada por ele. Se forem condenados, desacreditados ou aviltados pelos seus conservos, ele afastará todas essas censuras e descréditos injustos e mostrará a verdadeira beleza deles.
Repare: os cristãos podem suportar com paciência as censuras injustas, sabendo que esse dia virá, especialmente quando a consciência deles dá testemunho da sua integridade. Mas como devem temer carregar agora de descréditos aqueles a quem o Juiz comum elogiará depois!
IV. Aqui o apóstolo nos revela por que usou o próprio nome e o de Apolo nesse discurso. Fez isso figuradamente e por causa deles. Preferiu mencionar o próprio nome e o de um fiel cooperador, em vez dos nomes de alguns líderes de facções entre eles, para evitar o que os provocaria e, assim, obter maior atenção para o seu conselho.
Repare: os ministros devem agir com prudência nos conselhos e nas advertências, mas sobretudo nas censuras, para não perderem o seu objetivo. O conselho que o apóstolo queria inculcar por esse meio era que aprendessem a não pensar dos homens além do que está escrito — além do que ele vinha escrevendo —, nem se ensoberbecerem por um contra outro (v. 6).
Os apóstolos não deveriam ser considerados nada além de plantadores ou regadores na lavoura de Deus, mestres de obras no edifício dele, despenseiros dos seus mistérios e servos de Cristo. Os ministros comuns não podem exercer esses papéis no mesmo sentido que os apóstolos.
Repare: devemos ter muito cuidado para não transferir ao servo a honra e a autoridade do Mestre. Não devemos chamar ninguém de Mestre na terra; um só é o nosso Mestre, isto é, Cristo (Mateus 23:8, 10). Não devemos pensar deles além do que está escrito.
Repare: a palavra de Deus é a melhor regra para julgar os homens. Além disso, julgar corretamente os homens, sem estimá-los acima do que convém, é uma maneira de evitar desavenças e disputas nas igrejas. O orgulho costuma estar na raiz dessas desavenças.
A presunção contribui muito para a estima exagerada que temos dos nossos mestres, assim como de nós mesmos. O elogio que fazemos do nosso próprio gosto e juízo costuma acompanhar os aplausos desmedidos que damos a eles e sempre acompanha a adesão facciosa a um mestre contra outros que podem ser igualmente fiéis e bem qualificados.
Mas pensar modestamente de nós mesmos, e dos nossos mestres não além do que está escrito, é o meio mais eficaz de evitar desavenças e conflitos, divisões e partidos na igreja. Não nos ensoberbeceremos por um contra outro se nos lembrarmos de que todos são instrumentos empregados por Deus em sua lavoura e em seu edifício, e dotados por ele de talentos e qualificações diversos.
Versículos 7 a 13
Advertência contra a Censura; Condição Aflita dos Apóstolos. (d.C. 57.)
Aqui o apóstolo aproveita a observação anterior para adverti-los contra o orgulho e a presunção, e expõe as tentações que os coríntios tinham para desprezá-lo por causa da diferença entre as circunstâncias deles.
I. Ele os adverte contra o orgulho e a presunção com esta consideração: toda distinção feita entre eles se devia a Deus. “Quem é que faz você sobressair? E o que você tem que não tenha recebido?” (v. 7). Aqui o apóstolo dirige seu discurso aos ministros que se colocavam à frente dessas facções e animavam e apoiavam demais as disputas do povo.
Que motivo tinham para se gloriar, se todos os seus dons particulares vinham de Deus? Eles os haviam recebido e não podiam gloriar-se deles como se fossem seus sem prejudicar a Deus. Quando pensavam neles para alimentar a própria vaidade, deveriam tê-los considerado tantas dívidas e obrigações para com a bondade e a graça divinas.
Mas isso pode ser tomado como máxima geral: não temos motivo para nos orgulhar das nossas conquistas, posses ou realizações; tudo o que temos, somos ou fazemos de bom se deve à graça livre e abundante de Deus. Toda jactância fica para sempre excluída.
Nada temos que possamos chamar propriamente de nosso; tudo recebemos de Deus. Portanto, é tolice nossa e uma afronta a ele nos gloriarmos disso. Quem recebe tudo não deve se orgulhar de coisa alguma (Salmos 115:1).
Mendigos e dependentes podem gloriar-se no sustento que recebem; mas gloriar-se em si mesmos é orgulhar-se, ao mesmo tempo, da própria insignificância, impotência e carência. Repare: a devida atenção às nossas obrigações para com a graça divina nos curaria da arrogância e da presunção.
II. Ele insiste no dever da humildade com uma ironia muito mordaz, ou ao menos os censura pelo orgulho e pela presunção: “Vós estais fartos, vós sois ricos, vós reinastes como reis sem nós.” Vocês não têm apenas o suficiente, mas abundância de dons espirituais; ou melhor, podem fazer deles motivo de glória sem nós, isto é, na minha ausência e sem precisar de mim.
Há uma gradação muito elegante, do suficiente à riqueza e daí à realeza, para indicar quanto os coríntios se exaltavam com a abundância da sua sabedoria e dos seus dons espirituais. Esse estado de espírito prevalecia entre eles enquanto o apóstolo estava longe e os fazia esquecer quanto ele participava de tudo.
Veja como o orgulho é propenso a exagerar os benefícios e ignorar o benfeitor, a inchar-se com as posses e esquecer de quem elas vêm; ou melhor, tende a vê-las por uma lente de aumento: “Vocês reinaram como reis”, diz o apóstolo, “isto é, na própria presunção. E eu desejaria a Deus que reinassem, para que nós também reinássemos com vocês.”
“Quem dera vocês tivessem sobre si tanta glória verdadeira de uma igreja cristã quanto arrogam a si mesmos. Então eu teria parte na honra; reinaria com vocês. Vocês não me ignorariam como fazem agora, mas me estimariam e reconheceriam como ministro de Cristo e instrumento muito útil entre vocês.”
Repare: em geral, não se conhecem melhor aqueles que têm a melhor opinião de si mesmos e a mais alta estima própria. Os coríntios poderiam ter reinado, e o apóstolo com eles, se não tivessem se inflado com uma realeza imaginária.
Repare: o orgulho prejudica muito o nosso progresso. Quem se considera no auge deixa de se tornar mais sábio ou melhor: não se julga apenas satisfeito, mas rico e, ou melhor, rei.
III. Ele passa a expor as próprias circunstâncias e as dos outros apóstolos, comparando-as com as dos coríntios. 1. Expõe a situação dos apóstolos: “Pois penso que Deus teve por bem colocar-nos, a nós, apóstolos, por último, como destinados à morte. Porque nos tornamos espetáculo para o mundo, para os anjos e para os homens” (v. 9).
Paulo e os demais apóstolos estavam expostos a grandes agruras. Nunca houve homens neste mundo tão perseguidos e atormentados. Levavam a vida nas mãos: “Deus nos colocou, a nós, apóstolos, por último, como destinados à morte” (v. 9).
Há aqui uma alusão a alguns dos sangrentos espetáculos nos anfiteatros romanos. Neles, homens eram expostos para lutar com feras ou se retalhar uns aos outros, divertindo a multidão. O vencedor não escapava com vida mesmo se destruísse o adversário; era apenas reservado para outro combate e, no fim, devia ser devorado ou retalhado.
Esses infelizes criminosos — pois em geral eram condenados os que assim se expunham — podiam muito bem ser chamados epithanatioi, pessoas devotadas ou destinadas à morte. Diz-se que eram colocados por último porque os gladiadores da tarde, que combatiam na segunda parte do dia, ficavam mais expostos, obrigados a lutar nus.
Assim, como diz Sêneca (carta 7), era uma verdadeira carnificina; em comparação com esses, os que eram expostos às feras pela manhã recebiam tratamento misericordioso. O sentido geral é que os apóstolos ficavam expostos continuamente ao perigo de morte, e às piores formas de morte, no fiel cumprimento do seu ofício.
Deus os havia colocado em evidência, à vista de todos, assim como os imperadores romanos levavam os combatentes à arena, o lugar do espetáculo, embora com objetivos diferentes. Os imperadores faziam isso para agradar à multidão, satisfazer a própria vaidade e, às vezes, atender a um motivo muito pior.
Os apóstolos eram expostos para manifestar o poder da graça divina, confirmar a verdade da sua missão e doutrina e propagar a religião no mundo. Esses eram objetivos dignos de Deus: propósitos nobres, capazes de animá-los para o combate.
Mas tinham dificuldades semelhantes a enfrentar e estavam, de certo modo, tão expostos quanto aqueles miseráveis criminosos romanos. Repare: o ofício de apóstolo era honroso, assim como árduo e perigoso: “Pois nos tornamos espetáculo para o mundo, para os anjos e para os homens” (v. 9). Um espetáculo. Somos levados ao teatro e postos diante dos olhos do mundo.
Anjos e homens testemunham as nossas perseguições, sofrimentos, paciência e grandeza de ânimo. Todos veem que sofremos por nossa fidelidade a Cristo e como sofremos: quão grandes e iminentes são os perigos, quão corajosamente os enfrentamos, quão agudos são os sofrimentos e quão pacientemente os suportamos pelo poder da graça divina e dos nossos princípios cristãos.
O nosso trabalho é árduo, mas honroso; perigoso, mas glorioso. Deus receberá honra por nosso intermédio, e a religião receberá crédito por nosso intermédio. O mundo não pode deixar de ver e admirar a nossa resolução destemida, a paciência invencível e a constância.
Com quanta serenidade podiam expor-se tanto aos sofrimentos quanto ao desprezo pela honra do seu Mestre! Repare: os ministros e discípulos fiéis de Cristo devem suportar com serenidade qualquer coisa por causa dele e da sua honra.
- Ele compara a própria situação à dos coríntios: “Nós somos loucos por causa de Cristo, mas vós sois sábios em Cristo; nós somos fracos, mas vós sois fortes; vós sois honrados, mas nós somos desprezados” (v. 10). Somos loucos por causa de Cristo: assim nos considera o juízo comum, e nos damos por satisfeitos com isso.
Podemos passar por loucos aos olhos do mundo e ser desprezados como tais, desde que assim se assegurem e manifestem a sabedoria de Deus e a honra do evangelho. Repare: os ministros fiéis podem suportar o desprezo, desde que por esse meio se manifestem a sabedoria de Deus e o poder da sua graça.
“Mas vocês são sábios em Cristo.” Vocês têm fama de cristãos sábios e instruídos e não se estimam pouco por isso. Nós somos desonrados por expor as verdades simples do evangelho de modo igualmente simples; vocês têm reputação por sua eloquência e sabedoria humana, que fazem muitos considerá-los sábios em Cristo.
“Nós somos fracos, mas vocês são fortes.” Sofremos por causa de Cristo — é isso que ser fraco significa claramente (2 Coríntios 12:10) —, enquanto vocês vivem em circunstâncias tranquilas e prósperas.
Repare: nem todos os cristãos ficam igualmente expostos. Alguns enfrentam agruras maiores que outros, embora estejam na mesma luta. Num exército, os porta-estandartes são os alvos mais atingidos. Assim também, em tempos de perseguição, os ministros costumam ser os primeiros e os maiores sofredores.
Ou então: “O mundo nos considera pessoas de capacidades apenas modestas, meros principiantes no cristianismo; mas vocês se consideram, e são considerados pelos outros, homens de crescimento muito mais avançado e força consolidada.” Repare: nem sempre são os mais desenvolvidos no cristianismo os que pensam assim de si mesmos ou são considerados assim pelos outros.
É muito fácil e comum o amor-próprio cometer esse engano. Os coríntios podiam pensar de si mesmos, e ser estimados pelos outros, como mais sábios e fortes em Cristo que os próprios apóstolos. Mas que engano grosseiro!
IV. Ele entra em alguns detalhes dos sofrimentos deles: “Até esta presente hora”: isto é, depois de todo o serviço que temos prestado entre vocês e nas outras igrejas, “temos fome e sede, estamos nus, somos esbofeteados e não temos morada certa; trabalhamos, labutando com as nossas próprias mãos” (v. 11, 12).
Ou melhor, “somos considerados a sujeira do mundo e o refugo de todas as coisas” (v. 13). Eram forçados a trabalhar com as próprias mãos para obter sustento. Tinham tantos afazeres, e afazeres tão mais importantes, que não podiam se dedicar o bastante para ganhar uma vida confortável; ficavam expostos à fome, à sede e à nudez, muitas vezes sem comida, bebida e roupa.
Eram levados de um lado a outro do mundo, sem residência fixa, sem morada permanente. Que condição pobre, de fato, para os principais ministros do reino do nosso Salvador: não ter casa nem lar e carecer de alimento e vestuário!
Ainda assim, não eram mais pobres que aquele que não tinha onde reclinar a cabeça (Lucas 9:58). Mas que caridade e devoção gloriosas os sustentavam em todas essas agruras! Quão ardentemente amavam a Deus; quão intensamente ansiavam pela salvação das almas!
A pobreza deles era voluntária e lhes era agradável. Consideravam que tinham ampla compensação por todos os bens exteriores de que careciam, se ao menos pudessem servir a Cristo e salvar almas. Ou melhor: embora fossem considerados a sujeira do mundo e o refugo de todas as coisas.
Eram tratados como homens indignos de viver: perikatharmata. Os críticos consideram razoável pensar que há aqui uma alusão ao costume comum de muitas nações pagãs de oferecer pessoas em sacrifício durante uma peste ou outra calamidade grave semelhante.
Em geral, eram os homens mais vis, pessoas da classe mais baixa e do pior caráter. Assim, nos primeiros séculos, os cristãos eram considerados a causa de todas as calamidades públicas e sacrificados à fúria do povo, se não para aplacar as divindades iradas.
Os apóstolos não recebiam tratamento melhor. Sofriam na pessoa e na reputação, como os homens mais perversos e vis, os mais apropriados para tal sacrifício; ou então como a sujeira do mundo, destinada a ser varrida; ou melhor, como o refugo de todas as coisas, a escória, as raspas de tudo.
Eram o esgoto comum para onde se despejavam todos os descréditos do mundo. Ser o refugo de alguma coisa já é ruim; mas o que significa ser o refugo de todas as coisas! Quanto os apóstolos se pareciam com o seu Mestre e completavam o que faltava às aflições dele, em favor do seu corpo, que é a igreja! (Colossenses 1:24).
Sofriam por ele e segundo o seu exemplo. Assim, ele foi pobre e desprezado em sua vida e ministério. E todo aquele que quiser ser fiel em Cristo Jesus deve preparar-se para a mesma pobreza e o mesmo desprezo.
Repare: pessoas muito queridas de Deus e honradas aos seus olhos podem ser consideradas pelos homens indignas de viver, tratadas com desprezo e escarnecidas como a própria sujeira e o refugo do mundo. Deus não vê como o homem vê (1 Samuel 16:7).
V. Temos aqui a conduta dos apóstolos em meio a tudo isso e a resposta que deram a esse mau tratamento: “Sendo vituperados, abençoamos; sendo perseguidos, suportamos; sendo difamados, suplicamos” (v. 12, 13).
Eles retribuíam os descréditos com bênçãos, as calúnias e difamações mais grosseiras com súplicas e exortações bondosas, e suportavam com paciência as perseguições mais cruéis. Repare: os discípulos de Cristo, sobretudo os seus ministros, devem manter a integridade e conservar a boa consciência diante de toda oposição ou de quaisquer agruras que enfrentem por parte do mundo.
Seja o que for que sofram dos homens, devem seguir o exemplo e cumprir a vontade e os preceitos do seu Senhor. Devem aceitar, com ele e por causa dele, ser desprezados e maltratados.
Versículos 14 a 16
Ternura e Afeto de Paulo. (d.C. 57.)
Aqui Paulo reivindica que o considerem como pai deles. Ele lhes diz, 1. Que não escrevera para seu descrédito, mas para sua advertência; não com fel de inimigo, mas com entranhas de pai (v. 14): “Não escrevo para envergonhá-los, mas, como meus filhos amados, os advirto.” Repare: ao censurar alguém pelo pecado, devemos zelar ternamente pela reputação do pecador, assim como pela sua reforma.
Devemos procurar distinguir as pessoas dos seus pecados e cuidar para não demonstrar ressentimento contra elas, nem expô-las ao desprezo e ao descrédito diante do mundo. Censuras que expõem as pessoas costumam apenas exasperá-las; as advertências dadas com bondade e afeto têm mais chance de reformá-las.
Quando o afeto de um pai se une às advertências de um ministro, podemos esperar que elas ao mesmo tempo comovam e corrijam. Mas açoitar como inimigo ou carrasco provoca e torna a pessoa obstinada. Expô-la à vergonha pública é apenas o caminho para torná-la sem vergonha.
- Ele lhes mostra o fundamento da relação paternal que reivindicava com eles e pela qual os chamava de filhos. Eles podiam ter outros pedagogos ou instrutores, mas ele era o pai deles, pois em Cristo Jesus os havia gerado por meio do evangelho (v. 15). Eles foram feitos cristãos por meio do ministério dele. Ele lançara o fundamento de uma igreja entre eles; os outros só podiam edificar sobre ele.
Quaisquer que fossem os outros mestres deles, ele era o pai espiritual. Foi o primeiro a afastá-los da idolatria pagã e conduzi-los à fé no evangelho e à adoração do Deus verdadeiro e vivo. Foi o instrumento do novo nascimento deles e, por isso, reivindicava a relação de pai e sentia por eles as entranhas de um pai.
Repare: costuma haver, e sempre deve haver, um afeto especial entre os ministros fiéis e aqueles que eles geram em Cristo Jesus por meio do evangelho. Devem amar uns aos outros como pais e filhos.
- Temos aqui o conselho especial que ele lhes dá: “Por isso, rogo-lhes que sejam meus imitadores” (v. 16). Em outro lugar ele explica e limita esse conselho (1 Coríntios 11:1): “Sejam meus imitadores, assim como eu também sou de Cristo. Sigam-me na medida em que sigo a Cristo.”
“Procurem aproximar-se o máximo possível do meu exemplo naquilo em que me esforço para imitar o modelo dele. Sejam meus discípulos somente até onde me mostro ministro fiel e discípulo de Cristo, e não além disso. Não quero que sejam meus discípulos, mas dele.”
“Mas espero ter-me mostrado despenseiro fiel dos mistérios de Cristo e servo fiel do meu mestre Cristo; sigam-me até esse ponto e andem nos meus passos.”
Repare: os ministros devem viver de modo que o seu povo possa tomá-los como exemplo e viver segundo o modelo deles. Devem guiá-los pela vida, assim como pelas palavras, indo adiante no caminho para o céu, em vez de se contentarem em apenas apontá-lo.
Repare: assim como os ministros devem dar o exemplo, os outros devem segui-lo. Devem segui-los na medida em que estiverem convencidos de que eles seguem a Cristo na fé e na prática.
Versículos 17 a 21
Afeto e Autoridade de Paulo. (d.C. 57.)
Aqui, I. Ele lhes conta que enviara Timóteo para fazê-los lembrar dos seus caminhos em Cristo, como ensinava em toda parte, em cada igreja (v. 17): para recordar-lhes os seus caminhos em Cristo e refrescar-lhes a memória acerca da sua pregação e prática, do que ensinava e de como vivia entre eles.
Repare: mesmo os que receberam o melhor ensino são propensos a esquecer e precisam ter a memória refrescada.
A mesma verdade, ensinada de novo, se não trouxer luz nova, pode causar uma impressão nova e mais viva. Ele também os informa de que o seu ensino era o mesmo em toda parte e em cada igreja. Não tinha uma doutrina para um lugar e um povo e outra para os demais. Mantinha-se fiel às instruções recebidas.
O que recebeu do Senhor, isso transmitiu (1 Coríntios 11:23). Essa era a revelação do evangelho, igualmente importante para todos e que não variava de si mesma. Por isso ensinava as mesmas coisas em cada igreja e vivia da mesma maneira em todos os tempos e lugares.
Repare: a verdade de Cristo é uma e invariável. O que um apóstolo ensinava, todos ensinavam. O que um apóstolo ensinava em certo tempo e lugar, ensinava em todos os tempos e lugares. Os cristãos podem se enganar e divergir em suas percepções, mas Cristo e a verdade cristã são os mesmos ontem, hoje e para sempre (Hebreus 13:8).
Para que dessem a Timóteo maior consideração, Paulo apresenta o caráter dele. Timóteo era seu filho amado, seu filho espiritual, assim como os próprios coríntios. Repare: a fraternidade espiritual deve despertar afeto, assim como o parentesco comum e natural. Os filhos de um mesmo pai devem ter um só coração.
Mas Paulo acrescenta: “Ele é fiel no Senhor”, digno de confiança, como alguém que teme ao Senhor. Será fiel no ofício específico que agora recebeu do Senhor e na missão particular que cumpre; vem não apenas da minha parte, mas também da parte de Cristo. Conhece o que ensinei e como tenho me conduzido em todos os lugares e, podem confiar, dará um relato fiel.
Repare: é grande elogio a qualquer ministro ser fiel no Senhor, fiel à própria alma, à luz que recebeu e à incumbência que recebeu de Deus. Isso deve contribuir muito para que os que temem a Deus deem atenção à mensagem dele.
II. Ele repreende a vaidade daqueles que imaginavam que não iria visitá-los, informando-lhes que esse era o seu propósito, embora tivesse enviado Timóteo: “Irei visitá-los em breve”, ainda que alguns fossem tão presunçosos a ponto de pensar que não iria. Mas acrescenta: “se o Senhor quiser”.
Parece que, quanto aos desfechos comuns da vida, os apóstolos não sabiam mais que os outros homens nem eram inspirados a esse respeito. Pois, se o apóstolo conhecesse com certeza a vontade de Deus nesse assunto, não teria se expressado com essa certeza. Mas ele nos dá um bom exemplo.
Repare: todos os nossos propósitos devem ser feitos em dependência da Providência e com espaço para os propósitos de Deus que se sobrepõem. “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto e aquilo” (Tiago 4:15).
III. Ele lhes diz o que ocorreria quando fosse visitá-los: “Conhecerei não a fala dos que estão ensoberbecidos, mas o poder” (v. 19).
Ele submeteria a prova os grandes alegadores entre eles e os conheceria não pela retórica ou filosofia, mas pela autoridade e eficácia do que ensinavam: se podiam confirmá-lo por operações milagrosas e se vinha acompanhado de influências divinas e efeitos salvadores na mente das pessoas.
Pois, acrescenta ele, “o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder”. Não é estabelecido, propagado ou firmado no coração dos homens por raciocínios plausíveis nem discursos floridos, mas pelo poder externo do Espírito Santo nas operações milagrosas do início e pela poderosa influência da verdade divina na mente e na conduta das pessoas.
Repare: em geral, um bom modo de julgar a doutrina de um pregador é ver se os seus efeitos no coração das pessoas são, na verdade, divinos. É mais provável que venha de Deus aquilo que, por sua própria natureza, é mais apropriado e, no desfecho, se verifica que produz maior semelhança com Deus, difundindo piedade e virtude, transformando o coração das pessoas e melhorando a sua conduta.
IV. Ele deixa a escolha com eles: como deveria ir até eles, com vara ou com amor e espírito de mansidão (v. 21); isto é, eles o encontrariam de acordo com a própria conduta.
Se continuassem perversos uns com os outros e com ele, seria necessário ir com vara, isto é, exercer o poder apostólico para castigá-los, fazendo de alguns um exemplo e impondo-lhes doenças, punições físicas ou outras censuras por suas faltas.
Repare: os transgressores obstinados devem ser tratados com severidade. Nas famílias e nas comunidades cristãs, a compaixão e a ternura paternas, o amor e a misericórdia cristãos, às vezes obrigam a usar a vara. Mas isso está longe de ser desejável, se puder ser evitado.
Por isso o apóstolo acrescenta que dependia deles se ele iria com vara ou com uma disposição e um modo bem diferentes: “ou com amor e espírito de mansidão”. Como se dissesse: “Aceitem o aviso, acabem com as suas desavenças anticristãs, corrijam os abusos entre vocês e voltem ao dever; então me encontrarão tão gentil e bondoso quanto puderem desejar.”
“Será contra a minha vontade agir com severidade. Prefiro ir e demonstrar entre vocês a ternura de um pai a afirmar a autoridade dele. Apenas cumpram o dever, e não terão motivo para evitar a minha presença.” Repare: é feliz a disposição de um ministro quando nele predominam o amor e a mansidão, sem que deixe de manter a autoridade que lhe cabe.